Bloom
6 Growing Up
Notas iniciais

Londres, 1814
A linda e grandiosa mansão de três andares em frente ao Hyde Park estava toda iluminada, em seu interior uma calorosa festa acontecia.
A felicidade que estampava cada rosto naquela sala tinha motivo certo: a gravidez da Senhora Black. Seria o primeiro herdeiro do futuro duque de York. Jacob estava transbordando de emoção. Se fosse um menino como todos esperavam e torciam para que fosse, aquele que estava à quase dois meses no ventre da jovem um dia — bem distante — seria o grande e popular Duque Black.
Há quase dois anos o casal esperava por esse momento, e agora celebravam com os amigos mais próximos e parentes. Eles tinham mandado preparar um jantar comemorativo assim que o médico confirmou a gravidez de Leah Black naquela mesma manhã.
— Parabéns ao meu filho e a minha encantadora nora! — William começou um discurso na enorme mesa de jantar. Ele sustentava uma taça de champanhe na mão. — É com imensa alegria que hoje recebi a notícia que mais um herdeiro Black está a caminho. Não há palavras que possam expressar a minha felicidade nesse momento, mas posso garantir que já amo meu neto — ou neta — que em breve nascerá. — ditou orgulhoso. — À felicidade do casal e à saúde do herdeiro! — ergueu a taça propondo o brinde.
Todos brindaram alegremente.
Leah tinha os olhos marejados pela emoção. Há anos esperava ansiosa pelo dia em que teria a notícia que um filho crescia em seu ventre. Agora era realidade.
— Obrigada minha querida esposa por esse maravilhoso presente. — Jacob ergueu-se da cadeira e seguiu o exemplo do pai. — Você não imagina a minha felicidade neste momento. Obrigada pelo carinho, a dedicação, o zelo... Você é uma esposa adorável. — ele olhava diretamente para a esposa emocionada — Obrigada por cuidar tão bem de mim e por me conceder um herdeiro. Que seja o primeiro de muitos. — ergueu a taça em direção a gestante chorosa.
Todos mais uma vez imitaram o gesto.
Discursos, agradecimentos e homenagens continuaram até o jantar ser servido. Todos realmente estavam felizes, ainda mais devido à demora que o casal teve em gerar o primeiro filho. Muitos já imaginavam que havia algum problema com eles.
O jantar seguiu tranquilo e agradável. Conversas aminadas aconteciam e planos eram feitos encima da criança que ainda nem tinha nascido.
Após o farto e saboroso banquete os homens seguiram para o salão de jogos na intenção de conversar, tomar um brandy e fumar seus perfumados charutos. Já as mulheres foram para o salão informal, lá tomariam chá e falariam sobre assuntos estritamente femininos.
Lady Clearwater estava radiante pela gestação da filha, antes ela estava temerosa pela demora de Leah em engravidar, porém agora era só alegria. Já Rachel tentava manter uma agradável conversa com a cunhada, mas estava difícil manter o foco no assunto uma vez que o pequeno Elliot — seu filho — ostentava muita saúde e traquinagem. Enquanto tentava dividir suas experiências da gestação com a cunhada Leah, Rachel agarrava o menino de um pouco mais de ano de idade, que mal sabia andar e já queria percorrer todo o salão, subindo nas escadas apoiando-se nos pilares de ferro dourado do corrimão.
— Não vejo a hora de ver o meu bebê esbanjando toda essa saúde. — Leah comentou alegremente com Rachel ao ver a vivacidade do filho da cunhada.
— Quando você vê como é difícil criar um bebê tão peralta, vai desejar que ele estivesse quietinho e seguro na sua barriga. — Rachel sorriu com o comentário, mas nem teve tempo de falar mais uma palavra, Elliot tinha acabado de pegar um pires e ameaçava jogar no chão a cara porcelana. Rachel correu para interceptá-lo. — Aproveite cada minuto da sua gestação, pois passa tão rápido.
Elas continuaram conversando e dividindo experiências, tirando dúvidas e fazendo planos para um futuro próximo. Rachel chegou a confessar que mesmo com tanto trabalho estava pensando em ter um segundo filho.
A noite de inverno estava fria e a neve caía graciosamente formando uma camada fofa e banquinha no chão, porém nem a temperatura gélida do inverno londrino era suficiente para esfriar os corações aquecidos daquela família. Eles transbordavam alegria.
~*~
Era tarde da noite quando o Duque William Black retornou à sua residência após o jantar comemorativo na casa do filho. Assim que cruzou o hall da entrada foi recepcionado por seu valete.
