Bloom
39 I Miss You
Notas iniciais

O nobre encolheu-se devido a corrente de ar frio que sentiu gelar instantaneamente todo o seu denso corpo. Por instinto, apertou mais o grosso casaco ao corpo e afundou-se ainda mais no macio estofado do automóvel.
Estava totalmente disperso... Nem mesmo atentou-se quando a carruagem entrou na elegante rua que ostentava as mais belas e luxuosas mansões de Londres. Na verdade, ao menos tinha notado que já havia chegado a grande cidade.
Outra vez o nobre sentiu uma rajada fria de ar lhe golpear e tencionou ainda mais os músculos já retesados. Seus ouvidos também capturaram um som distinto, até mesmo forçado. O que realmente acabou chamando a sua atenção.
— Perdão, Vossa Graça! — pediu constrangido o criado pessoal do nobre.
Robert já tinha aberto a porta da carruagem fazia algum tempo e esperou por uma reação do patrão, o que não veio após longos minutos de espera. Por fim, o criado acabou optando por coçar a garganta de forma ruidosa para ver se assim conseguia chamar a atenção do disperso patrão.
Jacob olhou confuso para o Valete. A tática do criado havia funcionado!
Os pensamentos do Duque estavam realmente muito distante dali... Era um turbilhão de emoções e sentimentos conflituosos, assim como diversas preocupações gritando em sua mente. Teria muitos assuntos para tratar em Londres, assim como também iria precisar prestar solidariedade ao amigo naquele momento tão delicado. No entanto o que realmente estava incomodando-o era ter que se afastar, por um período a princípio indeterminado, de sua amada família.
Ele teve que partir de forma intempestiva, deixando a esposa e o filho recém-nascido para trás. Não havia dúvidas que eles estariam bem mais seguros em sua pacata propriedade de campo, mas tal fato não amenizava o aperto no peito do nobre. Era a saudade que já se fazia presente.
Jacob empurrou os pensamentos em sua mente, piscando os olhos por alguns segundos na intensão de recompor a máscara de seriedade que sempre carregava. Então olhou através da janela e atentou-se que já havia chegado a sua própria mansão em Londres.
A porta da carruagem estava aberta e o empregado esperava parado do lado de fora para recebê-lo.
O duque empertigou-se no banco, aprumou o casaco e colocou na cabeça o chapéu que repousava ao seu lado no assento. Só então se viu pronto para descer da carruagem.
— Robins, eu subirei direto para os meus aposentos. Gostaria de desfrutar de um banho quente antes de recolher-me para o leito. — o duque falou para o valete assim que deixou a carruagem.
— Claro, Vossa Graça. — Robins curvou de forma leve a cabeça, em uma respeitosa mesura, já saindo para realizar o pedido do patrão.
— Boa noite, Vossa Graça. — Smith, o mordomo que aguardava o patrão chegar, em uma fila de criados na frente da propriedade, fez uma reverência impecável. — Seja muito bem-vindo à Casa York. Estamos todos felizes pelo vosso regresso.
Jacob cumprimento de forma breve cada criado de sua casa em Londres antes de entrar na mansão. Era bem tarde, na verdade, já era de madrugada. Fazia bastante frio aquela noite de outono.
Normalmente o Duque não gastava tanto tempo em suas viagens de Kent até Londres, mas dessa vez a sua carruagem não seguia sozinha. Na verdade, era o veículo da família Ateara quem ditava a velocidade da viagem, que devido a recente gravidez descoberta de Lady Claire, acabou optando por realizar todo o percurso em uma velocidade bem baixo da média que o duque estava acostumado. Porém Jacob compreendeu totalmente o zelo do amigo, no lugar do visconde ele teria feito exatamente o mesmo. E por mais que a família de Quil estivesse utilizando a própria carruagem, o veículo do Duque acompanhou a velocidade imposta pelo nobre amigo, seguindo atrás do veículo da família do Visconde.
Jacob estava exausto físico e emocionalmente. Julgando precisar apenas de um bom banho e algo saboroso para comer antes de desfrutar de uma boa noite de descanso, o duque fez questão de deixar claro os seus desejos para o mordomo antes de subir para os próprios aposentos. Ele sabia que precisava de uma boa noite de sono, pois a manhã seguinte seria bem atarefada, começando por uma visita à Casa Call logo nas primeiras horas do dia.
~*~
Já devidamente banhado e vestido em um confortável conjunto de pijama em veludo azul marinho, o duque sentou em sua escrivaninha.
Ele escreveu algumas breves missivas, lacrando à cera e marcando com o seu brasão. Entregou tudo ao Valete para que fossem despachadas logo de manhã bem cedo. As cartas deveriam ser entregues a todos que teriam algum compromisso com o Duque no dia seguinte.
— Com licença, Vossa Graça. — Smith entrou no exato momento que o duque estava dispensando o Valete. — Trouxe a sua refeição. — o mordomo depositou a bandeja de prata em uma mesa próxima à lareira.
Jacob elevou de forma mínima a comissura dos lábios. Estava cansado e desejava dormir, mas também se encontrava igualmente faminto.
— Obrigada, Smith. — o duque ergueu da escrivaninha e caminhou até a mesa, sentado logo em seguida. Ficou bastante satisfeito com a refeição servida. Na bandeja continha chá, leite, biscoitos, suco e um suculento sanduíche. — Já pode se recolher para descansar. — dispensou o mordomo. Sabia que o fiel criado teria poucas horas de sono.
— Obrigado, Vossa Graça. — o mordomo fez uma respeitosa reverência de forma impecável. — Milorde. — Smith chamou pelo patrão antes mesmo de mover um único músculo. Jacob desviou atenção da comida para olhar o empregado. — Como o representante dos criados da Casa York, gostaria de falar por todos. — começou o discurso de forma solene. — Todos nós ficamos extasiados com a notícia do nascimento do herdeiro de York, além de saber que a Duquesa vem se recuperando magnificamente bem do parto. Gostaríamos de desejar uma vida longa, saudável e plena para Lorde William Jacob. — finalizou o mordomo.
