Bloom
1 Prologue
Notas iniciais

Inglaterra, 1802
Na pequena e humilde cabana o frio era tão implacável e cruel como do lado de fora. O pequeno fogareiro, que também era usado para esquentar a sopa, não era suficiente para aquecer o minúsculo espaço.
A vida era quase miserável, mas ao menos a jovem estava protegida do relento e da crueldade de muitos homens.
A enorme barriga pesava no frágil e sofrido corpo feminino, no entanto a força e o amor pelo ser que crescia seguro ali dentro a impelia a seguir em frente, batalhando a sua dura luta do destino. As mais difíceis provações ela já tinha passado, porém a certeza que ainda não havia chegado ao fim era tão grande como a evidência de seu ventre gravídico.
– Como está frio! — a voz frágil e cansada da senhora de idade avançada soou no limitado espaço enquanto ela esfregava uma mão a outra em frente ao fogareiro.
– Vou pegar mais um pouco de lenha para alimentar o fogo. — disse a grávida, já se levantando da cadeira simples de madeira.
A Senhora virou-se para a mais jovem alarmada.
– Menina, você precisa descansar, sua barriga está cada dia mais baixa, seu bebê logo nascerá. Não pode fazer muito esforço, já não basta trabalhar todos os dias sem descanso? — repreendeu a amável idosa.
– Amélia, não posso me dar o luxo de ficar de repouso. Isso é para as ladies. Meu corpo já está acostumado ao trabalho. — bradou Katherine na intensão de acalmar à idosa que a observava com apreensão.
Amélia nada mais disse, sabia que a jovem tinha razão. O trabalho árduo fazia parte do dia a dia delas, mesmo ambas já não estando em condições físicas para tal.
A bela jovem saiu pela pequena porta em direção a fria mata. Lá pegaria algumas lenhas para alimentar a chama do fogareiro. Elas precisavam se manter aquecidas; a noite que começara a pouco prometia ser bem gélida e longa.
O inverno havia sido muito rigoroso naquele ano e, mesmo já estando próximo ao seu fim, a sensação glacial ainda cortava a pele e congelava os ossos.
Não demorou muito para a gestante retornar com alguns tocos de madeira em seus finos braços. Eles estavam armazenados atrás da cabana, protegidos do gelo por um couro.
Há uma semana elas haviam ganhado uma quantidade generosa de lenha — pagamento dado pelo parto que Amélia tinha realizado na esposa de um gentil camponês-.
A amável idosa era a melhor parteira do vilarejo, mas sua idade já avançada e sua fragilidade física a impediam de fazer grandes viagens, deixando assim de fazer o parto das nobres senhoras — que lhe rendiam um pagamento melhor — para fazer somente o das mulheres mais simples que pagavam como podiam, mas que era igualmente importante a sobrevivência delas.
A senhora observava a linda moça caminhar com dificuldade, estava cada dia mais cansada, a respiração era dificultosa. Ela sempre se perguntava o porquê de uma jovem tão linda, educada e trabalhadora estar naquelas condições.
Quando Katherine bateu em sua humilde porta pedindo abrigo, ela não hesitou em ampará-la, seu coração lhe pedia isso. Porém jamais questionou os motivos da jovem encontrar-se tão desesperada e grávida; sozinha no mundo. Sempre esperou que a loira falasse por si só, entretanto isso nunca aconteceu.
– Ai! — Katherine falou alto. Há alguns dias vinha sentindo uma pressão incômoda em seu baixo ventre, no entanto nada comentou com Amélia, sabia que ela a forçaria parar de trabalhar e exigir repouso, mas ela não podia, tinha que juntar o máximo de dinheiro possível. Agora tinha uma vida que dependeria somente dela pra viver.
– O que foi minha menina? — Amélia desviou o olhar do tricô que fazia para o bebê da jovem com preocupação.
– AAAAAAAH! — Katherine gritou sem ao menos ter tempo de responder o questionamento da gentil idosa.
