Blind
10 Capítulo 10 - Say my name
Notas iniciais

É apenas quando estamos à beira do abismo que tudo fica tão claro diante dos olhos. É nesta hora que notamos o quão cegos podemos ser e como a promessa de algo bonito pode nos levar tão a fundo no poço.
Estava tão cego, tão apaixonado não somente pelo homem, mas pela ideia de vida, que não pude ver o que estava diante dos meus olhos.
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20 de dezembro, 7:15AM
Meu celular tocou cedo demais e senti uma preguiça enorme ao ver o nome de Shikamaru como remetente da ligação. Ter me tornado seu chefe era um fardo irritante e eu não estava com paciência para suas chamadas desesperadas àquela hora da manhã.
Continuei tomando meu café tranquilamente. Madara havia saído cedo para sua consulta, sempre muito pontual. Ele era extremamente rígido com horários, aliás com tudo. Dirigi tranquilamente até o distrito e caminhei até minha sala cumprimentando as pessoas no caminho, como qualquer pessoa civilizada faz ao chegar ao escritório. Respirei fundo ao olhar todas aquelas pistas e depoimentos colados na parede. Agora com Yahiko preso e o departamento de inteligência atrás de seus rastros, as famílias finalmente teriam uma resposta sobre tudo aquilo.
Tinha minha seção agendada com Sakura aquela manhã e não gostaria que meu mais amado psicólogo começasse a pegar no meu pé outra vez. Então me apressei em descer para sua sala.
— Como se sente diretor? – Ela me recebeu com um sorriso como sempre. Dirigiu-me à cadeira e se sentou do lado oposto, cruzando as pernas.
— Muito bem. – Sorri de volta. – Muito melhor que há algumas semanas, lhe garanto.
— Parece melhor. – Ela foi gentil. – Suas olheiras estão quase curadas.
Ri. – É bom saber que pareço menos louco. – Ela não respondeu, apenas riu baixinho e anotou algo. – Não pareço?
— Eu jamais diria algo do tipo.
E assim seguiu nossa conversa. Falamos sobre os casos e o quão aliviado eu estava em conseguir chegar tão próximo de uma resposta para tudo. Mal sabia eu...
Após a conversa com Sakura, Shikamaru estava me esperando em meu escritório, de braços cruzados e sentado sobre minha mesa como se perguntasse “onde caralhos estava?”.
— Perdeu o respeito? – Parei à porta, olhando-o.
— Ainda não, diretor. – Ele se levantou e passou por mim. – Poderia vir comigo?
Não parecia haver opção, primeiro pela minha curiosidade insaciável, segundo pela falta de respeito daquele jovenzinho que merecia uma advertência se continuasse daquele jeito. Descemos até o laboratório da equipe forense, dois departamentos que eram como unha e carne e um sem o outro jamais resolveríamos os crimes. Mas aquela parte do departamento estava completamente vazia, o que me despertou certa suspeita.
— Qual o problema? – Fechei a cara para o moleque.
— Podemos não concordar sempre, mas dessa vez quero que me dê o voto de confiança, sim? – Era visível que ele estava se esforçando para não acabarmos em uma discussão. – Eu vasculhei aquele galpão de cabo a rabo, passei tanto tempo ali dentro, que parecia minha nova casa e preciso que acredite em mim quando digo que estou mais preocupado com você do que com qualquer outra pessoa dentro desse distrito.
Franzi o cenho para ele. Naquele dia pensei que o garoto tinha bebido alguma coisa ou batido a cabeça em algum lugar.
Me aproximei da mesa cheia de provas colhidas do galpão. Fotos, digitais, a arma usada para esculpir o símbolo nas costas de Madara e dentre muitas outras coisas havia uma foto que claramente foi impressa a partir de uma filmagem de segurança mostrando Madara entrando no galpão sozinho.
— Que porra é essa? – Me irritei com aquilo que Shikamaru estava insinuando, embora ele não tivesse dito uma palavra sequer, toda a teoria já estava formada na minha cabeça.
— Benefício da dúvida, sim? – Ele ergueu as mãos em sinal de defesa. – Eu não emiti o mandado para prendê-lo e espero não ter que bater na sua sala e pedir sua assinatura para uma coisa dessas.
Apenas queria que ele explicasse logo aquela brincadeira idiota.
— Colhemos várias amostras do local e a maioria delas bate com tudo o que temos de informação do ruivo. Mas alguém mais esteve lá com ele...