Mesmo falando tudo de forma solene e bem séria, Jacob conseguiu captar um brilho de alegria no olhar do empregado já de meia idade. Ele sabia que tinha empregados fiéis, que há muitos anos prestavam os seus serviços a sua família. Mas o que o nobre jamais seria capaz de mensurar era que para muitos dos criados, os seus patrões significam tudo o que tinham e honravam. A felicidade de seus senhores trazia verdadeira alegria para criadagem.
Jacob sorriu de forma ampla. Era a primeira vez que sorria verdadeiramente desde que deixou Kent. Falar do filho e da esposa era motivo suficiente para ele sorrir.
— Obrigado, Smith. Agradeça a todos em meu nome. — Jacob não conseguiu conter o sorriso. — A Duquesa foi muito forte e determinada ao trazer o nosso filho ao mundo, foi um parto demasiadamente longo e exaustivo. William nasceu grande e saudável. — ele sorriu mais uma vez ao lembrar-se do herdeiro. — Ele cresce a olhos nus a cada dia que passa. Todos dizem que se parece muito comigo, apesar de ser ruivo como a mãe. Ele é perfeito! — concluiu orgulhoso. — Com certeza vocês irão conhecê-lo na próxima temporada, quando regressarmos a Londres no período da primavera e verão.
Jacob fez uma breve narrativa ao mordomo. Queria deixá-lo devidamente informado sobre o herdeiro e a esposa, sabia que a informação seria passada aos demais criados. Era mais uma questão de gratidão aos fiéis empregados do que uma obrigação ou um protocolo. Não faria mal algum falar um pouco sobre eles.
Smith ouviu tudo com atenção e até deixou escapar um discreto curvar dos lábios, era um sorriso contido. Ele já imaginava que o duque voltaria para Londres sem a duquesa e o herdeiro. O parto tinha acontecido há pouco tempo para arriscar uma longa viagem de carruagem em pleno outono.
O mordomo se retirou após o duque encerrar toda a narrativa e liberá-lo. Smith deixou o aposento do patrão após desejar ainda mais felicitações para a duquesa e o bebê.
Jacob comeu em silêncio. Falar sobre a esposa e o filho despertou ainda mais saudade e nostalgia. Era até mesmo difícil imaginar a vida sem eles.
Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar
O duque sorriu incrédulo ao constatar que Renesmee havia mudado todo o seu mundo sem ao menos ter a menor pretensão de tal fato. Ele sempre acabava se perguntando como tinha vivido até aquele momento sem os seus bens mais preciosos. Constatou que apenas tinha sobrevivido até então. A menina ruiva, que ele conhecia desde sempre, mudou sem qualquer ambição todo o seu modo de enxergar a vida.
Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar
Jacob olhou todo enorme e o luxuoso quarto, até que os seus olhos recaíram para a porta de ligação com o quarto que agora pertencia a sua amada. Uma sensação ambígua, de anseio e vazio, dominou o duque.
Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Sem mais conseguir conter a necessidade e urgência, o duque caminhou até o quarto da esposa. Parou para admirar todo o ambiente.
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar
Suspirou saudoso!
Apesar do curto período que viveram ali, muitas lembranças foram construídas. Momentos de amor, cumplicidade e muita paixão. Ardente paixão.
Jacob caminhou até a cama perfeitamente arrumada e sentou ali, pegando uma das almofadas e levando-a até o nariz para inalar o aroma. Inspirou profundamente. O cheiro doce e delicado de sua Poupée ainda impregnava todo o ambiente.
Daria pra pintar todo azul do céu
Dava pra encher o universo da vida que eu quis pra mim
Tudo que eu fiz foi me confessar
Escravo do seu amor, livre pra amar
A saudade apertou ainda mais, chegava a doer... Mas seu corpo também reagiu involuntariamente, inturgescendo por um todo, mas principalmente se concentrado em maior proporção no meio de suas pernas. O desconforto na calça foi inevitável. Jacob se remexeu incomodado, na intenção de ajeitar a ereção.
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar
Uma enxurrada de lembranças apimentadas agora dominava toda a mente do Duque.
Foi assim, como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Daria pra beber todo azul do mar
Jacob sorriu sem qualquer resquício de humor para a própria situação. Estava sozinho no quarto da esposa, cheirando uma almofada e excitado ao extremo.
Onda que vem azul, todo azul do mar
Além de dormir sozinho, teria que resolver a sua carência de forma manual e bem juvenil. Até que ponto ele tinha descido ao ficar refém dos próprios sentimentos. Tornou-se refém de sua doce e bela esposa... E a verdade era que ele amava aquilo.
Seria tempos difíceis essa temporada longe da mulher que se tornou vital em sua vida.
Foi a primeira vez no azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Jacob olhou uma última vez o quarto e decidiu voltar para o seu próprio, mas não sem levar a almofada consigo. Estava na hora de descansar, além de resolver a pendência com o próprio corpo exigente. Aquele cheiro delicioso iria ajudá-lo...
Foi quando mergulhei no azul do mar.
~*~
A manhã cinzenta marcava o dia frio e chuvoso na grande Londres. A garoa que caía de forma leve, porém persistente, por toda manhã não foi o suficiente para deter o duque em casa. Ele seguiria à risca o próprio planejamento feito na noite anterior.
Jacob já havia passado com sua carruagem na propriedade da família Ateara para buscar o amigo Visconde e de lá eles seguiram direto para a residência do Marquês. Após uma pomposa recepção por parte do mordomo, eles foram encaminhados para uma luxuosa antessala onde permaneceriam aguardando para falar com Lorde Call. O marquês estava ocupado naquele momento com outra pessoa em seu gabinete.