Enquanto lhe ajudava a retirar o casaco o fiel e gentil senhor informou:
— Hoje a tarde chegou uma missiva endereçada a Vossa Graça. — William fincou os olhos interessados no empregado enquanto ele mesmo se desfazia do lenço em seu pescoço. — Veio de Kent. — finalizou o senhor.
Imediatamente William se aprumou e refez o nó do lenço desmanchado a pouco, pegando o casaco de volta das mãos do fiel criado.
— Mande que me prepare a carruagem e apronte a minha mala, George. — ordenou o Duque apressadamente.
Uma notícia de Kent. Ele não recebia missivas de Kent a não ser... O Duque estremeceu por pensar que algo poderia ter acontecido a sua preciosa Renesmee. Apavorado, ele chamou com aflição o valete que chegava ao corredor.
— George, deixe-me ver a carta. — pediu nervosamente.
No mesmo instante o criado girou o corpo e foi até um aparador de mogno com pernas douradas onde havia muitas cartas e notas, porém o senhor pegou a que estava no topo e entregou ao Duque, que a apanhou com desespero.
Conforme seus olhos liam as palavras um nó lancinante se formava em sua garganta, o homem notou a dificuldade em respirar conforme o coração também se apertava.
Renesmee havia caído doente. Sua pequena estava de cama, com febre alta, dores e tosse.
A espinha do Duque gelou. Ele sentiu seus olhos pinicarem e umedecer imediatamente, mas conteve orgulhosamente a vontade de deixar as lágrimas caírem. William não queria e não podia perder sua menina. Fechou os olhos com força e impediu que o medo transbordasse de seus olhos. Respirou profundamente, guardou o bilhete e voltou-se para o seu Valete que o encarava ansioso.
— O que ainda está fazendo aqui, George? — brigou — Minha mala, minha carruagem. Agora! — bradou.
— Mas Senhor, sairá a essa hora? Pode ser perigoso... — o criado bastante alarmado e preocupado com o patrão tentou ponderar cautelosamente.
— Não me importo. Vou a casa Black em Kent ainda esta noite. Não discuta e faça o que mandei. — o Duque respondeu ríspido com o senhor bem mais velho que ele.
Não era da natureza de William ser tão rude com seus fiéis empregados, porém Renesmee era sua preciosa pupila. Ele não suportaria que algo grave acontecesse a ela.
— Sim senhor. — falou o Valete de cabeça baixa. — Estou indo agora mesmo providenciar tudo o que me ordenou.
— George! — William chamou pelo fiel criado. – Envie uma missiva para meus filhos comunicando a minha viagem repentina. Informe que estou indo a Kent resolver problemas urgentes.
Kent
As grossas cortinas de veludo rosa escondiam os enormes vitrais das janelas de topo arredondado que possuíam jardineiras em sua base. Resquícios da nevasca da noite anterior se prendiam nas superfícies externa da mansão formando o cenário típico do inverno rigoroso no campo.
Era de manhã bem cedo quando Renesmee se levantou debilmente de sua cama, calçou os acolchoados chinelos e caminhou lentamente até as cortinas, abrindo-as e deixando a pouca claridade adentrar seu quarto. Ela se ajoelhou no divã rosa claro e dourado que ficava abaixo de uma das janelas de seu aposento e passou um tempo admirando o fraco sol tentar derreter o gelo sobre as flores já castigadas pelo rigoroso frio do inverno.
Tão cedo sentiu a febre assolar seu debilitado corpo outra vez e suas articulações enfraquecerem conforme seus músculos doíam. Renesmee, por fim, caiu sentada no acolchoado. Por ser tão baixa, a menina apenas alcançava a base de sua janela agora e contentou-se por não mais poder vislumbrar o exterior da casa, já não tinha forças para se colocar de joelhos no assento.
— Querida? — a voz cansada e preocupada do duque chamou atenção da menina ruiva, que virou na direção do homem que adentrava no quarto.
Ele tinha a face cansada pela viagem repentina, nem mesmo havia tirado a roupa que veio e foi direto ver como estava sua pequena.
Renesmee sorriu fraco, ela não esperava que ele viesse. Como ele adivinhou que ela o queria por perto? Ela se perguntou, mas logo dissipou a ideia quando o duque se aproximou e beijou-lhe a testa.
— Está tão quentinha... — o homem murmurou com pesar e sentou-se no divã junto à menina.
Renesmee contemplou os olhos verdes em pânico e sorriu para ele.
— Estou bem, senhor meu tio.
No mesmo segundo Elizabeth adentrou o quarto com uma caneca de chá forte.
— Não está nada bem. Passou boa parte da noite com febre alta, ontem a tarde chegou a ter tremores e essa mocinha se recusa a beber os remédios. — a governanta elucidou referindo-se aos chás e xaropes oferecidos para a criança.