— Sim, Madara esteve lá sangrando no chão. – Era ridículo ouvir aquilo dele.
— Calma. – Ele ergueu as sobrancelhas. – Já faz dois dias que estou investigando isso e eu não o chamaria aqui simplesmente para te irritar, existem maneiras mais fáceis de fazer isso.
Ao menos sobre isso ele tinha razão.
— Tenho filmagens de câmeras de segurança que mostram ele percorrendo o caminho até o galpão diversos dias. – De fato havia diversas imagens de câmeras junto com as provas e Madara podia ser distinguido em todas elas. – As marcas dos sapatos na terra confirmam que alguém além de Yahiko esteve no galpão e as provas não negam que foi Madara.
— Entrou na casa dele sem permissão para investigar? – Naquela manhã, eu me concentrava apenas em proteger meu companheiro.
— Você o colocou aqui dentro. – Shikamaru foi duro. – Não precisei me esforçar muito para conseguir o que queria. Não precisei entrar em sua casa, apenas em sua sala. – Ele respirou fundo, segurando o impulso de começar uma briga. Assim como eu o fiz. Sentou-se em um banco alto e me olhou nos olhos, coçou as olheiras fundas que tinha e tomou um minuto antes de falar, como se escolhesse as palavras. – Eu sei que o ama. Dá para ver no seu olhar quando vocês se olham. Eu nunca estive tão disposto a dizer para todo mundo que estou errado, eu nunca quis estar tão errado em toda a minha vida e ter que assumir especialmente para você que eu estou errado, vai ser a coisa mais insuportável da minha vida inteira.
— Não se preocupe. Vou provar que está errado, vai ser um prazer.
— Eu agradeço. – Ele me entregou um tablet com uma parte da filmagem do interrogatório que Madara fez com Yahiko, no qual eu estava presente a todo o momento e ouvi cada palavra do que ele havia dito. Porém eu não tinha o menor dos motivos para desfiar dele, enquanto Shikamaru tinha. Ele colocou o vídeo para rodar, onde o zoom da câmera estava totalmente focado nos dois rostos. Apesar de não ter som, Shikamaru parecia ter-se dedicado algum tempo analisando as imagens, pois havia legenda no vídeo, claramente feita a partir do movimento dos lábios.
“Quando eu disse para limpar a bagunça, não estava dizendo para soltar os cachorros. Você não ideia do que fez.”
— Achei que não havia câmeras naquela sala. – Ergui o olhar acusador para ele.
— Pedi que fosse colocado quando soube que os dois iriam conversar.
— Já desconfiava disso? – Meu ódio subia à garganta. – E não me disse nada.
— Tinha esperanças de que me provaria errado sem precisar da sua ajuda.
Olhei no relógio. Dez horas. Havia combinado que Madara e eu iríamos ao galpão juntos ainda pela manhã. Pois eu sabia que poderia tirar de lá algo que Shikamaru não havia notado e nunca estive tão certo.
— Já acabou? – Perguntei de forma rude.
— O mandado de prisão preventiva estará em sua mesa dentro de algumas horas. Quero estar errado até lá.
Shikamaru e eu finalmente tínhamos algo em comum e era a vontade de provar que ele estava errado. Enquanto eu dirigia até o galpão, Madara permaneceu em completo silêncio. Me preocupava que ele não estivesse pronto para entrar naquele lugar, mas eu não iria mais discutir com ele sobre o assunto, pois havia me prometido que estava tudo bem e nada o deixaria melhor que resolver tudo aquilo de uma vez.
Se eu fosse esperto, teria confiado em meu colega e assinado o mandado de prisão preventiva. Mas o amor tem capacidade de cegar o mais intuitivo dos homens e quanto mais esperto você pensa ser, mais cego você se torna.
É incrível como as coisas podem desmoronar dentro de segundos. Sempre fui desconfiado de tudo e de todos e demorei muito tempo construindo uma base sólida para que pudesse ser alguém mais aberto e tolerável com as pessoas e Madara havia destruído aquilo no exato momento em que eu entrei naquele galpão com ele.
O problema da traição, é que ela nos surpreende, pois sempre virá de alguém que confiamos. Afinal, de nossos inimigos esperamos tudo.
Quando finalmente acordei, não tive tempo para pensar em não entrar em pânico, pois não demorei nem dois segundos para lembrar que estávamos somente ele e eu naquele galpão e ninguém mais poderia ser o responsável por aquilo. As correntes e algemas que me prendiam estavam presas ao chão de concreto e logo percebi que não era possível ir longe.