Jacob e Quil se entreolharam quando gritos alterados começaram a ser ouvidos, vindos do escritório de Embry. Eles não sabiam quem estava no cômodo fechado com o marquês, mas com certeza os ânimos estavam bem alterados.
— Você não acha que seria mais apropriado nós voltarmos em outro momento? — sugeriu Quil com a voz baixa para o amigo.
Jacob olhou para a porta de madeira maciça, de onde as vozes alteradas vinham, virou o cálice com o saboroso licor — que o mordomo tinha servido — e negou de forma enfática.
— Seja lá quem for logo irá embora. O Call está precisando do nosso apoio. — ditou o duque seguro.
Eles eram os únicos amigos próximos ao marquês, até mesmo mais próximo que a própria família do nobre.
— Se acha melhor... — Quil deu de ombros, sorvendo também o líquido do próprio cálice.
Não se passaram muitos minutos até a porta ser aberta em um rompante e por ela sair dois nobres. Eram o pai e o irmão mais velho da falecida Marquesa. Os dois nobres permaneciam sérios e trocaram cumprimentos com o Visconde e o Duque apenas por uma questão de etiqueta. Eles pareciam nada satisfeitos.
Jacob e Quil trocaram olhares mais uma vez. As coisas não deveriam estar indo nada bem para o marquês. Agora seria o momento certo para eles entrarem.
— Já encerramos o assunto. Não temos mais nada para tratar! — gritou o marquês ao escutar a porta do escritório ser aberta novamente.
Embry estava em pé, parado de costas para a porta de entrada, olhando a chuva através da enorme vidraça da janela. Ele acreditava ser o sogro e o cunhado.
— Podemos voltar em uma hora mais oportuna, se preferir. — o duque falou ainda parado na entrada do cômodo junto com o Visconde.
— Ah, são vocês! — Embry olhou para a entrada ao reconhecer a voz marcante do amigo. Sorriu contido. — Entrem. Quem bom vê-los! — passou a não pelo rosto na tentativa de recompor-se. Estava cansado físico e emocionalmente.
— Viemos o mais rápido possível. — Quil falou antes de sentar na poltrona de couro marrom em frente a mesa de mogno. — Meus sinceros sentimentos.
— Obrigado. — Embry agradeceu e também sentou em sua cadeira.
— A duquesa e eu oferecemos nossas mais sinceras condolências. — Jacob falou não só por si próprio, mas também em nome da esposa. — Call, viemos mostrar a nossa solidariedade e oferecer apoio no que for necessário.
— Muito obrigado, meus caros amigos. — Embry agradeceu sincero. — Tem sido dias difíceis desde que retornei para Londres. — Embry suspirou cansado. — Vocês conheciam exatamente a natureza do meu casamento. Eu não amava a minha falecida esposa, mas mesmo assim não foi fácil ver Caroline se deteriorando dia à dia até sucumbir a morte. Bernard, apesar de não ter conhecimento sobre fato, parece sentir o que estava acontecendo. Ele chora todos os dias, perguntado pela mãe. Parte-me o coração ver o meu filho, tão pequeno, chorando de forma tão sentida. Eu não pude fazer mais nada pela Marquesa, e agora nem pelo meu filho.
— Mas o que aconteceu? Caroline estava tão bem e saudável até, pelo menos, um mês atrás! — questionou o duque ao marquês.
Embry olhou sério para os amigos. Levantou da cadeira e caminhou até a porta, passando a chave na fechadura. Pegou uma garrafa de uísque e três copos, servido uma dose para cada. Só então voltou a se sentar, mas permaneceu por alguns segundos em silêncio novamente.
Jacob e Quil estavam em total silêncio, esperando Embry sentir-se pronto para falar, mas eles imaginavam se tratar de alguma coisa muito séria.
— Caroline estava grávida. — Embry falou de uma única vez após sorver todo o conteúdo do copo. Ele não esconderia nada dos amigos, sabia que eles levariam para o túmulo tal segredo. Quil e Jacob piscaram aturdidos. — Mas não é o que vocês estão pensando, eu acho. Eu realmente não estava mentindo quando dizia que não tocava em Caroline há muito tempo. A verdade é que a criança não era minha. Ela engravidou de algum amante e optou por dar fim a prova do adultério a partir do momento em que não conseguiu se deitar comigo novamente. Só que algo saiu errado e ela adoeceu, até resultar em sua morte.
— Minha nossa! — Quil deixou escapar a surpresa pela notícia.
— Eu sinto muito. — Jacob se solidarizou pelo amigo.
Ele sabia como estava sendo difícil para Embry confessar aquele fato. O marquês era o orgulho em pessoa.
Embry apenas balançou a cabeça, pegando a garrafa da bebida alcoólica e servindo mais uma dose para si mesmo. Os amigos ainda não tinham terminado a primeira dose.
O marquês decidiu contar cada detalhe para Jacob e Quil, não escondendo absolutamente nenhum fato deles.
Depois de escutarem toda a minuciosa narrativa feita por Embry, Jacob e Quil arriscaram opinar sobre alguns aspectos.
Eles não acreditavam que Caroline tivesse realmente se envolvido com algum criado como ela mesma afirmou para o marquês, mas sim que havia confidenciado aquilo apenas para ferir ainda mais o ego de Embry. Na opinião deles, provavelmente a Marquesa teve caso com algum jovem nobre solteiro e aventureiro. Eles mesmos — quando mais jovens — tiveram muitas amantes casadas. A verdade era que todos sabiam que a falecida lady era arrogante demais para descer até a ala da criadagem para se aventurar em casos amorosos.
O marquês ponderou sobre a conclusão dos amigos, concordando por fim com eles. Mas o real fato era que Embry jamais iria descobrir a verdade. Caroline havia levado para o túmulo aquele segredo. Nem mesmo a aia dela havia revelado a verdade. Com certeza Caroline tinha dado algo muito valioso em troca do segredo da criada.
