Notas iniciais
Olááá amadas! Aqui estamos! Muito felizes com os comentários que recebemos =D Amamos. O Capítulo está recheado de emoções!!! Importantíssimo. Apreciem! Queremos dedicar o capítulo a Amanda Mandy e a Raquel Duarte que essa semana nos deixaram lindissimas recomendações. Adoramos! Nos falamos lá em baixo, ao capítulo... Boa leitura.

Kent, 1815

O vento gélido e cortante golpeava o Duque que voltava para casa depressa a fim de não pegar a chuva que se revelava iminente no céu. William estava cavalgando calmamente pelo vasto campo de sua propriedade quando escutou os primeiros trovões.

Era quase inverno. Quando novembro finalmente acabasse toda a propriedade seria coberta de neve, mas no momento apenas ameaçava uma torrencial chuva.

Outra vez era apenas Renesmee e o Duque na enorme casa. A menina pintava — recolhida em seu quarto — o céu escuro do fim de tarde que vez ou outra um raio rompia.

No primeiro patamar William observava a tarde virar noite com a chegada da tempestade, odiava aquele tempo. Por causa das revoltosas chuvas e do frio potente sua Katherine foi enfraquecendo, pegou a maldita doença dos pulmões e não mais estava com ele.

O homem jogou-se na poltrona acolchoada de seu escritório, na mão direita segurava um copo de cristal que ele logo tratou de levar aos lábios, sorvendo generosamente o líquido quente e âmbar.

Uma enxurrada de saudosas lembranças invadiu a mente do Duque que não conseguia parar de pensar em sua amada. Se Katherine ainda fosse viva estaria aniversariando naquela semana.

William lembrou-se do último aniversário dela o qual passaram juntos. O Duque havia abandonado a câmara dos lordes durante importante semana de votação, somente para estar ao lado da mulher amada. Havia comprado para presenteá-la: uma linda joia, um vestido fino e os chocolates que tanto agradavam ao paladar da loira.

Ele sempre a mimava, tanto como um dia mimou sua falecida duquesa Sarah, porém jamais a desposou ou assumiu o relacionamento perante a corte londrina. Mas nem por isso deixou de tratá-la com muito respeito e amor.

O sorriso de Katherine era tão vívido em suas lembranças que parecia real para ele. William tinha gravado em sua memória o cheiro, o toque e o sabor dos lábios que tanto amava beijar. A jovem criada tinha conquistado um lugar de destaque no coração do Duque.

Uma farta lágrima desceu pela face sofrida do homem, ali o orgulho não precisava ser contido. O Duque chorava — trancado em seu escritório — a falta que a doce presença de Katherine fazia em sua vida. Tudo era sempre tão vazio sem ela.

A garrafa de cristal que antes estava cheia do líquido de cor âmbar já se encontrava abaixo da metade, o duque bebia o forte uísque escocês para tentar entorpecer a mente, e assim conseguir pegar no sono sem sentir tanta dor e sofreguidão.

O fogo da lareira tremulava e as chamas alaranjadas traziam mais lembranças ávidas ao nobre. Foi bem diante do calor das chamas que uma vez eles se amaram sobre a cara tapeçaria.

William trincou com força os olhos ao lembrar-se de sua querida Katherine sentada sobre seu colo, cavalgando em uma sensual e erótica dança do prazer.

A saudade fazia doer sua alma. O Duque era um homem atormentado pela dor de não ter mais a mulher que amava ao seu lado.

Horas haviam se passado e a garrafa estava vazia. O Duque havia tomado toda a bebida na tentativa de aplacar sua dor e saudade de Katherine. Depois de tempos enclausurado em seu escritório ele constatou que já era hora de se recolher para seu aposento, e então lá teria mais uma avalanche de lembranças da loira de sorriso meigo, até que finalmente caísse na inconsciência do sono.

~*~

Na manhã seguinte, tanto o Duque como Renesmee observaram o tempo ao acordarem. O céu estava cinza, garoava e mesmo cobertos por seus grossos cobertores os dois sentiam o frio violento no corpo.

Todo aquele clima de chuva, silêncio e cheiro de terra molhada, arremetia ao Duque vívidas imagens de sua amada. Foi por causa de uma forte chuva que Katherine chegou às terras de Kent, e foi a mesma chuva impiedosa que trouxe a sua doença e a levou embora para sempre. William sempre se sentia atormentado com lembranças dos doces momentos que teve ao lado da linda mulher, no entanto naquele instante lhe causava uma dor excruciante no peito por não ter mais sua bela Kate nos braços. Todos os anos era a mesma coisa; sempre que se aproximava o dia do aniversário de Katherine o Duque não conseguia tirá-la da cabeça um minuto sequer do seu dia, e a noite sonhava com ela feliz ao seu lado. A falta que Katherine fazia na vida do Duque era enorme, a saudade torturava o coração sofrido do nobre Duque.

