Bloom
34 In Kent - Part II
Notas iniciais

Alguns dias haviam se passado. Todos os nobres convidados já haviam chegado á Casa Black e as festividades tinham enfim começado. Todos estavam felizes e satisfeitos com os muitos eventos preparados, não havia um lugar na propriedade Black, em Kent, que não houvesse um murmúrio sequer.
~*~
Era meio da manhã, todos já haviam feito o desjejum e saído para realizar um tipo de atividade
Em poucas horas aconteceria um grande almoço ao ar livre. Tendas e toda uma estrutura adequada já estava sendo montada por diversos criados da casa.
Os aristocratas convidados do Duque e da Duquesa estavam espalhados pela propriedade campestre e pelo vilarejo.
Comerciantes locais estavam eufóricos com o significativo aumento nos lucros devido as diversas compras realizadas pelas ladies convidadas de Lady Black. Já no campo alguns cavalos de puro sangue inglês pastavam soltos enquanto seus donos descansavam e conversavam após uma amistosa corrida.
Nos belos jardins da Casa Black algumas crianças brincavam, sendo seguidas de perto por suas babás. E próximo ao lago havia um grupo de jovens rapazes — novos o bastante para se casarem e velhos o suficiente para serem considerados bons partidos — flertando com algumas mocinhas que optaram em passar o dia no campo invés de ir as compras no vilarejo.
Destacado de todos os burburinhos e do aumento significativo de clientes, estava a loja do boticário. Era um recinto mal iluminado, que cheirava a cedro e alecrim. O dono da pequena loja enquanto esperava por possíveis clientes etiquetava distraído alguns potes de vidro com sementes.
— Com licença, Senhor. — uma voz infantil de menino chegou até o senhor de cachos grisalhos que estava atrás do balcão.
— Boa tarde, meu jovem. — a voz cansada e grave do dono do estabelecimento viajou até o menino que estava nas pontas dos pés.
O garoto de cabelos escuros repartidos ao meio não deveria ter mais que dez anos, pensou o senhor Malog. Não era nobre, via-se isso pelas vestes simples e fora dos padrões, mas possuía educação e bons cuidados.
— Em que posso ajudá-lo?
— Eu gostaria de comprar isso. — o garoto lhe estendeu um papiro pequeno e dobrado.
O senhor juntou as duas sobrancelhas grossas e cinzas.
— Não posso lhe vender isso. Você é apenas uma criança. — falou o homem maduro horrorizado.
— Mas foi o meu pai quem mandou comprar. Ele me baterá se eu desobedecer. — o garoto astuto respondeu.
— Sabe para que serve? — o senhor Malog se inclinou sobre o balcão e fitou de forma desconfiada o menino.
O garoto encolheu os ombros e moveu a cabeça de um lado para o outro, negando tal conhecimento. Ele realmente não fazia ideia do que era e para que servia aquilo que deveria comprar, mas o dinheiro recebido pela tarefa ajudaria sua mãe a comprar alimentos para os seus irmãos mais novos.
— Não, só estou cumprindo ordens. Veja — o garoto puxou um saco de pano sem tingimento do bolso da jaqueta. — Meu pai disse para oferecer isso pelo pagamento do produto.
O jovem jogou o saco no balcão e o senhor Malog deu um passo para trás um pouco ressabiado e cauteloso. O boticário pegou cuidadosamente o saquinho e deu uma breve olhada para o garoto.
— Santo Deus!— o senhor levou as mãos enrugadas e empoeiradas a boca por um breve momento. — Seu pai lhe deu isso, criança? — sondou desconfiado.
— Sim, senhor! — respondeu veemente.
Havia muitas valiosas moedas e duas notas de valor alto dentro do saco, que totalizavam vinte libras.
O boticário continuava de boca e olhos redondos e bem abertos. Aquele montante era bem mais que seu rendimento semestral e o produto em questão não valeria mais que três penes.
Seu receio com a venda não era por ser um menino a comprar — estava claro que aquilo era para um adulto, que provavelmente não seria seu pai —, mas sim por se tratar da Beladona. Um tipo de erva que seu sumo adicionado em uma bebida alcóolica tornava-se um forte analgésico e se fosse ingerido em grande quantidade servia como veneno que levaria a morte, com certeza. No entanto uma dose menor poderia ter o efeito abortivo ou na deficiência de uma criança prematuramente nascida devido a suas propriedades de relaxar o útero de uma mulher, acabaria enfraquecendo a capacidade da mãe de segurar uma criança em seu ventre.