Mas nada daquilo importava mais para Embry. Descobrir quem era o amante da falecida esposa não mudaria os fatos. Agora a sua única preocupação era com o pequeno filho órfão. A criança chorava pedido para ver a mãe todos os dias. Embry ainda não fazia ideia de como iria conduzir aquela situação, nada havia falado para criança até o momento.
— Mas o que você pretende fazer? Quando ocorrerá o velório e o sepultamento? — questionou Quil.
— O que aconteceu para família da Caroline está tão descontente? — Jacob perguntou em seguida, antes mesmo de o marquês responder a pergunta do Visconde.
— Eu não sei como a família dela descobriu sobre a gravidez perdida. — Embry começou respondendo, primeiro a pergunta do duque. — Mas eles não sabiam da realidade, apenas que ela havia perdido uma criança, que juravam ser minha. Então eles vieram me cobrar satisfações, jogar coisas na minha cara... Não aguentei e contei toda a verdade. Falei do adúltero, da criança bastarda, do aborto provocado por ela própria... Falei absolutamente tudo! Foi só nesse momento que eles pararam de me acusar. Engoliram a vergonha e decidiram me deixar em paz para tratar de tudo. Deixei claro que não quero que eles se metam em nada, principalmente o que diz respeito ao meu filho. Também assegurei que apesar da infidelidade, farei uma cerimônia digna de uma Marquesa. Que irei preservar a imagem de Caroline, mesmo ela não merecendo. Em partes para preservar a minha própria imagem, mas também para cumprir com um dos últimos pedidos da Caroline. — Embry parou mais uma vez para sorver um pouco mais do destilado. — A cerimônia fúnebre será com toda a pompa que o título que ela tanto prezava exige. O velório durará uma semana e depois ela será enterrada aqui em Londres, em um jazigo próprio de adquiri só para ela.
Embry contou alguns detalhes sobre a grandiosa cerimônia fúnebre preparada para a esposa.
— Mas o que pretende fazer após o enterro? — Jacob perguntou preocupado. Embry parecia perdido.
— Eu verdadeiramente ainda não sei. Preciso concentrar boa parte do meu tempo em Bernard. Ele anda muito triste, porém mais cedo ou mais tarde, terei que falar algo sobre a morte da mãe. — confidenciou com pesar. — Ainda tem Olívia e as crianças, não posso abandoná-los até tudo ficar bem. Não sei quanto tempo vou precisar dedicar até Bernard superar a perda.
— Acredito que Bernard ainda é muito pequeno para compreender a magnitude da situação. — Quil começou a expor própria opinião. — Ele irá chorar algum tempo por não ver mais a mãe, mas a cada dia que se passar será menos, até um dia ele parar por completo. Não acredito que será por muito tempo. Ele precisa apenas de muita atenção, carinho e distração. Sugiro que passe algum tempo dedicando toda a sua atenção somente para ele, não deverá se ausentar em viagens nesse período.
Embry ponderou a sugestão do amigo. Quil tinha razão, em partes. Jacob também compartilhou da opinião do Visconde. O herdeiro de Embry tinha apenas três anos, não teria muitos problemas em superar rápido, a ausência da mãe. Crianças pequenas esqueciam-se das coisas mais facilmente que as maiores.
Mas o fato de ficar um longo tempo sem ver a família bastarda ainda incomodava o marquês. Ele não queria se afastar nesse momento do herdeiro, mas também não queria abandonar temporariamente a família bastarda. Estava em um grande dilema.
— Call, você gostaria de passar uma temporada com Bernard em minha propriedade em Kent? Seria uma honra recebê-lo, por tempo indeterminado. — Jacob compartilhou da ideia que acabara de ter, fazendo o convite ao amigo. — Uma retirada para o campo nesse momento será totalmente compreensível. Você terá o meu apoio e o da Duquesa para passar por essa fase. Iremos ajudar no que for preciso com relação a Bernard. Sem contar o fato que as minhas terras são próximas à casa de sua outra família. Poderá vê-los sem se ausentar por muito tempo.
— Achei a sugestão ótima. — concordou Quil. — Mudar de ares irá ajudar muito com Bernard. Todos os pontos são positivos.
Embry também gostou muito da ideia, todavia teria ainda que ficar algum tempo em Londres para preparar tudo para a sua retirada com o herdeiro. Ele tinha as próprias propriedades para administrar, e como nenhuma delas ficava próxima a Kent, teria que fazer um bom planejamento. Quil e Jacob se propuseram a ajudar no que fosse preciso.
Embry ia se animando a cada plano que fazia junto com os amigos. Sua maior preocupação era com o filho e a família bastarda, o resto estava em segundo plano agora.
Aos poucos tudo estava sendo planejado e minuciosamente arquitetado. Aos poucos tudo se ajeitaria de uma forma satisfatória para o marquês.
~*~
O duque estava exausto quando enfim regressou para casa, era início da noite. Havia passado toda a manhã, e boa parte da tarde, na residência do marquês. Após deixar o Visconde em casa, seguiu direto até o palácio real para visitar a irmã e os sobrinhos.
Rachel havia atualizado o irmão de todas as fofocas que circulavam em Londres sobre o nascimento de seu herdeiro.
Jacob agradeceu aos céus por todas as fofocas serem positivas. E por mais que alguém pudesse considerar a chegado do herdeiro precoce demais a partir da data que foi divulgado o casamento dos nobres, ninguém tinha coragem de manifestar as suas suspeitas em público. Contas não eram feitas! Mas como boa parte da aristocracia vivia em função de boas fofocas, logo o nascimento do filho varão do Duque foi abafado pela repentina morte de Lady Call. Agora os burburinhos giravam apenas no repentino adoecimento e morte da marquesa.
