Blood Tear
3 Capítulo 2
Ela andava calmamente pela vila onde morou por tantos anos, porem não ia muito ali, sua casa era afastada, e não gostava dos olhares tortos em direção a ela. Afinal, ela era a pequena órfã. A menina que deveria ter morrido no incêndio, mas que foi morar com um homem que nunca tinha visto na vida, por causa de dinheiro. Não, ela sabia que não era verdade, porem sabia o que todos pensavam. Muitas vezes já foi expulsa de estabelecimentos, já levou pedradas de crianças e até expulsa da vila. Mas ela sempre voltava. Sim, odiava aquele lugar, mas era ali que guardava seu maior tesouro. Suas mais preciosas memórias.
“-Mana! Mana! Olha só o que eu achei! — O garoto que corria até ela sorria. Um sorriso maravilhoso, um sorriso idêntico ao seu.”
Era seu irmão, exatamente a mesma idade, exatamente a mesma cor de pele. Seus olhos, porém, eram escuros, e os dele, claros, claros como o céu. Seus cabelos negros como a escuridão, e os dele, amarelados como o sol.
“O garoto havia pego sua mão e agora a puxava para longe daquele pequeno parquinho infantil. Começaram a correr, e só pararam na beira de um rio. Era lindo, definitivamente. Os peixes agitavam a água espirrando minúsculas gotas que brilhavam abaixo do sol ofuscante.”
Ela colocou a mão dentro d’água, a temperatura não estava nem próxima do que era aquele dia. Estava fria. O sol estava encoberto pelas nuvens, e não havia peixes. Era triste. Continuou seu caminho seguindo o rio, mais a frente se formava uma lagoa, aquela linda paisagem fez seus olhos arderem, e em seguida se encherem de água. Era igual, exatamente como antes. Ali havia um grupo de crianças brincando perto das árvores, o barulho era grande. Olhou para o lado, não estava muito longe das casas, o barulho cessou e deu lugar aos cochichos.
Ela sabia o que vinha a seguir:
— Você tem certeza?- Disse uma garotinha que parecia meio confusa.
-É, ela é que é a bruxa. – Repreendeu um garoto um pouco mais velho que a menina, eram parecidos. Deviam ser irmãos concluiu ela.
— Ela não me parece uma bruxa... — a menina tentou responder, mas os gritos a calaram.
— Peguem ela! Minha mãe disse que ela é uma bruxa!
— É! Peguem!- Gritou um garoto maior que parecia ter pouco mais de quatorze anos.
Os gritos aumentaram. O medo e a surpresa no seu rosto ficaram evidentes. Já
havia passado por isso antes, porem a crianças eram mais novas ainda, e não estavam com tanta raiva. O grupo se aproximava com pedras nas mãos. Ela se virou para correr, mas não deu três passos e foi agarrada pelos garotos maiores que a jogaram no chão. E então, tudo passou rápido demais. Ela sentia definitivamente, os arranhões, os puxões de cabelo, e até mesmo mordidas. Não tinha forças para se livrar deles, se debatia, mas de nada adiantava. Em um relance, viu a pequena garotinha que havia contestado seu irmão correr em direção as casas. Mas a cena foi apagada quando sentiu uma pancada na cabeça
Quando acordou, novamente estava em meio a gritos, os machucados ardiam, por todo o corpo, mas em especial, sua cabeça doía. Estava tonta. Levou a mão a cabeça, e sentiu algo molhado em seu cabelo, em seguida o odor de sangue a invadiu, e por reflexo olhou suas mãos, vermelhas. Olhou a sua volta, pessoas discutiam e gritavam uns com os outros. Ela sabia que era sobre ela. Três pessoas a cercavam, três homens. Tentou se levantar, mas a impediram.
— Não, fique quieta. – Sussurrou uma voz atrás de si, enquanto sentia uma leve pressão em seus ombros.
A sua frente um dos homens conversava com as pessoas da vila, mas todos gritavam. Crianças, adultos e idosos. Todos estavam contra ela. Então de repente tudo se acalmou. Um homem mais velho, com a expressão sábia tomou a frente da vila, para conversar com o rapaz. A conversa parecia um cochicho da distancia em que ela estava, era impossível escutar.
A situação estava cada vez mais tensa, o velho que conversava com o homem tinha um olhar selvagem, parecia que se pudesse haveria avançado para cima do homem loiro a sua frente. Logo atrás do velho a garota que havia pedido ajuda por ela, chorava. Podia ver, mesmo de longe, a vermelhidão do seu rosto. Provavelmente um tapa. E pela expressão do rosto de sua mãe, e a força com que segurava o pulso da menina, ela apanharia mais em casa.
Começou a se sentir mais desconfortável, finalmente estava sentindo cada pancada. Sua cabeça latejava cada vez mais, sua visão começou a ficar embaçada, queria levantar. Se apoiou no braço esquerdo, e antes que o homem atrás dela pudesse impedi-la passou o peso para a perna, que ao tentar se levantar falhou, sentiu uma dor horrível na costela, e perdeu o resto da sustentação que possuía. Caiu direto ao chão. Pode sentir quatro mãos a socorrendo. Olhou de relance para onde estavam as pessoas, via suas bocas se movendo, pareciam gritar novamente. Mas não escutava nada. Um silêncio irritante tomou conta dela. E sua visão escureceu. De novo.
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