William se levantou após permanecer por alguns minutos apenas deitado, estava se sentindo nostálgico até mesmo para sair da cama, todavia sabia que a sua pupila o aguardava para tomar o desjejum no salão principal das refeições. Era um hábito que o Duque criou assim que se instalou definitivamente em Kent: todas as refeições eram feitas à mesa. Renesmee já havia se adaptado a nova regra da casa, e adorava compartilhá-la com o nobre que tanto amava.

Após a primeira refeição do dia, Renesmee subiu ao seu quarto para ler um livro que a preceptora havia indicado, já o Duque mais uma vez se trancou em seu escritório com uma garrafa cheia de conhaque. Ele andava bebendo bastante na esperança de conseguir abrandar a nostalgia e dor em seu peito.

Os trovões à tarde eram altos. Não chovia mais, havia apenas uma fina garoa, porém o retorno da chuva se anunciava, era só questão de tempo. Renesmee estava ao piano, ela tocava distraída de costas para o melancólico tempo. A melodia soava tão nostálgica como o tempo lá fora.

O Duque já não aguentava sentir tanta saudade, ela gritava em seu peito, toda a garrafa de conhaque não havia sido suficiente para aplacar sua dor. Era exatamente hoje que Katherine estaria aniversariando se fosse viva. Renesmee por ser muito pequena na época do falecimento da mãe não tinha conhecimento do evento que acontecia na data de hoje. William, por outro lado, tinha total consciência.

Atormentado pela torrente de recordações, o Duque rumou com passos fortes para fora do seu escritório e depois da sua própria casa, desceu as escadas principais com ímpeto e foi em busca de seu garanhão puro sangue no estábulo da propriedade.

Aquele impulso de William fez Renesmee parar sua canção, ela havia escutado as portas baterem com força e os passos pesados de bota masculina se chocar furiosamente contra o assoalho de madeira. Logo Oliver muito assustado passou pelo salão principal.

— O que houve tio Oliver? — Renesmee perguntou descendo do banco e indo até o homem.

— O senhor Duque quer cavalgar nesse tempo. — falou inconformado. — Nem levou um casaco e além do mais, choverá em breve. — falou o criado nervoso.

Preocupado e prestativo o senhor Oliver saiu atrás de seu patrão. Renesmee permaneceu com os olhos fixos na enorme vidraça da janela por apenas um minuto, em seguida ela correu e parou no pórtico observando o pobre Oliver correr atrás do Duque e seu cavalo desenfreado que seguia em direção aos arbustos que cercavam a propriedade.

Aquilo revirou o estomago da menina, lhe deu um mal estar. Aquele clima lhe arremetia à lembrança dos dias débeis de sua mãe. Uma sensação de medo se apossou da menina, uma corrente gélida percorreu toda a extensão de sua coluna vertebral.

Ao longe da visão da menina, o homem cavalgava com furor sentindo o chuvisco pinicar sua pele como pontas de gelo, mas ele não se importava. Só queria fugir daquele aperto no peito, a tensão nos músculos, ter o coração mais brando.

O Duque ao menos percebeu as lágrimas quentes descerem pela face fria e úmida por causa dos chuviscos. Ele chorava por Katherine, por cada cena vívida em sua mente.

Um forte trovão o fez arregalar os olhos e em seguida um raio desceu iluminando ferozmente ao redor de William, o cavalo se empinou pelo susto.

William respirava acelerado contemplando a chuva aumentar vagarosamente, o frio estava gelando significativamente seu corpo. Ele observou o horizonte atrás de si e ao contemplar o nevoeiro, decidiu que era hora de voltar, porém outro raio desceu rompendo uma árvore quase ao seu lado, o cavalo se aprumou outra vez e a chuva aumentou grandiosamente de forma abrupta, tudo ao mesmo tempo.

O Duque acabou por se desequilibrar do cavalo e caiu, batendo forte a cabeça em uma grande pedra que estava em seu caminho. Ele sentiu a dor física lhe dominar.

De certa forma a dor na cabeça fez William se aliviar da dor no coração, não que ela não existisse, pois existia. Ele ainda conseguia ver sua amada dos cabelos loiros e olhos azuis cobalto, seu sorriso alegre e inocente.