— Boa noite, Vossa Graça. — o mordomo recepcionou o patrão com a devida cerimônia, fazendo uma respeitosa reverência. — Espero que Vossa Graça tenha tido um dia proveitoso e agradável.
— Obrigado, Smith. — Jacob respondeu já entregando o casaco e chapéu ao criado.
— Vossa Graça, sei que teve um dia atribulado, mas há um senhor a sua espera. — Smith antecipou-se ao ver que o duque pretendia seguir pelo longínquo vestíbulo de entrada e ir direto para o andar superior da mansão, provavelmente para próprio aposento. — Ele insistiu em esperá-lo, mesmo eu tentando persuadi-lo a regressar no dia seguinte.
Jacob parou na ponta da escada estreita, estava prestes a subir os degraus. Ficou curioso com o que o mordomo acabará de revelar e voltou-se para o corredor. Quem teria tanta urgência em falar com ele? Questionou-se o duque.
— Ele entregou-lhe algum cartão de apresentação ou algo do tipo? — Jacob perguntou interessado.
— Claro, Vossa Graça! Perdoe a minha falta. — Smith se desculpou já buscando na casaca do uniforme o cartão do homem que aguardava para falar com o duque.
Entregou prontamente o cartão ao retirar do bolso.
— Onde ele está? — Jacob questionou um pouco agitado.
— Deixei-o aguardando no salão principal.
— Perfeito! Obrigado, Smith. — o duque seguiu apresado em direção ao salão e viu o senhor, de aproximadamente uns cinquenta anos.
Logo o cumprimentou e depois o Duque virou-se para o mordomo:
— Sirva-nos algo para comer e beber. Estarei em meu escritório.
Prontamente o mordomo seguiu para o interior da mansão a fim de cumprir a ordem.
Jacob estava aguardado aquela visita há tempos, até mesmo quando ainda estava em Kent. Provavelmente o seu regresso a Londres já era um conhecimento de muitos.
— Desculpe-me pela demora, mas estive o dia todo ausente da Casa York. Acabei de regressar. — Jacob, de forma incomum, até mesmo devido aos títulos que possui, justificou-se ao homem que o guardava pacientemente sentado em uma confortável poltrona no enorme salão. — Vamos ao meu gabinete.
O homem seguiu o duque até um luxuoso escritório. Lá ele sentou em uma poltrona indicada pelo nobre.
— Vossa Graça, eu estava pronto para viajar até a sua propriedade em Kent quando soube dos últimos ocorridos. — explicou o senhor, mostrando respeito ao falecimento da Marquesa. Não era segredo para ninguém a estreita amizade do Duque com o Marquês. — Supus que retornaria em breve para Londres. E hoje mesmo soube do Vosso regresso. — o senhor foi até a pasta de couro, que trazia consigo, e de lá tirou uma pasta menor e entregou ao duque. — Está aqui tudo o que me pediu. Desculpe pela a demora, mas foi difícil levantar tudo o que me solicitou. Eram muitas coisas... Quanto mais eu mexia, mais achava coisas.
— Está tudo aqui? — os olhos do duque chegavam a brilhar. — Tudo mesmo?
— Sim, Vossa Graça. — concordou o senhor de olhos cinza e cabelos grisalhos. Era o mais renomado profissional da área. — Absolutamente tudo! — sorriu contido.
Jacob abriu a pasta e começou a olhar com atenção todos os papéis e documentos presentes ali.
Nesse meio tempo Smith apareceu para servir chá, café, um brandy e sanduíches.
Enquanto o duque lia tudo com total animação, o senhor desfrutava do serviço de chá oferecido.
— Muito obrigada, Wilford. — Jacob agradeceu alegremente após olhar todos os papeis da pasta. — Estou incrivelmente satisfeito com os seus serviços. Mais uma vez você me foi de grande ajuda.
O senhor que agradeceu a honra de trabalhar para o duque. Ele havia se empenhado ao extremo para ter êxito na missão. Agora vendo o duque satisfeito, sentiu que tinha cumprido o propósito.
Jacob pegou o talão de chegue em uma de suas gavetas e acertou todos os honorários e gastos que o senhor havia tido na missão. Ainda por fim, acrescentou um bônus em agradecimento ao empenho do profissional.
Após a saída do senhor o duque olhou mais uma vez tudo que estava na pasta e por fim guardou tudo dentro do cofre que tinha ali. Para ele aqueles documentos e papéis eram valiosos demais.
Jacob sorriu por fim ao olhar a porta fechada do cofre. A sua viagem a Londres até que estava sendo bem proveitosa, afinal. Isso até amenizava um pouco o fato de ter que está longe da esposa e filho. Mas só um pouco!
~*~
O corpo pequeno — ainda inconsciente— remexeu-se sobre o macio colchão à procura por uma fonte de calor, mas nada encontrou. A consciência despertava lentamente, trazendo consigo um vazio e uma enorme vontade de chorar, a saudade apertava a cada dia mais.
Sem mais conseguir conter, as lágrimas mornas desciam pela face de porcelana, maculando toda a beleza angelical. Ela não queria sucumbir à tristeza, mas a ausência do amado havia deixado um vazio grande demais para poder suportar.
Renesmee tentou esconder o rosto entre os travesseiros assim que escutou a porta destravando, provavelmente era sua aia entrando. Virou de bruços para fingir que dormia, não queria mostrar a própria fragilidade a ninguém, mas um chorinho rouco despertou-lhe a total consciência.
Imediatamente sentou-se na cama e repousou as costas nos diversos travesseiros apoiados na cabeceira. Sem qualquer cuidado para esconder o gesto, limpou as lágrimas, já sorrindo para o bebê que a criada trazia aconchegado no colo.