— Renesmee, você precisa beber tudo o que a Senhorita Winslet te dá. — ralhou o duque sem alterar o tom de voz.
A menina que ainda vestia sua grossa camisola de algodão abaixou a cabeça e se encolheu.
— Há quanto tempo Renesmee está assim? — o duque perguntou a Elizabeth.
— Há dias a senhorita Renesmee não saía do quarto e faz uns três dias que mal tocava na comida que mandávamos para ela. Uma noite Marina veio saber se ela tinha jantado e percebeu que a menina encontrava-se com uma forte febre e se queixando de dores nas articulações dos braços e das pernas. Marina imaginando ser uma forte gripe me comunicou e eu prontamente mandei avisar a Vossa Graça.
— Fez muito bem, senhorita Winslet.
William olhou demasiadamente afetuoso para a ruivinha que com muito custo bebia o líquido quente.
— Renesmee está comendo melhor? Estou achando-a mais magrinha.
— Não senhor. — Elizabeth respondeu de imediato e Renesmee a fitou de esguelha, com reprovação.
A mulher a ignorou e o Duque também.
— Mande prepararem um reforçado café da manhã com bolos, biscoitos, leite e frutas.
— Para o Senhor? — a governanta mostrou-se confusa.
— Não. Para a menina.
— Mas eu não tenho fome, senhor meu tio. Eu sinto apenas frio, dor no corpo e na garganta. — Renesmee murmurou encolhendo-se mais no divã.
— Precisa comer. — William replicou sério e autoritário. — Quero você forte e saudável. Daqui a dois mês será o seu décimo segundo aniversário, precisa ficar boa logo. — completou afetuoso.
Imediatamente Elizabeth saiu para cumprir a ordem do patrão. William pegou o frágil e debilitado corpinho da menina magricela nos braços, depositou-a na cama, em seguida a cobriu com o lençol e as grossas cobertas de lã.
Renesmee batia os queixos enquanto a febre aumentava.
O Duque sentou-se à beira da cama preocupado. Foi assim que sua amada Katherine começou a adoecer. O peito do homem parecia estar sendo esfaqueado, porque fortes pontadas de dor lhe atingiam apenas por pensar na possibilidade de perder a pequena garotinha que ele cuidava com tanto amor.
Por mais que não confessasse a ninguém ele a tinha como uma filha. Amava-a verdadeiramente. Mesmo não sendo sua filha biológica, o duque conheceu a pequena menina desde seu primeiro mês de vida. Não teve como não resistir à bela garotinha de cabelos cor de cenoura, olhos tão claros como céu e bochechas rubras. Renesmee era o presente que sua amada Kate havia lhe deixado.
Definitivamente William precisava se fixar em Kent. Renesmee mais do que nunca precisava dele, estava em uma fase de transição e o Duque sabia muito bem como era importante haver a presença de um tutor mais assíduo nessa fase. Tinha dois filhos criados para comprovar suas teorias para esse momento.
Após passar uma semana desde a chegada de William Renesmee já estava curada e reestabelecida, até começava a recuperar o peso perdido devido à doença. O Duque zelava pelo bem estar da menina, que sempre muito obediente fazia tudo que ele pedia.
Como o inverno estava muito rigoroso William a proibia de sair de casa. Obediente, a ruivinha nem contestava as ordens do homem. Renesmee só saía na companhia do Duque até o centro do vilarejo para fazer compras, isso quando o tempo colaborava e a neve cessava.
William havia decidido se dedicar inteiramente a sua pupila, deixando os deveres fatigantes de um duque para seu único herdeiro varão Jacob.
Os gêmeos Jacob e Rachel respeitavam a forma de William cuidar da pequena Renesmee. Os dois sabiam que como Katherine, a menina não tinha mais ninguém. E sendo tão bondosos de coração e generosos como o duque, nenhum dos dois ousava reclamar de algo ou reivindicar as propriedades, dinheiro ou regalias que a filha bastarda de Katherine Wood recebia.
Por outro lado Renesmee sabia seu lugar. Quando os filhos do duque apareciam em feriados ela hesitava em se sentar à mesa ou se incluir nas conversas. Na verdade ela quase nunca fazia, só mesmo quando era estritamente solicitada.
Um mês tinha se passado desde que William havia decido permanecer em Kent cuidando de perto das necessidades de sua pupila, no entanto uma missiva havia chegado de Londres solicitando o duque na câmara dos lordes. Haveria uma importante votação oficial e Jacob – como ainda não havia herdado o título – não poderia votar no lugar do pai. A presença de William era imprescindível.
— Querida, eu tenho muitas coisas importantes para resolver em Londres. — o mais velho falava com a menina ruiva que prestava a devida atenção em cada palavra. — Não posso deixar de ir nessa viagem, mas logo estarei de volta. Faremos uma festa para comemorar o seu aniversário assim que eu retornar. — sorriu por fim.