— Kate... — ele murmurou em meio aos trovões que seguiram no céu acinzentado.

Sua visão estava turva, uma poça de sangue começava a se formar e se misturar a água que encharcava o solo. Entretanto o homem via Katherine nitidamente caminhando para ele, sorridente e ligeira, parecia um anjo. Ela o chamava, ao longe, mas chamava. Ele não sentia mais o gelado do ambiente, nem mesmo a dor atroz que o corroía minutos atrás.

— Meu amor... — William chamou com a voz fraca assim que Kate ficou mais clara diante de seus olhos.

— Sim, meu querido amor. — deu o sorriso que o Duque tanto amava. — Eu vim cuidar de você.

— Está doendo tanto... Não suporto mais. — disse fraco, a voz grave agora era apenas um sussurro.

— Essa dor já vai passar meu amor. — a loira falou melodiosa, estendendo a mão para ele. — Vem... Dê-me a sua mão.

Ela estava tão perto, William quis tocá-la. Quando enfim os dedos se tocaram William não sentiu absolutamente mais nada, só o calor de sua amada e a sensação de está completo novamente.

Dor, tristeza, saudade... Tudo se dissipou como ar! Katherine preencheu todo o vazio que ele sentia.

~*~

— TIO BILLY!!! — Renesmee gritou ao vislumbrar o clarão de um raio próximo aos arbustos.

O medo e desespero da menina fez com que uma injeção de adrenalina movesse seus músculos a correr pela chuva adentro, contudo não foi muito longe. Como sombra Elizabeth apareceu e a interceptou ainda no gramado ao redor da casa, logo tendo a ajuda de Rosamund. Tudo acontecia muito ao longe do campo de visão de Renesmee para ela ter noção da gravidade do que acontecia, mas seu coração sentia um medo e vazio inexplicável.

Incentivados pelo chamado de Oliver alguns criados corriam para chegar ao local, o senhor havia se adiantado para alcançar mais rápido o patrão. Oliver ficou desnorteado ao vê a queda acontecer ao longe e depois contemplar o Duque imóvel no chão.

— Senhor! — Oliver gritou em meio à chuva forte, sacudindo o corpo de William, todavia, tudo o que mudou foram suas vestes que mancharam de sangue.

Os olhos do criado se arregalaram, o coração estava acelerado. Tudo piorou quando os rugidos dos raios faziam coro com os gritos desesperados da pequena criança contida pelas criadas. Renesmee gritava tão alto e com desespero, que mesmo bem distante do local do acidente, todos ouviam nitidamente.

— Lizzi, eu preciso ir até ele. — Renesmee chorou por fim, amolecendo e deixando-se ser abraçada por Elizabeth.

— Você não sairá nessa chuva, senhorita. — disse Rosamund. — Esperaremos Oliver nos dizer como o Duque está.

Ele está mal! Ele está mal! A cabeça de Renesmee gritava, mas ela não aguentava mais lutar com o aguaceiro para ser ouvida e muito menos se debater entre os braços gorduchos de Elizabeth.

Logo, mais alguns lacaios foram até Oliver — que ainda estava abaixado e inconsolado sobre o patrão desacordado e ensanguentado —. Os outros ficaram igualmente chocados e mortificados.

Um dos mais jovens voltou correndo até as damas que se encontravam a alguns metros de distância.

— Richard? — Rosamund indagou com cautela e temor.

O criado jovem com o olhar apavorado fitou a menina chorosa e perdida nos braços de Elizabeth. Renesmee olhou bem dentro dos olhos sofridos do rapaz, seu peito perdeu a batida seguinte. Ela não precisava de mais para saber o que tinha acontecido.

Por mais incrível que pudesse parecer, um grito agudo, sôfrego e doloroso irrompeu da garganta de Renesmee e ultrapassou até mesmo o eco de um raio próximo.

Renesmee após o cume de sua dor não teve mais nenhum sentido, apenas vislumbrou a escuridão e o dilacerante aperto de seu pobre coração já tão sofrido por dolorosas perdas.

Elizabeth agarrou fortemente o corpo desfalecido da menina em seus braços.

~*~

Na manhã seguinte, o clima era nebuloso, deprimente e frio, o céu estava cinzento e sem brilho. O terreno sobreposto ao corpo de Katherine e Sarah, agora também estaria sobre William. Seria feita a vontade do Duque: descansar o sono eterno ao lado das duas mulheres que amou com toda sua alma em vida.

