Bloom
8 Arrivals and Departures
Notas iniciais

Londres, 1816
O tilintar de pratas sendo colocadas sobre a longa mesa retangular de mogno preenchia toda a sala de jantar da casa Black no Hyde Park. A toalha de linho branca com bordados em renda francesa combinava com a linda ornamentação da porcelana; as taças de cristais já estavam dispostas perfeitamente.
Leah — a bela duquesa de York — orientava as empregadas em como a mesa deviria ser posta enquanto adulava sua protuberante barriga de sete meses. Era uma gravidez sofrida, de absoluto repouso, diferenciada refeição e muitos mimos vindos do duque. No entanto, a expectativa de finalmente um herdeiro da família Black e Clearwater vir ao mundo compensava qualquer esforço e restrição.
Mesmo com todas as limitações que agora tinha que seguir, a duquesa sentia-se realizada com a gestação. Ela não arriscaria a linhagem do seu marido por um capricho. Todo o sacrifício era válido para enfim dar um herdeiro para o Duque, que agora passava mais tempo fora de casa do que em sua companhia.
As obrigações de Jacob, como o grande lorde que era, tomava boa parte de seu tempo, mas nem por isso ele deixava de dedicar toda atenção a sua duquesa.
Era começo da noite quando Jacob adentrou a casa. Logo após deixar a casaca com seu valete ele seguiu para a sala de jantar encontrando — com muita alegria — sua esposa amorosa e sua grandiosa barriga.
— Olá querida. Perdoe-me pela demora, hoje tive um dia muito atarefado. — disse antes de um pigarro.
Leah deu um sorriso condescendente e indicou a mesa.
— Não se preocupe querido. Estava somente lhe esperando para mandar servir o jantar.
— E como está esse garotão? — Jacob falou alisando delicadamente a protuberância no ventre de sua esposa.
— Querido, e se for menina? — perguntou preocupada, tinha medo de decepcioná-lo com uma filha e não um herdeiro homem.
— Amarei da mesma forma. – Jacob deu um longo suspiro. — Porém acredito ser um varão. — sorriu por fim.
— De qualquer forma estamos bem. — Leah respondeu satisfeita.
Enquanto o Duque se dirigia ao lavabo na intenção de assear-se para o jantar, Leah ordenou que as criadas começassem a servir a refeição. Tudo transcorria tranquilamente — como todos os dias —, o casal mantinha uma conversa leve e banal, porém muito agradável.
Contudo, antes mesmo que a Duquesa pudesse recepcionar seu esposo mais carinhosamente com um beijo nos lábios e abraços, Jacob tratou de meter-se em uma banheira dando a desculpa que necessitava se refrescar.
Na verdade o Duque havia passado boa parte da tarde com uma meretriz, já acostumada a ter os maridos de outras em sua cama. Já não era a primeira vez dela, da mesma forma que a loira não era a primeira amante de Jacob.
Após banhar-se longamente, pois o duque não queria desagradar à esposa com possíveis cheiros femininos entranhados em seu corpo e roupas, Jacob deixou-se relaxar na cama de sua duquesa. Eles trocaram algumas carícias e beijos, mas não passou disso. Leah estava proibida pelo médico da família a manter intimidade durante toda a gestação.
No dia seguinte, após resolver diversas questões no parlamento, bem no meio da tarde, Jacob sentou-se no Silvers com seus amigos. Era o momento que ele sempre reservava para descontrair seu estressante dia, claro que isso ocorria quando não estava na cama de alguma cortesã tendo outro tipo de distração.
— Pois vejam. Se não é o marido mais apaixonado de toda Londres? — Jacob brincou com o amigo que acabava de entrar no clube só para nobres.
— Tu sabes que a Claire foi considerada a mais bonita da temporada. – Quil replicou orgulhoso.
— Sei. – Jacob sorriu ao responder e aquiesceu. Era inegável a paixão nos olhos do futuro Conde.
