Bloom
26 My possession
Notas iniciais

My Possession
Os metais das ferraduras chocavam-se ruidosamente contra o chão de pedras à medida que o galope ficava mais vigoroso, devido à exigência que o chicote exercia sobre o lombo musculoso dos cavalos. O cocheiro mantinha o comando impetuoso sobre os animais, tinha recebido ordens expressas para conduzir a carruagem o mais rápido possível de volta para residência.
Naquela hora da noite as principais ruas do luxuoso bairro de Mayfair encontravam-se praticamente vazias. A grande maioria de seus moradores estava no grande baile que acontecia na direção oposta em que a veloz carruagem seguia.
O ar morno juntamente ao céu negro onde havia poucas estrelas dava uma aparência misteriosa à cidade. A grande lua — que antes adornava de forma tão sublime o céu —parecia ter se recolhido sob o imenso manto negro. O silêncio só não era absoluto porque devido ao choque das ferraduras batendo com força contra o chão de pedras havia se formado uma melodia aguda e bem marcante.
Ao contrário do cenário calmo e sereno da noite lá fora, dentro da luxuosa carruagem o clima não era tão ameno.
O grande nobre permanecia beirando ao desespero por sua jovem esposa ainda encontrar-se tão fragilizada.
Jacob com ajuda dos amigos — lordes Call e Ateara — tinha conseguido se retirar do grande baile sem fazer alardes e principalmente sem chamar atenção dos outro para o que realmente acontecia.
Embry havia avisado ao cocheiro do Duque para aguardá-lo com a carruagem pronta na área que era utilizada para receber as entregas da mansão. Já Quil se encarregou em ajudar a guiar o amigo pelas passagens utilizadas pela criadagem em sua propriedade. Assim o Duque retirou-se com a esposa no colo sem ser visto por nenhum membro da aristocracia.
Renesmee ainda estava um pouco tonta, mas plenamente consciente de tudo o que acontecia. Ela tentava explicar que estava bem e que foi apenas um mal súbito, mas o zeloso marido ignorou qualquer modéstia vindo de sua lady.
— Meu amor, eu estou bem. — a duquesa disse com a voz calma e baixa. — Foi só um súbito mal estar, uma pequena tontura. — tentou tranquilizar o esposo. Porém a verdade é que ainda sentia um pouco de falta de ar, a cabeça doía e a visão não era nítida, estava bem enjoada.
— Ma poupée, não fale. Não se esforce. — Jacob trouxe a cabeça da ruiva para repousar em seu peito. Ele a mantinha de forma protetora em seu colo. — Veja; ainda está pálida. Está suando frio e tremendo. Não estás bem, minha lady. — ressaltou nervoso.
O raciocínio estava lento e antes mesmo que a jovem duquesa pudesse dizer mais alguma palavra para tentar tranquilizar o marido, a carruagem parou abruptamente e imediatamente abriram a porta.
Jacob não permitiu que esposa descesse de seu colo e nem esperou por ajuda de um criado, ele levantou imediatamente e desceu do veículo.
— Jacob! — a duquesa exclamou em surpresa pelo ato.
— Shhhh... Só descanse. — disse o nobre, mas o tom era de ordem. A ruiva não contestou, estava incrivelmente tonta novamente para falar qualquer coisa em protesto.
— Vossa Graça! — surpreendeu-se o mordomo ao abrir a porta principal e vê o patrão carregando o pequeno corpo amolecido da duquesa nos braços sem aparente esforço.
— Mande buscar o doutor Carlson, imediatamente. — ordenou o duque. Ele caminhava rápido em direção ao saguão da mansão. — E peça para senhorita Winslet dirigir-se aos aposentos da duquesa. — Jacob não esperou por uma resposta do mordomo, simplesmente subiu os degraus com a amada ainda nos braços.
Renesmee mantinha os olhos fechados enquanto repousava com a cabeça no ombro do marido. Ela tinha desistido de tentar tranquilizá-lo, tudo a sua volta parecia girar.
Uma arrumadeira que caminhava pelo longo corredor do andar superior também se assustou ao ver a cena do Duque carregando o corpo — aparentemente desfalecido — da duquesa no colo. Ela correu para abrir a porta do quarto da patroa, porém nada perguntou, somente esperou a ordem vir.
— Me ajude com a Duquesa enquanto a aia dela não chega. — Jacob ordenou enquanto repousava a esposa no macio colchão.
— Sim, Milorde. — a criada disse já caminhando até a cama e tirando os sapatos dos pés da patroa.
Jacob tirava as joias enquanto a arrumadeira retirava as meias e luvas da lady.
— Vossa graça mandou me chamar? — Elizabeth entrou um pouco esbaforida no aposento. Ela tinha deixado a sala de repouso da ala dos criados correndo. Smith ao dá a ordem também informou o estado em que os patrões tinham chegado à mansão. O fato causou um pequeno burburinho na ala da criadagem, mas o mordomo logo tratou de controlar o alvoroço. — O que aconteceu com a minha menina? — a senhora deixou todos os protocolos formais de lado quando viu o rosto pálido da ruiva.