Não houve demora da criadagem em enviar uma missiva informando aos filhos do Duque sobre a fatalidade, os dois se encontravam em Londres e prontamente rumaram até Kent.

Conforme nuvens carregadas se apresentavam no céu, os gêmeos se abraçavam e contemplavam a lápide do Duque ouvindo — um tanto torpes — a cerimônia funeral para seu pai.

Rachel era mantida de pé apenas por seu irmão que a segurava firme enquanto ela desolada e triste sacudia-se à medida que o choro alto e contínuo era ouvido por todos os presentes.

Jacob mantinha a face imóvel, contudo seus olhos estavam tampados pela dor dilacerante e pela melancolia, nos orbes escuros transparecia o quanto o jovem estava destruído por dentro, tanto quanto sua irmã que não parava de se lamentar.

Leah — ao lado do marido — abraçava os próprios braços pelo frio, ela chorava baixo e notava a dor do marido ao fitar seus olhos, aquilo acabava com ela. Odiava ver Jacob triste, a cada perda de um bebê contemplava a tristeza nos olhos chocolate — tipicamente tão alegres e maliciosos —, no entanto ali era muito mais que isso.

William era a pessoa que Jacob mais amava nesse mundo, todos sabiam disso. O fato dele não chorar apenas mostrava o quão nobre como o pai ele era. Todos os presentes sabiam que Jacob seria um excelente Duque tanto quanto o pai, porém Jacob não pensava nisso no momento, sua mente estava ocupada na sua maravilhosa vida ao lado do pai naquele vilarejo, o quão forte o homem era e o quão sábio também.

Do segundo patamar da Casa Black, na janela do quarto decorado em rosa, a menina dos cabelos ruivos permitia ao rosto ser lavado por lágrimas, tendo seus olhos embaçados ela contemplava a chuva se aproximar da mansão.

O choro de Renesmee era silencioso, seu corpo um tanto anestesiado. Ela trajava ainda a camisola do dia anterior. Desde a confirmação da morte do Duque Renesmee havia se trancado no quarto, não descendo nem para comer, nem aos chamados de ninguém.

Ela pensava que agora sua mãe e William poderiam estar juntos. Talvez o duque estivesse feliz. Ela deveria ficar bem então, Renesmee pensava. Por outro lado não podia deixar de sentir-se sozinha e inconsolável. Ele foi o único pai que ela conheceu. O único amigo que tinha. Ninguém poderia substitui-lo, nenhuma palavra aliviaria sua dor.

Claro, todos agora teriam pena da menina órfã — ela já imaginava isso —, mais do que já tinham. Renesmee respirou profundamente. Teria que se acostumar a ser sozinha, agora era verdade. Estava sem ninguém no mundo.

Renesmee não sabia se iria permanecer naquela casa, provavelmente sim, mas agora pagaria por isso. Ela não acreditava que alguém a amaria tão grandiosamente e gratuitamente quanto o Duque.

Agora que perdera o leme, para onde iria? Já tinha 13 anos, não demoraria e seria uma jovem totalmente capaz de trabalhar para seu sustento. Renesmee tinha medo do mundo lá fora.

Ela sentou-se e dobrou as pernas juntando os joelhos a seu peito e apoiando o queixo sobre eles.

William faria falta, muita falta. Ela já sentia sua falta. Ele era o pilar de sua vida, ele a sustentava com maestria, a alegrava e a amava. Renesmee poderia levar horas ali listando os motivos para se sentir perdida com a morte do Duque.

Minutos depois e a ruiva mexeu-se, encostou a cabeça no vidro da janela, agora uma chuva fina caía, pessoas retornavam do funeral. Ela havia se negado a ir vê-lo partir para sempre, preferia manter suas lembranças alegres intactas.

Renesmee não tinha fome, nem sede, nem vontade de sair do lugar que estava. Gostaria apenas de poder ter tido mais um minuto com William, dizer que o amava como pai e que era muito grata por tudo.

~*~

Após uma chuva de horas, o céu se encontrava em degrade azul e roxo, a tarde se foi discretamente e a noite estava chegando da mesma forma, trazendo a opacidade dos olhos e rostos dos habitantes da Casa Black para o clima de toda a cidade.

Jacob, que agora podia ser considerado oficialmente um Duque, ficou por horas — até mesmo depois do enterro — fitando a lápide do duque, ele venerava o pai e ainda não conseguia crer que o homem jovem, sadio e forte estava a palmos abaixo da terra.