— Ateara, você terminou o cortejo com a filha de um Marquês para se casar com a filha de um visconde. — Embry endossou bastante divertido com a situação.
— Caro amigo, confesse: você está apaixonado! – Jacob gargalhou logo após a fala, sendo logo seguido por Embry.
Os amigos brincavam com o mais novo.
Quil Ateara havia se casado há seis meses com uma jovem que retornara a pouco da França, visto que parte da família da moça era daquele país. Claire tinha ido terminar sua educação no país natal da mãe, que pertencia à alta nobreza Francesa. Foi um casamento intempestivo e caloroso, no qual Quil levou quatro meses para aparecer no clube novamente, e em nenhum momento demonstrou insatisfações conjugais.
— Ateara, ainda não enjoou? – Embry perguntou sarcástico.
— Nunca. – Quil ditou firme e seguro. — A Claire é perfeita em todos os sentidos. — um sorriso triunfante estava no rosto do mais novo.
— Espera só ela engravidar. Aí sim as meninas de Madame Bernadete te verão com frequência. — o Duque alertou com um sorriso malicioso.
— Black, você reclamava da falta de dinâmica na cama muito antes da primeira gravidez da Duquesa. — Quil retrucou bem humorado.
Jacob ajeitou a postura na cadeira e levou o copo de conhaque aos lábios. Sua vida sexual com sua duquesa estava muito longe de ser satisfatória ao seu gosto. Leah era uma dama perfeita em muitos aspectos, mas extremamente conservadora no leito matrimonial. Não permitia novas experiências com o marido, que logo cansou das tentativas e se sentiu enfadado com a rotina na cama.
Porém, agora com a gestação de risco, nem o trivial eles faziam. Claro que muito antes da gravidez da duquesa ir à frente, Jacob já tinha algumas amantes, mas essas eram com uma frequência bem menor. Seu pai, ainda em vida, o repreendeu por algumas vezes, mas a insatisfação sexual no matrimônio sempre o fazia procurar a cama de uma discreta meretriz.
— O único sortudo apaixonado e satisfeito com o matrimônio aqui é você, caro amigo. – Embry saiu em defesa ao duque enchendo mais um copo com conhaque, ele também vivia um casamento de formalidade.
— Call, você é um descarado que nunca respeitou sua Marquesa. Tenho pena de Caroline. Você não se dá nem ao trabalho de ser discreto. – Quil repreendeu o amigo. Achava desrespeitosa a forma imprudente que Embry vivia com suas amantes. – Ao menos o Black é mais cuidadoso.
— Não prometi amor a Caroline ao me casar. – replicou o Marquês. – Ela já está satisfeita em ser minha esposa e ter me dado um filho varão. Ela tem o prestígio na sociedade que tanto aprecia e a cubro de luxo e joias que ela tanto gosta.
Na verdade casamentos apaixonados naquela época eram raros, Quil Ateara era um dos poucos felizardos que desfrutava da plena felicidade conjugal.
Os amigos continuaram bebendo, conversando e trocando experiências até escurecer. Após algumas horas no Silvers eles se despediram brevemente já que o encontro no bar era frequente entre os amigos de longa data. Quil seguiu direto para casa — não sem antes parar e comprar flores para presentear sua dama —, estava com saudades de sua bela jovem esposa. Já Embry e Jacob rumaram para o habitual bordel que frequentavam, era um hábito que os dois nobres adoravam desfrutar.
~*~
Kent
O sol brilhava dourado no céu límpido e claro no qual o azul ostentado era idêntico aos olhos da jovem que cavalgava impetuosamente encima da bela égua branca. A brisa morna da primavera acariciava a linda face de porcelana, os cabelos de fogo dançavam ao vento. Renesmee se sentia livre e em rara sensação de paz, ela amava cavalgar em sua linda e dócil égua.