Ele se abaixou ao meu lado, mas eu não pude olhar em seus olhos. Ele usava luvas pretas e segurava um aparelho celular virado para mim.
“Limpe a bagunça que você deixou para trás, antes que eu tenha que fazer isso. E não se engane, se eu sujar minhas mãos, você será um dos corpos no final.” Era a mensagem que foi enviada para alguém com o nome de “Pain”. Aquilo foi apenas para confirmar que a gravação de Shikamaru estava certa. Ele afastou o celular e o colocou no chão, sentando-se ao meu lado. Esfregou os lábios e respirou fundo, como se fosse doloroso de alguma forma.
— Eu deveria saber que alguém intrometido como você seria minha perdição. – Ele falou.
Não conseguia responder. Não conseguia proferir uma palavra sequer e não conseguia olhá-lo, pois não queria ver quem ele realmente era. Queria apenas acordar novamente e descobrir que era um sonho dentro de um sonho. Queria que tivesse bebido demais na noite anterior e sonhado que já estava de pé e que já havia ido trabalhar, já havia discutido com Shikamaru e agora estava ali, e logo acordaria, pois sempre acordamos na parte mais medonha de nossos sonhos.
— Por que tinha que chegar tão perto?
Imediatamente passou pela minha cabeça o dia em que nos conhecemos no bar meses atrás. Só então eu pude perceber que ele havia usado Yahiko como uma desculpa para se aproximar. Ele sabia que eu estava cuidando daqueles casos? Lembrei também de como ele me ajudou na biblioteca, de todos os cafés que tomamos juntos e de todas as vezes que ele conseguiu me arrastar para longe de qualquer pista que ainda podia estar fresca demais para eu seguir. Ele me distraiu por tempo o suficiente para se livrar de todas as pessoas que sabiam quem ele era e o que fazia.
Era aquilo de fato, não era? Ficou óbvio que quem havia escrito seu nome do caderno não era a mesma pessoa que havia escrito os demais nomes, pois foi ele quem escreveu os primeiros. Então era isso que ele fazia... Me vigiava de dia e executava assassinatos de noite.
— Gostaria tanto de conseguir calar a sua mente... – Ele segurou meu rosto para que o olhasse. – Consigo até ouvir sua cabecinha pensante funcionando. Ligando cada pontinho. – Tinha ódio na voz.
Então foi por aquilo que eu havia me apaixonado... Um maldito psicopata.
— Eu estava gostando da história, sabe. – Me soltou e se ergueu, passando a caminhar de um lado para outro. – Sabe Hashi, eu não gosto desse tipo de coisa. – Quanto mais ele falava, pior eu me sentia. – Eu não gosto de gente que se mete onde não deve. Você deveria ter ficado exatamente onde eu te coloquei.
Era exatamente o que havia acontecido...
“Não me obrigue a mostrar novamente quem tem o controle da situação”. Ele havia tomado o controle sobre absolutamente tudo, exatamente como no dia em que interrogamos Tsume, ou quando ele apresentou seu TCC e em todos os momentos em que pôde se aproveitar para me calar. Todos aqueles sinais bem debaixo do meu nariz e tudo o que eu fiz foi me apaixonar por aquele manipulador.
— O que fez com os corpos de quem matou?
Ele riu ironicamente.
— “Matei”? Não, não Hashi. O que te faz pensar que eu desceria tão fundo? Eu não sujaria minhas mãos por tão pouco.
Quantas vidas eu havia condenado apenas por ser cego? Fechei os olhos com força. Precisava me controlar e conseguir sair dali. Era quase impossível mover as mãos, a corda estava apertada demais. Pude ouvir os passos de Madara para lá e para cá, mas não conseguia ver o que ele estava fazendo.
— Tenho as passagens. – A voz que ouvi era de uma mulher, mas não podia vê-la. – Vai tirá-lo hoje, certo?
— Sim. – Madara respondeu. – Limpou tudo?
— Sim. – Ela respondeu. Era nítido o quanto era submissa a ele, embora sua voz fosse naturalmente calma.
Ouvi os passos de Madara se aproximando novamente, ele se abaixou e me olhou. Ele não parecia o mesmo homem que conheci, seu olhar era frio e sem emoções, como se tivesse removido uma máscara e aquela fosse sua verdadeira face.
— O que vai fazer com ele? – A mulher perguntou, ainda fora de meu campo de visão.