Já Rachel precisou de forças para se mover, saiu com o braço entrelaçado ao marido e convenceu com muito custo Leah a voltar com eles. Os pais da Senhora Black também voltaram para a mansão, deixando apenas Jacob naquela chuva frente ao local onde seu pai perpetuaria.

Ao voltarem, ninguém mais chamou por Renesmee. William foi um pai para ela, todos compreendiam a dor da menina que agora sim, não tinha mais ninguém.

Após acompanhar aos outros em um chá Rachel asseou seus filhos e os mimou até dormirem, deixando que Elizabeth fizesse o trabalho de uma ama enquanto ela tentava convencer Jacob a entrar em casa.

O moreno desde que voltara estava encostado em uma macieira em frente a casa onde por inúmeras vezes William fez piquenique com os filhos. Já havia escurecido — ele percebeu em um lapso nas lembranças — e a brisa pinicava de tão gélida, mais uns dias e nevaria por todo o lugar. Jacob parecia imóvel fitando a propriedade e o vasto campo que crescera.

— Jake venha, poderá ficar doente. — Rachel falou baixo tocando os largos braços do irmão.

Ele nem parecia ter a mesma idade que a garota, pois ele tinha uns vinte centímetros a mais. Considerando que Rachel não era baixa e miúda se comparada às outras moças, Jacob era um homem extremamente alto — como seu pai —, além de suas feições que eram bastante distintas. Rachel e Jacob nunca pareceram serem gêmeos.

— Parece injusto. — Jacob disse sem deixar de olhar o terreno. Era a primeira coisa que falara desde que se encontraram naquela manhã. — Ele foi o melhor homem que já conheci; o melhor Duque, o melhor pai. Não merecia isso. — Jacob esclareceu sem alterar nada em sua pose.

Rachel suspirou, trouxe o olhar do irmão para ela e lhe respondeu:

— Não. Mas se Deus quis assim, meu irmão, é porque há um proposito. Não sabemos o que estava acontecendo com ele nos últimos dias, talvez... — ela suspirou pesadamente — Essa tenha sido a hora certa. — ela murmurou e Jacob a encarou com as sobrancelhas juntas e os olhos confusos e contrariados. — Nós discordamos, mas não somos nós que controlamos essas coisas, Jacob. Você sabe. — Rachel então o abraçou. — De uma forma ou de outra ele estará sempre com a gente; como sempre esteve.

~*~

Alguns minutos depois Jacob acompanhou sua irmã até o interior da casa de Kent. Passou o dia seguinte trancado no quarto que era seu desde que nasceu e ao fim da tarde dirigiu-se até o escritório do pai, onde havia uma enorme pintura do Duque — um presente de Sarah —. Jacob conversou com o retrato do pai sobre tudo, fez muitas perguntas sobre o futuro e ficou com o silêncio do escritório como resposta.

O moreno nem mesmo viu quando sua irmã e o marido deixaram a propriedade, assim como seus sogros.

Leah não sabia o que dizer ou fazer. Queria abraçar Jacob de forma tão intensa ao ponto de acalmá-lo e deixá-lo menos tenso. Ela gostaria de dizer ou fazer alguma coisa que amenizasse a nuvem carregada de dor nos olhos dele. Mesmo que o marido não chorasse ou dissesse algo sobre o assunto, os olhos chocolates mostravam o quão triste sua alma estava.

A senhora Black, porém, apenas bateu na porta do escritório com muita delicadeza e receio. Ela levava um candelabro com vela acessa em uma das mãos, era quase meia-noite e fazia muito frio, Leah quase desistiu, no entanto Jacob surpreendeu abrindo a porta abruptamente.

— Perdoe-me marido, mas estava preocupada, não comeu nada o dia inteiro. — ela falou suavemente observando o quanto Jacob estava abatido.

O moreno tinha o lenço fora do pescoço, colete e colarinho aberto, além da casaca amassada, seus cabelos sempre alinhados estavam caídos pela testa, seu olhar sempre imponente, se encontrava obscuro. Todavia ele puxou o ar bruscamente e elevou uma das comissuras para a esposa.

— Eu ficarei bem, e não tenho fome. Não se preocupe.

Então, o agora Duque de York e Cambridge deu o braço a sua esposa e rumou para o andar de cima. Deixou-se ser cuidado por Leah que lhe ajudou a banhar-se e trocar as roupas, contudo Jacob não dormira por um só minuto a noite. Ouviu cada tique do relógio do outro lado do quarto, cada suspiro do sono pesado de sua esposa, ele viu o dia clarear lentamente, embora cansado, os milhares de pensamentos de como seria sua vida de agora em diante não o deixavam descansar.