— Obrigado, já pode se retirar. — o duque dispensou a criada antes de falar qualquer coisa com a governanta de Kent. A arrumadeira fez uma breve mesura e deixou de forma apressada os aposentos de lady Black. — Me ajude a retirar esse vestido pesado dela. Vamos deixá-la mais confortável, o médico já vai chegar para examiná-la.
Enquanto despiam e trocavam Renesmee, Jacob contava para Elizabeth o que sabia sobre o que tinha acontecido com a esposa.
Assim que Renesmee estava devidamente vestida com uma comportada camisola em seda e renda marfim com o penhoar combinado, a chegada do médico foi anunciada.
— Boa noite, milorde. Vim o mais rápido que pude. — informou o senhor de cabelos grisalhos assim que entrou no quarto, após ser autorizado. — Boa noite, senhorita Winslet. Boa noite, Milady. — cumprimentou a criada e fez uma breve reverencia ao duque e a duquesa deitada na cama. — Em que posso atendê-los? Fui informado que a duquesa precisava de meus cuidados. — Carlson caminhou até a cama e depositou a valise que trazia no criado mudo.
— Preciso que examine a minha Duquesa. — Jacob adiantou-se em dizer. — Estávamos no baile dos Ateara e minha cara esposa começou a sentir-se mal, chegou a desmaiar. Como sabemos de seu estado, achei prudente trazê-la para casa e mandar chamá-lo.
— Eu estou bem, Jacob. — mais uma vez a ruiva tentou falar, mas o duque ignorou a modéstia da esposa.
— Fez bem, Milorde. —Carlson concordou com o nobre. Por mais que ele não quisesse preocupar o duque, estava temeroso com o estado da jovem duquesa. Ela era a mulher mais jovem que iria tratar na gravidez. Desde que se formou só cuidou de famílias afortunadas, não era comum jovens tão novas se casaram na aristocracia, isso acontecia mais regularmente no campo. — O que a duquesa está sentindo?
Renesmee começou a explicar todo o mal estar que sentiu e tudo o que conseguia se lembrar sobre o ocorrido. Ela não tinha recordações de ser praticamente arrastada para o jardim escuro, nem por desfalecer nos braços de um desconhecido que tentou beijá-la. Ela somente lembrava-se da falta de ar, do calor que parecia sufocá-la e do salão continuar rodando mesmo quando já tinha terminando a sequência de giros da valsa.
Jacob negou-se a deixar o quarto da esposa durante o exame médico. Ele andava de um lado para o outro, parecia um animal selvagem enjaulado. Estava sentindo-se impotente em não poder fazer absolutamente nada.
Todos ficaram mais tranquilos quando a duquesa e sua aia confirmaram a ausência de qualquer sangramento, apesar da leve cólica. Por precaução o médico recomendou repouso por quatro dias, quando então voltaria para reexaminá-la.
— Tem certeza que está tudo bem? Tem certeza que ela e o bebê estão bem? — Jacob indagou assim que deixou o quarto da esposa com o médico. Ele fez questão de acompanhar o médico.
— Sim, Milorde. — o senhor sorriu complacente. — A duquesa sentiu um mal estar comum em seu estado. Hoje a noite está quente, os salões provavelmente cheios, a vestimenta pesada e bem ajustada... O mais importante foi que não houve sangramento, e as cólicas significam que o corpo esta mudando para se adaptar ao crescimento do bebê no ventre. — informou o médico na tentativa de acalmar o preocupado nobre.
— Eu só fico preocupado com tudo isso. — passou a mão de forma nervosa nos cabelos ao confessar. — Vamos ao meu escritório acertar seus honorários e beber algo.
— Agradeço ao convite, Milorde, mas pode voltar para sua duquesa. Depois acertamos os honorários. — disse o médico. Ele sabia da ansiedade do nobre em voltar para o lado da esposa.
O duque agradeceu ao médico e o conduziu até o salão principal, lá encontrou com o mordomo que acompanhou doutor Carlson até a saída. Antes de Jacob conseguir subir as escadas para voltar para o lado da esposa foi interceptado pelo mordomo. Smith estava preocupado com a jovem patroa.
O nobre contou uma versão abreviada do que havia ocorrido e sobre o estado da duquesa. Assim que terminou de acalmar o zeloso criado, subiu rapidamente para voltar ao quarto da amada.
Renesmee permanecia deitada enquanto conversava com Elizabeth. Quando o Duque retornou para o seu lado já vestia o pijama negro.
— Com licença. — Elizabeth levantou-se da poltrona que estava sentada ao lado da cama. — Necessita de algo, milady? Milorde?
— Não, Lizzi. Obrigada. — Renesmee sorriu ao agradecer.
— Obrigada, senhorita Winslet.
— Boa noite. — a governanta de Kent fez uma reverência antes de deixar os aposentos.
Jacob esperou Elizabeth sair e fechar a porta para abrir o roupão e expor o peito nu. Renesmee olhava em um misto de curiosidade e desejo.
Assim que o nobre deitou na cama da esposa, a chamou para se aconchegar em seu peito exposto.
— Venha, ma poupée, a farei dormir. — Jacob começou a fazer carinho nos cabelos ruivos da esposa.
— Te amo. — a ruiva selou os lábios ao do amado.
— “Te amo” se tornou uma expressão pequena para descrever o que sinto por você.