Havia se passado meses desde que o Duque tinha falecido. Nesse tempo a menina havia se tornado ainda mais introspectiva, arredia e calada. Era raro ver Renesmee pelos corredores da bela mansão, mais raro ainda era vê-la conversando com alguém além do estritamente necessário. Quando não estava no campo, estava trancada em seu aposento que agora tinha um piano e uma pequena mesa de refeições. Tudo a mando do novo duque, que tinha dado a ordem mediante as informações que recebia dos criados.
Como Renesmee passou a viver fechada, dentro de seu quarto, o duque deu ordem para que algumas mudanças fossem feitas com o objetivo da menina não perder o hábito e as habilidades que adquiriu por anos.
A menina ruiva ficou, durante meses, trancada no grande quarto, só saindo de casa para passear no campo durante a primavera e verão, no resto vivia reclusa em seu mundo.
Conforme o prometido, Jacob jamais retornou as suas terras condais de Kent. Seu administrador era quem lhe deixava a par de tudo que acontecia.
Rachel ia visitar a menina a cada troca de estação, levando sempre novos vestidos e sapatilhas. Elizabeth enviava missivas quinzenais ao duque com informações sobre Renesmee. Por diversas vezes tanto o duque como a princesa convidaram a menina para viver em Londres, mas a mesma sempre se recusava. Ali era o seu lar, ali estavam as suas raízes.
— Iá, iá! Vamos Estrela! – a menina cutucou a barriga da égua com os estribos de metal. Imediatamente o animal aumentou sua velocidade sobre a trilha poeirenta.
Ela tinha pressa em chegar, estava ansiosa para apreciar seu pequeno esconderijo, seu paraíso particular. Então sem demora ela se viu à margem do rio, exatamente onde pequenas rochas formava uma grande piscina natural, calma e tranquila, perfeita para banhar-se.
Renesmee desceu habilidosamente da égua, levando-a para tomar um pouco da água fresca e depois amarrou o animal em uma frondosa árvore, a qual deixava uma enorme sombra sobre a margem. A égua satisfeita catou algumas maças ao chão para comer enquanto sua dona se despia para entrar no riacho.
A menina se livrava de cada peça de sua roupa de montaria (presente da princesa), sem a preocupação de ser flagrada. Estava em uma área erma da imensa propriedade, aquela parte da terra era usada somente para a caçada dos nobres, como o atual Duque não pisava mais em Kent, ali se tornou um lugar deserto.
Após passar a tarde nadando, comendo frutas do pé e dormindo a sombra das cópulas das árvores, Renesmee — pouco antes do sol se pôr — fez o caminho de volta para mansão a qual tanto lhe trazia nostalgia. Era um hábito diário desde a morte do Duque, a menina colhia flores no campo e levava para o túmulo da mãe e de William.
Renesmee passavam horas no pequeno cemitério da família Black — onde sua mãe também tinha um lugar de destaque — conversando com as lápides dos seus pais.
Sim! O Duque para ela era como o pai que nunca teve.
Diante do túmulo de William Renesmee podia sentar-se e falar sobre seus pensamentos, lembranças saudades e principalmente declarar seu grande sentimento ao homem o qual ela sempre viu como um pai.
~*~
— Boa tarde, senhorita Wood. – cumprimentou-a efusivamente o jovem cavalariço ao ver a ruiva entrar no estábulo.
— Boa tarde, Joe. – respondeu somente por educação, já conduzindo a égua branca para sua baia.
— Pode deixar. Eu cuidarei dela para a senhorita. – ofereceu-se Joe, um jovem de dezoito anos.
Ele pegou a rédea do animal das mãos da garota, roçando brevemente sua mão calejada na pele do dorso da mão alva e macia de Renesmee.
A menina não maldou o gesto e nem se sentiu tocada pelo ato, mesmo Joe sendo bem apessoado e visivelmente afetado por sua beleza que começava a despertar a atenção masculina.
Joe sempre olhava Renesmee com um brilho encantado no olhar, jamais tinha visto jovem mais linda que ela, considerando que ele era um jovem que muito andava pelo vilarejo. Ele era apaixonado pela introspectiva menina, quem nem sequer lhe correspondia à amizade, quanto mais a um sentimento afetivo.
