Blind

9 Capítulo 9 - Numb


Notas iniciais
Irei deixar esse capítulo aqui e sair de fininho. Perdoem o pobre autor por largar um capítulo desses, mas são 06:11 da manhã e vocês sabem como é, eu começo a escrever e nunca sei onde vou parar... Recomendo que leiam com calma. Have fun! P.S.: Essa fic é postada principalmente no spirit e pouco atualizada aqui por motivos de: não tenho visualizações como tenho lá. Por isso aqui vai o link para que você possa ler na íntegra: https://www.spiritfanfiction.com/historia/blind-11971823

Ele recobrou os sentidos, mas não abriu os olhos. Tinha novamente aquela estranha sensação de estar imerso em água. Estava vivo afinal de contas. Sentiu dedos por entre seus cabelos e o peso de alguém se sentando na cama ao seu lado. Os dedos desceram por seu rosto, acariciando as bochechas e em instantes a pessoa o abraçava, brincando com seus cabelos.

— Sei que não quer falar. – A voz era calma e suave. – Mas quero que saiba que estou aqui.

Respirou fundo ao se sentar devagar na mesa da lanchonete. Havia contado os trezentos e vinte e sete passos que deu desde que saiu do quarto arrastando o suporte do soro junto ao corpo. Fechou os olhos por um momento. Seu corpo não estava marcado ou machucado, isso sequer lhe importava. Ainda podia sentir a constante gota d’água pingando em suas costas, encharcando suas roupas. Havia planejado aquilo também?

Seus pensamentos foram interrompidos pelo bater de duas xícaras em cima da mesa. Rapidamente ele buscou a fonte do som, assustado, mas logo se repreendeu mentalmente por tal estupidez. Estava a salvo e sabia disso, era tolice se preocupar.

— Desculpe. Interrompi algo, não foi? – A moça sorridente empurrou a caneca para ele, sentando-se no banco alto a sua frente. Mas não recebeu mais que um aceno negativo como resposta.

Ele olhou o conteúdo da caneca com interesse, erguendo o olhar para a mulher em seguida.

— Eu ia contrabandear isso para o seu quarto, mas vi você por aqui... – Seu sorriso era quente e solidário. Diferente de qualquer outro que ele havia visto durante aquela semana.

O silêncio tomou conta de ambos por alguns instantes, até que a moça pareceu se lembrar de algo muito interessante e se abaixou para fuçar em sua bolsa.

— Também achei que estava morrendo de tédio, então trouxe uma coisa para você. – Ela colocou o título em cima da mesa, empurrando o livro de capa dura para ele.

Analisou a capa amarela com a ilustração de um coelho segurando um grande relógio de bolso, um gato listrado e uma menina de vestido azul. Ele sorriu.

— Onde fica a saída? – Começou.

— Depende. – Ela continuou.

— Do quê?

— Para onde quer ir.

Ambos riram. Ele ergueu novamente o olhar para a moça, ainda mudo sem saber o que dizer. Alguns segundos constrangedores se passaram enquanto ela bebericava o cappuccino de sua caneca.

— Obrigado.

Ela sorriu e repousou a caneca na mesa. – Me lembro que enquanto todos liam “A política econômica do Cazaquistão” para aquela maldita prova final, você estava lendo Alice no País das Maravilhas. – A lembrança era nítida e divertida para ela, fazendo-o rir também.

— Sempre gostei do Gato...

— E você ainda conseguiu se formar como primeiro da turma. – Ela ainda carregava o tom de incredulidade de anos atrás.

— Sempre fui o mais esperto da turma. – Ele abanou as mãos, como se estivesse se livrando da culpa.

— Se não te conhecesse, diria que subornava nossos professores. – Ela tomou mais um gole da bebida quente.

— Sou um oficial da lei, jamais faria isso. – Ele respondeu convencido.

A moça abaixou a caneca rindo. – Não senhor. Me lembro bem que na época você fazia qualquer coisa para conseguir o que queria.

Ele riu também, como se pego em flagrante. – Quase tudo! – Ergueu o indicador, defendendo-se.

— Você comprou meu silêncio com três meses de chocolate quando foi rejeitado por três garotas que convidou para o baile de formatura!

Mais risadas.

— Isso não conta!

Ainda rindo ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e respirou fundo, como quando se faz após uma crise de riso.

— Bem eu vim aqui para mais que apenas lhe contrabandear café e te dar um livro. – Seu sorriso quente ainda estava ali. – Tenho uma missão para você.

— Em qual tipo de problema quer me meter, senhorita? – Ele perguntou com humor, bebericando do café preto.