O senhor Malog vendia de tudo em sua loja. De betume para face e cabelos até chás para aflorar a sexualidade em um casal. Mas venenos e ervas maldosas era algo que ele comercializava em segredo. Aquela erva solicitada no papel somente seus clientes confiáveis sabiam que ele a possuía.
Ele analisou o menino. Nunca o vira na vida antes. Olhou o papel em seus dedos e não reconheceu a letra.
— Posso vender por dezoito libras, e te dou duas libras se me disser quem está querendo essa erva. — o velho se inclinou novamente no balcão para fitar o garoto.
O menino abriu a boca por causa de um suave susto pela barganha inesperada, mas depois deu um ébrio sorriso pensando no dinheiro que tanto ajudaria a alimentar sua mãe como a seus irmãos menores. Ele pareceu pensar na possibilidade de aceitar a proposta sem causar problemas para si próprio.
— Não direi nada a ninguém, apenas estou curioso. — persuadiu o mais velho.
O jovem por fim deu de ombros.
— A senhora Thomas. — disse baixo, quase em um sussurro.
— Huuum. — Malog deu um meio sorriso e ficou reflexivo por um minuto antes de ir até uma saleta atrás das prateleiras do fundo e voltar com um vidro empoeirado que carregava um liquido escuro e concentrado dentro.
— O que é isso? — curioso o menino quis saber ficando nas pontas dos pés e apoiando o queixo no balcão altíssimo.
— O que me pediu. — Malog respondeu concentrado na tarefa de colocar uma poção do líquido escuro em um frasco menor e embalar o produto. — Não abra e não beba uma única gota. Entregue embalado da forma que estou enviando. Saberei se mexeu em algo. — ameaçou á criança. Aquele produto era muito perigoso, principalmente à curiosidade infantil.
O menino anuiu veemente.
Em seguida o botânico pegou o saco com o dinheiro, separando algumas das moedas — que totalizavam as duas libras — e dando para o menino, como o combinado.
Malog sabia que aquele dinheiro se destinava a comprar o seu silêncio. A senhora Thomas era a dama de companhia de uma abastada Condessa, que residia nas proximidades de Kent. Vez ou outra Anna Thomas o procurava para comprar ervas, principalmente as abortivas, fosse para ela ou para sua patroa.
A julgar pela quantidade exorbitante de dinheiro, ele suspeitou que fosse para a patroa. Novamente! Pelo que ele sabia, Lady Harrison já havia feito pelo menos uns dois abortos, provavelmente de algum amante. Entretanto dessa vez ela parecia mais sigilosa.
Por fim o homem resolveu entregar a mercadoria ao menino e cumprir com sua parte do trato.
Anna sabia exatamente como usar aquela substância perigosa.
~*~
Era fim de tarde e o sol estava perto de se pôr. Um tom laranja suave brigava com o azul cinzento no céu, em breve todo o céu estaria escuro e sem estrelas.
A brisa que antes era suave agora estava um pouco mais gélida, apesar disso os convidados de Kent não haviam sentido a sutil diferença climática.
Eles estavam sobre o gramado verdíssimo do campo da propriedade Black aguardando o resultado da corrida de cavalos que alguns Lordes faziam.
As Ladies impecavelmente vestidas estavam sentadas á sombra de uma frondosa árvore enquanto que as mocinhas solteiras se encontravam de pé, flertando vez ou outra com os jovens cavalheiros em potencial.
A Duquesa encontrava-se sentada sob a sombra de uma grande lona junto a um grupo seleto de Ladies. Elas conversavam amenidades entre elas, mas Renesmee pouco participava. Ela estava mesmo era concentrada na competição que acontecia entre os nobres, na qual participava seu marido.
— Acho que gostaria de uma limonada. Sinto-me seca. — Rachel sorriu ao comentar para ninguém em especial. — Gostaria também de beber algo Renesmee? — disse a princesa que estava ao lado dela.
— Não estou com muita sede, mas irei aceitar um copo de chá gelado de pêssego. — ela sorriu e buscou com os olhos algum criado para vir servi-las, mas no momento todos estavam ocupados servindo a outros convidados do outro lado do campo.