A ruiva ainda não ainda tinha desabrochado sua atenção para o sexo oposto.
— Obrigada. Cuide bem da minha garota. Não deixe de alimentá-la e banhá-la. – agradeceu sem esboçar um mínimo sorriso ao rapaz, logo voltou sua atenção ao animal. – Amanhã volto para passearmos, garota. – alisou a sedosa crista branca como algodão da bela égua, beijando o focinho.
Joe ficou olhando o carinho que a ruiva dirigia ao animal, ele desejou que o beijo fosse nele e não na égua, mas Renesmee parecia impenetrável e inatingível a tudo. Ela nunca correspondia aos flertes que ele tentava estabelecer, na verdade, o rapaz desconfiava que ela nem sequer se atentasse ao que acontecia.
Renesmee deixou o estábulo sem nem ao menos olhar para trás ou dirigir a palavra a qualquer outro criado que ali estava. Não que a menina fosse arrogante, isso jamais, por outro lado ela era totalmente calada e fechada para qualquer pessoa que tentasse se aproximar.
Seu rosto era indecifrável e impassível, não havia sorrisos espontâneos, brilho alegre no olhar, ou animação em sua voz. Era como se estivesse a todo o momento presa em uma bolha particular.
— O melhor que você tem a fazer é tirar a menina Wood da cabeça. — Richard alertou o rapaz, aproximando-se dele que ainda observava à ruiva se dirigir a mansão. — Ela é a pupila da família Black. Se fizer algum mal a ela você comprará uma guerra, já fadada à derrota, com alguns dos nobres mais importantes da Inglaterra. Ela é inalcançável para você, rapaz. – falou com sabedoria ao jovem.
Mesmo ainda sendo novo Richard já trabalhava para a família há algum tempo, sabia de toda a proteção que cercava a menina e tinha a ciência de que a cada dia ela se tornava uma linda tentação para qualquer homem que tivesse um pouco de sangue nas veias. No entanto Richard tinha juízo e amor à própria vida o suficiente para tentar qualquer coisa com a protegida da família Black.
— Eu não a quero para somente desfrutar os prazeres carnais. Eu quero cortejá-la. De verdade. – Joe falou com segurança. – Só vou esperar o mínimo sinal de que ela me corresponde. Falarei com o duque se for preciso.
— Muita boa sorte então, rapaz tolo. – Richard gargalhou com escárnio.
Renesmee foi criada para ser esposa de um nobre ou rico aristocrata, não casaria com um simples cavalariço. Era uma velha verdade conhecida.
Richard sabia dos planos do antigo duque com relação a sua pupila. Aquilo era uma informação que corria pelas alas da criadagem na mansão até os dias atuais.
Alheia a toda a conversa dos criados, a qual acontecia no estábulo ao seu respeito, Renesmee caminhava a passos graciosos pelo campo. Ela voltaria para a mansão, se trancaria em seu quarto e ficaria lá até o dia seguinte.
Seu aposento era seu mundo. Lá ela tocava piano, pintava, lia, bordava... Tinha tudo o que precisava e gostava em seu pequeno mundo particular.
— Criança, por onde você andou? Já está bem tarde e você nem almoçou ainda. – Rosamund ralhou com a ruiva que entrava a casa pela porta dos fundos que dava acesso direto na cozinha.
— Não tenho fome. – Renesmee limitou-se a falar baixo, já deixando o ambiente.
As outras criadas que ali estavam nada falaram, sabiam que a ruiva não gostava de conversar com ninguém.
— Senhorita, aonde vai com tanta pressa? – perguntou Elizabeth ao entrar no recito, impedindo que Renesmee seguisse para o corredor de acesso ao salão principal. O tom de voz da mais velha era repreensivo.
Renesmee estancou no lugar, abaixou o olhar e nada respondeu a governanta. Elizabeth não precisava de respostas às quais já tinham; por isso a menina limitou-se a ficar calada.