— Na verdade eu preciso que me tire de um problema. De uma emboscada, para ser mais precisa.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Em duas semanas será a formatura na faculdade. – Ela continuou. – E eu fui convidada para ser madrinha da festa.

— Que honra! Você sempre quis isso.

— Sim. – Sorriu, mas com um tom envergonhado no olhar. – Porém a madrinha precisa de um par para abertura e encerramento da festa.

— Oh... – Ele sorriu pretensiosamente e por um minuto ambos apenas se encararam. – Estou à espera de seu convite formal.

Ela abaixou a cabeça, deixando os cabelos cobrirem o rosto por um instante. Logo respirou fundo e segurou o riso.

— O senhor me daria a honra de ser meu par na formatura?

— Como eu poderia negar?

Os dois colegas subiram de volta ao andar dos quartos, conversando como nos velhos tempos, rindo das lembranças da faculdade e tentando se lembrar do nome de todos os seus colegas, rindo disto também.

Ele deitou-se de volta em sua cama e logo a enfermeira apareceu para injetar o remédio em seu soro. Já estava cansado de ficar ali deitado o dia inteiro, com pequenas idas e vindas pelos corredores. Já sabia o nome de todas as enfermeiras e qual plantão atendiam, conhecia também os médicos e estava de saco cheio das pessoas tentando conversar com ele. Mas aquilo era diferente. Ela simplesmente se sentou ao lado da cama na cadeira e abriu seu caderno, escrevendo mais uma de suas histórias enquanto ele observava sua letra bonita, alternando a atenção das linhas de seu livro para as mãos dela. Ela não estava interessada em fazer-lhe perguntas que não queria responder, tão pouco estava disposta a levá-lo de volta àquele inferno ao obrigar-lhe a se lembrar. Desde sempre ela soube respeitá-lo dessa forma e aquela era a melhor coisa da amizade deles. Aquele momento o fez pensar sobre terem se afastado tanto após os anos da faculdade, mas era sempre bom contar com aquela amizade que não mudava apesar da distância.

Após a alta, ele não ousou pisar em seu apartamento. Ao invés disso, havia tido coragem de um pedido audacioso à amiga, que lhe foi concedido sem sequer pensar duas vezes. Estava basicamente morando em sua casa, fugindo de seus problemas e se escondendo do mundo, mas tinha o apoio dela que sempre repetia: “Não é justo que o mundo lhe corte ao meio e peça que você mostre seu interior como se estivesse feliz com isso”.

Agora ele lutava contra o nó de sua gravata, uma batalha impossível de ser vencida. Aquele pedacinho de pano audacioso que se enrolava em seus dedos e por mais que ele desse um nó, ele sempre se soltava. Estava começando a ficar enfurecido quando a mão da salvação apareceu, afastando seus dedos da gravata. Ela riu quando ele fez cara de derrotado, deixando-a cuidar daquilo.

— Você faz parecer fácil.

— É fácil! – Ela riu.

Assim que ela se afastou para checar se ele estava “apresentável”, foi que ele notou o quanto estava elegante. Ela usava um vestido azul marinho curto na frente e mais comprido atrás, com finas alças deixando à mostra os ombros delicados. O cabelo estava preso num penteado simples, mas muito bonito, com um alfinete dourado.

— Está muito bonita. – Comentou.

— Obrigada. – Ela respondeu com um sorriso.

Aquele sorriso que lhe mostrava desde o primeiro reencontro, aquele que nunca foi falso com intuito apenas de se aproximar e lhe apunhalar com perguntas. Não. Ela nunca lhe fez perguntas, ela jamais o apunhalou daquela forma, jamais o invadiu “para seu próprio bem”. Ela deixaria que o tempo tomasse suas providências ou se intrometeria quando fosse solicitado e ele era apaixonado por esse espaço.

A faculdade não o havia esquecido e assim que o diretor soube que ele seria padrinho, o incentivou a escrever um discurso junto com sua parceira para aquela noite. E ali estava ele encarando todos aqueles rostos esperançosos e cheios de olheiras após a última semana de aula. Sorria ao lembrar-se que já havia tomado um daqueles acentos.

A festa ia longe naquela noite, afinal era realmente motivo de comemoração para aqueles jovens que estavam se livrando de todos aqueles livros pesados e trabalhos infinitos. Após o discurso e a entrega dos diplomas, estava dada a largada para a festa.

Um dos formandos puxou a madrinha para o meio da pista, deixando-o apoiado no balcão de bebidas apenas observando. Logo ele a tinha perdido de vista no meio da multidão que dançava, pulava, cantava e se descabelava como se não houvesse amanhã.