Podia-se ouvir o trotar violento dos cavalos, o som de suas ferraduras chocando-se contra a lama formada ao longe, embora ainda não fosse visível nenhum cavalheiro, sabia-se que eles estavam chegando perto.
A competição estava acirrada e elas aguardavam no ponto de chegada pelo vencedor.
— Também gostaria de uma limonada. — disse sorridente a Condessa de Harrison. — Vou solicitar que a minha Dama de companhia providencie as nossas bebidas. — a voz gentil da lady soou calma e tranquila após notar que no momento nenhum criado da casa estava por perto para atendê-las.
Renesmee e Rachel olharam a aia da Condessa Harrison, elas nem haviam reparado que a mulher estava parada apenas a uns dois metros delas.
Anna era uma loira de seios fartos, beirava os trinta e cinco anos e possuia grandes olhos castanhos. Era sempre muito prestativa e afetuosa, sua patroa lady Janet Harrison adorava-a.
— Não seria incomodo? — Renesmee perguntou cautelosa. Não era comum uma aia sendo imposta ao serviço de um simples criado. — Podemos esperar algum lacaio.
— Imagine, Vossa Graça. Anna se sentirá honrada em servi-las. — a mulher fez um simples gesto com a mão e imediatamente sua dama de companhia aproximou-se. — Anna, poderia providenciar um copo de chá gelado de pêssego para a Duquesa e dois copos de limonada para mim e para Vossa alteza. Mais alguém gostaria de uma bebida? — de forma gentil a jovem lady, perguntou ás outras quatro damas do grupo. Todas aceitaram também a limonada.
— Claro, milady. Providenciarei agora mesmo. — Anna sorriu e curvou-se em uma mesura respeitosa ás Ladies do grupo. — Volto em alguns minutos. Todas irão beber limonada, somente a Duquesa tomará chá gelado de pêssego, correto? — a aia olhou direto para a patroa, que acenou positivamente.
— Obrigada. — Renesmee agradeceu antes da criada se afastar para providenciar as bebidas.
— Não há de quê, Vossa Graça. É uma honra servi-la. — respondeu de forma respeitosa a criada antes de se afastar.
Todas voltaram a conversar ou prestar atenção na corrida. Rachel logo desviou atenção para seus filhos caçulas no carrinho com a babá há uns cinco metros de sua visão.
Anna que anteriormente conversava com uma outra aia de uma outra lady, foi realizar a tarefa recém designada. Estavam todos livres naquela tarde, valetes e aias poderiam desfrutar do jardim e da competição naquela tarde com a condição de que continuassem a prestar assistência a seus patrões assim que solicitados.
Anna estava a horas sem tarefas designadas para fazer. E ela gostava de ser útil.
Lady Harrison engatou a falar sobre a paixão do marido — bem mais velho — para com seus cavalos de estimação e sobre a própria corrida, atraindo assim a atenção de todas as mulheres do grupo com o assunto pertinente para o momento.
A mesa do buffet não estava tão distante de onde o grupo de Ladies permanecia a espera de suas refrescantes bebidas, mas havia gente o suficiente para tornar as duas grandes mesas fartas invisíveis aos olhos das damas, consequentemente a criada também.
O final da corrida se aproximava e todos, até os criados, dirigiriam suas atenções para os metros finais.
Quando Anna retornou com uma bandeja contendo os copos cheios com as bebidas solicitas, destacou o chá da Duquesa e entregou a limonada para as demais Ladies. Na mesma hora os competidores cruzaram a linha de chegada e não houve surpresa quando trovão chegou em primeiro lugar no ponto marcado por uma linha. O conde de Somerest como Juiz e dois lacaios, decretaram o Duque Black campeão daquela rodada.
Jacob desceu sorrindo de seu tão querido cavalo Negro. Logo atrás chegou o príncipe e seu belo Alazão, que na verdade era o segundo favorito do Duque Black.
Renesmee pegou a sua bebida e sem demora levou o líquido á boca. Muita gente junta estava tornando todo o ar do campo quente demais.
O terceiro cavalheiro chegou e em seguida os outros cinco chegaram quase juntos.
Renesmee sorria para o marido, que caminhava em sua direção, conforme levava o copo aos lábios novamente.