— Não precisa se incomodar senhor meu tio. — Renesmee disse acanhada. – É só mais um dia como outro qualquer. Ficarei feliz só de tê-lo por perto.
Um vento gélido cortou o ar trazendo a sensação congelante aos corpos das duas pessoas paradas na escadaria da entrada principal da casa Black. A menina se encolheu pelo frio latente.
— Vá, entre logo que está muito frio aqui fora. Não quero vê-la doente novamente. – o Duque disse.
William não discutiria o assunto com a menina. Voltaria e faria a festa como planejado e ela iria adorar.
— Cuidado tio. – a menina falou com preocupação. Ela tinha uma ruguinha entre as sobrancelhas. — Sei que o senhor não se cuida direito em Londres. – automaticamente repetiu a frase que sempre ouvia a mãe dizer quando se despedia do duque — naquele mesmo local que eles estavam agora —.
William sentiu os olhos arderem e um bolo amargo descer pela garganta, pontadas dolorosas atingiam seu peito pelas inocentes palavras da criança. A imagem de Katherine martelava-se em sua mente.
A saudade era quase insuportável para ele e a menina. Eles compartilhavam a mesma dor e saudade.
O duque nada respondeu, não tinha forças para tal. Foi com um beijo terno na testa da menina que ele se despediu e entrou na carruagem partindo rumo a Londres.
~*~
O frio do inverno perdia força a cada dia, logo a primavera chegaria. A neve começava a derreter e as temperaturas a se elevarem. Um calor brando começava a surgir junto às flores e folhas do jardim.
Os pássaros já podiam ser ouvidos ao longe, eles migravam de volta trazendo alegria aos dias cinzentos do fim do inverno. A natureza estava em festa, assim como a linda casa Black.
Na suntuosa sala principal da mansão, os importantes nobres estavam reunidos para comemorar mais um ano de vida da pequena menina órfã.
— Hora dos presentes! — Rachel anunciou alegre. — Esse é o meu e de Elliot. — olhou para o filho dormindo no colo do pai. — Toma. Abra-o. Espero que goste. — a princesa entregou empolgada a enorme caixa decorada.
— Obrigada. — Renesmee agradeceu, mas mantinha o olhar baixo ao pegar o presente. Ela sempre ficava acanhada e sem jeito, as bochechas já estavam em tom de carmim. — São lindos. — disse encantada.
Rachel havia mandado confeccionar cinco belos vestidos com sua modista preferida. Era uma famosa francesa que costurava somente para a alta aristocracia londrina.
As musselinas eram de modelos sofisticados, porém joviais. Uma mistura perfeita entre infantil e adulto, próprios para meninas daquela idade.
— Posso escolher um deles para usar no jantar de hoje à noite? — Renesmee perguntou insegura, porém seus olhos revelavam o seu fascínio pelas peças.
— Não só pode como deve. — Rachel estava feliz por saber que tinha agradado a triste menina. Era raro ela ver toda essa alegria no olhar da ruivinha. — E qual você vai escolher?
Renesmee olhava encantada para cada uma das musselinas novas. Tinha uma rosa, amarela, verde, lilás e azul. Todas eram lindas e em tons claros — próprios para a idade —, mas uma em especial chamou a sua atenção.
— Essa! – ergueu a musselina azul com delicados bordados e rendas na manga e no busto.
— Também foi a minha preferida. – Rachel concordou. – Quando vi o tecido me apaixonei. Ele é o tom exato dos seus olhos. – sorriu afetuosamente. Ela realmente gostava da menina.
— Então eu acho que já posso entregar o meu presente. — Leah avisou entregando a linda caixa decorada com fita rosa a Renesmee que agradeceu igualmente envergonhada.
A futura duquesa havia coordenado o presente com a cunhada.
— São lindos! — comentou radiante.
Leah havia mandado fazer lindas sapatilhas forradas com os mesmos tons e bordados dos vestidos.
A troca de presente continuou durante o chá da tarde.
O duque havia dado a primeira joia da menina; um delicado conjunto de brincos e gargantilha de pérolas com diamantes. O príncipe Paul — marido de Rachel — havia mandado trazer uma dócil égua branca do próprio estábulo real. Renesmee ficou fascinada com o animal, ela era amante dos bichos e agora tinha o seu próprio. Já Jacob havia mandado trazer da França uma boneca de porcelana. Era toda feita à mão e confeccionada especialmente para ela. A boneca era uma cópia perfeita de Renesmee; Cabelos cor de bronze liso e longo, olhos de um azul claríssimo, boca e bochechas rosadas.