A música alta invadiu seus ouvidos e a nuvem de gelo seco tomou sua visão, as luzes coloridas o cegaram e num piscar de olhos ele não conseguia ver mais nada. O ar estava rarefeito e ele não podia se mover. A cabeça doía horrores, como se algo pesado o tivesse acertado com força, tentou ao menos rolar no chão para tentar ver alguma coisa além do concreto debaixo de si. Pôde ver o céu estrelado através de um pequeno buraco no teto, mas ao tentar rolar novamente para mais longe, notou que o que quer que fosse que o prendia, estava preso ao concreto, impedindo-o de ir longe. Procurou qualquer coisa ao redor, mas não havia nada além de pilastras e o mais profundo breu para além de onde a vista alcançava. A garganta estava seca e seus pulmões ardiam.

Concentrou-se em não se desesperar.

“Inspire. Expire.”

“Devagar.”

“Qual é a última coisa de que se lembra?” Engoliu em seco após pensar nisso e então não houve volta. Sua respiração estava celerada antes que pudesse notar. O coração disparado e os olhos úmidos.

— Hashi? – Ela parecia chamar pela milionésima vez. A mão delicada acariciava as costas dele. Ela sorriu ao ver que ele estava presente de corpo e alma agora. – Está tudo bem?

— Sim. – Ele respondeu rápido demais. Passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto. Estava do lado de fora da festa na varanda e sequer sabia como havia chegado ali.

Mito sabia que ele não estava bem. Estava suando e suas mãos tremiam, mas ela não ultrapassaria a linha forçando-o a dizer nada.

— Quer ir embora? – Ela foi gentil.

— Não. – Novamente uma resposta rápida demais. – Não quero estragar sua noite.

— Eu já bebi mais que o recomendado e também já dancei até meus pés doerem. – Ela tentou com certo humor. – Não me incomodaria.

— Não quero ser o amigo chato que estraga a festa.

— Ora, mas isso é um dom seu Hashirama. – Madara falou.

O coração dele parou. Sua respiração ficou presa na garganta e seu rosto perdeu a cor.

— Você sempre estraga tudo. Sempre chega perto demais de onde não é chamado. – Continuou.

— Hashi?! – Mito o chacoalhou.

Ele piscou forte, obrigando-se a respirar novamente. Ofegante.

— Desculpe. – Madara não estava ali. Estava alucinando.

— Achei que fosse desmaiar. – Ela sorriu nervosa. – Está quente aqui.

— Sim... Está. – Ficou mudo por algum tempo. – Acho que vou aceitar o convite para casa.

x

Lá estava ele, deitado com as mãos sobre a barriga, no quarto de hóspedes na casa de Mito. Não estava calor como ela havia sugerido na festa, inclusive ele tinha dois cobertores sobre o corpo, pois as noites eram muito frias naquela época do ano, especialmente porque Mito morava perto da serra e sempre era frio ali.

Hashirama fechou os olhos, confortável na cama quentinha, em seu quarto provisório, a salvo e bem.

— Não precisamos entrar se não quiser. – Falou ainda dentro do carro. A pistola que carregava estava debaixo de sua perna no banco.

— Parece que eu estou mais preparado que você. – Foi a resposta que recebeu enquanto o outro abria a porta do carro e pulava para fora.

Se Madara estava com medo de entrar ali, ele não demonstrava. Mas ao contrário do que o colega pensava Hashirama também não estava com medo, inclusive estava entusiasmado para conseguir qualquer pista. Ele estava simplesmente preocupado com a saúde psicológica do amigo.

— Eu estava inconsciente quando ele me trouxe aqui. – Madara falou, parando à frente da entrada do galpão. Ele não havia falado sobre o ataque com ninguém. Se havia dado seu depoimento, ninguém ficou sabendo. – Acordei apenas quando já estava amarrado e então percebi que não estava no mesmo lugar em que nos encontramos. – Seu olhar estava perdido nas placas enferrujadas que revestiam o galpão. – Ele andava de um lado para o outro com uma faca na mão, dizendo que não gostaria de fazer aquilo, mas que não tinha escolha. Disse que queria se vingar por eu tê-lo controlado por tantos anos.

Hashirama apenas ouvia. Seu olhar estava fixo em Madara, analisando sua expressão, mas ele era ótimo em esconder suas emoções quando queria e isso fazia o detetive tentar adivinhar o que ele estava sentindo naquele momento.