Amélia ergueu rapidamente o corpo cansado da cadeira de balanço, a agilidade foi surpreendente para os seus 68 anos. Caminhou o mais rápido que pôde na direção da loira que tinha se curvado, encolhendo-se devido à dor que estava sentido.
– Chegou a hora minha criança! — Amélia disse com a calma de quem é muito experiente no assunto. Tinha trago tantos bebês ao mundo que deixou de contar quando passou da primeira centena.
– Não! — Katherine chorou em desespero, estava com medo e insegura. Não se sentia pronta para chegada do filho, não naquele momento. — Ele não pode nascer agora, pelo menos não até acabar o inverno. — os olhos azuis estavam arregalados e em pânico, tanto pela dor como pelo medo.
– Querida, o seu bebê vai nascer! Não importa se estamos no inverno ou verão, ele virá esta noite. — a senhora falou amável, acariciando os longos fios platinados. — Agora preciso que me ajude a caminhar até a cama, não tenho mais idade nem condições físicas para carregá-la no colo. — sorriu com os dentes gastos e amarelados pelos anos.
Katherine ameaçou a caminhar em direção a cama, mas assim que deu o primeiro passo sentiu um líquido quente descer pelas pernas.
– Amélia! — chamou apavorada.
– Sua bolsa rompeu. — comentou tranquilamente, como se comentasse sobre o tempo. — Seu bebê está com pressa de nascer. Eu já esperava por isso, já que hoje mudou a lua.
Com auxílio da bondosa senhora, Katherine caminhava lentamente em direção à velha cama de madeira com um fino colchão que ficava no único cômodo da humilde cabana.
Antes de deitá-la, Amélia tirou as vestes da jovem, deixando-a somente de camisola. As grossas cobertas fariam o trabalho de aquecer a gestante.
– Querida, eu já volto. Preciso aquecer a água e separar tudo que irei precisar para trazer seu bebê ao mundo. — avisou a parteira acariciando os cabelos da jovem.
– Não me deixe! — a loira suplicou apavorada.
– Não irei deixá-la. Apenas preciso pegar o material que irei precisar. Já volto. — beijou com ternura os fios loiros claríssimos e se afastou.
Katherine alisava o ventre em círculos contínuos e orava, pedindo a virgem Maria para protegê-la naquele momento difícil.
Ela umedecia os lábios ressecados com a língua copiosamente e mantendo os olhos fechados ela se lembrava de tudo que passou até se encontrar naquela situação.
As mentirosas juras de amor, as promessas não cumpridas, as ameaças... Contudo ela não se arrependia de nada, ao menos teria seu filho para amar e proteger. Todo o sacrifico valeira a pena logo que estivesse com seu bebê no colo. Porém a chegada dele também a deixava vulnerável como um frágil cristal.
Havia deixado à casa de seus senhores assim que a barriga começou a apontar, denunciando a gestação. Não poderia ficar, não quando era solteira e tendo apenas dezoito anos de idade. Era intolerável tal condição.
Partiu sem se despedir de ninguém, sabia que não iriam atrás de uma criada. Peregrinou de porta em porta até ser acolhida. Trabalhou exaustivamente como cozinheira e lavadeira de uma hospedaria para juntar dinheiro para fazer o pequeno e simples enxoval de seu bebê. Além é claro, de comprar mantimentos para ajudar a alimentar a ela e a generosa senhora que tão amavelmente a acolheu.
Katherine encontrou na pequena cabana um lar, mas sabia que dependendo de como as coisas se encaminhassem, teria que partir do único lugar no qual queria viver.
– Criança, tome esse caldo. Vai ajudá-la a manter as forças para dá à luz! — Amélia a despertava de suas lembranças.
Sem questionar a sabedoria da experiente parteira, ela tomou todo o caldo de gosto forte e peculiar, mas não reclamou, se Amélia disse que ajudaria a dar forças para trazer seu precioso bebê ao mundo, ela tomaria quantas vezes fosse necessário.
A cada hora que se passava mais a dor aumentava e mais próximas ficavam as contrações uma da outra. Mesmo com o rigoroso frio que predominava na madrugada, não só do lado de fora da cabana, como também dentro, Katherine suava. Em sua barriga repousava uma toalha quente que tentava ajudar a aliviar as fortes dores.
