Blow Your Mind
2 Tudo o que eu sou!
Acordei assustada. Pelo que me constava, ainda eram 5:30AM e aparentemente haviam galinhas naquela fazenda, porque eu acabar de ser acordada por um galo que cantava, tipo, se esgoelava, como se o mundo fosse acabar em barranco. Deu-se que aconteceu o que eu mais temia: acordei tão assustada que caí da cama, esborrachada no tapete peludo e cor-de-rosa que mamãe colocara no quarto. Este, era exatamente como eu imaginava que era, um borrão de tinta cor-de-rosa, com uma king size coberta de almofadinhas fofas, um closed que mais parecia uma sala (cor-de-rosa) e um banheiro simplesmente enorme, com jacuzzi e torneiras da qual saiam treze tipos de espuma diferentes.
De modo que lá estava eu, atirada no chão, pensando nas minhas opções. Tipo, eu poderia voltar para a cama, mas estava sinceramente com medo de me esborrachar no tapete outra vez. Eu poderia levantar e ir tomar café da manhã, o que me pareceu bem tentador, já que algo no meu estômago rugia por comida, mas estava morrendo de sono. Ou eu poderia ficar por ali mesmo, e dormir no tapete, tamanho era o meu sono.
Já estava decidindo pela terceira opção quando ouvi um movimento no corredor.
- Suze! – gritaram do lado de fora do quarto.
Não vi opção. Levantei do chão, sem nem mesmo abrir os olhos e fui atrás do interruptor de luz. Tateei as paredes até achar a maçaneta da porta. Abri-a. Bati a mão na parede umas três vezes até que, um pouco mais para a esquerda do que eu pensava, achei algum relevo.
- Uau! – exclamei, mas não sabia bem se estava sonhando ou acordada – Esse interruptor é realmente legal. É macio!
Eu sabia que não estava muito bem, já que, em primeiro lugar, eu ainda não conseguia despregar os olhos e, em segundo... EU ESTAVA FALANDO SOZINHA!
- Suze! – exclamou o interruptor...
Foi aí que me liguei. Aquilo que eu estivera apertando, sem conseguir acender a luz, era um nariz: o nariz de Nicholas.
Desgrudei os olhos o mais rápido que consegui, e isso demorou cerca de cinco segundos. Nicholas me olhava com um olhar que dizia claramente "Só não te mato porque estou com sono!".
Devolvi o olhar, igualmente sonolenta.
- Mamãe está chamando — disse ele, numa voz arrastada.
- O que ela quer? — perguntei.
- E eu que sei?! Vá lá ver, ela está chamando você e não eu!
(Nota mental: Nicholas está de muito mal-humor hoje.)
- Onde ela está?
- Por que você faz tantas perguntas? — ele disse apenas e sumiu no corredor, como quem diz "Vire-se".
Saí do quarto e me deparei com, tipo, dezenas de outras portas que depois eu descobriria que eram, em sua maioria, quartos de hóspedes, salas de vídeo e outros apenas cômodos vazios e inúteis. Na noite anterior, aquele corredor não me parecera tão longo. Mas talvez eu não tivesse observado direito, já que me encontrava bêbada de sono. Depois de uma rápida explanação sobre a arquitetura da casa, papai nos fizera ir direto para a cama, dizendo que não queria "filhos zumbis" na primeira manhã de sábado na casa nova, de modo que eu não tivera tempo de explorar mais o prédio.
Passei por várias portas até chegar em uma mais ornamentada, com alguns desenhos em relevo na madeira, a qual imaginei que deveria ser do quarto principal da casa. Bati na madeira três vezes e o som pareceu ecoar no corredor. Então, uma vozinha soou do lado de dentro do cômodo.
- Entre! — dizia a vozinha. Provavelmente pertencia a minha mãe.
Entrei. Tipo, aquilo não parecia ser um quarto, parecia mais um apartamento completo, com direito até a um frigobar no canto e, depois de percorrer algumas estantes com alguns livros, os quais reconheci os títulos "Como educar os Adolescentes" e "Filhos Adolescentes: bênção ou praga?!", como sendo de minha mãe e "Como se tornar um fazendeiro — Passo a passo" e "Cuidando de animais: uma arte!", como sendo de meu pai, avistei uma enorme cama de dossel, com colcha alaranjada e os mesmos tipos de almofadas que mamãe havia posto em minha cama.