— É um dilema... – Ele tocou meu rosto com o indicador e eu não me lembro de ter sentido um arrepio daqueles na minha vida. Não era um arrepio bom, daqueles que se sente quando alguém o toca e você se excita. Não... – Se eu o mato, com certeza teria a polícia do mundo inteiro atrás de mim. – Ele ergueu o rosto para a mulher e sorriu, logo voltando a atenção para mim, tocou meu cabelo, enrolando uma mecha nos dedos. – Pois se tem uma coisa que nenhum deles tolera, é quando um companheiro é morto, parecem até uma grande nação unida. – Suspirou. – Mas por outro lado, também me livraria de um enorme problema, não é mesmo Hashi? Você é um enorme problema agora.
Ah sim, eu era um enorme problema.
— Se for tão esperto quanto diz, vai me matar. – Olhei nos olhos pretos. – Porque se me deixar vivo, eu serei o inferno na sua vida.
Madara sorriu abertamente.
— Ele morde. – A mulher comentou.
— Não... – Aquele sorriso cínico continuava em seus lábios e eu nunca quis tanto poder atirar em alguém. – Ele só late. – Madara se levantou e se afastou novamente.
— Estamos indo. – Outra voz que eu desconhecia, dessa vez de um homem.
— Tobi estará esperando vocês. Não façam nenhuma besteira até eu chegar. – Madara falou com sua voz severa e eu pude ouvir as duas pessoas se afastando.
Só percebi que havia uma mesa ali por perto, quando Madara retornou e se sentou de costas para mim. Eu só precisava conseguir soltar um braço, seria o suficiente para me livrar das amarras e acabar com a raça dele. Ele se irritou com alguma coisa e bateu as duas mãos na mesa, se levantando de repente e caminhado rapidamente até mim com uma faca em mãos. Segurou meu rosto com uma mão e se aproximou.
— Eu estou tentando ser muito gentil com você Hashirama. – Falou entredentes. – Se continuar tentando se soltar, eu não vou ter tempo para pensar se te mato ou não, porque vai ser a única alternativa.
— Precisa mais que uma ameaça para me botar medo. Já deveria saber.
— Ah eu sei detetive. – Ele brincou com a faca entre os dedos. – Mas o seu medo não me interessa agora. Prefiro te manter assim afiado. Até eu encontrar seu irmãozinho e trazê-lo para a festa.
Senti meu coração parar por um segundo. E logo em seguida um ódio inimaginável. Se ele colocasse as mãos em um fio de cabelo de Tobirama, eu certamente seria preso, pois iria matá-lo.
— Vai se machucar se debatendo desse jeito. – Ele voltou para a mesa. – Não quero que se machuque, pode parar por favor? – Bufou, olhando para mim de longe.
Só consegui rir do quão absurdo ele soava.
— Não quer que eu me machuque?
— Eu não sei o que pensa de mim. – Ele falou calmo. – Mas eu não sou um robô cruel.
Ri novamente. – Se quer que eu pense que você tem sentimentos, o tempo de provar isso passou.
Ele forçou um sorriso de canto, dessa vez sem ânimo e eu me peguei pensando que tipo de louco ele era.
— Não menti sobre isso Hashi.
— Ah vá para o inferno. – Me recusei a olhar para ele novamente. Sentia um misto de ódio e agonia. Não conseguia crer que aquele homem era o mesmo que estivera comigo tantos dias. Teria tido vontade de me matar enquanto eu dormia? Certamente eu preferia que ele tivesse feito isso que montado todo esse teatro.
Àquela altura já haviam se passado quase duas horas que eu estava ali e não havia conseguido sequer afrouxar as amarras. Madara ia e voltava toda hora, andando para lá e para cá, fazendo algo em cima daquela mesa que eu não conseguia enxergar. Dentro de poucos minutos a luz começou a ficar escassa e foi então que eu notei que havia ficado inconsciente mais tempo do que imaginava. A temperatura havia caído muito e eu começava a tremer, talvez de ódio, talvez de frio.
Não conseguia mais vê-lo em lugar algum e nem ouvir seus passos e o silêncio permaneceu enquanto a noite caía. Apliquei todos os esforços possíveis para tentar soltar as amarras, mas nada funcionava. Meu coração disparou quando pensei que talvez ele tivesse saído para ir atrás de Tobirama. Precisava desesperadamente sair dali.
Foi apenas quando estava escuro demais para enxergar qualquer coisa, que eu comecei a perceber que não conseguiria sair dali. O frio começava a deixar meus dedos dormentes e era difícil respirar o ar gelado. Precisava manter a calma.
