Blind
7 Capítulo 7 - Marcas
Notas iniciais

Hashirama sentiu o coração falhar por um segundo. Sacou o celular enquanto corria de volta para o carro, ligou para Madara três vezes seguidas, mas sem sucesso, o celular estava desligado ou fora de área.
Já passava da meia-noite e o caminho que o levou até a casa de madeira demorava cerca de três horas para ser percorrido, porém o desespero do detetive o fez estar de volta em apenas duas horas.
Não era incomum que dois ou três oficiais tomassem conta do turno da noite na divisão de inteligência. Hashirama entrou correndo no departamento, ligando o primeiro computador que viu pela frente. Pegou o telefone e discou o primeiro ramal do departamento tático que conseguiu se lembrar.
— Preciso de uma equipe pronta para sair imediatamente. Oficial em perigo. – Ele não precisava dizer mais nada, “oficial em perigo” era o alerta vermelho que fazia qualquer um dos departamentos entrar em ação imediatamente. Com o notebook em mãos, ele correu para a garagem, juntando-se com a equipe tática, rapidamente conectou o programa de rastreamento no computador de bordo do carro e os dois veículos saíram em disparada pelas ruas da cidade, seguindo para o local apontado pelo rastreador.
Hashirama passou o caminho inteiro mudo, mas seu coração não havia desacelerado por um só minuto, sua cabeça estava cheia de perguntas que ele não sabia como responder. Esperava finalmente conseguir uma resolução para seus casos, mas preferia encontrar Madara ainda vivo a solucionar os mistérios.
Seu desespero não passou despercebido por Ibiki que dirigia ao seu lado. Ele colocou a mão no ombro do detetive e o olhou de canto, ainda focado na estrada, cortando por entre os carros.
— Se acalme. – Falou simplesmente. Aquilo podia funcionar com seus homens, mas Hashirama não estava acostumado a lidar com esse tipo de situação, não fazia parte da equipe tática e nunca havia corrido o risco de perder um colega daquela forma.
Ele respirou fundo, tentando controlar a respiração. Obrigou-se a pensar em alguma outra coisa. Pensou em Ibiki que estava tendo uma semana de cão. Eles haviam chegado ao distrito juntos naquela manhã e ele ainda estava ali para responder ao pedido de Hashirama, devia ter lido uma dezena de relatórios e ele ainda podia imaginar a pilha sem fim sobre sua mesa. O detetive podia ser contra os métodos agressivos de Ibiki, mas não podia negar que a calma que ele apresentava perante a situação era impressionante.
Foram quarenta intermináveis minutos até o local que o rastreador apontava, mesmo que Ibiki tivesse dirigido feito um louco por entre os carros na estrada. Hashirama desceu do carro alto com a arma em punho, assim como o restante da equipe dividida nos dois carros que os seguiam. Os homens vestidos inteiramente de preto e com armas de calibre alto passaram a vasculhar o local, sempre um cobrindo o outro, com uma formação impecável.
Estavam em frente a um depósito abandonado. A construção parecia um enorme contêiner velho que um dia foi vermelho do lado de fora. A entrada estava coberta por mato, sugerindo que não era utilizada havia muito tempo. Tudo ao redor estava abandonado, velho e enferrujado, coberto pela natureza que crescia sem controle. O rastreador os havia levado até ali e apontava para dentro do depósito.
Ibiki segurou o braço do detetive, indicando que deixasse que sua equipe entrasse antes. Aqueles foram os dois minutos mais longos da vida de Hashirama, ele sentia como se estivesse imerso em águas profundas, não podia ouvir um passo sequer, tudo o que escutava era o bater do próprio coração, acelerado demais.
— Homem caído. – Ele ouviu o rádio de Ibiki.
— Mãos na cabeça! Largue a faca! – Outro oficial ordenou.
Hashirama não se deixou mais ser contido pelo colega e correu para dentro do depósito, encontrando a equipe tática algemando um homem de cabelos curtos a quem ele não deu muita atenção.
Madara estava no chão próximo ao suspeito. Suas roupas e o chão ao seu redor estavam cobertos por sangue ainda fresco, estava amarrado por cordas que o impediam de se mover, inconsciente e seminu. A camisa branca, também coberta de sangue, estava rasgada e havia sido atirada para o lado. Hashirama se aproximou, pegando do cinto de um dos colegas uma faca e cortou as cordas que prendiam o amigo. Foi então que o detetive notou que o sangue escorria de um ferimento em suas costas. Madara não respondeu ao seu toque, não estava consciente. Era difícil ver seu rosto, o ambiente estava escuro demais para distinguir se ele estava ainda mais pálido ou se era sua cor normal.