Renesmee agradeceu imensamente a cada um dos presentes ganho naquela tarde. Ela não esperava por algo tão especial. Sentiu-se amada, mas ainda assim incompleta. Trocaria cada riqueza que ganhou só para ter a mãe de volta nem que fosse por apenas uma noite, mas sabia que era impossível realizar o desejo de seu coração. No entanto, como a própria mãe sempre a ensinou, soube ser grata a cada mimo ganhado no aniversário.
Ao cair na noite todos se encontravam esperando a aniversariante descer para seu jantar de aniversário. O duque tinha mandado preparar um verdadeiro banquete para sua pupila.
Elizabeth tinha ficado encarregada de arrumar pessoalmente Renesmee. A governanta tinha um enorme carinho pela menina, mesmo que ela nunca interagisse. Não que Renesmee não amasse cada uma dos criados que cuidaram dela com tanto zelo, o fato era que ela simplesmente havia se fechado em seu próprio mundo. Só o duque era capaz de retirá-la da própria bolha.
Quando a menina adentrou o salão, os olhos de todos os presentes brilharam em contentamento. Renesmee era uma menina linda e perfeita, futuramente se transformaria em uma jovem espetacular.
A pele branca como leite e sem uma imperfeição estava coberta pelo lindíssimo vestido azul que Rachel havia dado naquela tarde, os longos cabelos lisos e acobreados estavam metade presos no topo da cabeça com uma fita de seda azul celeste, nos pés a graciosa sapatilha sem salto combinando com as vestes e a luvinha rendada branca completava a delicadeza do visual da menina. No pescoço e orelhas Renesmee ostentava suas primeiras joias. Estava absolutamente linda e adorável, a opinião era unanime a todos naquela sala.
— Hoje eu estou vendo um anjo aqui na terra. — William falou orgulhoso de sua menina. – Está lindíssima. – beijou a testa de sua pupila.
Renesmee corou violentamente. Era uma das pouquíssimas características que tinha herdado da mãe. William amava reconhecer rara semelhança.
O jantar transcorreu alegre e tranquilo. Um lindo bolo confeitado todo em rosa — cor favorita da menina — foi trago para ser servido como sobremesa. Doze velas também rosas estavam acesas no topo do bolo.
Renesmee apagou todas elas em um único folego, e como manda a tradição fez o mais oculto desejo de seu coração ao assoprar as velas: que permanecesse para sempre naquela família!
Após o jantar todos voltaram para o salão nobre da mansão iluminado pelas luzes amareladas e trêmulas das velas nos castiçais espalhados pelo grande cômodo. Naquela noite os homens não iriam se separar das mulheres, todos permaneceriam juntos no mesmo ambiente conversando amenidades e tomando licor ou comendo chocolates.
— Renesmee, o que acha? — Rachel perguntou amável para a menina sentada no sofá com seu filho no colo.
Elas conversavam sobre os preparativos para chegada do filho de Leah e Jacob, todos estavam empolgados. Como sempre Renesmee falava pouco, não gostava de intrometer-se na conversa dos patrões. Só respondia quando solicitada.
A ruiva suspirou e muito baixo respondeu:
— Gosto do amarelo.
Era raro as vezes que Renesmee interagia, na maior parte do tempo em que havia hospedes na casa ela gostava de ficar ao ar livre no campo. Mas aquela noite era especial, era seu aniversário. Então quando Leah e Rachel muito adoráveis pediam para dar alguma opinião, ela apenas assentia e respondia de forma direta, logo voltando sua atenção ao pequeno menino que nada tinha de Rachel, possuía olhos azuis, pele alva, cabelos castanhos claros e lisos como o pai.
— Perfeito — Leah bradou batendo palmas após engolir o último chocolate da bandeja. O apetite da gestante tinha aumentado significativamente. Sua barriga já despontava no vestido. — Também adoro o amarelo, estou com ideias para muitos bordados nessa cor.
Rachel fez uma careta.
— Gostaria que fosse azul, mas como já decidiu faremos amarelo. Amanhã vamos ao centro comprar tecidos, aqui em Kent tem uns de ótima qualidade. O preço é exorbitante, mas posso imaginar lindos bordados para eles. — Rachel disse sonhadora e bebericou o sua taça com licor. — Renesmee nos acompanha?
A ruiva voltou a encarar as mais velhas de forma retraída, hesitou e em seguida apenas anuiu.
Os homens estavam mais afastados sentados em outro sofá. Eles falavam de política e negócios.
— Querida, por que não toca um pouco de piano para nós? – Jacob sugeriu a esposa atraindo todos os olhares.
Leah amava piano e tocava muitíssimo bem.