— Bom dia, Milady! — Emma cumprimentou alegremente, fingindo não ver o estado depressivo da patroa. Mas a verdade era que ela já notara há vários dias e estava bastante preocupada com a jovem duquesa. — Achei que seria uma boa ideia trazer um lindo Lordezinho para acordá-la. — a aia passou o bebê para mãe.
Imediatamente Renesmee passou a concentrar toda sua atenção no bebê choroso. Ele resmungava baixo e rouco, agitando os bracinhos gordinhos.
— Bom dia, meu bebê precioso! — Renesmee falava com o bebezinho enquanto se preparava para amamentar. — Vamos iniciar o seu banquete dessa manhã! — posicionou o filho no pequeno seio.
William imediatamente parou de resmungar e abocanhou a aréola da mãe, já sugando com força. Ele era um bebê guloso. O que facilmente era notado, pois a cada dia estava mais bochechudo e pesado. Encantador!
Enquanto Renesmee amamentava e beijava as mãozinhas do filho, em nítida demonstração de afeto e carinho, Emma separava o traje que ela usaria naquela manhã fria. Hora ou outra elas trocavam algumas palavras sobre os compromissos daquele dia.
Desde o nascimento do filho Renesmee normalmente não tinha um dia muito atribulado devido ao resguardo, mas vendo o tempo ocioso e o estado depressivo da jovem durante a ausência do Duque, Elizabeth e Emma conversaram entre si e decidiram incluir diversas atividades para ocupar a mente da ruiva. A maioria dessas tarefas girava em torno dos cuidados com o bebê, mas algumas atividades distintas também foram incluídas. Ambas as criadas estavam muito preocupas com o estado emocional da jovem duquesa. Ela andava muito abatida e chorosa, o que só piorava a cada dia que passava. O duque nesse tempo enviou apenas uma missiva para comunicar que ainda iria demorar para regressar.
A verdade era que Renesmee só sorria quando estava com o filho. Por isso que Emma e Elizabeth levavam o bebê a todo tempo para a jovem. William só passava mesmo a noite sem a presença da mãe, sendo cuidado pela ama de leite. Apesar de todas as manobras que as criadas estavam fazendo para manterem a lady entretida, elas não eram loucas de desobedecer uma ordem direta do Duque. Como ele determinara, a duquesa seguia tendo uma noite completa de sono. Pelo menos na teoria.
— Bom dia, Milady! Bom dia, Lorde William. — Elizabeth falou alegremente enquanto entrava trazendo uma enorme bandeja de comida. — Hoje teremos um belo dia! Apesar de frio, não está chovendo. — a governanta já depositava a bandeja na mesa ao lado da lareira.
— Obrigada, Lizzy. — Renesmee sorriu para a senhora. — Você pode ficar com William após eu terminar com os cuidados dele?
— Claro, é sempre uma honra. — Elizabeth respondeu contente.
Renesmee gastou mais algum tempo amamentando William até ele dar-se por satisfeito. Mesmo sonolento o garotinho relutava em dormir, então a jovem mãe seguiu o conselho da aia e acabou optando por dar um banho morno no filho.
A lady foi degustar do próprio dejejum somente após repousar William — já alimentado e banhado — nos braços rechonchudos de Elizabeth. O lordezinho não conseguiu mais lutar contra o próprio sono, adormecendo em poucos minutos nos braços da governanta.
As horas passaram em uma rotina tranquila, e logo a manhã se tornava tarde.
Renesmee, após o almoço, passou boa parte da tarde pintando um quadro do filho dormido no carrinho. Seria um presente para dar ao marido quando ele regressasse ao lar.
Três semanas já tinham se passado desde a partida de Jacob para Londres. E a ausência dele era muito sentida pela ruiva.
— Com licença, Milady. — Emma entrou na sala privada da patroa após ser autorizada. — Trouxe o seu chá da tarde. — depositou a bandeja na mesa. — A modista acabou de entregar alguns modelos dos vestidos que encomendamos na semana passada. Ela disse que entregará os demais na próxima semana. — Emma dizia enquanto se aproximava da patroa. — Que lindo! Está perfeito. — admirou a pintura.
— Obrigada! — Renesmee sorriu.
— Ah, Milady, já estava esquecendo-se de dizer. Fiz a doação dos vestidos que retiramos por não servirem mais. Todas as criadas que receberam alguma de suas peças, agradeceram imensamente Vossa generosidade.
— Fico feliz em saber que elas gostaram dos vestidos. — a ruiva largou o pincel e foi em direção da mesa. Iria aproveitar que o filho estava dormido para fazer a refeição vespertina. — Muitos vestidos eu não cheguei a ter oportunidade de usar, mas já não servem mais. — concluiu.
Renesmee havia perdido todo peso que ganhou na gestação e mais alguns extras, estando agora mais magra do que quando engravidou. O corpo, já pequeno e delicado, estava ainda mais frágil. E com a ausência do Duque, a lady havia perdido mais quilos, mesmo comendo bem devido a amamentação.
— Com licença, Milady, acabou de chegar. — Elizabeth entrou na sala privada trazendo um envelope repousado em uma pequenina bandeja de prata. — É de Londres!
A jovem lady arregalou os olhos azuis e imediatamente parou de comer. O coração começou a bater desenfreado. Ela sabia que era alguma mensagem do marido.
— Deixe-me ver! — pediu eufórica.
Elizabeth entregou a carta, que Renesmee correu para abrir. Era o selo do Duque, constatou a lady.
Os lindos olhos azuis percorreram ansiosos cada linha escrita na carta. No caro papel havia uma declaração de amor velada, além de saudosas palavras e notícias de Londres.
— Quero que preparem a casa para o regresso do Duque. Ele chegará daqui a uma semana com o Marquês Call e seu herdeiro! — a ruiva contou. Sua voz transbordava alegria. — Elizabeth, eu preciso que contrate uma excelente babá para o pequeno Bernard. Meu marido mencionou, aqui na missiva, que o Marquês optou por dispensar os serviços da antiga babá. A criança vai precisar de cuidados integrais.