— Papai! — dois meninos gritaram juntos ao passarem correndo entre Rachel e Renesmee.
Ainda correndo em direção aos finalistas da corrida, os dois menininhos acabaram por trombar no corpo do duque, sem se abalarem e sem ressentimento, até que finalmente encontraram e abraçaram o Lorde Spencer, pai deles.
Jacob olhou de cenho franzido os dois garotinhos que abraçavam o homem que havia chegado em quinto lugar na amistosa disputa. Quando ele olhou novamente para sua esposa ela estava sendo auxiliada por Rachel e Emma que acabara de retornar de dentro da mansão naquele momento.
Na corrida intempestiva os dois meninos acabaram esbarrando no braço da duquesa, que desequilibrou o objeto que tinha em mãos e em consequência disso deixou o copo com sua bebida ir ao chão gramado. No caminho da queda o líquido molhou e sujou boa parte da saia do lindo vestido verde claro da Ruiva.
— Querida, você está bem? — perguntou o Duque, muito preocupado. Ele começou a inspecionar cada centímetro da duquesa.
A ruiva sorriu e balançou a cabeça.
— Estou bem, Jacob. As crianças só esbarraram em mim, não me machucaram. — Ela falou tocando-lhe a mão.
Jacob anuiu ainda com a face tensa.
— Gostaria de se trocar, milady? — perguntou Emma.
Renesmee auto avaliou-se e deu um suspiro desanimado.
— Está bem.
— Com licença, Miladies. — disse o príncipe se aproximando. — Vamos começar outra rodada, Jacob. Lord Whilt chegou por último e está fora dessa rodada. Lorde Quil Ateara entrará dessa vez. E você, continuará participando? — perguntou ao cunhado.
Jacob olhou Renesmee com carinho. Desde a manhã não trocaram mais que um beijo e cumprimentos carinhosos.
— Vou pular essa rodada, Alteza. — decidiu o Duque — Preciso tratar um assunto com a Duquesa. Na próxima rodada eu entro.
Renesmee virou-se para voltar a mansão e o Duque prontamente cruzou o braço com o dela. Eles passaram a caminhar lado à lado. Emma os seguia a uma pequena distância.
O sol estava quase escondido atrás das curvas ao fim do campo, mas ainda havia uma pouco de luminosidade sobre a casa Black.
De repente Renesmee ficou tensa. Ela percebeu que a visão estava ficando escurecida. Suas cabeça parecia girar, as pernas fraquejaram e ela segurou mais forte no braço de Jacob.
— Poupée, está tudo bem? — Jacob perguntou alarmado.
Ele parou de caminhar e segurou forte em seus braços. As pálpebras de Renesmee batiam freneticamente enquanto ela tentava focar a visão.
— Jacob estou tonta... — ela falou fraca, sentindo todos os músculos de seu corpo tremerem e tão prontamente percebeu uma forte queimação no estômago. — Aiiii.
Ela levou as mãos abaixo dos seios, onde parecia haver um bolo de fogo. Fogo esse que parecia se espalhar por todo o corpo de forma periódica, a cada dois segundos.
— Meu amor, aguenta firme. — Jacob falou desesperado, pegando-a no colo e se dirigindo a passos rápidos a casa Black. Ele praticamente corria.
— Vossa Graça, irei mandar alguém chamar um médico. — avisou Emma apressadamente ao notar o estado debilitado da patroa.
Quando Rachel viu Emma correr em direção a lateral da casa, supôs que ela iria para a entrada dos criados, porém algo a fez notar que havia alguma coisa errada.
Intuição, talvez.
A princesa se levantou e não viu seu irmão e Renesmee, o que era estranho, pois os dois caminhavam sem pressa pelo campo.
Decidida a seguir seus instintos, pediu licença as Ladies do grupo que estava e foi andando em direção a mansão com uma pressa moderada.
Renesmee, já no vestíbulo da entrada, estava ainda mais pálida. Os seus lábios, antes rosados, estavam quase brancos. Ela se contorcia de dor no colo do marido.
— Poupée! — Jacob chamou com voz angustiada.
— Dói muito. — Renesmee choramingou. — Estou tão enjoada. — ela falou débil, sentindo o estômago se revoltar em seu abdómen cada vez mais. A sensação de queimação aumentava a cada minuto, estava difícil até para respirar.