— Claro, meu esposo. — sorriu concordando. — Mas essa noite gostaria de propor um dueto com a aniversariante. Sei que toca muito bem, Renesmee. — convidou a menina que corou violentamente.
— Não se acanhe meu anjo. — William incentivou a menina. – Você é quase uma pianista profissional.
Ela estava encabulada e olhava nervosamente para o duque.
Sem mais ter como declinar o convite, a menina levantou-se da poltrona a foi sentar ao lado de Leah, que já estava ao piano.
— Você escolhe a música. — a gestante sorriu ternamente. Leah realmente gostava da linda menina de olhos tristes. Tinha pena por ela ter perdido a mãe tão cedo.
Renesmee mexeu nas partituras e escolheu uma música que havia composto junto a sua professora de piano. Era uma sinfonia delicada e melodiosa, gostosa de ouvir.
As duas tocaram de forma graciosa e espetacular. Todos na sala, encantados, ouviam a música entoada. Até o pequeno Elliot parecia prestar atenção, já que se mantinha quieto e olhando na direção do instrumento.
Quando a música acabou todos aplaudiram. O duque transbordava orgulho de sua pupila, ela já tocava tão bem como um adulto.
— Querido, acho que não estou me sentindo bem. – Leah falou fracamente assim que se levantou da banqueta do piano, no entanto apoiava-se na beirada do instrumento.
Todos a olharam assustados. Até poucos minutos ela parecia bem tocando o piano com Renesmee.
— Leah, o que está sentindo? — Jacob correu na direção da esposa, ela estava muito pálida.
— Está doendo demais. — ela sussurrou e levou as mãos ao ventre. – Não consigo mais suportar. Eu estou com medo. – confessou quase sem voz, e sem forças para manter-se em pé.
Ela vinha sentido as cólicas há horas, pioravam a cada minuto, mas tentou suportar durante o jantar. Não queria preocupar ninguém ou estragar o aniversário de Renesmee. Havia julgado ser normal já que não era a primeira vez que sentia aquilo.
— LEAH! – Jacob gritou ao ver a esposa desfalecer em seus braços.
Renesmee arregalou os olhos azuis em pânico. Um flash de lembrança turva lhe veio em mente: Era sua mãe gritando de dor e caindo no chão, o duque corria para socorrê-la. Instantaneamente lágrimas desceram em seu rosto.
Uma sensação de Déjà vu dominou Jacob, Rachel e Willian. Eles já tinham visto aquela mesma cena há anos naquela casa. Pavor e desespero os dominaram.
Jacob ergueu a esposa no colo e correu para o quarto que dividiam no segundo patamar da mansão.
Rachel gritava ajuda para as criadas da casa.
William estava estático; em choque. Não conseguia sequer dar um passo. Sabia exatamente o que aquilo significava. Uma forte dor rasgava seu peito e fazia seu coração sangrar novamente nas velhas cicatrizes.
Renesmee havia se trancado no quarto e não atendia ninguém, nem mesmo o duque. Estava se fechando em sua bolha particular de lembranças e tristezas.
Rachel havia subido para por o filho para dormir e Paul foi com ela. O príncipe iria resguardar o sono do filho enquanto a esposa iria prestar solidariedade à cunhada, eles não haviam levado a ama do menino na viagem a Kent.
Todo o possível foi feito durante a noite e a manhã seguinte, porém foram em vão todos os esforços.
Lady Leah, a futura duquesa de York, perdia seu tão desejado herdeiro. Seu corpo não suportou levar a gravidez até o fim, e com quase quatro meses de gestação ela sofreu um aborto espontâneo.
Ela estava inconsolável após descobrir o que havia acontecido, seu amado bebê não mais crescia seguro em seu ventre. Na verdade, todos estavam arrasados e tristes pela notícia. Jacob se mantinha calado e catatônico.
— Jacob, vamos ao meu escritório conversar um pouco e beber algo forte. – William pôs as mãos nas costas do filho, atraindo a sua atenção.
Eles encontravam-se sozinhos na grande sala naquela manhã sombria.
— Meu filho, eu não vou perguntar como você esta se sentindo porque sei que está arrasado. Dói demais perder um filho, ainda mais quando ele é tão aguardado. – William preparava duas doses duplas de uísque sem gelo enquanto falava com o filho. Jacob havia sentado na poltrona em frente à lareira do escritório do duque. — Mas vocês são muito jovens, logo terão outros filhos.
— Como você se sentiu...? — Jacob sussurrou. — Como você se sentiu quando perdeu o filho que Katherine esperava? — reformulou a pergunta fazendo-a de forma audível agora. Seus olhos estavam fixados sem atenção na lareira apagada. — Na época eu estava tão preocupado com a possibilidade de termos um bastardo na família que simplesmente ignorei os seus sentimentos. Entretanto agora me veio em mente a sua fisionomia, seus olhos transpareciam dor e desespero.