Como o duque prometeu ele fez sua amada dormir em seus braços. Renesmee dormiu recebendo todo amor que sempre mereceu na vida.
~*~
O dia ainda não tinha amanhecido quando a movimentação na cozinha da grande mansão tinha começado. As diversas refeições matinais estavam sendo preparadas, tanto para os senhores da casa como para os criados.
Como costume naquela hora, boa parte dos empregados da casa já estava de pé trabalhando ou aguardando o desjejum para iniciar a jornada de serviço.
Conversas paralelas aconteciam à mesa enquanto o café era servido.
— Ontem a duquesa novamente não desceu ou saiu do quarto em nenhum momento. — comentou uma camareira. — Parece que o Duque a mantém nos aposentos. O que será que pode estar acontecendo? — perguntou a jovem para ninguém em especial.
— Deixa de se fingir de inocente, sua alcoviteira. — um lacaio alfinetou. Ele pegou uma fatia de bolo e completou a xícara com mais leite morno. Todos os empregados olhavam para ele com notório interesse. — A nova duquesa já carrega o herdeiro no ventre! — disse seguro o rapaz alto.
Uma pequena comoção de suspiros e arquejos foi ouvida no salão. Uns esboçaram surpresa com a notícia, outros nem tanto.
— Faz muito sentido. — ponderou uma auxiliar de cozinha que acabava de entrar na sala de refeições carregando uma enorme bandeja com mais fatias de bolo. Ela tinha ouvido boa parte da fofoca. — Tiveram as visitas do médico, a noite que lady Black chegou nos braços do Duque desacordada, o repouso... — ponderou o que veio à cabeça.
— Rápido, não? — disse malicioso um outro lacaio.
— O que é rápido? — perguntou o Valete do duque assim que entrou no cômodo. Ele tinha escutado o comentário maldoso que havia sido feito.
Todos ficaram em silêncio.
Como criado pessoal do duque, Sr. Robins sabia de absolutamente todos os segredos do patrão, mas era algo que levaria para o túmulo. Como o nobre ainda não tinha confirmado a gestação da esposa para os empregados, não seria ele a afirmar as suspeitas.
— Fale, Thomas, o que é tão rápido. — insistiu Sr. Robins, o valete do duque.
— Nada demais. Estava comentando somente o fato do desjejum esta sendo servido mais rápido que o comum nessa manhã. — mentiu descaradamente o lacaio.
E o valete sabia.
O senhor alto e muito sério apenas arqueou as sobrancelhas e sorriu enviesado. Como valete do duque, Sr. Robins estava na pirâmide hierárquica em uma posição mais eleva que qualquer outro empregado sentado à mesa.
Tanto um valete como uma aia só ficavam abaixo do mordomo e da governanta da casa, porém ambos respondiam diretamente aos seus senhores e não aos outros criados superiores em posição.
Ninguém seria desajuizado em tecer um comentário maldoso ou depreciativo a um de seus senhores na frente de um empregado tão poderoso.
Todos permaneceram em sincronia durante a refeição. Nem mesmo quando Elizabeth chegou para fazer o seu desjejum alguma pergunta curiosa foi direcionada.
De repente o silêncio em que a sala de refeições permanecia foi quebrado pelo toque forte na sineta. Imediatamente todos os olharam foram para o quadro onde os sinos ficavam.
— Com licença. — Sr. Robins parou instantemente de beber o café e se pôs de pé. — Vossa Graça solicita-me. — o valete saiu caminhando imponente.
Aquela também era a deixa para os demais criados. Uma vez que um dos senhores da casa acordava, todos os empregados sabiam que estavam na hora de iniciar as suas tarefas. Porém naquela manhã que acabava de se iniciar, uma criada em especial sorria internamente. Ela iria trabalhar até mais satisfeita.
— Mais alguma coisa, Vossa Graça? — perguntou solene o valete ao patrão. Ele havia ajudado o duque em toda higiene matinal e a se vestir.
— Por agora, é somente isso Robins. — Jacob observava através do espelho o resultado final. Estava impecavelmente bem aprumado para mais um dia no parlamento.
— Sim, Vossa Graça. — o senhor fez um perfeito sinal de reverência e abriu a porta para o duque passar.
Jacob caminhou em silêncio pelos longos corredores da mansão até chegar ao salão de refeições de uso exclusivo da família. Atualmente só ele e a esposa utilizavam aquela área da casa.
Era um pequeno salão com uma mesa em carvalho de dez lugares, um buffet amplo e algumas obras de artes em moldura dourada, que combinava em perfeita harmonia com parede em amarelo claro e pesadas cortinas de veludo na cor mostarda. Era um ambiente muito luxuoso, porém informal.
— Bom dia, Vossa Graça. — o velho mordomo cumprimentou o patrão e abriu a porta que dava acesso ao salão.
— Bom dia, Smith! — Jacob devolveu a saudação e caminhou para a cabeceira da mesa. — Avise a Elizabeth que é para mandar servir o desjejum da duquesa no quarto. E não devem acordá-la antes das nove e meia. — ordenou o nobre já pegando o jornal que o mordomo entregava.
— Perfeitamente, Vossa Graça. — Smith fez um gesto para que os dois lacaios começassem a servir o duque, e deixou brevemente o salão para executar a ordem recebida.