Jacob subiu as escadas de dois em dois degraus. Quando parou com Renesmee em frente a porta dos aposentos dela, a ruiva tentou se desvencilhar do colo do Duque, mas ele só a apertou mais em seus braços protetores. Sem ter força para lutar, a grávida apenas virou a cabeça e deixou um longo jato sair de sua boca e ir de encontro ao chão.
Jacob ficou ainda mais desesperado. Ele contornou a poça que a esposa deixou no chão e correu com ela ainda em seu colo em direção ao biombo com as louças de higiene. Ele a depositou em uma confortável cadeira, prendendo os fios que estavam soltos de seus cabelos em uma só mão e na outra ele segurava sua barriga.
— Minha Poupée... — o murmúrio de Jacob beirava a agonia.
Ele nem mesmo sabia o que havia causado mal estar a sua esposa, mas já estava ficando louco em vê-la daquele jeito. Ela tinha voltado a vomitar em jatos contínuos, só que agora dentro de uma bacia.
*****
Rachel havia acabado de entrar no vestíbulo quando avistou e interceptou a criada pessoal de Renesmee. A princesa indagou a Emma e ficou aguardando a resposta com as mãos nos quadris.
— Milady parecia que ia desmaiar. O Duque a trouxe para dentro e eu fui pedir alguém para ir buscar um médico. O Joey foi à galope até a vila para encontrar o doutor. — ela explicou esbaforida e visivelmente nervosa.
Rachel assentiu e subiu junto a Emma. Ao chegarem no quarto da duquesa, ela se encontrava mole nos braços do Duque, mas ainda estava acordada.
— Deus! O que houve? — a princesa perguntou horrorizada, indo até a cunhada.
— Rachel, ela está vomitando muito. O que ela comeu? Estou ficando desesperado!
Bem, desesperado o Duque de York já estava, mas Rachel não iria contestar. Renesmee curvou-se outra vez sobre a bacia, despejando ali um líquido viscoso, levemente amarelado.
— É melhor deitá-la. Milady está bem fraquinha .— Emma sugeriu, já ajeitando os travesseiros e a manta para a Duquesa.
— Poupée, o que está sentindo? — Perguntou o duque acariciando a face da esposa pálida e fria.
— Uma tontura, tudo está rodando. O meu estômago está revirando e dói. Quero deitar-me. — murmurou.
— Não seria melhor ela banhar-se para refrescar o corpo? — sugeriu Rachel.
— É melhor que ela descanse alguns minutos. — decidiu Jacob.
Ele a deitou muito lentamente na cama, arrumou sua cabeça confortavelmente de lado, deixando que as bochechas alvas dela descansassem no macio travesseiro.
— Joey já foi buscar o doutor, Vossa Graça. — Emma informou ao nobre, que estava sentado na beira da cama acariciando os cabelos cor de cobre da esposa. Ela respirava fracamente.
O Duque anuiu. Seu olhar estava focado na respiração de Renesmee. Ele desceu as vistas para o abdómen arredondado.
A ruiva suspirou pesadamente e deu um leve sorriso quando percebeu a quentura da mão do esposo sobre sua barriga inchada.
— Está tudo bem? — inquiriu o homem temeroso.
Renesmee apenas aquiesceu e colocou uma das mãos sobre a de Jacob em seu ventre. Virando a cabeça para ele, ela sorriu debilmente.
— Não sinto mais as náuseas, só um pouco de desconforto. — informou.
— Tem certeza, Renesmee, sem dor ou sangramentos? — a princesa falou com os pensamentos focados em achar uma explicação para o mal estar da cunhada.
— Não mais. Só sinto-me um pouco tonta e com um leve desconforto no estômago. — ela informou e umedeceu os lábios com a língua esbranquiçada — Tenho um pouco de sede.
Enquanto que Emma foi buscar um copo de água fresca na jarra de prata sobre a mesinha, Jacob afastou um pouco a manta sobre a jovem esposa para verificar se havia ocorrido algum sangramento. Ele estava muito preocupado com ela e o bebê.
— Isso é muito estranho. Renesmee estava bem, corada... — a testa de Rachel franzia ainda mais conforme ela falava.
— Será que foi o calor, Alteza? — Emma cogitou.