— Claro, Milady. Começarei agora mesmo a procurar por uma boa criada para ser a nova babá do herdeiro do Marquês.
— Precisa ser alguém atenciosa, doce, meiga e paciente, e que não se pareça fisicamente com a falecida Marquesa. Não podemos confundir a cabeça do menininho.
— Claro, Milady. Irie procurar alguém que corresponda aos requisitos com excelência! — afirmou a governanta.
— Obrigada, Lizzy!
Elizabeth deixou a sala privada determinava em cumprir o pedido da jovem lady. Já Renesmee voltou a comer, agora muito mais animada que antes. Em breve iria ver o marido novamente. O coração pulsava aquecido pela notícia.
Emma, que seguia velando o sono do pequenino William, sorriu ao ver o menininho abrir os olhinhos azuis. Logo ele começou a agitar os bracinhos e resmungar, queria atenção. A aia não hesitou em tirá-lo do carrinho. William remexia inquieto, esfregando o rostinho no uniforme da criada a procura de sua fonte de alimento. Logo a atenção da jovem mãe foi atraída ao escutar o chorinho rouco, ele estava irritado por nada achar no colo da aia.
A pequenina cópia ruiva do Duque exigia sua atenção. Renesmee sorriu com esse pensamento.
~*~
O nobre andava de um lado ao outro do luxuoso cômodo, já estava impaciente. Detestava atrasos, mas entendia que imprevistos poderiam acontecer.
— Black, já está me deixando tonto! — repreendeu o Marquês. Embry estava com uma enorme dor de cabeça, havia tido um dia bastante atribulado. — Vossa alteza já deve estar chegado. Você não falou que eles avisaram que atrasariam apenas meia hora? Já se passaram meia hora!
— Isso, Balck, venha juntar-se a nós para degustar de um conhaque enquanto aguardamos. — Quil Ateara reforçou o coro com o marquês.
Jacob rendeu-se aos apelos dos amigos, mas jamais relaxando por completo o corpo tenso na poltrona. Estava ansioso para a chegada da irmã e do cunhado. Precisava finalizar tudo antes de deixar Londres para voltar para Kent. Tudo precisava sair perfeito.
Conforme os minutos se passavam a ansiedade do nobre duque aumentava, mas ele tentava disfarçar entre uma taça ou outra de conhaque.
— Já não era sem tempo!— falou o duque ao ver a porta de seu gabinete abrir, após o anúncio do mordomo. Levantou-se de imediato.
Rachel entrava no cômodo de cabeça erguida, postura ereta e queixo levemente elevado. Era sua postura perfeita de princesa real. O príncipe seguia ao lado da esposa, mantendo a mesma postura própria da realeza.
— Boa noite para você também, Jacob! — Rachel recebeu um abraço do irmão. Gesto afetivo totalmente fora dos protocolos, mas eles estavam em um ambiente íntimo, o que permitia tal afeto e aproximação. — Caso você não lembre, tenho seis filhos pequenos que exigem atenção em demasia. — ditou com uma pitada de sarcasmo.
Após os devidos cumprirmos, todos eles se sentaram para iniciar a reunião.
Tudo era repassado passo a passo. Os detalhes eram acertados e todo o plano estava sendo analisado em cada mínimo detalhe. Não poderia haver uma única falta, tudo deveria ser executado com excelência.
— Jacob, você leu com atenção essa lista? A das amantes? — Raquel chamou a atenção do irmão, balançando um papel que tinha em mãos.
A atenção do Duque foi atraída para irmã sentada próximo à lareira. Antes Jacob estava concentrado em um conversa com os outros nobres.
— E lá me importa a vida íntima desse bastardo! — Jacob respondeu um pouco irritado com o questionamento da irmã. Ele tinha tanta coisa para se preocupar que a vida íntima do seu inimigo não acrescentava em nada no momento. — E você, como uma lady que é, também não deveria nem está lendo essa lista. — repreendeu.
Rachel crispou os olhos e engoliu a vontade de rebater a censura do irmão. Sabia que ele estava nervoso e com a cabeça cheia. Relevou apenas por isso.
— Acredito que você me agradecerá muito por ter lido a ficha das amantes do Barão Cullen. — Rachel lançou um olhar desafiador para irmão.
Jacob ao receber o olhar penetrante da gêmea percebeu que havia deixado algum detalhe importante — contido naquela lista — passar despercebido.
Ele caminhou a passos duros até a irmã e pegou a lista, deslizando os olhos para ler cada nome contido ali. Tudo relacionado ao barão lhe tirava totalmente o humor.
Naquela altura os demais nobres já prestavam total atenção nos irmãos gêmeos.
— Não entendo o que isso pode ser relevante! — Jacob afastou o papel do campo de visão e olhou interrogativo para a irmã. — Nada aqui nos acrescenta! Se bem que posso chegar à conclusão que o Cullen está a beira da falência por dedicar mais tempo em casos extraconjugais do que a administração de seus bens.
A princesa revirou os olhos. O irmão estava tão focado no plano de vingança que não se atentava a nada além daquilo. Mas havia sim um fato muito relevante ali, na verdade, havia uma resposta oculta por muito tempo.
— Jacob, pode não ser relevante ao seu plano de vingança, mas nessa lista pode conter uma resposta a um questionamento seu que não havia sido solucionado. — Rachel pegou o papel da mão do irmão. Os demais nobres, além do príncipe, se aproximaram dos gêmeos. — Olha esse nome aqui! — sinalizou com a mão delicada.
— O que tem a Condessa Harrison? Apesar de ser uma dama respeitada e discreta, não me é estranho ela ter amantes. O conde é um homem muito mais velho que a esposa... Só lamento por ela ter tanto mau gosto. — duque fez cara de repulsa.