Mamãe estava esparramada na cama, acariciando um dos travesseiros com fronha de veludo, olhando abobalhada para o dossel cor-de-abóbora da cama nova. Já papai estava empoleirado em uma poltrona, também em tom alaranjado, nas mãos pendiam páginas desarrumadas do jornal do dia.
- Ah, Suze, sente-se aqui! — mamãe abriu espaço para mim por entre as almofadas da cama.
Quando me sentei, logo percebi que mamãe comprara para ela um colchão d'água, daqueles que você sente que pode vomitar a qualquer momento, de tanto que sacoleja. Parece mesmo com o balanço de uma canoinha no meio do Pacífico.
- O que há? — perguntei, interessada, ainda abobalhada com os exageros de minha mãe. Sério, eu só posso ser adotada!
- As aulas! — mamãe disse apenas. Senti algo revirar incomodamente dentro de mim — Começam nesta segunda-feira. Consegui matricular você e seu irmão em uma ótima escola, ótima mesmo.
Fiz cara de interrogação.
- Bem, é um prédio bem tradicional, outrora um colégio de freiras. — explicou papai de sua poltrona, sem desgrudar os olhos das palavras cruzadas.
Fiz cara de desaprovação.
- Não faça essa cara, Suze! — exclamou mamãe — Tenho certeza de que você vai gostar!
Considerando que mamãe achava que eu ia adorar a decoração do quarto — e eu sinceramente odiara — , já estava sentindo que não seria nada fácil agüentar a escola.
Para resumir, tipo, a maior encheção de saco da história, mamãe me explicou que no colégio não precisaríamos usar uniforme — fato que me agradou bastante — , que matar aulas de mais resultaria em suspensão, que vender e/ou consumir drogas dentro dos perímetros do colégio era proibido, aquela coisa toda. E ela também dera um jeito de eu e Nicholas termos um horário bem parecido, para que não nos sentíssemos deslocados ou algo do tipo — o que achei uma bênção, já que duvidava que fosse achar melhor amigo que meu próprio irmão.
No fim das contas, era só eu botar uma "roupinha decente" e, tipo, vamos nessa!
Domingo. Tem coisa mais chata? Tipo, você fica o dia inteiro boiando, sem nada pra fazer e no fim do dia ainda se sente um caco, como se tivesse trabalhado o dia todo cortando cana. Sério. E o pior disso era que no outro dia era segunda-feira, o pior dia da semana — pior até que o próprio domingo.
No entanto, eu passara o dia todo desfazendo minhas malas e tentando decorar por quais corredores eu devia seguir para encontrar, por exemplo, a cozinha. Aliás, eu conhecera alguém novo: Conchita. Era a nossa faxineira/cozinheira/faz tudo. Ela era uma figura! Devia ter uns sessenta anos. Mas a coroa é ninja, cara! Ela pode aparecer quando você menos espera no lugar menos provável.
- Minha especialidade é fazer de tudo! — dissera ela com seu forte sotaque italiano quando me achou perdida em meio a portas e corredores, tentando achar as escadas principais novamente. Sério, cara, aquilo era realmente enorme!
- Legal. Escuta, Conchita, onde você disse que fica mesmo a cozinha?
- Por aqui!
Consegui gravar que a cozinha era a terceira porta a contar da esquerda depois da tapeçaria verde folha ao lado da estátua do querubim de asas quebradas. Mas, tipo, eu tinha certeza que não conseguiria mais achar a estátua tão cedo. Afora isso, a cozinha era realmente algo que merecia uma descrição detalhada, com seus aparelhos cromados, talheres de prata e balcões com tampo de vidro impecavelmente limpos.
Quando finalmente encontrei as escadas principais, depois de encher a pança com muito sanduíche de presunto e Coca-Cola, Nicholas vinha descendo, escorregando pelo corrimão. Caiu direitinho a minha frente, sem nem mesmo vacilar no equilíbrio, o que era realmente extraordinário para um corrimão tão alto e um cara do tamanho do meu irmão.
- Ta afim de dar uma volta? — perguntou ele.
- Depende — respondi.
- Ah, sei lá, reconhecer o perímetro. Tenho certeza de que papai deve estar em algum lugar por aí!
- Tudo bem — acabei concordando.
Deu-se que não fomos reconhecer perímetro nenhum e sim caímos na piscina, com o calorão que estava fazendo. E, cara, que piscina era aquela! Além de ser enorme, tinha todo tipo de apetrecho em um quartinho ali perto, encostado na parede da casa, do tipo bóias, pé-de-pato e tudo o mais. Muito cool.