Mais e mais horas se passaram, minha cabeça começou a doer e minha boca estava mais seca que tudo. A partir daquele momento, a cada hora um sinal insuportavelmente alto tocava. Ele planejava não me deixar dormir? O que queria com aquilo?
No meio da madrugada minha garganta estava arranhando pela falta d’água. Mas eu não conseguia sentir fome. A dor de cabeça era quase tão insuportável quanto o frio e eu podia jurar que estava nevando lá fora. A cada piscada longa que eu dava, o alarme soava, me impedindo de dormir. Ele não voltaria nunca? Por Deus, onde estava Tobirama?
Já sentia um enjoo terrível quando o dia amanheceu. Meu coração estava disparado, mas não por medo ou esforço, afinal eu não tinha mais força para tentar me livrar das cordas. Estava a mais de vinte e quatro horas acordado e sem água. Ele planejava me matar daquela forma? Ouvi o vibrar de um celular em cima da mesa de ferro, se fosse o meu celular então estava salvo. Estava desaparecido já fazia quase um dia inteiro, a polícia seria capaz de me encontrar usando o rastreador, assim como eu encontrei Madara naquela noite. Shikamaru faria rapidamente a conexão de que eu havia saído do distrito policial com Madara e nenhum de nós havia retornado, ele já suspeitava de tudo aquilo. Se eu o tivesse escutado...
Sentia que minha cabeça iria explodir com o próximo sinal do alarme.
Eu só esperava que ele não deixasse um rastro de sangue por onde estava passando. Só precisava que meus colegas e meu irmão estivessem vivos. Eu não conseguia lidar com a ideia de ter cometido um erro tão grande como aquele. Entrei em pânico com o pensamento de que talvez meu irmão estivesse morto por causa dele. Por eu ter sido cego...
Caía no sono a cada minuto, apenas para ser acordado pelas pontadas que sentia na cabeça. O frio agora era suportável, mas o pior era que do lado de fora estava chovendo e o teto velho e enferrujado do galpão estava cheio de goteiras. Sentia a água gelada pingar em minhas costas, não importava para qual lado eu me movesse – até onde as correntes permitiam. Estava completamente encharcado quando a noite veio. Não conseguia mais sentir meus braços e o frio infernal estava de volta e partir daquele momento, não houve sinal que me acordasse.
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— Como assim não sabe onde ele está? – A voz de Tobirama variava entre a raiva e o desespero.
Seu irmão estava desaparecido havia três dias e a polícia não tinha ideia de onde estava. Shikamaru havia mandado ao inferno a história de que estava doente e de cama em casa. Mesmo que tivesse recebido uma mensagem do celular do detetive, não caiu naquela e resolveu rastrear o celular, mas o aparelho estava em seu apartamento.
Tobirama esteve na casa do irmão diversas vezes, mas ele não estava lá e não havia nenhum sinal de onde poderia estar. Madara não estava em lugar algum também e Shikamaru começava a temer pelo pior.
É claro que a casa de ambos foi revistada de cima abaixo pela polícia, assim como todos os locais onde Shikamaru já os havia visto juntos. Foi então que lhe ocorreu a ideia do galpão. Se Madara estava realmente envolvido em tudo aquilo, ele iria querer se vingar de Hashirama e não havia lugar melhor.
As três viaturas saíram em disparada pela cidade no meio da noite. Tobirama não dormiria enquanto não o encontrasse vivo e não havia decreto que o faria sair de perto da polícia enquanto seu irmão fosse o caso do qual tratavam. Ele só conseguia amaldiçoar aquela viagem que ele não queria ter feito e que no fim das contas o afastou tempo suficiente para que Hashirama desaparecesse.
A equipe de Ibiki preparou as armas de assalto e entrou no galpão antes que qualquer outra pessoa o fizesse. Para Ibiki aquilo era um de-já-vu e ele apenas esperava não ter que lidar com o corpo sem vida do diretor.
— O local está limpo. – O capitão da equipe notificou através do rádio de Ibiki. – Nem sinal do diretor.
As mãos de Tobirama tremiam e o coração parecia querer saltar do peito, era difícil respirar. Hashirama era a única família que lhe restou e estava desaparecido, provavelmente nas mãos de um louco. Ibiki jurou que o encontraria, mas ele tinha a sensação de que não seria com vida, se demorassem mais algumas horas.