Jacob comia devagar enquanto lia tranquilamente o jornal impecavelmente passado, as folhas ainda estavam mornas. Era um costume que cada página do informativo fosse passada a ferro quente para que não soltasse tinta e viesse manchar as mãos do nobre.
— Jacob! — uma voz estridente e incontestavelmente irritada quebrou o silêncio. — Como ousa não mandar uma única missiva informando-me sobre o estado de lady Black! — de pé na entrada do salão Rachel fitava o irmão com os olhos semicerrados. O duque não podia vê, devido ao longo vestido que trajava, mas a irmã gêmea batia o pé de forma impaciente. Ela não havia nem esperado o mordomo fazer o devido anúncio. — Já faz três dias, Jacob! Três dias que desapareceram do baile dos Ateara, deixando um rastro de mexericos. Eu mereço, e exijo, uma explicação!
Os dois lacaios se entreolharam discretamente. Não era comum um duque ser tratado daquela forma, porém ele não estava diante de uma pessoa qualquer, mas sim de uma princesa. Somente alguém com um título tão elevado teria tamanho a ousadia.
— Bom dia, Vossa Alteza. — lentamente Jacob ergueu os olhos do jornal e sorriu enviesado para a irmã. — A que devo tamanho a honra em receber a ilustre princesa em minha residência às — tirou o relógio de ouro do bolso para conferir as horas — 8:32 da manhã?
—Sinta-se honrado como minha visita, Milorde. — Rachel falou mais calma, sorriu irônica e dirigiu-se à cadeira já afastada pelo lacaio para que ela sentasse.
— E estou! — Jacob devolveu com o mesmo sorriso irônico. — Tome um chá comigo. Depois conversaremos em particular em meu gabinete. — ele não conversaria assunto tão sério e privado na frente de dois lacaios.
— Claro, Milorde. — a princesa aceitou a xícara que lhe foi oferecida.
Os dois irmãos conversavam trivialidades enquanto comiam. Rachel comeu apenas um pequeno pedaço de bolo e tomou uma xícara de chá. Ela já tinha tomado o desjejum com o esposo naquela manhã.
— Acredito que não tenha se aguentado de curiosidade para saber o que aconteceu no baile dos Ateara. — Jacob ditou sarcástico assim que se viu a sós com a irmã no gabinete. — Está me saindo uma bela de uma alcoviteira! Assim vai tirar o título de lady Call.
— Não me compare com aquela víbora peçonhenta. — Rachel o cortou mal humorada. Ela detestava Caroline. — Só estou preocupada com meu irmão e com a minha cunhada. Isso é normal após perceber que deixaram o baile às escondidas e não me enviaram uma única carta esclarecedora. A saída misteriosa de vocês deixou uma porção mexericos pela cidade. — informou.
— Algum a qual eu deva me preocupar verdadeiramente? — Jacob indagou preocupado com o rumo das suposições e fofocas a seu respeito e da esposa.
— Nada que deva se alarmar, ainda. As especulações mais maldosas foram em relação à visível paixão do Duque de York por sua incrivelmente jovem e bela nova Duquesa. — Rachel teve a face distendida por um sorriso malicioso.
Jacob não precisava de maiores explicações para entender que comentavam sobre sua paixão ardente pela esposa. E que provavelmente desejava mais passar longos períodos na companhia dela do que em festas, jantares, sarais, bailes...
— Menos mal. — brando aliviado. — O casal Ateara passou pelas mesmas suposições maliciosas e sobreviveram com a reputação intacta.
— Verdade. Porém a sua posição é muito mais elevada que a dos Ateara. Todos olham para vocês com curiosidade e nítido interesse na vida que levam. Somos os exemplos da aristocracia, para manter as tradições. — Rachel concordou após breve reflexão. — Mas mudando de assunto e indo direto ao ponto do motivo que me trouxe a essa visita; o que aconteceu para vocês terem desaparecido? Está tudo bem com a Renesmee? — questionou com notória cautela.
— Tive que sair da mansão Ateara pelo acesso dos criados. Lorde Ateara deu-me a devida cobertura. Lorde Call também ajudou, mandando meu cocheiro para entrada dos fundos. — começou a explicar o duque. — Ainda não tive uma folga no parlamento para ter tempo para descobrir exatamente o que aconteceu na noite do Baile, mas encontrei Renesmee inconsciente nos braços do devasso lorde Patterson, bem na parte mais escura do jardim. Infelizmente ela não se lembra de como foi parar lá, só lembra de sentir-se mal durante a dança.
— Jacob! — a princesa tinha os olhos arregalados e com muito esforço conseguiu reprimir um grito de surpresa. — Com lorde Sean Patterson? Seria um escândalo se alguém os flagrasse juntos. Ninguém iria acreditar que ele estava sendo prestativo com uma dama tão bela. Isso abalaria muito a reputação de lady Black.
— Exatamente. Tive sorte de encontrá-la antes, e o baile ser na casa dos Ateara. — refletiu por breve minuto.
