“Tudo estava embaçado, havia muita correria, caos. Ela sentia o fogo arder em sua pele, a dor da perda. E de repente escuridão. Gritos.”
Demorou a perceber que já estava acordada,e que os gritos, na verdade vinham dela. O suor que escorria de seu rosto era repugnante, se levantou e foi ao banheiro. Em frente ao espelho, encarou seus olhos inexpressivos, e depois seu rosto. Estava deplorável. Lavou-se e arrumou o cabelo. Os cabelos negros caiam em cachos até seu ombro, em contraste com sua pele branca.
Foi em direção a cozinha, o dia era cinzento, se via apenas nuvens em uma camada uniforme cobrindo todo o horizonte. Era impossível ver o Sol, mas ela sabia que era quase meio dia. Sim, o dia havia começado sem ela, e sinceramente, ela não se importava.
Se aproximou da cozinha, o cheiro do almoço pairava no ar.
- Olá Jeffrey. – O mordomo, que não sabia porque, ainda cuidava dela mesmo após todos esses anos.
- Bom dia Alice. Como foi sua noite? – ele escutara os gritos.
- Como sempre. – Puxou uma cadeira e assentou-se a mesa, em frente ao fogão. Como de costume, seu desjejum estava à mesa. Pegou alguns biscoitos que mordiscava vez ou outra enquanto sua mente vagava. Feixes de antigas memórias a atingia, e a nostalgia tomava conta de si. Sorrisos e alegria, borrados e apagados pelo tempo. Sentiu uma lágrima arder em seu rosto, mas não havia nada ali. Suas lágrimas já haviam secado há muito tempo.
Comeu o último biscoito e seguiu para o jardim. Saiu pela porta dos fundos, sua visão clareou. Podia ver muitas flores e algumas fontes, que nada combinavam com o clima pesado. Definitivamente era belo, porém, grande demais e exagerado demais para seu gosto.

Desceu pela escada de pedra, pequeninas flores a rodeavam e emanavam seus deliciosos aromas. Ao leste, as trepadeiras formavam um pequeno labirinto. No centro, uma linda fonte de mármore, cujo as gotas refletiam os minúsculos raios de sol clareando o ambiente. A oeste um grande campo de rosas chamava a atenção, e abaixo delas um delicado velinho cuidava das pequenas mudas.

Ela seguiu calmamente o caminho de pedras até as roseiras. Ao se aproximar do velinho murmurou:
- Olá, — hesitou, e um rubor subiu a sua face ao perceber que não se lembrava de seu nome.

- Bom dia senhorita. – Sorriu levemente para a garota, e voltou aos seus afazeres.

Retribuiu o sorriso e continuou seu caminho, contornou a fonte e foi em direção ao final do labirinto. Lá havia um lago, e próximo a ele seu pequeno refúgio. Dois bancos e uma mesa baixa. Um teto suspenso por cinco colunas de pedras onde trepadeiras se seguravam. Assentou-se em um dos bancos. Estava com raiva novamente. Não entendia, era como estar em uma casa de estranhos. Morava sozinha, e os empregados em um chalé próximo a casa. Não tinha pais, e mesmo depois da morte deles, era pobre. Não sabia ao certo como chegou ali. Só se lembra que após aquele dia alguém havia cuidado dela. Alguém que ela não se lembra, alguém que sumiu. Seu torpor era tanto que nem de seu rosto se lembrava, e aos poucos ele desaparece de sua memória. Lembrava vagamente de seu olhar obsessivo, aquele olhar que tanto zelou por ela, aquele olhar que ela odiava.
Fitou o céu. Já deviam ser quase duas horas, resolveu voltar. Queria caminhar pela vila. Entrou pela porta dos fundos, o almoço estava à mesa, gelado provavelmente. Colocou apenas um pouco no prato e pôs em cima do fogão a lenha para esquentar. Quando fiou razoavelmente morno tirou o prato e subiu para o quarto. Assentou na cama que ficava a altura da janela e comeu. Não gostava de nada disso, não tinha preferência alimentar, nem por cores ou roupas. Sua mente era vazia, não havia mais alegria, não havia mais tristeza. Apenas ódio, rancor, amor e saudade.

Notas finais
Yeah, terminei. *-*'