— Jacob, presta atenção! — repreendeu a princesa.
O irmão estava tão cego com todo o plano que estava terminado de arquitetar para sua vingança contra o barão, que estava deixando outros detalhes importantes passar. Ao contrário do Duque, o príncipe foi o único que entendeu a questão levantada pela esposa. Eles tinham total sintonia.
— Rachel, cuidado com as acusações. — o príncipe falou com cautela. Sabia que o cunhado ficaria descontrolado. E por mais que tudo apostasse para a lógica da esposa não era cem porcento de certeza. — Devemos ter certeza antes de acusar...
— Rachel, fale logo! — Jacob interrompeu a fala do cunhado. Estava nervoso por ainda não ter entendido a evasiva da irmã.
— De todos os nomes contidos na longa lista de amantes do barão apenas uma, conscientemente ou não, passou um período na sua propriedade em Kent. — a princesa falou tudo de uma única vez, jamais desviando os olhos esverdeados dos olhos negros do irmão.
Rachel — assim como os demais — pode ver cada emoção passar pela face do irmão conforme o entendimento dominava-o. Jacob, que antes tinha a face neutra, logo passou para surpresa e susto, rapidamente explodindo em uma feição raivosa. O olhar era assassino.
— Eu. Vou. Acabar. Com. Aquela. Meretriz! — falou pausadamente o duque de York. A voz era assassina.
Rachel sentiu um arrepio passar por toda a extensão da coluna. Jacob aparentava estar assustadoramente calmo, o que não era comum. Se não fosse a face morena está avermelhada, ela nem perceberia a raiva que ele carregava.
— Black, devemos manter todas as nossas atenções concentradas no plano de vingança contra o Barão Cullen. — Embry tentou chamar a atenção do amigo no foco principal. Sabia que o duque estava desestabilizado com a recente descoberta. — Temos um prazo certo para executar tudo com perfeição. Depois pensamos no que fazer com a Condessa.
— Verdade, Black. Agora, mais do que nunca, temos a confirmação que realmente tinha o dedo podre do Barão no atentado sofrido pela sua Duquesa. Então é nele que devemos concentrar todas as nossas forças. O resto ficará para resolvermos depois. — Quil reforçou o coro do marquês.
— Preciso de um minuto. — Jacob passou a mão trêmula pela face na intenção de afastar os pensamentos conflituosos. Estava até tremendo de nervoso.
— Uma dose? — questionou o marquês já pegando um copo de cristal na bandeja e despejando o mais puro e caro uísque ali. Entregou para o amigo duque. — Acho que também vou querer uma.
Jacob ficou por alguns minutos em silêncio. Precisava controlar as emoções abaladas, os amigos tinham toda razão. Ele devia gastar todas as energias na vingança do barão, depois cuidaria do resto.
O duque forçou pensar que apesar de toda crueldade que fizeram com a sua doce Poupée, ela e seu perfeito filho estavam bem e seguros, mesmo depois de tudo. Lembrar-se deles acalmava o nobre.
— Jacob, foi a Condessa Harrison! — Rachel falou para o irmão, ela tinha os olhos arregalados.
Para Jacob não havia dúvidas do envolvendo da Condessa, mas parecia que a irmã tinha se lembrado de algo mais. Rachel não era de acusar ninguém sem ter certeza, apesar de sempre levantar dúvidas quando tinha.
Ele queria saber!
Rachel contou tudo que lembrava ter acontecido no fatídico dia que a cunhada foi envenenada. Mas ressaltou principalmente a gentileza da Condessa em ceder sua criada pessoal para servi-las, das bebidas que a criada entregou para cada lady naquele dia e como em poucos minutos Renesmee começou a passar mal.
O quebra-cabeça aos poucos era montado. Jacob precisou de muita determinação para não desviar o foco da reunião daquela noite.
— Acho que você não irá precisar se esforçar muito para fazer a Condessa, e sua criada, pagar pelo feito. — o príncipe começou a falar tranquilamente, após todos estarem mais calmos. — O Conde Harrison é um homem muito rígido e conservador. Acredito que após uma boa e esclarecedora conversa entre vocês, ele mesmo cuidará de acabar com a Condessa. Ele não vai duvidar de sua palavra e também não vai admitir deixar impune uma mulher infiel, assim com a criada que encobriu todas as faltas da patroa. Com certeza Lorde Harrison isolará a Condessa em alguma propriedade bem longínqua, sem qualquer luxo e mordomia. Ela perderá tudo que tanto presa. Luxo, dinheiro, posição social...
— Você tem razão. — concordou Jacob, entendendo exatamente onde o cunhado queria chegar.
Um homem conservador como o Conde não deixaria a esposa leviana sem uma punição. E ele seria imparcial e duro. Ele tiraria tudo dela até não restar nada.
Jacob teria a sua vingança sem desperdiçar tempo e energia, o que no momento era perfeito para ele. O barão iria continuar sendo a sua única preocupação. Por pouco tempo, lembrou!
A reunião voltou a ser conduzida em seu foco inicial. Tudo estava ficando perfeito, sem uma falha no planejamento.
Depois de mais uma hora tudo havia sido traçado. O plano estava pronto para ser executado em poucos dias.
Jacob sorriu ao fim. Era hora de voltar para Kent, para os braços da amada, para a paz de ter o filho nos braços. Para seu verdadeiro lar!
— Esteja com tudo pronto para partimos amanhã às sete da manhã. — o duque ditou para o marquês ao se despedirem.
O amigo Visconde havia ido embora, assim como a irmã e o cunhado já tinham voltado para o palácio após uma emocionante despedida. Provavelmente eles só voltariam a se encontrar após o inverno terminar.
Jacob sorriu de forma jovial ao pensar que em muito pouco tempo estaria voltando para o seu verdadeiro lar, no seio de sua pequena e amada família.
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