- Tudo de bom isso aqui, hein?! — disse Nick, esparramado em uma bóia, flutuando na piscina com um refresco de guarda-chuvinha colorido nas mãos.
Eu, que estava estirada no sol na beira da piscina, apenas concordei com um som incompreensível. Nem estava ligando para o fato de que ficaria mais morena e mais esquisita com minhas madeixas louras, estava apenas curtindo o momento, sentindo a pele quase fritar ao sol.
No fim do dia, fui dormir com as costas toda ardendo, mas muito satisfeita em ter transformado um domingo patético em um dia divertido.
Muito bem. Acho que vou pedir para minha mãe me comprar um berço com cerquinha. Sério. Não sei se vou agüentar acordar todo dia assustada — com a porcaria do galo — e cair da cama esborrachada no tapete.
- Suzannah! — a voz de minha mãe se fez ouvir do outro lado da porta — Acorde, meu bem, primeiro dia de aula!
- Oh, cacetada! — exclamei. Na verdade, eu não disse bem isso, se é que me entende.
Levantei correndo do chão e me esgueirei para dentro do closed. Varri os olhos pelas peças penduradas ali. De um lado, todas as roupas cor-de-rosa que mamãe me comprara. De outro, todas as roupas pretas que eu gostava de usar. Nem precisei parar para escolher, já sabia que ia de preto. Escolhi uma calça jeans — a mais surrada, porém de qual mais gosto -, uma camiseta rosa com a estampa dos Power Rangers, meus tênis Converse e uma jaqueta de couro marrom. Estava mais do que pronta.
Desci as escadas e encontrei todo o pessoal no hall de entrada. O hábito de tomar café da manhã naquela casa não existia há muito.
Nicholas estava encostado no corrimão da escada e vestia calças jeans, uma camisa pólo azul marinho e Converse preto. Usava também uma bolsa de lado, uma Louis Vuitton marrom, masculina.
Então mamãe me deu a notícia: tínhamos de ir andando até a escola. Ótimo. Ela nos botou pro lado de fora da porta e fechou bem na hora em que eu pensei em fazer minha carinha de cachorrinho abandonado.
Observei o caminho até onde um portão branco aparecia em meio a uma cerca viva que aparentemente circundava toda a fazenda. Parecia absurdamente pequenino, embora eu soubesse que estava era absurdamente longe. A caminhada era longa, mas resolvemos encarar. Quando chegamos ao portão, — que por sinal não tinha nada de pequenino — foi que nos ocorreu: e para chegar à escola? Porque, pelo que nos constava, estávamos em uma fazenda, aparentemente no meio do nada, considerando até onde nossa vista alcançava.
Mas então, quando abrimos o portão com uma espécie de controle remoto, quase fui atropelada por uma bicicleta! Era simplesmente isso: o portão da fazenda abria-se para uma rua muito movimentada, onde se lia em uma plaqueta na esquina: "Av. Paraíso". À frente, erguia-se um enorme prédio antigo, de três andares, com um jardim imenso na frente. Um letreiro ligeiramente enferrujado pendurado na fachada dizia: "Escola Secundária Cecília Meirelles".
Olhei para Nicholas com uma cara tipo "Você entendeu alguma coisa?". Mas ele apenas respondeu dando de ombros. Esperamos o sinal abrir e atravessamos a rua.
O jardim estava repleto de estudantes, cada qual com seu grupo, preocupado com seu afazer. Mas, como eu já dissera, quando Nicholas pôs os pés no perímetro da escola, todas as garotas aparentemente tiveram uma perda de voz coletiva. E não foi tão diferente com os garotos, o que foi realmente estranho. Quero dizer, ele — meu irmão — era um garoto. A não ser que... Olhei para trás, mas atrás de mim só havia a rua. Espere um pouco! É isso ai, eles estavam mesmo olhando para mim! Talvez fosse só porque minha pele estava realmente estranha depois de todo o sol que eu tomara no dia anterior, mas uma vozinha dentro da minha cabeça me dizia que não, que não era isso que eles estavam olhando.
E isso veio a se confirmar quando um garoto absolutamente lindo se aproximou, o rosto levemente abobalhado, de uma maneira engraçadinha. Ele estendeu a mão para Nicholas primeiro, sem tirar os olhos de mim.
- Vocês devem ser os Porsche. Prazer, eu sou Kevin, editor chefe do Jornal da escola. Conheço tudo e todos por aqui, de modo que estou encarregado de mostrar a escola a vocês.