— A Duquesa enviou uma missiva convidando a senhorita para passar uma temporada em Londres. O Bebê está para nascer a qualquer momento e a família já está em festa, solicitam a sua presença nesse momento de alegria. – Elizabeth começou a falar brandamente, prevendo que a menina não responderia. – O que responderei? — a governanta esperou por alguns segundos uma resposta que não veio. — Creio que seria bom para senhorita ir e respirar novos ares, o nascimento de uma criança sempre trás muitas alegrias.
Quase um minuto de silêncio formou-se, a ruiva ainda mantinha seus olhos no assoalho, por fim ela ergueu a cabeça, fitou a governanta e puxou o ar profundamente de forma quase imperceptível.
— Agradeça a Milady pelo convite, estou imensamente feliz por ela, mas informe que não poderei ir. – disse sem esboçar qualquer emoção nas palavras.
Não era que Renesmee não estivesse feliz pela chegada do tão esperado herdeiro na família Black, longe disso. Ela sabia o quanto a duquesa sofreu a cada gestação interrompida, ela gostava da conquista do jovem casal. Entretanto suas emoções foram enterradas no fundo de seu peito desde a morte de William.
A delicada menina havia se tornado uma pessoa inexpressiva aos olhos dos outros, ninguém conseguia desvendar as emoções dela. Renesmee era um baú se segredos.
— Renesmee, nós precisamos conversar. – Elizabeth seguiu a menina que deixava definitivamente a cozinha e seguia pelo comprido corredor. – Estás crescendo, logo se tornará uma moça. Precisamos conversar sobre essas mudanças.
Renesmee sem esboçar qualquer reação que indicasse estar ouvindo a governanta subiu a escada principal e alcançou o segundo patamar escutando perfeitamente as palavras de Elizabeth sobre comportamento, diálogo e mudanças corporais.
A governanta sempre tentava abordar o assunto com a menina, mas a mesma sempre se negava. Era nítido aos olhos dos outros as mudanças nas feições e corpo da ruiva. Ela ganhava formas de moça e não mais de criança. Os seios já cresciam, a cintura e quadril começavam a delinear sutilmente. Renesmee continuava miúda e graciosa, mas agora começava a mostrar formas de uma pequena mulher.
Ela ficava mais linda a cada dia, isso preocupava Elizabeth. A criada estava procurando uma forma de abordar o assunto com o atual Duque, mas não conseguia achar a oportunidade para tal assunto.
— Quando eu tiver alguma dúvida eu procuro-lhe, Lizzi. Mesmo assim, obrigada. – a menina disse amena e não deu brechas para a governanta ir adiante com o assunto.
Elizabeth desistiu mais uma vez, enfim. E a ruiva novamente entrou em seu santuário.
Renesmee já estava notando as mudanças em seu corpo, mas era algo que compartilharia com a mãe e não com mais ninguém. Na ausência de Katherine a menina optou por descobrir sozinha as suas mudanças, seu corpo e rosto falariam por si só. Ela queria passar por esse momento mãe e filha sozinha, ninguém viveria a experiência que era o direito de Kate.
~*~
Londres, dois meses depois.
Os pássaros cantavam melodiosamente durante o término da manhã no lindo jardim da mansão que ostentava as mais belas flores da estação. O cheiro de rosas e jasmim inebriava o olfato, o calor brando era reconfortante.
No banco de madeira branca a duquesa respirava um pouco de ar puro matinal, Leah estava nos últimos dias da gestação. Sua barriga baixa e já bastante pesada a cansava a cada mínimo esforço. A gestante permanecia em repouso absoluto, porém o médico recomendou banhos de sol todas as manhãs, faria bem a pele e aos pulmões.
Leah acarinhava o próprio ventre enquanto observava distraidamente todo o jardim, sua aia sustentava sobre sua cabeça uma graciosa sombrinha de tecido branco.
— Milady, o sol está ficando mais forte, acho melhor entrarmos. – sugeriu a atenciosa criada.