— Acho que só consegui piorar as coisas quando tentei acalmá-lo. – Ele respirou fundo e passou a mão pelos cabelos, tirando os fios do rosto. – Ele começou a falar sobre o quanto eu era sortudo por ter nascido na família em que nasci e sobre ser um gênio que sempre tem tudo nas mãos... – Respirou fundo. – “Devemos sempre nos lembrar de nossas origens. É isso o que nos define”. – Proferiu as palavras de seu agressor, tal como foram ditas naquela noite para ele. – Eu sempre lhe dizia isso. Para que nenhum deles tomasse o lugar de Yahiko para sempre.

Madara fechou os olhos e respirou fundo. – Desculpe.

— Gosto que desabafe. – Hashirama ainda o olhava. – Melhor para fora que para dentro.

Ele forçou um sorriso desconfortável. – Não acha que pode acabar encontrando algo que não gostaria?

— Como assim?

— Talvez cavar tão fundo nos faça encontrar esqueletos que não estamos preparados para ver.

— É exatamente o que pretendo encontrar. – Hashirama deu um passo a frente e adentrou o galpão abandonado com a arma em punho.

A marca da poça de sangue ainda estava no chão, onde ele havia encontrado Madara. Cravado no chão estavam correntes e algemas às quais ele estava preso naquele dia. Hashirama respirou fundo e abaixou a arma após olhar em volta e constatar que estavam sozinhos.

Então tudo ficou preto.

x

Ele abriu os olhos, pulando na cama. A respiração descontrolada, o rosto suado e o corpo tremendo. Sentiu o estômago embrulhar e a cabeça girar. Levantou-se rapidamente, encontrando o caminho para o banheiro. Colocou para fora tudo o que havia comido na festa e mesmo após isso continuou sentindo ânsia. Abriu a torneira e deixou a água correr, lavou o rosto e enxaguou a boca. Amarrou os cabelos com a primeira coisa que encontrou e jogou água no rosto novamente, e mais uma vez e outra. Suas mãos não paravam de tremer nem por um segundo e seu coração batia tão rápido que ele começava a duvidar de sua capacidade de respirar tão depressa.

Sentia um calafrio que percorria a espinha e fazia se sentir observado. Ele fechou os olhos com força e esfregou as mãos no rosto ainda molhado. Sentia-se engasgado e a ponto de explodir. Sentou-se ali mesmo no chão do banheiro e cobriu a boca com a mão. Não queria acordar Mito com seu ataque, mas ela já estava ali.

A moça de cabelos vermelhos se abaixou sem proferir uma palavra sequer e o abraçou, sem pedir permissão e sem cerimônia. Sentiu-o tremer e ouviu seus soluços que ele tentava a todo custo controlar.

“Shh” Ela sussurrou enquanto lhe acariciava os cabelos. “Não precisa segurar...”

Mito não precisou dizer mais nada. Ele estava no limite e aquelas palavras bastaram para que as lágrimas escorressem por seu rosto e molhassem a blusa dela, os soluços lhe tiravam o ar e assim ele permaneceu por vários minutos, lutando para respirar. Mito não o soltou por um só segundo, ela apenas ficou ali com a mão em seus cabelos enquanto ele lentamente ia esvaziando o recipiente aonde vinha socando aqueles sentimentos por semanas.

Aos poucos ele parou de tremer e soluçar. Ela segurou seu rosto gentilmente e olhou nos olhos avermelhados. Pegou uma pequena tira de papel higiênico e secou as lágrimas de suas bochechas. Nenhum dos dois disse uma palavra sequer. Não precisavam. Mito se levantou e estendeu a mão, puxando-o para cima e depois para a sala. Sentou-o no sofá e lhe apresentou aquele sorriso quente. Ligou a televisão e entregou o controle. Ela não demorou a voltar com duas xícaras de chocolate quente e logo se sentou ao lado dele.

Aquele silêncio era reconfortante e eles simplesmente não precisavam dizer nada para se entender, mas ainda assim Mito o olhou, colocou uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha dele e suspirou.

— Sei que não quer pensar sobre o que aconteceu. – Sua voz era calma e gentil. – Mas não quero se acabe sufocado com isso. Se precisar de alguém, nem que seja apenas para gritar, eu estou aqui.

Hashirama sorriu da forma mais sincera que pôde, agradecendo silenciosamente por tudo o que ela estava fazendo por ele.

— Eu sei. – Falou com a voz baixa e rouca. – Obrigado.

Notas finais
"Mas o que é isso Charles??" Pois é, perdoem esse pobre autor. A culpa não é minha pelas coisas que os personagens fazem! "Mas que confusão maldita..." Eu sei. Acalmem-se, guardem as facas. Tudo será explicado no próximo (e último) capítulo.