— Você acredita que possa ter o dedo de Lady Daphne Gibson nessa história? Ela nunca foi muito discreta em tentar ocultar o entendimento de vocês. Além de sempre parecer ansiosa com seu regresso a Londres. Acredito que ela não ficou nada feliz em ser preterida. Da mesma forma que acredito que você não mais irá procurar pelos favores da viúva. — Rachel como uma alta dama que é não pode falar tão abertamente sobre o assunto. Ela precisava usar uma excelente seleção de palavras e adjetivos para comentar sobre o escandaloso caso amoroso que o irmão teve com a jovem viúva.
— Eu realmente não sei, mas também não duvido. Só espero que eles dois não tenham ousado tramar contra a reputação da minha Poupée. Pois caso descubra algo a respeito, eu acabo com aqueles dois. Os reduzirei a pó! — bradou taxativo.
—Também espero. — suspirou a lady. Rachel sabia que o irmão não só era capaz de cumprir a promessa, como também tinha poder para isso. — Mas como Renesmee está? O que ela teve? — questionou muito preocupada com a jovem cunhada grávida.
— Mandei chamar doutor Carlson ainda na mesma noite do baile. — na confortável cadeira o duque remexeu-se aparentemente incomodado. — Ele a examinou e constatou nada de preocupante, foi somente uma reação comum na gravidez devido ao calor que fazia no dia. Contudo pediu que a mantivesse em repouso por alguns dias. Está sendo difícil mantê-la deitada na cama. Amanhã o doutor Carlson volta para examiná-la.
— Imagino que você não a deixe se levantar nem para banhar-se. — acusou a princesa. Ela mantinha as sobrancelhas franzidas ao olhar para o irmão.
— Sem dúvidas. — prontamente concordou Jacob, ignorando o tom de acusação da irmã. — Mas por fim, Renesmee agora entendeu que é para o bem do bebê.
— Imagino que tenha sido bastante persuasivo ao impor as suas ordens. — ironizou Rachel. — Renesmee merece ser tratada como uma flor rara e delicada. Ela já sofreu muito na vida e confia cegamente em você.
—Eu a amo demais. — Jacob confessou para a irmã. — Se precisar colocar ela em uma redoma de vidro para protegê-la, assim farei. Ela é tudo que tenho de mais preciso na vida.
Um breve silêncio se instaurou entre os irmãos. Cada um deixou a mente viajar para um lugar distrito, mergulhando assim nas lembranças.
— Rachel. — chamou o duque, despertando a irmã das lembranças da pequenina menina ruiva correndo pela grande mansão em Kent. Parecia ter sido há tão pouco tempo aquela cena, ainda vívida. — Preciso que me faça um favor muito importante.
— O que seria de você sem mim! — provocou a princesa.
Jacob apenas sorriu.
— Elizabeth precisa voltar para Kent. Ela é a governanta de lá, não a aia de uma duquesa. Esse é um cargo inferior ao dela. Além do fato que ela tem importante funções em Kent, já esteve muito um bom tempo ausente. Preciso encontrar uma aia de extrema confiança para minha Duquesa. Tem que ser uma jovem senhora, que seja atenciosa e discreta. Alguém que combine com uma figura mais maternal, do que uma jovem dama de companhia. Sinto que Renesmee fica mais à vontade com esse perfil de criada.
— Sim, claro! — concordou com as palavras do irmão. — Vou pensar com calma e falar com a minha própria aia também. Nós vamos achar alguém à altura para ocupar o cargo. Farei a indicação no máximo em três dias. — assegurou Rachel. — Mas Renesmee já sabe que Elizabeth precisa voltar para Kent?
— Claro. Nós já conversamos a respeito. Prometi que perto do bebê nascer traremos Elizabeth de volta. Renesmee quer que ela esteja presente na hora do parto. E Elizabeth também já está ciente e se prontificou em vir ao primeiro chamado. — as feições do duque se contraíram em nítido sinal de dor com aquele pensamento. Ele não gostava nem de imaginar como seria o momento do parto da esposa.
— Que bom saber. Dará tudo certo dessa vez. Eu tenho certeza, não se preocupe.
— Que Deus te ouça, pois sem Renesmee eu não vivo. — o duque apenas murmurou, porém Rachel ouviu muito bem.
— Vou achar a aia perfeita para lady Black. — mudou o assunto tão desconfortável. — Mas vocês precisam retornar ao convívio social o mais rápido possível, logo os comentários serão ainda mais especulativos. Vocês precisam oferecer algum evento nessa temporada. E Renesmee precisa ir aos chás que for convidada, as ladies precisam notar suas mudanças físicas. Ainda não ouvi nenhum boato sobre a gravidez.
— No momento não ligo para os boatos. Primeiro a segurança da minha esposa e do nosso filho, depois os eventos sociais e obrigações aristocratas.
— Está bem, Jacob. — Rachel levantou-se da cadeira, precisava voltar ao palácio. — Mas não esqueça que você é um Duque e tem uma nova Duquesa para inserir nesse covil que é a sociedade aristocrata.
— Entendo perfeitamente minhas obrigações. Não se preocupe, arrumarei logo uma solução. — Jacob foi em direção da irmã gêmea, abraçando-a e beijando o topo de sua cabeça. Não era um costume comum na sociedade irmãos serem tão afetuosos um com os outros, mas a família Black era muito conhecida por seu forte vínculo de amor e carinho.