— Sim! Claro, Anne. – Leah respondeu voltando sua atenção para aia. – Pode me ajudar a levantar?
— Claro Milady! – a prestativa Anne fechou a sobrinha e depositou-a no banco, estendendo as mãos para patroa e a ajudando a se erguer.
Como Leah tinha uma gravidez de risco, todo cuidado era pouco e todo esforço que poderia ser feito era mínimo, por isso a criada sempre a ajudava em todas as necessidades. Porém, assim que a duquesa se viu de pé deixou um grito agudo escapar dos lábios finos.
Uma dor sem precedentes foi sentida pela grávida, apavorando a aia.
— Senhora, o que está sentido? – Anne perguntou assombrada, a patroa estava sem cor na face. – Milady, me responda pelo amor aos céus.
— Acho que está na hora. – Leah respondeu com dificuldade, a dor estava muito grande.
De repente ela sentiu um líquido morno descer pelas pernas, ela já tinha sido orientada em como tudo iria acontecer e quais os sinais deveria identificar quando estivesse na hora do parto.
– Chame o meu marido e avise minha família, o bebê vai nascer.
Anne se viu desesperada, ela era tão nova quanto à patroa, não possuía experiências com parto. Imediatamente começou a gritar no jardim por ajuda, o que atraiu a atenção dos outros criados que acabaram por ajudar a duquesa a retornar ao seu aposento.
Logo leah foi despida e depois vestida com uma leve camisola, deitaram-na sobre a enorme e confortável cama. A parteira que faria o parto da duquesa foi imediatamente chamada, era uma mulher já muito experiente, havia feito os dois partos de Rachel e de outras mulheres da corte.
A correria pela casa era enorme, a movimentação era grande. Em menos de vinte minutos desde que foi comunicada, lady Clearwater já adentrava a casa da filha para ajudá-la no difícil momento do parto.
A sala principal da casa Black estava cheia com os homens da família Clearwater, eles bebiam o conhaque que havia sido servido pelo mordomo.
Harry, o pai de Leah, e os irmãos mais velhos — Sam e Seth — caminhavam de um lado para o outro da enorme sala. Eles estavam nervosos pelos gritos sofridos que podiam ser ouvidos por todo ambiente e pela demora do Duque em chegar.
Jacob entrou pela sala assustado, tinha expressão aflita e olhos arregalados. Junto com ele veio Embry e Quil para comemorar com o amigo o nascimento do seu primeiro filho, o futuro grande Duque.
Foi difícil o criado do Duque descobrir em qual bordel se encontrava o patrão e o amigo marquês. Foi Quil quem disse ao criado exatamente onde achar Jacob, visto que o futuro conde realmente estava em seu gabinete no parlamento, trabalhando junto ao pai.
— Por onde andou? – Harry indagou ríspido com o genro.
— Resolvendo algumas pendências com meu administrador. – Jacob mentia e todos sabiam, todavia ninguém o replicou.
Todos compreendiam as necessidades do duque como homem, aquele era um costume comum para época. A maioria das ladies ficava intocada durante a gestação e os nobres corriam para cama das cortesãs da cidade.
Foi assim com Sam, Emby e até Harry na última gestação da condessa. Seth ainda não tinha vivido a experiência da gestação, uma vez que ainda não tinha se casado, pois retornara a pouco da universidade. Outro que não compartilhava dessa experiência era Quil, Claire ainda não estava esperando um herdeiro para o futuro conde, mas do jeito que mantinham a relação sexual isso não tardaria a acontecer.
— Ela já esta assim faz umas duas horas. – Sam, o primogênito de Harry, informou ao cunhado lhe estendendo uma taça com conhaque. – Emily não gritou tanto assim nas gestações. – divagou em voz alta, sem pretensão alguma.
— Cada uma é de um jeito. – o conde cortou o filho mais velho. – Cada gestação foi diferente para sua mãe. Ela sofreu mais na sua que na dos seus irmãos, no próximo tenho certeza que será mais tranquilo. — acrescentou.