Ibiki segurou Hashirama, tirando-o de perto de Madara quando a equipe médica se aproximou. Ele ainda estava imerso em água, seus ouvidos não funcionavam, embora soubesse que Ibiki falava com ele, pois movia os lábios enquanto segurava seus ombros e o chacoalhava tentando acordá-lo.
Hashirama não se lembrava sequer como havia chegado ali. Se lembrava apenas de ter visto o nome de Madara em um caderno repleto de nomes de pessoas mortas e de ter dirigido loucamente até o distrito policial. Enquanto respirava fundo e tentava manter a calma, lembrou-se também de ter encontrado o amigo inconsciente e cheio de sangue e de ter ouvido alguma coisa sobre alguém com uma faca na mão. Sentiu uma picada no braço que o trouxe de volta à realidade, ele piscou forte algumas vezes até conseguir focar no rosto próximo ao seu.
— Você vai ficar bem. – A moça sorridente falou com sua voz fina e calma.
Hashirama tentou revidar a gentileza sorrindo também, mas talvez aquele tenha sido o sorriso mais forçado e assustador de sua vida. A moça se afastou e o deixou sentado na cadeira. Ele levou um minuto para se situar no ambiente que era muito claro e majoritariamente branco. Ele via pessoas passando para lá e para cá, vestindo jalecos, empurrando aparelhos e macas. Ele saltou de seu assento e seguiu rapidamente pelo corredor á direita, dando de cara com Ibiki que o lançou um olhar duvidoso.
— Estava indo buscar você. – Ele falou, cruzando os braços sobre o peito.
— Onde ele está?
— No quarto. – Ibiki deu as costas, guiando Hashirama pelo corredor até o elevador e em seguida até o quarto, que era guardado por dois policiais.
Antes que o detetive pudesse abrir a porta, Ibiki o conteve, tirando um envelope de dentro de seu casaco e o entregando.
— Ele ainda não está consciente, mas o quadro é estável, então você tem permissão para ficar no quarto com ele.
Hashirama assentiu e colocou uma mão no ombro de Ibiki, ligeiramente mais alto que ele. – Obrigado.
Madara estava deitado, coberto por um lençol fino. Tinha alguns aparelhos ligados a ele, informando que seu coração batia normalmente, a pressão apesar de baixa, não apresentava perigos. Hashirama correu os olhos pelo corpo do amigo. Agora podia ver nitidamente o estrago. Tinha um curativo na têmpora e parte de seu olho e bochecha estavam cobertos por um hematoma. Alguém havia prendido seu cabelo no alto da cabeça, deixando o rosto livre da franja.
Hashirama respirou fundo e se aproximou mais da cama, passando a mão pelos cabelos pretos dele. Tinha um pequeno corte nos lábios e mais alguns hematomas espalhados pelo corpo além de onde o lençol permitia ver. Ele se sentou na cadeira ao lado da cama e ficou ali estático com a mão sobre a boca. Sua mente não trabalhava corretamente. Tudo era um enorme borrão: o caderno com o nome de Madara, a casa revirada, o depósito velho, a faca no chão ao lado da poça de sangue...
O detetive se obrigou a respirar fundo, chacoalhando a cabeça para dispersar aquelas ideias que não o levariam a lugar algum antes que se acalmasse de fato. Começou a sentir uma letargia tomar conta de seu corpo, os olhos começaram a pesar e ele se perguntou o que a enfermeira havia aplicado nele. Lembrou-se do envelope de Ibiki e resolveu checar o conteúdo.
Ele reconheceu o tom da pele, os fios pretos e longos, o formato das costas... Obrigou-se a fechar os olhos e respirar fundo novamente. A foto foi tirada naquela noite, enquanto Madara estava deitado na maca ainda aos cuidados dos médicos. Hashirama estava certo quando o encontrou, ele estava muito pálido, havia perdido muito sangue, mas agora sua pele estava limpa e sem todo o sangue era possível ver o trabalho feito com a faca que estava no chão próximo a ele. Era um símbolo que o detetive não reconheceu, algo que lembrava um leque partido ao meio, a parte de cima havia sido preenchida com cortes para ser “colorida” de vermelho pelo sangue.