— Eu fiquei destroçado. — William confessou ao filho. Ele seria sincero, era uma conversa de homem para homem. Queria ajudar o filho a superar a tristeza. — Porém não foi aquela o primeiro filho que eu perdi. Sua mãe sofreu um aborto antes de engravidar de vocês – referiu-se aos gêmeos – e outros dois depois que vocês já haviam nascido.
Aquela novidade atraiu a atenção do jovem.
— Eu não sabia. — Jacob olhou assustado para o pai. – Por que nunca nos contou?
— Porque não é algo que se fale a toda hora. – respondeu de forma direta. – Tivemos você e sua irmã de uma única vez, isso já foi um grande presente de Deus. Gestações de gêmeos são muito difíceis, Jacob. Então não chore por algo que não era para ser, algo muito grandioso está sendo preparado pra você. Tenho certeza que você ainda terá seu herdeiro varão e muitos outros.
Jacob fez uma careta dolorosa.
— Pai, foi difícil a Leah engravidar dessa primeira vez. – ponderou com pesar. – Será que teremos outra chance?
— Jacob, você ainda terá muitas chances, vocês são muito novos. Leah é uma jovem saudável e você também. – William dizia palavras de apoio e incentivo. – Quem não teve outra chance fui eu. – o duque levou o copo aos lábios e tragou um grande gole do destilado. Doía falar sobre aquele assunto. – A gravidez de Kate não foi planejada, na verdade, nem eu e nem ela sabíamos. Eu fui descuidado e acabou acontecendo. Ela só soube que estava grávida depois da perda da criança. Mesmo já tendo um filho, Kate era uma mulher muito inexperiente quando começamos a relação. – explicou para Jacob que mantinha um olhar curioso, mas incrédulo em sua direção. – Quando hoje eu vi a minha nora agoniando de dor não consegui ter uma única reação, pois fui tomado por imagens de Kate se contorcendo de dor no chão. Aquele filho que perdemos tinha sido a minha única chance de ter algo dela comigo. – chiou o duque e por orgulho não deixou nenhuma lágrima descer de seus olhos mareados.
— Ela lhe deixou a Renesmee. – Jacob disse com sabedoria. – Você ama aquela menina tanto como uma filha. E esse amor é recíproco. É fácil reparar o quanto a pequena é triste, mas os olhos dela transbordam de felicidade sempre que está perto do senhor. Você é a figura paterna que ela tem e tenho certeza que ela o adora. — finalizou ameno.
— É verdade. – o duque sorriu bobamente. – Renesmee é o presente que minha Kate me deixou.
William não queria mais saber de tristezas passadas, elas não mudariam por ficar se lamentando. Jacob compreendeu o mesmo que o pai.
A perda de um filho doí e deixa marca, as cicatrizes ficam lá para dizerem que a chagas foram superadas, mas não esquecidas. Olhar para trás não conserta o passado e nem constrói um futuro melhor.
Jacob entendeu que precisava seguir em frente e superar a sua dor. Ele iria precisar mostrar-se forte e carinhoso com a esposa. Ele não a amava, mas tinha um enorme afeto por ela. Outras chances viriam. Foi nesse pensamento que ele se agarrou.
Kent, 1815
O sol brilhava dourado entre as nuvens branquinhas como algodão, a brisa fresca soprava suave embalando a delicada dança das folhas e flores das árvores. Era começo do verão e o pequeno Elliot corria sobre as folhas secas caídas na grama atrás de uma suntuosa mariposa. Paul, Jacob e William incentivavam o menino enquanto eles permaneciam no majestoso jardim traseiro da Casa Black aproveitando do saboroso lanche posto pelos criados na mesa de piquenique do jardim.
Rachel estava sentada sobre uma manta quadriculada colocada a sombra de um grandioso Carvalho. Ela sorria amplamente ao fitar o rosto sereno da miúda menina de dois meses que dormia em seus braços.
Dentro da casa o cheiro de flores e folhas secas com um resquício amadeirado predominava. Renesmee observava através da cristalina vidraça da enorme janela da sala de jantar a imagem do pequeno herdeiro do príncipe correndo e brincando sobre a grama.
Nas mãos da menina ruiva tinha uma caneca de leite com chá que ela tomava lentamente. Ela estava absorta na imagem da criança. De repente o silêncio — que era absoluto ali dentro— foi quebrado por passos suaves. Era Rachel que invadia o ambiente.
— Renesmee? — ela chamou já perto da ruiva.
— Sim, Vossa Alteza? — a menina murmurou virando-se para Rachel, mas sem fitá-la.