- Legal — falei, impressionada com o fato de Kevin conseguir transmitir tanta informação de uma só vez em tão pouco tempo — e de maneira clara, é importante ressaltar.
- Aí, cara, quem é aquela? — perguntou Nicholas a Kevin enquanto ele ia nos levando escola a dentro, apontando para uma garota de cabelos compridos, loiros e encaracolados, jeans rasgados, camiseta do ACDC, All Star vermelho e uma bandana azul sobre os cachos. Impecavelmente linda, devo dizer.
- Aquela é Miley. Encanta a todos com seu cabelo castanho, olhos verdes e corpo estilo violão. Mas já vou avisando: Miley é simplesmente sinônimo de encrenca. A garota mais popular da escola! Seu lema é "Não me rele, não me encoste que eu não gosto que me toque!".
- Uau! — disse eu, ao vê-la se aproximar com ar de superioridade, observando como as pessoas pareciam espremer-se na parede para abrir espaço para Miley passar.
- Hei, olhem aquilo! — disse Kevin — Aquele é o David. Um dos muitos apaixonados pela Miley. Observem o show...
O garoto, David, se aproximou de Miley. Mesmo antes dele se tornar visível de frente para ela, seus olhos já se estreitavam.
- É melhor não se aproximar, David Medía.- avisou Miley ao visualizar o garoto de soslaio. — Não estou para brincadeiras hoje.
Ele aparentemente estava muito ocupado em observá-la para ouvir qualquer palavra que ela dizia, por isso continuou se aproximando. Então ele fez o que até mesmo eu achei que fosse tolice: tocou seu ombro. Foi tudo tão rápido que duvidei que tivesse mesmo acontecido. Em um momento, David estava tocando seu ombro e no outro, estava esparramado no chão com um olho roxo.
- Uau! — repeti. Miley se virou para mim, mas na verdade nem senti medo e encarei-a nos olhos, sorrindo.
E, para minha surpresa, vi sua expressão fechada se derreter em um sorriso e ela se aproximar de mim como se fosse uma garota qualquer, e não Miley-a-super-popular, como a tachara Kevin.
- Fala ai! — disse ela, seu sorriso iluminando a todos (principalmente Nicholas, eu percebi). Então ela fez uns toques estranhos com Kevin, daqueles tipo Rock'n'Roll.
Olhei para ele assustada.
- Que foi? Eu não disse que conhecia tudo e todos por aqui? A propósito, Miley, estes são Nicholas e Suzannah Porsche. Nick, Suzannah, esta é, oficialmente, Miley-a-super-popular.
- Pare com isso Kevin, ou te esgano!
Ele pareceu engolir em seco. Dei uma risadinha.
- Tudo bem? — disse ela, referindo-se a mim e Nicholas — Prazer em conhecê-los.
- Caraca, você é muito linda! — deixou escapar Nicholas. Dei um pedala nele — Cacetada, quer dizer, o prazer é meu — concertou, massageando a nuca. Miley apenas riu dele e piscou para mim.
Deu-se que Miley nos acompanhou no nosso pequeno tour de reconhecimento pela escola que, vou te dizer, não é pequena, não!
Quando olhei para os lados, percebi: todos estavam cochichando sobre nós. E, cara, eu, Suzannah Porsche era, oficialmente, popular!
De modo que lá estávamos eu, Nick, Kevin e Miley, andando por corredores dispersos e agitados, simplesmente lotados de estudantes. A notícia de que havia novas pessoas no grupinho de Miley Cyrus parecia ter-se espalhado como formigas numa fábrica de doces. É claro que as pessoas simplesmente não se arriscavam a chegar perto de Miley, mas isso não queria dizer que não podiam chegar perto de mim, por isso fui interpelada daquela maneira.
Uma garota, loira e de ar levemente arrogante, aparentemente da minha idade, ou talvez um ano mais velha, muito bonita, por sinal, acabara de apontar descaradamente para a minha pessoa e dizer algo para suas amigas. Bem, eu não sou nada adepta à prática da violência, até porque esse é o meu dever para com a minha tribo, mas isso não significa que eu não possa atalhar alguém com alguma frase bem colocada quando me sinto ameaçada de alguma maneira. De modo que tratei de lançar-lhe um olhar feio e dizer:
- Sua mãe nunca te ensinou que é feio apontar?
Ela deu um risinho debochado, que particularmente me deu nos nervos, e virou-se para uma de suas amigas, cochichou alguma coisa cobrindo os lábios, depois se voltou para mim.