A loira já estava há horas em trabalho de parto, tinha varado a madrugada sofrendo e agonizando. A cada minuto que passava os gritos ficavam mais fortes e desesperados. Suas forças já estavam se esvaindo quando o dia começou a nascer.
Amélia já começava a ficar preocupada, mas não permitiria perder sua doce menina no parto.
– Força minha querida. — incentivou mais uma vez. Ela já estava cansada, assim como a gestante, por outro lado ambas não deixariam de lutar enquanto não escutassem o tão aguardado choro. — Já estou vendo a cabecinha. — gritou entusiasmada ao ver que o parto estava se encaminhando para o fim.
Uma força e determinação brotaram das entranhas da jovem mulher que concentrou toda a sua força em empurrar o seu bebê para o mundo.
– AAAAAAAAAAAAAAAH! — o grito saiu como um rugido de uma leoa.
E então a jovem caiu deitada de exaustão sobre os travesseiros desgastados e surrados.
No silêncio que agora o quarto estava um choro fino e não muito forte rompeu o ambiente, trazendo aos lábios pálidos da mãe um sorriso.
Era o choro de seu bebê, a razão pela qual agora iria viver.
– É uma linda e saudável menina! — Amélia disse animada, ela limpava com uma toalha umedecida na água morna a pequena criança.
Katherine suspirou aliviada, pois teria um problema a menos para se preocupar, parecia que o destino estava conspirando a seu favor naquele momento.
– Eu quero vê-la. — falou com a voz fraca e cansada, estava esgotada depois de tantas horas de trabalho de parto. — Deixe-me pegar minha filhinha.
– Veja como é linda essa pequena. — a idosa depositou o pequenino bebê envolto — ainda na toalha branca- no colo da mãe que sorriu pela emoção que a dominou.
No entanto, assim que Katherine observou atentamente os traços da perfeita neném, uma lágrima escapou de seus olhos.
Naquele momento soube que não poderia mais permanecer no vilarejo em que vivia. Sua filha era absolutamente linda e perfeita, carregava traços únicos, tão raros como um diamante.
– Eu te amo meu anjo. — beijou a cabecinha de poucos cabelos que ainda estavam melados com seu sangue. — Eu farei até o impossível para te proteger. — sussurrou ao final selando a própria promessa.
~*~
O choro agudo quebrava o silêncio do casebre em uma manhã aconchegante após uma noite pouco gélida. A idosa embalava a neném sem mais saber o que fazer para acalmá-la. Ela estava com fome, tinha acabado de acordar.
– Cadê a sua mãe que não volta? — perguntou retoricamente ao bebê, que já tinha a face vermelha pelo pranto. — Eu não tenho leite para alimentá-la. Nunca tive. Não me olhe com esses lindos olhinhos azuis como uma lagoa cristalina.
Amélia tentava tranquilizar o bebê, mas ele não parava. Katherine tinha saído cedo prometendo voltar brevemente, mas já tinham se passado mais de quatro horas desde sua partida.
Havia dez dias que tinha dado à luz a pequena menina de olhos azuis e ralos cabelos vermelhos acobreados. Ainda não tinha recebido um nome, mas a mãe da criança dizia já saber qual daria.
– Cheguei! — Katherine gritou assim que entrou correndo pela porta da cabana.
Sabia que sua filha chorava de fome, afinal, seus seios já vazavam. Tinha agradecido aos anjos por ter tanto leite, sua filha teria alimento em abundância.
– Já dava para escutá-la berrando há metros. — a loira comentou pegando cuidadosamente o pequeno embrulho das mãos da senhora.
Sem cerimônias Katherine retirou o seio direito do decote e levou a boca carnuda e rosava. A pequena menina sugou com fome e pressa, chegando a se engasgar pelo desespero.
– Calma sua gulosa, tem bastante leite para matar sua fome e de mais uns dez bebês. — ela soprava nos cabelinhos acobreados. A bebê permaneceu indiferente, só sabia sugar seu alimento.