As fotos seguintes eram da cena do crime, da faca utilizada para a mutilação, o sangue no chão, o local onde Madara estava deitado, preenchido com fita para a investigação. Hashirama suspirou e deixou o envelope e as fotos em cima do criado mudo ao lado do abajur. Já era dia do lado de fora e a luz entrava pela persiana do quarto. Ele se perguntou o que havia acontecido com ele naquela noite. Tinha apagado completamente ou apenas sua mente não estava funcionando?
Sentiu-se cansado, os olhos pesaram e ele se encostou involuntariamente na poltrona, deixando-se levar pelo calmante que a enfermeira havia lhe dado.
x
— Oi. – Madara se sentou ao lado do futon*. Não passava de uma criança. Seus cabelos eram curtos na altura dos ombros e como sempre desengonçados.
— Oi. – A criança deitada respondeu, esforçando-se para enxergar com quem falava. Embora reconhecesse a voz, não podia distinguir seu rosto.
Madara sorriu, porém não havia real felicidade em seu rosto, ele queria apenas confortar a criança. O mais novo também tinha os cabelos pretos bagunçados, olhos escuros como os dele, a pele mais pálida e o corpo muito fraco. O mais velho brincou com fios pretos, enquanto mordia os lábios para segurar uma lágrima que teimava em se acumular no canto dos olhos.
A luz que entrava no cômodo era pouca. O inverno castigava a pequena aldeia e a neve se juntava na porta e nas janelas. Madara pegou mais um cobertor, colocando por cima dos tantos outros que já havia colocado sobre o irmão mais novo.
Era difícil e doloroso respirar, Madara sabia. Os pulmões dele não conseguiam mais puxar o ar gelado e úmido. O som do esforço que Izuna fazia para tentar continuar vivendo penetrava pelos ouvidos de Madara e atingiam seu coração feito facas afiadas. Estava completamente impotente, nada que havia tentado fazer funcionou.
Ele não se esforçou mais para conter as lágrimas que escorreram por seu rosto sem controle. Agora Izuna estava em silêncio, não sentia mais dor e seu rosto parecia em paz. Talvez ele fosse até mesmo capaz de enxergar Madara agora. O rapaz se deitou ao lado do corpo do irmão, segurando os joelhos na altura do peito, tentando conter o som dos soluços.
Izuna era tudo o que havia restado para ele e agora estava morto. No final, ele também havia sido levado de sua vida.
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Ele abriu olhos, demorando um pouco para ganhar foco. Encarou o teto desconhecido sobre sua cabeça. Piscou lentamente algumas vezes e respirou fundo, apenas para poder constatar que podia respirar. Sentiu uma pontada de dor no rosto e nas costas. Tentou se lembrar do que havia acontecido, mas só conseguia se recordar do almoço com Hashirama e Sakura. Passou a língua nos lábios e sentiu um leve ardor.
— Oi. – Foi recebido pelo detetive sorridente, logo reconhecendo que ele não tinha felicidade na expressão, tentava confortá-lo tanto quanto ele tentou confortar o irmão naquela noite.
— Oi. – respondeu devagar, ainda se sentindo lento. – Onde estou?
— No hospital central. – Hashirama estava em pé ao lado da cama.
— O que aconteceu?
— Não consegue se lembrar?
Madara negou com um aceno, sentindo cada centímetro de seu corpo doer com o movimento.
— Mas posso adivinhar que levei uma surra de alguém muito irritado.
Hashirama sorriu e logo desviou o olhar.
— Você foi atacado pela mesma pessoa que assassinou todos os desaparecidos daqueles casos.
Madara apenas o olhou por um instante, como se tentasse colocar a cabeça para funcionar.
— O que realmente aconteceu?
— Não sei a história inteira ainda. Esperava que pudesse me contar. – Ele voltou a se sentar na poltrona, ainda olhando para Madara. – Você saiu depois de almoçar conosco e não voltou para o distrito. De noite eu fui até a casa de campo de um dos desaparecidos e encontrei um livro bingo com seu nome nele. Por sorte você estava com o celular, então não foi difícil te achar, mas o estrago estava feito.