— É pouco provável, mas não impossível. — respondeu Rachel, também sentando-se à beira da cama da cunhada.
— Não houve nenhum sangramento, graças ao bom Deus! Mas só ficarei sossegado depois que tiver um parecer médico. — o duque falou com a face bastante séria. Então virou-se para Emma.— Mande Oliver designar um criado rápido e competente para buscar o Dr. Carlson em Londres. Peça ao meu Valete para passar os endereços da casa e da clínica do médico.
Quando a criada saiu com agilidade, Rachel comentou.
— Isso é muito estranho, Jacob.
— Também estou achando, mas não sei o que pensar. — Jacob verificou a testa da esposa, que estranhamente estava com um fino suor. — Ela soa, mas está fria. — murmurou com seus olhos largos de pavor.
Eles observaram Renesmee esforçando-se para beber poucos centímetros de água no copo de vidro.
Ela sentia um gosto ácido, ligeiramente amargo e muito desagradável. Acabou por abandonar o copo sobre o criado-mudo ao lado da cama após três bebericadas nada saborosas.
— Sente-se melhor, Poupée? — sondou o duque temeroso, verificando sua fronte outra vez.
— Sim, mas meu estômago ainda parece queimar. — ela suspirou — Mas acho que não irei vomitar novamente, nem tenho mais o que pôr para fora. — confessou mesmo acanhada devido ao ocorrido.
— Gostaria de se banhar agora? — quis saber o homem.
— Sim. — a voz dela não era mais que um sussurro.
Emma não demorou a retornar aos aposentos da patroa, e eficiente como era já havia deixado um banho preparado para a duquesa .
O próprio Duque fez questão de ser o responsável em refrescar a esposa com bastante esmero. A cor de Renesmee havia voltado, um pouco, mesmo que ela houvesse vomitado uma última vez na bacia antes do banho.
Conforme o Duque — muito preocupado — banhava sua amada, Emma — também bastante pensativa sobre o ocorrido e ansiosa pela chegada do médico — arrumava todo o quarto. Com ajuda de uma camareira, elas limparam o chão vomitado, trocaram a bacia e o urinol, além de abrirem duas janelas para refrescar o ambiente. Elas também trocaram os lençóis e a jarra com água.
Assim que Renesmee estava vestida, penteada e deitada na macia cama, a camareira anunciou que o médico acabara de chegar.
A luz solar já estava um pouco fraca apesar de todas as cortinas estarem abertas, logo quando o homem baixinho e de aparência experiente chegou, Emma acendeu todos os candelabros do quarto. Havia um ao lado da cama, que iluminava bastante a dama sobre o leito.
O doutor Malcom, que era de fato um médico experiente, fez todos os exames básicos. Verificou pulso, respiração, hálito e pupilas... Além de ouvir todo o relato do caso pela voz de Jacob, enquanto Renesmee parecia muito sonolenta tendo suas pálpebras preguiçosamente abertas.
O duque não saiu nem um momento do quarto. Jacob ficou todo o tempo de pé atrás do homem que examinava sua esposa, com braços cruzados e sobrancelhas unidas. Ele prestava atenção em cada mínimo detalhe observado pelo médico.
O Doutor Malcom não emitiu nenhum som durante seus estudos a Lady Black, mas quando observou a garganta dela — pela segunda vez — deu um meio sorriso soturno.
— Como foi a sua alimentação durante o dia de hoje, milady? — o médico quis saber.
— Como sempre, nada de diferente. No desjejum comi algumas fatias de queijo, pão com geleia de mirtilo, chá com leite e uns pedaços de maçã. — Respondeu a ruiva e o médico anuiu, a fitando e incentivando-a a continuar — No meio da manhã tomei chá e comi alguns biscoitos. Almocei cordeiro assado com purê de batata e ervilhas. Não comi a sobremesa. E agora à tarde comi alguns pedaços de queijo e uma fatia de torta de morango, também bebi alguns copos de limonada e chá gelado. — Renesmee concluiu o relato.
O homem ficou com a mão no queixo e o indicador sobre os lábios mostrando que refletia, porém a voz urgente e impertinente do Duque o atrapalhou:
— Sabe o que aconteceu?
O homem suspirou e girou nos calcanhares para encarar o nobre que tinha o dobro do seu tamanho.