— Será que vem um varão, meu amigo? – Embry ergueu a taça propondo um brinde. – Deve ser. Caroline, também sofreu muito. A parteira disse que geralmente o parto de meninos é mais sofrido para a mulher, pois eles são maiores em comparação as meninas. — elucidou para o Duque.
— Que venha com saúde e que tudo acabe logo. — Jacob suspirou visivelmente preocupado — Não gosto da ideia de saber que a Leah está sofrendo tanto para me dar um filho. – concluiu incomodado com os gritos agonizantes da esposa que eram ouvidos por toda casa.
Leah era uma mulher delicada, saber que ela estava sofrendo incomodava Jacob. Por mais que ele não amasse a esposa, possuía um enorme carinho por ela.
Horas haviam se passado, o dia se transformou em tarde e essa já havia se transformado em noite. Os gritos da Duquesa a cada minuto foram aumentando, mas há alguns minutos eles pareciam mais fracos, provavelmente o parto da Duquesa estava chegando ao fim, isso todos deduziram.
De repente o silêncio predominou no ambiente, foi cruciante para todos no salão principal.
Cada homem manteve seus músculos parados, ouvidos atentos, olhos esperançosos, estavam preparados para o tão esperado choro agudo e infantil.
O choro que não veio.
No lugar dele, um grito de desespero e um choro compulsivo e alto começou a ser ouvido.
Todos os homens que aguardavam ansiosamente por notícias se ergueram em um rompante de seus assentos, todos questionando através dos olhares o que acontecia.
— O que está havendo? Por que ninguém traz notícias. — Jacob bradou indo em direção à escadaria.
— Calma, temos que ter calma. – Seth o interceptou suavemente, mas seu coração chocava-se forte no peito.
Nesse momento Sue — a condessa — desceu à sala sendo amparada por duas criadas que ajudavam no parto da duquesa de York. Ela tinha a face transfigurada em dor, seus olhos brilhavam de tristeza. Todos se desesperaram com isso.
— Meu bem, o que está havendo? — Harry perguntou em um misto de euforia e desespero, ele não estava sabendo identificar a expressão da própria esposa.
Então a condessa não se segurou mais nas criadas e jogou-se aos braços do marido que a amparou — ainda confuso —. Sue deixou as lágrimas caírem em torrentes, mas logo as limpou e fitou angustiosamente seu marido.
— Nossa menina, Harry... A-a nossa menina... – Sue soluçava ao tentar falar. – Perdemos a nossa menina. Ela não aguentou o parto... — embora sua voz fosse apenas um chiado, todos prestavam atenção. — E-ela e o bebê não resistiram. Nossa filha e neta morreram. – desatou a chorar mais uma vez.
Jacob desabou sobre a poltrona mais próxima ao terminar de ouvir o relato da sogra. Suas pernas não mais sustentaram o peso do próprio corpo, seus músculos tremulavam e a boca havia secado repentinamente. Ele não estava acreditando em que seus ouvidos acabavam de escutar, Jacob estava em choque.
Embry e Quil foram confortar o amigo pela perda, mas Jacob nem mesmo piscava, nem ouvia as palavras dos amigos. Harry juntamente a seus filhos amparava a esposa em desespero. Os homens da família Clearwater tinham dor no olhar pela irreparável perda da única menina da família.
Leah havia morrido ao tentar dar a luz a uma menina, a sua filha. Mãe e filha, infelizmente, não resistiram ao complicado parto.
A morte da jovem Duquesa foi devido a grande perda de sangue e horas de esforço para expulsar um bebê que estava sentado e com o cordão circulando o pescoço.
A neném veio ao mundo já morta, a face era toda roxa pela asfixia. A duquesa caiu morta assim que conseguiu expulsar bravamente a filhinha.
Era mais uma fatalidade que se abatia sobre a família Black. Rachel foi avisada somente nas primeiras horas da manhã seguinte, no meio daquela noite fatídica Jacob não conseguia falar ou raciocinar direito. Apenas mandou avisar a irmã depois de conseguir digerir toda a informação.