Madara desviou o olhar, como se algo que Hashirama disse o trouxesse lembranças. Ele olhou para as fotos em cima do criado mudo.
— Foi isso que ele fez? – Apontou para a marca na foto.
Hashirama assentiu, entregando-lhe o papel para que observasse mais de perto.
— Eu senti quando ele começou os cortes... – Ele não olhava para o detetive. – Mas depois não me lembro o que aconteceu.
— Sabe que eu vou querer uma ótima explicação para isso tudo, não sabe? – Hashirama falou enquanto Madara passava para a foto seguinte. – Você o conhece. Eu lembro dele no dia em que nos conhecemos.
— Por isso eu não disse onde estava indo quando saí depois do almoço. – Ele deixou as fotos de lado, como se tivesse perdido o interesse em olhá-las. – Eu sabia onde estava indo e quem iria encontrar. – Sua voz perdeu a força. – Ou achei que sabia...
— Ele foi seu colega de faculdade. – Hashirama apontou para o ruivo na foto. – Uma boa explicação talvez nem seja o suficiente para isso tudo.
— É realmente necessário fazer esse interrogatório agora? – Ele cerrou os olhos, sentindo a dor nas costas aumentar.
— Não. – Hashirama guardou as fotos no envelope, suavizando a expressão. – Desculpe.
Não foi fácil fazer Madara falar, mesmo que fosse qualquer coisa que não estivesse ligada ao incidente. Ele havia decidido se calar quase por completo, até mesmo na presença de Hashirama. Dias se passaram enquanto ele permanecia em observação no hospital e durante todo aquele tempo ele havia dito apenas o essencial, quando sentia dor.
Hashirama o havia proibido completamente de ir sozinho para casa, obrigando-o a “acampar” em seu apartamento, onde ele teria a ajuda que precisava para fazer o curativo nas costas e também teria comida apropriada. Mas nem toda a atenção e espaço do mundo pareciam deixá-lo confortável para falar.
Enquanto Madara observava o desenho feito em suas costas, Hashirama se aproximou observando-o também.
— É o símbolo da minha família... – Ele falou com a voz baixa, segurando os cabelos para frente, deixando Hashirama olhar mais de perto.
Ele se aproximou em silêncio, colocando as mãos nos ombros de Madara. Os cortes começavam a cicatrizar, mas ele teria aquela marca pelo resto da vida.
— Era um símbolo de poder e respeito na época do Japão feudal. Há duzentos anos era obrigatório que todos os nascidos nessa família portassem o símbolo em suas roupas.
Hashirama pegou a pomada em cima da cama, aplicando levemente sobre os cortes, ainda emudecido. Cortou a gaze e colou o esparadrapo nas extremidades, cobrindo a marca. Depositou um beijo nos cabelos molhados de Madara e sorriu para seu reflexo no espelho.
— Como ele sabia?
Madara sorriu e jogou os cabelos para trás, cobrindo o curativo.
— Ele só precisou pesquisar meu sobrenome... Alguns ramos da família ainda são grandes e influentes no Japão.
— Por que seu nome estava naquele caderno?
— Eu não acho que ele queria me matar... – Vestiu a camisa lentamente, sendo ajudado por Hahsirama.
— Não acha...? – Hashirama se interrompeu, segurando o riso irônico. Segurou os ombros de Madara e o fez virar-se de frente para encará-lo. – Olhe o que ele fez com você.
Madara abaixou o olhar e se soltou do detetive, negando com a cabeça.
— Ele me mataria se quisesse...
— O que está escondendo?
— Ele foi meu paciente, Hashirama. – Ele falou sem paciência, como se aquilo o estivesse consumindo por dentro e se não fosse capaz de dizer logo as palavras, acabaria consumido por elas. – Foi ele quem me inspirou a fazer o TCC sobre TDI. Yahiko foi meu primeiro paciente com esse distúrbio e eu o mantive sobre controle por muito tempo, não achei que ele teria uma recaída como essa. Não acho que ele estivesse tentando me matar, ao menos não todas suas personalidades.
Hashirama respirou fundo.
— Eu não sou o médico aqui... – Ele falou com calma. – Você vai ter que me explicar isso tudo com muita calma.
— Quero vê-lo primeiro. Ele não tem condições de ficar em uma cadeia. Depois que ele estiver em segurança no hospital psiquiátrico eu te respondo tudo o que tiver para perguntar.
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