Imerso nesse momento de desespero, sentado em sua cama com um copo de uísque em mãos, esperando qualquer telefonema de Ibiki com uma boa notícia, ele sentiu o celular vibrar em cima do colchão e o alcançou rapidamente, mas não era uma ligação, tampouco era Ibiki. Seus olhos fuzilaram o aparelho, como se seu olhar pudesse alcançar o remetente da mensagem. Madara havia lhe dado uma única pista e ele não se deu ao trabalho de parar para pensar o motivo de ter ajudado daquela forma.
Ele não pensou em pedir nenhum tipo de ajuda. Pegou o número que Madara havia lhe enviado pela mensagem e tratou de rastreá-lo. Anotou o endereço em seu celular e saiu em disparada.
A chuva estava forte e o frio era intenso, uma nuvem condensada se formava a cada vez que respirava. Ele estacionou descuidadamente ao chegar ao endereço informado pelo GPS e não pensou que talvez tivesse qualquer tipo de armadilha lhe esperando. Escancarou a porta do galpão e usou a lanterna do celular para iluminar o local. Ouviu um sinal parecido com um apito muito alto ali dentro, mas logo o som cessou. O chão estava molhado pela chuva.
Do lado dentro, o galpão era quase idêntico ao que havia revistado mais cedo com a polícia, mas o endereço era completamente diferente. Madara os havia feito correr feito baratas tontas pela cidade.
Ele colocou os olhos na mesa e viu o celular que havia rastreado. Tudo o que ouvia agora era o som do bater de seu coração, pois havia localizado o irmão e lhe faltava o ar. Deixou o celular no chão e se ajoelhou, desamarrou-lhe os braços e o abraçou, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. Hashirama estava pálido como um papel e seu coração quase não batia, suas roupas estavam encharcadas por causa da chuva e os lábios estavam roxos.
Hipotermia.
Tobirama arrancou as roupas molhadas de seu corpo e o vestiu com as suas próprias, sem se importar com o frio. O abraçou, tentando esquentar seu corpo nos poucos minutos que lhe restavam. Pegou o celular do chão e discou o número do diretor de operações especiais, pois ele chegaria ali antes de qualquer ambulância.
Se havia algo que Madara estava certo sobre, era o fato de que a polícia se movia mais rápido que qualquer coisa quando se tratava da vida de seus companheiros.
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Seria necessário um decreto para tirar Tobirama dali. Ele saía apenas para comer uma vez por dia e ainda assim não demorava dez minutos para voltar.
Pouco a pouco Hashirama ia recobrando sua cor. Se tivesse demorado mais algumas horas para que fosse encontrado, estaria morto. Estava desidratado e num estágio avançado de hipotermia e agora estava em coma fazia três dias. A previsão dos médicos era de que despertasse logo.
“Uma pessoa nessas condições pode morrer em cinco dias. Se estivesse apenas sem comida, poderia viver por três semanas, mas não sem água e eu posso apostar que ele não estava mais consciente quando começou a chover. Ele é esperto, teria bebido a água da chuva. O sinal foi programado para despertar de hora em hora, para não deixá-lo dormir.” Ibiki continuou falando, mas Tobirama já não ouvia mais. Estava tomado pelo ódio que sentia de Madara. Ele não somente queria Hashirama morto, como queria que ele sofresse antes de morrer.
Tobirama respirou fundo e fechou o livro que estava lendo. Precisava se distrair com alguma coisa antes que ficasse louco. Segurou a mão de Hashirama e olhou para o irmão deitado naquela cama de hospital. Então percebeu que ele estava acordado, mas não havia aberto os olhos. O que estava pensando? Quão fundo Madara havia conseguido quebrá-lo com tudo aquilo? Ele se sentou ao lado da cama e acariciou os cabelos cumpridos. Sabia que Hashirama não estava ferido fisicamente e isso o preocupava, pois a ferida que não se pode ver, é a mais difícil de curar.
Passou os dedos pelas bochechas do irmão, agora de volta a cor normal e então o abraçou.
— Sei que não quer falar. – Sua voz era calma e suave. – Mas quero que saiba que estou aqui.
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— Você o matou? – O homem de cabelos pretos perguntou e o olhou por cima do copo de bebida que levou à boca.
— De certa forma. – Madara respondeu.
— Ele vai se tornar um problema.
Madara sorriu de forma forçada e olhou para Tobi.
— Ele é um problema. E é um problema do qual eu vou cuidar quando chegar a hora. Concentre-se no time e no que precisam fazer.
— Como quiser.
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