— Eu diria que foi um tentativa de envenenamento.
Renesmee piscou freneticamente suas pestanas enquanto o Duque abria a boca e os olhos, deixando o seu corpo lânguido por dois segundos antes de tencioná-lo e fechar as mãos em punho.
— Explique isso, Doutor. O senhor tem certeza? — a pergunta do Duque saiu entre os seus dentes.
— Em absoluto, Vossa Graça. — o homem disse veemente, enfrentando o olhar assustado e furioso do nobre — Ela tem todos os sintomas de quem ingeriu veneno, segundo observei por seus relatos. Além disso, a garganta dela e estômago queimam, o hálito é forte. Creio que ingeriu uma grande quantidade da substância, — ele olhou com pesar para a jovem lady que fitava-o com confusão no olhar escurecido — tivemos sorte de ela ter vomitado. Isso foi um verdadeiro milagre! Ela provavelmente expulsou todo o veneno do corpo.
— Mas... Mas... — Ninguém ouviu o titubear da Duquesa.
— Ela comeu ou bebeu algo envenenado nesta casa, e posso afirmar que não tem muitas horas. Provavelmente no período agora da tarde. O cheiro é amargo e vívido, de ervas. Presumo que alguém tentou envenená-la, se não fosse assim também teríamos outros passando mal aqui. — completou o médico de forma eloquente.
— Meu bebê... — Renesmee levou a mão ao ventre, ainda alarmada e confusa. Ela tinha os olhos mareados pensando que algo poderia ter acontecido ao seu filho, mesmo quando não sentia nada de errado em seu ventre.
— Não se preocupe com isso, Vossa Graça. — Malcom disse e sorriu para a jovem ruiva. — O fato de ter vomitado mostra que nada chegou a criança. Por precaução fique atenta a cólicas e enjoos, mas acredito que não sentirá nada. Com toda a certeza o veneno não chegou ao ventre. — ele assegurou.
— E se ela voltar a enjoar ou sentir cólicas? E se o veneno se espalhou?— perguntou o Duque muito angustiado, mas tentando controlar o desespero na frente da esposa.
— Se enjoar, apenas repouse e beba bastante água. Aliás, recomendo que ingira apenas alimentos líquidos, como sucos de frutas e caldos pelos próximos dias. Será mais fácil para engolir e para a digestão, toda essa região que passa os alimentos estão sensibilizadas. Caso sinta cólicas ou tonturas não hesite em me chamar, Lorde Black. — respondeu.
******
Naquela noite o jantar ocorreu sem a presença da Duquesa. A justificativa dada foi "um pequeno mal estar, característico da gravidez". O Duque apenas sentou-se à mesa para jantar com seus convidados e retirou-se logo após tomar o vinho do Porto com os Lordes. Ele desculpou-se por se retirar cedo, mas informou que iria fazer companhia a esposa.
Emma havia ficado no quarto velando o sono da patroa durante a ausência do Duque. Jacob agora só confiava em Elizabeth e Emma para cuidar de sua amada enquanto ele não estivesse.
O Duque deixou a irmã e o cunhado como os anfitriões da noite, em sua ausência. Não era um protocolo convencional, mas nem Rachel e Paul ligaram de quebrá-lo.
Mais tarde quando o médico já havia partido e todos os convidados se retiraram para seus aposentos, Rachel foi fazer companhia a Jacob no quarto de Renesmee. Ela ressonava tranquila quando a princesa chegou. Toda a casa estava silenciosa agora.
— Elizabeth informou-me que Doutor Carlson provavelmente deve estar chegando aqui amanhã pela manhã, no mais tardar na parte da tarde. — Rachel informou, apoiando as mãos nos ombros largos do irmão.
Jacob encontrava-se sentado em uma poltrona colocada à beira da cama da amada. Seu corpo estava inclinado para frente, de modo que pudesse ver melhor cada respiração da esposa. Seus cotovelos estavam sobre as coxas e suas mãos unidas rente aos lábios.
A expressão dele era séria, e por mais que o ambiente estivesse desprovido de uma boa iluminação, Rachel poderia sentir a inquietação dele através dos ombros tensos.
— A todo momento me pergunto como isso foi acontecer. — refletiu a princesa, antes de um suspiro.