~ * ~
A enorme bandeja de prata era equilibrada pela jovem senhora com certa dificuldade, as emoções daquele dia estavam alterando a sua impecável capacidade em executar qualquer mínima tarefa. Partir nunca era fácil, ainda mais quando algo muito precioso ficava para trás.
Elizabeth se deteve por alguns minutos para admirar a menina ruiva que dormia encolhida e agarrada a um travesseiro na enorme cama. Era a sua menina. A garotinha que viu quando era apenas um bebê. Que pegou no colo, que embalou os sonos, que mimou... Mas que acima de tudo ama como uma filha.
Renesmee havia trilhado um perigoso caminho que nem em sonhos a governanta poderia ter imaginado. Ela tinha se transformado na duquesa de York, ostentando um dos maiores e respeitados títulos de nobreza do Reino Unido.
O caminho até ali havia sido trilhado de forma torta, mas Elizabeth tinha a certeza que lá em cima não só Deus, como também Katherine e William, guiavam o caminho da doce menina.
A rechonchuda senhora soltou um suspiro. A sua menina era tão jovem para ocupar uma posição tão importante e de grande peso.
Renesmee agora teria que ser esposa, duquesa e muito em breve mãe. Porém todo amor que jamais imaginou que o duque pudesse um dia sentir, foi concedido exclusivamente a sua garotinha.
Jacob Black, o atual duque de York e Cambridge, o menino que também ajudou a criar, transformou-se de forma esplendida em um homem respeitado e honrado. Ele descobriu o amor verdadeiro na menina que sempre esteve ali, ao seu alcance.
— Bom dia, meu anjo. — Elizabeth disse com a voz suave, já abrindo as pesadas cortinas na cor lavanda.
Já eram dez horas da manhã, Renesmee precisava acordar e fazer o desjejum.
— Bom dia, Lizzi! — disse a voz suave, porém ainda rouca por acordar naquele momento. — Sinto-me preguiçosa hoje. — confessou com as bochechas coradas.
— É o bebê. Acontece com algumas grávidas. — esclareceu a governanta. — Seu banho já esta pronto. Gostaria de banhar-se antes do desjejum?
— Acho que sim. — Renesmee sorriu com ternura. — Vou sentir tanta falta dos seus cuidados. — reprimiu com certa dificuldade no nó na garganta que ameaçava se torna em um pranto.
— Sempre que precisar de mim é só mandar me chamar que virei correndo. Porém agora preciso partir, todos em Kent aguardam meu retorno. A casa deve esta um caos agora que Rosamund adoeceu. — Elizabeth retirava a bonita camisola da duquesa enquanto conversava. Ela não tinha visto os olhos marejados da jovem.
Elizabeth banhou a ruiva como se ainda fosse uma criança pequena. Esfregou as costas, os pés, as mãos e as unhas. Lavou os cabelos massageando de forma deleitosa o couro cabeludo delicado. Provavelmente seria a última vez que faria aquilo.
Com todo cuidado possível e segurando de forma firme as mãos pequenas e magras, a governanta ajudou a garota sair da banheira. Era uma ordem expressa do duque não deixar a esposa um único momento só durante o banho. Ele tinha pavor só de imaginar que ela pudesse escorregar ao tentar sair sozinha da banheira.
Com incrível delicadeza Elizabeth enxugava o corpo miúdo, mas que nu já carregava o evidente sinal de que não estava só. Renesmee tinha uma pequena ondulação no ventre — que era facilmente notado por ter o corpo magro — e os seios que mesmo ainda pequenos já estavam mais cheios. Ela precisava alertar esse fato ao duque, logo os criados iriam especular.
Todos os cuidados de higiene e vestes na jovem duquesa foram realizados como se fosse um ritual por Elizabeth. Era uma forma de despedida. Ela deixava para trás uma menina e reencontraria uma mulher, mãe.
— Lady Black. — a governanta de Kent chamou por Renesmee e a fitou através do espelho. Ela escovava as longas madeixas acobreadas da duquesa. — Partirei logo após o almoço, não posso mais adiar meu regresso a Kent devido ao adoecimento de Rosamund. O duque já providenciou tudo. Vossa graça fez questão que eu fosse com um coche de aluguel e não em uma diligência. Porém a nova aia que a princesa designou só chegará amanhã à noite, ocorreu algum problema na estrada e vai atrasar a chegada. Designei uma das criadas para servi-la como aia até que chegue a nova. É uma jovem muito gentil e amável, soube que algumas vezes serviu a antiga também. — informou Elizabeth.
— Ninguém jamais substituirá você. — Renesmee virou-se para ficar de frente para a senhora e a olhou nos olhos. — Porém sei que fez a melhor escolha. Gostaria que pudesse ficar, mas sei que Kent é o seu lugar. Também sinto muita falta de lá. — inesperadamente a jovem abraçou a cintura larga da governanta. Os bracinhos pequenos e finos não conseguiam envolver toda a circunferência.
Elizabeth ficou sem falas por um minuto. Não era correto para uma duquesa abraçar um criado bem inferior a seu nível, porém ela compreendia que Renesmee só fazia aquilo por não enxergá-la como uma criada qualquer. Isso encheu de amor o coração da senhora.