A princesa acordou com a chegada da notícia, deixou os filhos com a ama das crianças e rumou para a mansão do irmão junto com seu esposo. Iria mais uma vez consolá-lo e ampará-lo no momento da perda.
~*~
A aristocracia estava de luto pela perda da bondosa e amável duquesa de York.
Jacob Black agora era um jovem Duque viúvo e sem herdeiros. Muitos já especulavam um próximo casamento, uma vez que o Duque tinha que dar continuidade a sua linhagem, além do fato de que ainda era um homem jovem. Apenas vinte e sete anos, muitos se casavam pela primeira vez nessa idade.
No entanto, tal pensamento nem de longe passava pela cabeça do duque, ele ainda estava anestesiado pela terrível perda.
Respeitando ao desejo dos pais da sua falecida esposa, Jacob realizou o desejo deles em enterrar Leah no cemitério da família dela. Era lá que todos os descendentes da família do Conde jaziam. A falecida duquesa de York e Cambridge foi enterrada junto ao corpinho da filha recém-nascida.
Jacob naquele momento — vendo dois sepultamentos simultâneos — sentiu uma dor semelhante de quando perdeu os pais, talvez um pouco menos que quando perdeu William.
Nada ainda havia superado a dor de perdê-lo, nem a própria filha e esposa. Todavia agora o duque mergulhava em um profundo mar de tristezas e incertezas.
Com seu casamento, esposa e a esperança de um herdeiro, Jacob poderia se ocupar, ter uma meta a cumprir e conseguir não pensar em como seu pai fazia falta, em como precisava de seus conselhos e repreensões. Ele queria ser tudo aquilo que William esperava que ele fosse. Mesmo depois de morto William ainda era um perfeito modelo para Jacob. Ele faria de tudo para provocar o orgulho no pai. Jacob o venerava, mesmo depois de perdê-lo.
William o deixou encaminhado na vida. Mas Jacob perdera o que tinha conquistado e naquele momento estava em completo choque, sem saber o que fazer a seguir.
O que fazer? O que fazer? Era tudo o que ele se perguntava desde a perda de sua pequena e querida família.
Jacob pensou nisso nos três meses seguintes, nos quais ele manteve o absoluto luto e sonhava com seu amado pai. Ele sentia tanto a ausência do velho Duque que por diversas noites sonhou encontra-lo nos campos de Kent outra vez.
~*~
A chegada do verão marcou a saída do Duque de York e Cambridge de Londres.
O sol da manhã deixava seus raios reluzirem nas ferragens da carruagem luxuosa que seguia em velocidade máxima pela estrada cercada de um gramado verde intenso.
O céu estava totalmente limpo, muito azul. As arvores bem cheias e o calor moderado. As pessoas que andavam em seus cabriolés ou até mesmo a pé mostravam-se satisfeitas com o tempo alegre, alguns pararam para especular sobre a bela carruagem que trilhava no vilarejo.
Jacob, alheio à fofoca exterior, aproveitava o calor que inundava o veículo e penetrava-lhe as vestes, o cheiro do verão em Kent, as cores vivas, as pessoas alegres — curiosas, mas contentes — e, sobretudo o regozijo de voltar para casa.
Ele olhou seu relógio de bolso — um dia havia sido de seu pai —, marcava dez e meia. Ele sorriu; nessa hora William costumava cavalgar na propriedade, quando não estava em viagens e obrigações, é claro.
O jovem Duque perdeu-se na vista dos terrenos campestres enquanto refletia há quanto tempo não cavalgava, aliás, lembrou-se da ultima vez em que cavalgou ao lado de seu pai. Lembrou-se das tardes a sombra das arvores, a colheita de frutos e as leituras sob o carvalho.
Jacob então entendeu que havia tomado a decisão certa. Kent era o seu lugar favorito, onde estava seu pai, sua mãe e suas lembranças. Era tudo o que precisava para se erguer novamente.
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