– O que você fez com seus cabelos? — Amélia perguntou surpresa reparando melhor na jovem.
Ela agora tinha os cabelos curtos, rente à nuca, e não mais os belíssimos fios longos até abaixo das nádegas.
– Vendi! Eles pagam muito bem por cabelos longos. — falou sem mostrar arrependimento, precisava fazer dinheiro. Sem contar que seu cabelo cresceria novamente. — Agora os meus cabelos serão utilizados para fazer uma peruca, que com certeza irá adornar a cabeça de alguma Lady da aristocracia. — sorriu sem humor para idosa.
– Mas para quê precisa de tanto dinheiro? Temos o suficiente para não nos faltar o alimento de cada dia.
Katherine suspiro tristemente, pois havia chegado a hora.
– Preciso partir. Não posso mais ficar no vilarejo. — ditou de forma evasiva. Seus olhos azuis cobalto não fitavam mais Amélia e sim a bebê que mamava indiferente a conversa que acontecia ao seu redor.
– Não, por favor, não vá. Fique aqui! Criaremos juntas a pequenina. — Amélia falou com desespero.
Era uma senhora solitária — mesmo tendo trago tantas crianças ao mundo-, jamais deu à luz a um filho próprio. Ela era tão seca como uma ameixa.
– Você não imagina como quero ficar, é o meu maior desejo, mas infelizmente não podemos. — lamentou, deixando algumas lágrimas escaparem. Ali tinha encontrado um lar amoroso, ambiente que gostaria de criar sua pequena. -É perigoso para mim, pra senhora e para o meu bebê.
– Quem é o pai dela? — perguntou Amélia de imediato. A pequena a cada dia que passava definia melhor os traços físicos, que em nada se parecia com os da mãe. De alguma forma as características da menina eram familiares para a idosa.
– Não faça perguntas às quais não poderia lhe responder. — respondeu de imediato.
Katherine sabia quem era o pai de sua filha, mas era algo que jamais iria partilhar.
– Tudo bem! — Amélia se deu por vencida. Sabia que Katherine jamais a abandonaria se não fosse realmente necessário. — E quando partem? — a pergunta saiu como um lamento.
– Ainda hoje.
– Mas já? — um aperto no peito já se fazia presente no velho coração da idosa. — Espera ao menos a primavera chegar.
– Não posso. Nós já deveríamos ter partido. A cada dia que passa fica mais perigoso. Eu só precisava arrumar mais algum dinheiro.
– Tudo bem. Eu entendo. — Amélia disse tristemente.
Katherine terminou de amamentar sua pequena filha — que já voltava para o mundo dos sonhos — e a depositou no velho colchão. Seguindo direto para o pequeno armário ela juntou as poucas coisas dela e da filha em uma grande bolsa surrada de tecido grosseiro.
Logo a pequena carroça alugada que iria levá-la ao vilarejo vizinho chegou. Tinha chegado a difícil hora da partida.
Com cuidado embrulhou o máximo que pode a pequenina, o frio era grande o bastante para a menina e os olhos dos outros curiosos demais.
A despedida foi difícil e dolorosa, mas se fazia necessária.
– Deixe-me saber ao menos o nome que escolheu para esse anjinho. — pediu a idosa mexendo nas bochechas róseas da menininha.
Katherine sorriu. Não negaria isso a senhora que a acolheu de coração sem jamais questioná-la.
– Wood, Renesmee Wood!
– Nome lindo e diferente, assim como ela. Perfeito! — Amélia sorriu ao reconhecer a sonoridade francesa no nome e o sobrenome que era igual ao da mãe.
Katherine chorou enquanto a carroça se distanciava da cabana conforme trepidava na estrada de cascalho. Seu coração se apertou impetuosamente, ela sabia que seria a última vez que veria a bondosa senhora, mas jamais esqueceria a mulher que a acolheu quando mais precisou.
A jovem partia para um futuro incerto com seu bem mais precioso em seus braços, contudo, só bastava aquilo para lhe dar forças para lutar!
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