— Fiz um presente para você. — Renesmee soltou o abraço firme e sorriu. Imediatamente levantou do banco acolchoada da penteadeira e foi até a porta de acesso ao quarto do esposo. Ele tinha deixado lá o que ela havia pedido a ele.
— Não! — Elizabeth disse alarmada. Aquilo iria além do aceitável pela sociedade, mas parecia que Renesmee não ligava e ignorava todos os protocolos.
Quando Renesmee voltou para o próprio aposento, trazia consigo um enorme embrulho. Imediatamente deu a governanta que sempre cuidou dela, principalmente depois da morte da mãe.
Elizabeth aceitou muito emocionada e abriu depois dos empolgados incentivos da Lady.
— Oh meu Deus! — exclamou emocionada.
— Eu mesma quem fiz enquanto fiquei de repouso, por esses dias. — a ruiva confidenciou timidamente.
— Está perfeito. É muito lindo — confessou sincera. Os olhos acinzentados da senhora estavam úmidos pela emoção.
Renesmee havia pintado um belíssimo quadro. Era a imagem dela mesma sentada enquanto Elizabeth escovava seus cabelos.
A governanta constatou — depois de minuciosa analise — que mais parecia uma imagem espelhada. Renesmee provavelmente passou todo tempo memorizando cada detalhe através do espelho para poder pintar o quadro. Ela tinha um talento incontestável.
A jovem senhora entendeu que aquela era a forma sutil que a menina encontrava para expressar o quanto a amava. Isso foi muito mais gratificante que qualquer presente que ela já recebeu em toda vida.
O dedilhar preciso nas teclas em marfim entoavam um acorde melodioso, as mãos pequenas e hábeis deslizavam com a exatidão de um profissional. Renesmee tocava concentrada uma partitura. A música expressava exatamente o seu estado de espírito naquele momento; melancolia e nostalgia.
Elizabeth havia partido de volta para Kent naquela tarde. A jovem duquesa já sentia o vazio que a figura da governanta havia deixado em seu dia.
A garota ruiva sentia falta da vida no campo, dos empregados — que mais eram como amigos —, da égua branca, dos dias de paixão ardente e desprendida que viveu em outro verão com o duque...
No campo a vida era mais livre e leve.
A noite morna de primavera chegou trazendo uma linda lua prateada, mas a jovem duquesa não havia se dado conta deste fato. Ela estava absorta em sua sala privada tocando o enorme piano branco que havia ganhado do marido.
— Com licença, Milady. Desculpe-me por interrompê-la. — a abordou uma jovem que Renesmee julgou ter uns vinte e seis anos. Ela tinha olhos e cabelos castanhos claros e a pele pálida, bem comum para uma inglesa. E apesar do corpo voluptuoso, não havia uma beleza marcante, apenas traços comuns. — Está na hora de seu banho, Milady. Precisamos arrumá-la para o jantar. — sorriu amável a criada.
Era a camareira que Elizabeth havia destinado para atender a duquesa enquanto a aia que foi selecionada não chegava. A jovem em outros tempos também serviu algumas vezes a duquesa falecida. Estava acostumada ao serviço.
— Mais já? Que horas são? — a ruiva perguntou surpresa. Havia perdido a noção do tempo.
Tinha entrado naquela sala pêssego e rósea logo após a partida de Elizabeth, ainda era começo da tarde. Tomou um chá com biscoitos que lhe trouxeram, porém não fazia ideia que já tinha se passado tanto tempo assim.
— São seis e meia, Milady. Temos duas horas até o jantar para aprontá-la. — elucidou a criada.
— Claro! — Renesmee devolveu o sorriso gentil.
Ela desceu a tampa para guardar as teclas e ergueu-se do confortável banco acolchoado.
Em silêncio as duas jovens seguiram em direção ao andar superior, encaminhavam-se para os aposentos da lady.
Já no salão de banho da duquesa, a empregada começou a retirar o lindo vestido vespertino amarelo da patroa. Não passou despercebido pela criada a falta de uso do espartilho. Elizabeth antes de partir havia informado sobre o estado delicado da nobre.
A aia temporária fez todo o ritual que lhe foi especificado e muito recomendado. Todo cuidado era pouco com a preciosa esposa do duque.
Em nenhum momento a empregada deixou a lady sozinha. Ajudando-a durante o banho, além de entrar e sair da banheira de porcelana francesa com pés em prata.
Mesmo Renesmee sentindo-se acanhada em ter praticamente uma desconhecida vendo-a nua, tentou agir com naturalidade comum aos nobres, sempre tão acostumados a esse íntimo cuidado.
Como a duquesa mantinha-se calada e com o olhar distante, a empregada aproveitou para analisar discretamente cada mínimo detalhe do corpo da jovem.
A mulher que havia notoriamente roubado o coração do duque era igualmente linda de rosto e de corpo. Miúda e delicada, porém com curvas nos lugares e proporções certas. Parecia uma das ninfas retratadas em belos quadros por muitos pintores famosos da época.
Mesmo esguia, um volume muito discreto se destacava no ventre que deveria ser plano, combinando com o biótipo da lady. Os seios pequenos pareciam inchados. Era inegável a gravidez. A criada sorriu discretamente com isso.