— Eu também. — falou ele atrás das mãos, seu olhar fixo no ventre de Renesmee. — Até hoje todos os meus criados eram de absoluta confiança, mas agora não sei mais em quem posso confiar. Eu quero, e vou, descobrir quem fez isso com ela. Então vou acabar com esse infeliz.
— Jacob ditou firme, seguro de suas palavras.
— Você acha que... — Rachel começou, porém hesitou e parou. Tirou as mãos dos ombros de seu irmão e caminhou até a janela fechada, afastou apenas um milímetro da pesada cortina e observou o céu.
— O que, Rachel? — Jacob falou gutural demais, sombrio ao ponto de fazer Rachel se sobressaltar e olhar para ele.
Jacob era apenas uma silhueta grande e larga naquela escuridão do quarto. Havia apenas um candelabro próximo a Renesmee e outro próximo a porta, mas mesmo sob pouca luz Rachel sabia como o irmão estava furioso.
Ele se colocou de pé e cruzou os braços.
— Termina, Rachel. — demandou o Duque.
A princesa resfolegou e relaxou os ombros.
— Essa noite, conversando com Paul em nosso quarto, antes do jantar, ele ressaltou um ponto importante. Se fosse algum criado da casa, ele estaria envenenando-a de forma lenta, sem levantar suspeitas. Mas pelo que você contou, o médico disse que foi administrado uma alta quantidade de veneno de uma única vez. Com certeza foi alguém de fora, que aproveitou todo a agitação dos dias de festividade para agir de forma cruel. — Rachel parou o narrativa por um segundo e olhou para o irmão alguns minutos mais velho. — Acha que foi coisa do Barão? — indagou de forma cautelosa.
Ela ouviu um grunhido do irmão e o corpo dele cair na poltrona. Foi então que ela se aproximou.
— Eu vou matá-lo. — rosnou com a voz baixa.
— Não pode... — Rachel dizia ao lado dele.
— Rachel, eu irei matar aquele miserável. Ele tentou matar a minha esposa e meu filho, alias, já não é a primeira vez que ele tenta contra a vida da minha Renesmee.
— Não podemos ter certeza que foi ele. Apenas levantei uma hipótese...
— Não há outra explicação. Renesmee não tem inimigos, não faz mal à ninguém. É bem vista por quem a conhece. Só esse canalha que a odeia. — afirmou ele entre os dentes. Dois de seus dedos tamborilavam sobre o queixo em um tique nervoso. Rachel repousou na beira da cama e viu a penumbra de Renesmee que fazia a manta subir e descer levemente. A voz de Jacob roubou sua atenção — Só quero saber como ele conseguiu isso. — ele deu um suspiro derrotado.
— Acho que será difícil descobrirmos realmente quem fez o serviço por ele, a casa está lotada. Hoje durante o dia nós duas fomos servidas por muitos criados, inclusive os que não são nossos. Mas independente de quem fez o trabalho sujo, nós iremos nos vingar do Barão Cullen, meu irmão. Ele já merece uma desgraça. — ela deu um sorriso diabólico no escuro. Jacob sabia que ela o ostentava apenas por notar a maldade em sua voz. — Apenas somaremos ao seu castigo. Odeio esse homem. — ela colocou uma mão sobre a mão de Jacob, que ele havia deixado cair do queixo até a coxa.
Com aquele gesto ela transmitia seu total apoio a ele.
Jacob mantinha sua outra mão na cabeça delicada da esposa. Ele havia provado de um pavor naquela tarde que teria o matado se houvesse se prolongado mais.
Céus! Só de imaginar que àquela hora sua mulher e filho poderiam estar mortos o corroía por dentro. Ele queria socar alguma coisa. Bater até os ossos das mãos se esfarelarem e não sobrar mais força.
Por fora ele aparentava estar muito calmo, mas por dentro estava em frangalhos. Quase viu sua doce amada morrer em seus braços. E ele como um impotente que apenas assistiria tudo sem poder fazer absolutamente nada!
Ele seria capaz de matar sem dó o responsável por aquilo. Mas a morte era muito pouco para o Barão. Jacob não via a morte como um castigo, mas sim como um descanso. Edward Cullen merecia a ruína, e seria exatamente isso que ele teria. Em breve o nome Cullen seria extinto da aristocracia inglesa!
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