- Desculpe-me, mas eu faço o que quero, quando quero, portanto posso apontar para quem eu bem entender e uma novata jeca metida a Emo feito você não tem nada a ver com isso!
As duas garotas que a cercavam, ambas morenas, ambas pateticamente metidas, vestidas de "clone de Barbie" — como eu costumava chamar as patrícias -, fizeram um movimento estranho com a mão à testa, que imitavam um W, um E, um M e um L.
Kevin sussurrou em meu ouvido, discretamente, para que mais ninguém escutasse ou percebesse:
- A loira é Alice Forward, ela acha que pode ser mais popular que Miley Cyrus. As outras duas são Jennifer Broon e Iver Page. E isso que elas acabaram de fazer quer dizer "What Ever Made your Loser"!
Nesse momento o sangue me subiu a cabeça. Me chamar de "jeca metida a Emo", tudo bem, mas elas acham que podem me chamar de perdedora e ficar por isso mesmo?
- Você acredita mesmo que pode falar algo a respeito de alguém que você nem conhece? Eu não sou como você e não preciso dessas suas frases de efeito para me dizer como agir, porque eu realmente não me importo com o que você pensa. Eu só acho que você deveria ter algo com o nome de educação nos seus conceitos, mas se for muito difícil, tudo bem, eu entendo que alguém que não sabe se por no seu lugar também não saiba conjugar o verbo respeitar.
Nick pôs o braço sobre meus ombros e murmurou um "mandou bem".
- Se manca, hein, garota! — disse ele, referindo-se a Alice. — Dessa vez passa, mas você que nem pense em se meter com a minha irmã...
- Principalmente — emendou Kevin — se você não quiser ver todos os seus segredos revelados no jornal da escola...
- Ou seu lindo aplique de cabelo voando por aí, junto com alguns dos seus dentes tortos e amarelos, que eu mesma farei o favor de quebrar — concluiu Miley.
Alice nos olhou com cara de ódio por um momento, mas logo voltou a sua expressão arrogante, cuspiu no chão aos meus pés e passou por nós, rindo de deboche.
- Me segurem ou eu acabo com essa loira falsificada... — disse Miley. E realmente tivemos de segurá-la, ou ela teria mesmo descarregado toda sua fúria Hard Rock na garota. Isso seria bem interessante, para dizer a verdade, mas pensei que seria melhor não arranjar confusão logo no primeiro dia de aula.
Eu já me metera com o conselho tutelar e até com a polícia uma vez, simplesmente por mirar um soco bem dado nas fuças de uma garota Punk que dizia que eu era chorona, na quarta série. Qual é, eu sou Emo e todo mundo sabe que os Emos não tem medo de exprimir suas emoções! O fato é que no fim a garota chorou muito mais do que eu com o soco, que lhe custou realmente um dos dentes da frente. É como eu costumo dizer: "Respeito é bom, eu gosto e conserva os dentes!".
- Obrigada pela força, pessoal — falei, me referindo ao momento em que todos me defenderam.
- Sem problemas — disseram em coro.
Ainda com o braço direito sobre meus ombros, Nick me conduziu atrás de Kevin, que retomara a explicação dos prédios da escola.
- Seus armários ficam neste corredor — disse ele, parando no início de um comprido corredor, repleto de armários, onde as pessoas jogavam coisas dentro, outras tiravam livros.
- Seu número é o 201 — disse Miley, consultando um papel que tirara do bolso da frente da camisa de Kevin. — E o seu, Nick, é o... 202!
Então ela fez uma cara engraçada, como se dissesse "Nossa, isso foi tão obvio!".
- E os nossos armários são bem ali — disse Kevin — Números 213 e 217. E vocês sabem que podem nos encontrar ali entre uma aula e outra!
- Esses são os horários de vocês — falou Miley, tirando outros dois papéis do bolso da camisa de Kevin e entregando um a mim e outro a Nick.
Dito isso, um som agudo e absurdamente alto se fez ouvir. Deduzindo que fosse o sinal para entrar nas salas, me soltei de Nick e corri para o armário 201. Abri-o e puxei um livro de dentro. Nick ao meu lado fez o mesmo, enquanto Miley contava segundo por segundo, dizendo para que fossemos rápido que o segundo sinal ia tocar dalí a quatro, três, dois...
Bem no momento em que mais um som, igualmente alto e estridente soou pela escola, derrubei uma porção de livros e tive de abaixar para pegá-los. Senti Nick se afastar e então, quando consegui juntar todos os livros e levantar os olhos... Bem, já estava completamente sozinha no corredor.
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