— Preciso ver como a minha cunhada está. Você pode ficar um pouco com a Ellen? — indagou delicadamente.
Leah há um mês havia sofrido o seu terceiro aborto espontâneo. Jacob na tentativa de ocultar toda a amargura de perder mais um filho sugeriu uma temporada no campo para ela respirar ar puro. A jovem não era muito amante de natureza, mas nunca contestava a Jacob. Por outro lado, ouvir risadas de criança e choro da pequena bebê lhe angustiava, contudo ela jamais reclamaria.
Rachel tentava prestar toda a assistência que podia a Leah. Ela sempre era atenciosa e prestativa, além de manter seus filhos distantes o bastante da cunhada para não causar desconforto, porém era inevitável.
Com o pensamento de conversar um pouco e levar leite com biscoitos para a Senhora Black que repousava no quarto do andar de cima, assim que Renesmee assentiu com um leve sorriso, Rachel entregou sua filha a ela.
Renesmee pegou com enorme cuidado a bebezinha enrolada em um cashmere rosa. A menininha dormia tão tranquilamente que sequer percebeu a troca de colo.
A ruiva começou a caminhar vagarosamente com a filha de Rachel nos braços para o terraço posterior da mansão. Lá ela poderia contemplar melhor a festa do menino na grama, sentar-se na cadeira sob a proteção da marquise e manter os olhos curiosos em Jacob.
Ela sempre observava cada gesto e movimento do belo homem na tentativa de entender o porquê dele causar estranhas sensações nela.
Ele sorria sem dentes e muito fracamente, sua face era quase inexpressiva. Devia ainda estar abalado pela perda do filho. Renesmee deduziu após analisar minuciosamente cada traço e gesto dele.
De repente Jacob se sentiu impelido a olhar para trás e flagrou a menina ruiva lhe observando.
Renesmee sentiu o coração disparar e um vento gélido passar por toda sua coluna ao ser subitamente flagrada. Suas maças do rosto esquentaram e tingiram-se de vermelho escarlate. Imediatamente ela abaixou o olhar, voltando a contemplar a linda bebê que dormia em seu colo.
— Não sabia que Rachel tinha deixado a Ellen sozinha com a Renesmee. — Jacob refletiu distraído.
Por estar bem afastado ele não tinha reparado no olhar analítico da menina e nem a reação que causou ao flagrá-la. William e Paul imediatamente olharam na direção que ele fitava.
— Ela ainda é muito nova para tomar conta de um bebê. Renesmee é só uma criança. — Jacob comentou preocupado.
— Ela está crescendo. — Paul amenizou. — Sem contar que é muito cuidadosa e carinhosa com meus filhos. Rachel confia nela.
— Ainda a acho muito criança para ficar olhando sozinha a um bebê. Não vejo problemas se estiver sobre a supervisão de um adulto por perto, mas sozinha é perigoso. — o futuro Duque replicou.
— Jacob, ela é muito cautelosa e responsável. Sei que ainda parece uma criança pequena devido a seu tamanho e traços físicos, mas ela já está com trezes anos. Logo estará debutando. – William elucidou brando.
— É, pode ser. — o moreno deu de ombros voltando sua atenção para o sobrinho que agora jogava as folhas secas para o alto. – Acho que ainda a vejo como aquela menininha que andava agarrada às saias de Katherine. — ele deu um sorriso torto e emendou — Renesmee não parece à idade que tem.
Assim que fez o comentário Jacob se arrependeu. Sabia que o pai sofria sempre que falavam de sua falecida amante. William, por outro lado, nada disse. Era inevitável a enxurrada de lembranças que lhe vinham à mente sempre que ouvia o nome sua amada Kate.
— Ela provavelmente demorará pra desabrochar, mas com certeza será uma belíssima jovem. Não creio que será um problema para o senhor meu sogro arrumar um bom partido para Renesmee. — assegurou o príncipe. Ele sabia que esse era um assunto que preocupava o duque.
— Ela é só uma menina. Ainda vamos demorar a pensar nisso. — Jacob cortou o cunhado, estava chocado com o assunto abordado.
— Concordo em parte com os dois. – William interveio. – Renesmee é muito nova, porém quando estiver na hora certa tenho certeza que não terei problemas em assegurar o futuro dela ao lado de um jovem de boa família. – justificou dando por encerrado o assunto.
Ao longe Renesmee se mantinha de cabeça baixa e alheia à conversa que ocorria com seu nome. Hora ou outra ela tentava olhar de esguelha os homens ainda reunidos no jardim, todavia não ousou mais encarar Jacob.
Ela era só uma menina inocente, que logo desabrocharia em uma linda jovem. Sua beleza já significativa prometia mexer com muitos homens em um breve futuro.
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