De forma semelhante, a menina a alguns quartos depois, também comtemplou sem pretensão cada momento da madrugada, sentada em seu divã Renesmee refletia em cada lembrança que podia recordar.

Como seria sua vida dali por diante ainda era um mistério, mas os dias passados ela poderia dizer com toda a certeza que haviam sido maravilhosos. Ela admitia que mesmo com toda a ausência de sua mãe William a proporcionava alegrias, paz, carinho e segurança. A ruivinha não sabia se teria aquilo outra vez em sua vida.

De repente uma necessidade absurda se apossou de Renesmee, ela queria estar com o Duque, sentia falta do bondoso e amável nobre. A menina o considerava seu pai do coração. Ela escolheu amá-lo, assim como o duque amou tão verdadeiramente a menina ruiva.

Sem titubear ela se ergueu do divã, catou uma grossa manta sobre a cama e enrolou-se nela. Fazia muito frio e Renesmee necessitava se proteger, afinal, só usava uma longa camisola de algodão e felpudo chinelo nos pés.

Vagarosamente começou a andar de forma agoniada pelo amplo quarto, sua mente trabalhava e seu coração a cada minuto se apertava mais. Sem medo e já certa do que iria fazer a menina ruiva abandonou seu aposento e vagou sorrateira pelos silenciosos corredores da mansão. Ela tomava todo o cuidado possível para que não fosse flagrada por algum criado. Ainda era muito cedo, o céu começava a clarear minimamente, provavelmente todos dormiam.

Renesmee lentamente deixou a mansão para trás começando a vagar pelo gramado úmido e gelado pelo orvalho da noite. O vento frio chicoteava impiedosamente a face de porcelana da menina. Através das brumas da manhã que nascia Renesmee sumiu entre a farta névoa.

A menina queria estar com eles, ela queria encontrar com eles. Juntos poderia ser uma família novamente. Por que Deus lhe tirou as duas pessoas que mais amava? Por que não a levou também? A menina se questionava conforme avançava pelo amplo terreno.

Com o rosto banhado em fartas lágrimas, e já chegando ao local de destino, ela deixou-se ir ao chão, não tinha mais forças para permanecer de pé, Renesmee não tinha mais forças para permanecer viva!

—Por que vocês tiveram que partir? Eu não quero viver em um mundo que não tenha vocês! —Renesmee começou a falar chorosa diante do tumulo do Duque e da mãe. Ela havia deitado no frio gramado, entre as duas lápides. —Me levem com vocês. Venham me buscar, por favor. Vamos viver nós três juntos novamente.

A triste menina se debulhava em lágrimas entre as lápides das duas únicas pessoas que a amaram intensamente e verdadeiramente. Iniciava uma manhã muito glacial, garoava bem fraco, o pequeno e frágil corpinho tremia de frio, ela já estava gelada. Mas Renesmee não se importou. Quem sabe assim adoecesse e enfim se juntaria a eles.

A ruivinha chorou até a sua inconsciência a levar para um sono sem sonhos. Ela estava tão fraca e melancólica que parecia estar anestesiada.

~*~

Na aurora do dia o novo duque já estava de pé, ele havia passado a noite em claro. Sua mente não conseguia se desligar do turbilhão de lembranças que invadiam seus pensamentos.

Aquela casa era uma lembrança viva de toda a sua vida, todos os seus melhores momentos foram na luxuosa mansão de campo da família. Ele não aguentaria ficar mais no lugar que lhe enchia de dor e nostalgia.

Entretanto, antes de ir embora de vez Jacob sentia uma necessidade vital de se despedir do pai, reafirmar suas promessas e dizer o grande orgulho que possuía por ter sido seu filho.

Foi após uma tranquila caminhada pela propriedade, onde mais lembranças brotaram na mente do novo duque, que enfim Jacob chegou. Porém, ao avistar o belo jardim com as lápides, Jacob levou um grande susto.

Sobre o campo frio um pequeno corpo estava caído próximo ao túmulo de William, Jacob ficou em choque ao constatar que era Renesmee que estava toda encolhida em posição fetal.

—Pequena, o que você está fazendo aqui? — o Duque questionou, mas Renesmee nem se mexeu minimamente. —Vamos bonequinha, abra seus olhinhos cristalinos. Fale comigo! Você não pode fazer isso! —Jacob em desespero pela falta de resposta verificou a pulsação da menina, ela estava tão gelada que ele temeu que estivesse morta. Mas a pulsação estava presente, a frágil menina estava viva, Jacob constatou aliviado. —Há quanto tempo está exposta nessa friagem? Vai ficar doente. Olha como está gelada. — ele encostou mais o rosto da menina em seu peito sentindo a baixa temperatura do frágil corpo.