— Desculpe-me, mas não me recordo do seu nome. — confessou a duquesa um pouco desconfortável pela falha.
— Johnson. Diana Johnson, Milady. — prontamente respondeu com um sorriso gentil.
— Senhorita Johnson, eu não estou mais fazendo o uso do espartilho. — a duquesa ressaltou ao ver a mulher trazendo a peça e aproximando de seu corpo.
— Perdoe-me, Milady. — imediatamente Diana devolveu a peça para o suporte onde havia posto. — Foi um momento de desatenção da minha parte. Mil desculpas pela falta.
— Não precisa lamentar, senhorita Johnson. É totalmente compreensível, uma vez que não é nada decoroso ficar sem a peça. Mas meu esposo não quer mais que eu os use. — sorriu condescendente.
— Claro, milady. Senhorita Winslet já havia me alertado sobre o assunto. Foi uma falta grave da minha parte. Perder-me, mais uma vez.
A empregada seguiu vestindo a lady com mais atenção, lembrando de cada detalhe e ressalva que havia sido feita pela governanta de Kent antes de partir.
Renesmee foi vestida com um lindo vestido de tafetá da seda azul claro com aplicações de renda renascença na cor champanhe. Um delicado conjunto de colar e brincos em diamantes foram escolhidos para adorná-la.
A ruiva pediu para que um penteado simples fosse feito. Jantaria somente ela e o marido em casa, não receberiam visitas. Ela queria está simples, mas ainda assim bonita para ele.
— Milady é muito linda. Tem o tom de ruivo mais bonito que já vi em todo Reino Unido. — adulou a aia enquanto escovava os longos cabelos cor de cobre vibrante.
Renesmee sorriu para agradecer o elogio, no entanto estava distraída olhando para a boneca que repousava em sua penteadeira. Era a mesma que Jacob havia lhe dado há anos atrás. Foi a única boneca que fez questão de trazer de Kent, as demais foram cuidadosamente guardadas. Eram igualmente preciosas porque a maioria foi dada pelo falecido duque.
— Obrigada. — agradeceu assim que a jovem terminou o penteado. Era um coque frouxo com duas tranças em cada lateral que se uniam ao amarrado central.
— Por nada, milady. — Diana passou um pouco de pó de arroz e rouge nas bochechas e lábios da duquesa. Ela estava esplêndida. — Se milady me permite dizer, cuidei em algumas ocasiões da falecida lady Black. Estabelecemos umcerto tipo de proximidade. Ela era tão boa e gentil, sempre me dava os vestidos, toucas e chapéus que não queria mais. Eu adorava servi-la. Tínhamos uma espécie de acordo. — a mulher lançou um olhar malicioso para a Renesmee, que presta atenção em cada palavra dita. Ninguém nunca falava de Leah com ela. — Ela era sempre muito generosa comigo, principalmente quando estava no mesmo estado que Milady encontra-se agora. — olhou sugestivamente para o ventre da patroa. Diana voltou a falar enquanto começava a vestir as luvas longas de seda na nobre dama. — Eu era muito atenciosa com a falecida lady Black e até mesmo com Vossa graça, o duque. Não sei se é de seu conhecimento, mas todas as gestações foram muito delicadas e o duque precisava de um apoio para passar por todos esses períodos de ausências. — finalizou com naturalidade. O sorriso, embora discreto, era malicioso, e pela primeira vez Renesmee percebeu.
Um calor dominou o corpo da duquesa, o coração trotava em um rimo descontroladamente desconhecido. Não só o rosto, como também todo o corpo parecia ferver. Toda a amabilidade e empatia que antes Renesmee sentia pela criada extinguiram-se em fração de segundos. Assim como a chama de uma vela se extingue abruptamente quando exposta a uma tempestade.
— Obrigada, senhorita Johnson. É só isso. Está dispensada. — a ruiva disse muito séria após a mulher terminar de vestir as luvas.
— Claro, milady. Se precisar é só avisar. Terei todo o prazer em atendê-la no que me for solicitado. — Diana ousou por fim.
A aia temporária deixou o cômodo em silêncio, mas com cabeça erguida.
Diana havia se deitado com o duque por diversas vezes enquanto os lençóis dele se mantinham frios e vazios devido ao impedimento da falecida duquesa em cumprir com as obrigações como esposa.
O que o nobre nunca soube era que todo o jogo e a áurea sedutora que foi envolvido na época, se tratavam de um acordo velado entre a própria esposa falecida e a ambiciosa criada.
Leah acreditava que uma amante de classe social muito inferior a do duque — assim como as prostitutas — não exercia nenhuma ameaça a sua posição. O que já não acreditava ser uma garantia caso tratasse de alguma nobre da aristocracia. Elas estariam no mesmo nível social que o dela.
Renesmee deixou-se cair sobre o confortável canapé de estampa floral na cor de lavanda. Um sentimento — até então desconhecido — dominou a jovem duquesa.
Ela não sabia, mas estava saboreando o amargo gosto do ciúme em sua maior proporção. A raiva e o ciúme eram tão grandes que ela começou a tremer e a enxergar tudo embaçado. Respirando fundo ela tentava controlar as emoções, agora totalmente descompensadas.
Fale com o autor