Renesmee balbuciou algo que Jacob não compreendeu. Ela estava tão fraca — pela falta de alimentação adequada há dias e por todo desgaste emocional — que não conseguia reagir. Ao longe escutava uma voz lhe chamar, mas ela não era capaz de abrir os olhos e nem de responder.

Jacob vendo que ela não conseguia reagir enrolou-a como um bebê na grossa manta e a ergueu em seu colo. Ela não pesava quase nada constatou o homem forte, era tão delicada quanto suas bonecas de porcelana.

O novo duque começou a caminhar com a menina em seu colo rumo a casa Black, iria colocá-la diante de uma lareira quentinha para se aquecer novamente e solicitaria a uma criada que fizesse um caldo bem quente, não deixaria Renesmee adoecer. Ele começaria a cumprir a promessa que fez ao pai naquele momento: cuidaria bem de sua pupila.

Em um ato reflexo, na busca por aquecer o corpo frio, Renesmee — mesmo ainda inconsciente—se aninhou no calor dos braços que a segurava. Era tão gostoso o calor que emanava dele.

Jacob ficou surpreso momentaneamente pela menina torpe em seu colo, ela havia abraçado seu pescoço e se aconchegado em seu peito. O novo duque pela primeira vez na vida olhou atentamente os traços da menina. Ela era absurdamente linda aos seus olhos. Pele tão branca como leite, lisa e macia. Lábios cheios e bem desenhados, tão vermelhos como as suas bochechas. Nariz pequeno e arrebitado.

Perfeito! Renesmee era perfeita. A menina com certeza um dia se tornaria uma linda mulher, talvez a mais bela que seus olhos já contemplaram.

Jacob sorriu ao perceber que fitava um a face perfeita de um anjo!

~*~

No outro dia Jacob e sua esposa pediram para que Elizabeth convencesse Renesmee a descer e se alimentar com eles e mais uma vez a menina negou. Leah não tão experiente e com toda sua personalidade introvertida, não soube como lidar com a criança. Apenas lamentou juntamente a seu marido pelo futuro solitário e incerto da menina.

Contudo, antes de sair àquela tarde Jacob fez uma declaração a todos os criados da propriedade:

— Eu não pretendo voltar aqui, só em caso de extrema necessidade, porém sempre mandarei alguém da minha confiança vir e verificar as terras, as contas e Renesmee. Já deixei às claras as funções de cada um em particular e espero que minhas especificações sejam cumpridas, principalmente em relação à menina. — Ele então olhou para a governanta. — Prometi ao meu pai que cuidaria dela tão bem quanto ele fazia e eu conto com a senhorita para que isso seja comprido. — a governanta anuiu vigorosamente. — Nada pode lhe faltar, avise-me de qualquer imprevisto ou necessidade que não possam suprir.

— Não se preocupe Senhor Black, tudo continuará em perfeito estado, sobretudo a Senhorita Renesmee. — Elizabeth o assegurou e tão logo Jacob partiu com Leah para Londres com a promessa de não mais voltar às terras Condais de Kent.

~*~

Um mês após o ocorrido era Natal. Tradicionalmente na Casa Black em Kent haveria muitos enfeites, muita comida em uma bela mesa, sorrisos para todos os lados e muitos presentes. Entretanto naquele ano, embora houvesse fartura na comida e neve cobrindo a casa, a alegria era amena, os presentes poucos e os presentes na casa também haviam se reduzido.

Jacob se recusou a ir até Kent comemorar o Natal, ficou em Bristol com sua esposa e a família dela.

Rachel por sua vez deixou a tristeza e a saudade do pai de lado e comunicou que passaria três dias na casa de campo. Com muito custo convenceu Renesmee a se alimentar com ela, o marido e seus filhos, mas eles tiveram que se contentar com o silêncio da ruiva. Assim aconteceu durante toda a estadia de Rachel na mansão.

No quarto dia pela manhã, o príncipe Paul gostaria de partir antes do almoço, sendo assim às dez horas da manhã Rachel foi até o quarto de Renesmee e bateu suavemente.

— Renesmee? Sou eu, querida. — ela se anunciou e sorriu quando a menina respondeu na segunda batida e a permitiu entrar.

— Vossa Alteza. — Renesmee inclinou-se em reverência.

Rachel sorriu indulgente e olhou a escrivaninha de mogno com papel e giz em cima, o que a levava a crer que Renesmee desenhava há segundos atrás.

— Olá pequena. — a princesa disse se aproximando da menina — Senti sua falta no café da manhã. — comentou com um tom doce e ameno.

— Não tinha fome, milady. — murmurou a mais nova.

— Precisa se alimentar. Elizabeth disse que você não anda se alimentando muito, apenas desceu nos dias em que estive aqui. — Rachel falava calma, mas a repreensão estava salpicada em cada palavra.

Renesmee manteve a cabeça baixa fitando a barra do vestido matutino de cor lilás.

—Renesmee... — Rachel muito lentamente pegou a mão da garota que não ergueu o olhar.

A morena então suspirou e se aproximou dos desenhos da ruiva.

— Você tem muito talento. — disse Rachel.

— Obrigada. — Renesmee respondeu em um fio de voz, ainda imóvel.

— Sabe? Você não precisa ficar aqui sozinha, meu anjo. — Rachel comentou rolando seus olhos pelo grande quarto da menina.

Renesmee arregalou seus olhos estranhando o comentário e não o entendendo também.

— Meu marido e eu estamos totalmente de acordo com o fato de que você deve vir morar conosco agora. — Rachel explanou voltando-se para à frente de Renesmee.

Dessa vez a menina a encarou com os olhos azuis cheios de pânico.

— Não! — respondeu a menina. Foi a palavra mais alta que disse até aquele momento e mesmo assim ainda era baixo. — Não posso, Vossa Alteza. — Renesmee voltou a fitar seu vestido.

— Querida, permanecerá sendo criada como alguém da família, porém terá a mim, as crianças e o Príncipe ao seu lado. Queremos lhe fazer companhia, te ajudar nessa fase difícil. — Rachel argumentou suavemente, acariciando a longa trança frouxa dos cabelos da menina.

Renesmee apenas pensava que era algo incabível que saísse daquele lugar, onde cresceu e viveu seus melhores momentos, onde cada parte lembrava sua mãe e o Duque. Momentos em que riu, ela também se lembrou dos momentos em que chorou, que se angustiou... E até esses eram importante para ela, porque sentia mais a vivacidade de seus sentimentos. Gostava de estar ali e desenhar, lembrar-se do passado e colocá-los em papel ou em canções ao piano. Sua curta vida estava ali. Ela não queria desfazer-se do lugar, mesmo lhe causando dor, sua vida era ali.

— Perdoe-me Alteza, mas não posso sair daqui... A não ser que não queria mais que eu fique aqui. — Renesmee esbugalhou seus olhos outra vez deixando todo o pavor repentino transbordar em sua voz.

— Não, Renesmee, de forma alguma. Não pense isso. – Rachel antecipou-se e outra vez pegou as mãos pequenas da menina. — Quero que se sinta bem, estou pensando eu seu bem-estar. Por Deus! — ela argumentou e, envergonhada, Renesmee desceu a vista e murmurou um “Desculpe-me” para ela.

— Gostaria muito de ficar. — a ruiva sussurrou.

Rachel então a abraçou e replicou:

— Acredito que se sentirá melhor no palácio, é bem maior que essa casa. Terá mais distrações, poderá estudar e manter suas atividades, e quando mais velha pode ficar como minha dama de companhia. Eu ia adorar tê-la ao meu lado. — Rachel elucidou carinhosamente.

As palavras da morena eram tão dóceis e amáveis, que Renesmee sentiu-se mais leve, quase cedendo à carência e aceitando a proposta da filha de William. Todavia, a jovem ruiva era bastante segura de suas decisões, sempre gostou da reclusão de seu quarto e dos ares de Kent, não mudaria agora, talvez não mudasse nunca. Caso Rachel e Jacob concordasse, ela poderia trabalhar ali mesmo na Casa Black quando mais velha.

Era seu lar, sua vida, suas lembranças... Ela não abriria mão daquilo por nada.

Notas finais
Então?? O que acharam?? Eu fiquei com lágrimas nos olhos, o Duque era um grande homem! e Renesmee? Pobrezinha, perdeu mais alguem amado. Sabemos que é triste, mas como dissemos, é tudo essencial para o desenvolver da fic. Cada acontecimento na estoria tem seu proposito haha O próximo virá quando tivermos 20 comentários! Recomendações??? Merecemos?? Abraços e Beijos. Jenny e Daaay