Blind

10 "Nada é como antes"


Notas iniciais
Decidi postar o capítulo hoje, já que no sábado e no domingo não irei postar. Quero agradecer a todos vocês que comentaram. Boa leitura :)

De todos os momentos possíveis da história da civilização humana, Walter tinha que aparecer justamente quando Annabeth ia lhe contar algo.

Aquilo era frustante demais para Percy. Ele e Annabeth tinha se conhecido a um mês e ainda assim ele nunca tinha descoberto nada significativo sobre ela. Ele queria poder saber tudo da vida dela, cada detalhe, cada momento feliz ou triste. Mas ela era complicada, muito reservada, não gostava de comentar muito sobre sua vida. Ele entendia, claro, mas adoraria ouvir cada história que ela tivesse pra contar.

Ele estava preocupado com o fato de que o que ela tinha pra dizer não ser muito bom. Ele conseguia ouvir o timbre da voz dela mudando e adotando um tom preocupado, quase culpado. Será que ela estava grávida? Que tinha namorado e ele era o amante? Será que ela iria voltar para São Francisco e deixa-lo ali de coração partido? Bem, a terceira opção ele poderia resolver, poderia administrar as empresas facilmente da Califórnia.

Porém, Walter tinha que provar que era realmente um desgraçado e atrapalhar toda a conversa deles dois. Ele foi pensando em tudo isso quando ia andando até seu escritório. Rosa disse que Walter estaria lá e Percy esperava que ele não estivesse sentado na sua cadeira.

Quando chegou lá, Walter estava em pé, esperando por ele com uma expressão séria.

–Então, meu velho, veio aqui pra falar mais asneiras ou só pra estragar o meu dia mesmo? — Percy perguntou tentando manter o bom humor, que a essa altura, já estava indo embora.

–Como vai garoto? Se dizer a verdade é falar asneira pra você, então sim, eu vim aqui fazer isso.

–Cara, como eu tive um ótimo começo de manhã, acho que não vou expulsar você da minha casa ainda. Bem, vai fundo, continue a falar merda. Sou todo ouvidos. — Percy se sentou na sua cadeira e colocou a sua bengala em cima da mesa, só pra passar um sinal de "Não irei exitar se precisar bater com isso na sua cabeça."
–Não sei se você chegou a conhecer essa garota. — começou ele a disser e abrir um envelope com uma ficha em Braile. — O nome dele é Annabeth Chase, nessa ficha tem todas as informações sobre ela.

Percy passou os dedos pela ficha. Nela tinha a data de nascimento de Annabeth, as escolas que ela estudou, o nome de sua faculdade, sua filiação (nome dos pais) e um nome que ele achou particularmente estranho estar ali: Billy Adams.

–Sim, eu conheço ela. Ela dormiu aqui na noite passada. — Falar que um traficante queria mata-lo tudo bem, mas começar a colocar Annabeth no meio da história era algo que o fazia ficar vermelho de raiva. Quando percebeu já estava gritando. — Qual é a tua ein, Walter? O que você quer comigo e por quê esta colocando ela nisso tudo?

–Porque, meu filho, Billy Adams a enviou para lhe conhecer e lhe enganar. Ele tinha dito a ela para dar um jeito qualquer e se casar com você e quando vocês estivessem com 1 mês de casados ele iria mata-lo. Passe os dedos por esse papel e veja se o nome de Billy não esta na linha onde se é identificado o nome de tutor dela, ele conseguiu a guarda subornando o juiz que estava responsável por ela. Ela tem mais de 12 passagens pela polícia, e uma delas porque estava perto de um homem que fora assassinado por um bandido do Bronx. E na noite passada quando você e ela foram no parque, ela foi vista com Luke Castelian, mais um contratado de Adams que estava encarregado de te dar um tiro, conversando enquanto você estava num banco comendo cachorro — quente.

O que ele tinha dito era verdade, ele ficou mesmo quase 10 minutos sentado no banco esperando ela voltar do banheiro.

–Eu não acredito em você, Walter.

–Eu já desconfiava que você não acreditaria. — Ele se levantou e foi até a porta. Percy pode ouvir ele chamando Rosa para dentro da sala. Ela entrou e Walter pegou uma foto dentro de outro envelope. — Rosa, você pode por favor dizer ao senhor Jackson que é que está nessa foto?

–Claro senhor, essa é a senhorita Chase e um rapaz alto e loiro conversando com ela. E acho que eles estão em um parque, parece que tem uma montanha russa atrás deles dois.

–Obrigado Rosa, já pode ir. — Rosa pediu licença e saiu do escritório. — Agora aqui está um gravador de uma das ligações que eu grampei dela assim que vocês se conheceram numa cafeteria chamada Sunshine.

Percy começou a gravação e nela a voz que ele tanto amava, estava falando com um outro homem.

"O que é? Já é a milésima vez que você me liga hoje." Era a voz de um homem, que pela narrativa de Walter, Percy deduziu que era de Billy Adams.

"Só estou ligando pra te avisar que ocorreu tudo bem. Mas vamos ter que ser cautelosos com esse cara, ele percebe as coisas de uma forma rápida." E lá estava a voz de Annabeth na gravação.

"Não quero saber como ele percebe as coisas logo de cara. Dê seu jeito. Apenas faça ele assinar uma certidão de casamento em menos de 3 meses." O homem rebateu.

"Tudo bem chefe. Amanhã tenho um novo encontro com ele. Era só isso, tenha um bom dia." Ele reconheceu o tom de irônia, que sempre estava na voz dela, finalizando a conversa.

Percy estava sem chão. Aquilo tudo que Walter vinha lhe alertando a tanto tempo era, infelizmente, verdade. Ele teve de se controlar para não desabar ali mesmo e dar uma de bebê chorão. Ele tinha sido enganado mais uma vez, o pior era que ele estava começando a acreditar em um futuro para eles dois. Ele queria mesmo se casar com ela, estava começando a sentir uma ardência no peito toda vez que ela estava por perto e uma dor insuportável quando ela estava longe. Ele estava começando amar, e amar de uma forma que ele não tinha feito nem mesmo com Rachel.

Ficou ali com as duas mãos em cima da mesa e a cabeça baixa.

–Filho, sei que você deve estar chateado agora. — Walter começou a dizer. — Mas isso não foi tudo o que eu descobri. A garota também está correndo perigo, foi isso o que o rapaz loiro estava dizendo pra ela no parque. Billy também quer mata-la e ...

Walter iria continuar a falar se não fosse a porta sendo aberta bruscamente. Mesmo sendo cego, Percy sabia que quem estava ali era Annabeth. Ele olhou para onde vinha os sons de uma respiração acelerada.

Não aguentou de raiva, andou até ela e a empurrou contra a parede. Ele tomou cuidado para não machuca-la, sua mãe sempre dizia que por mais que ele sentisse raiva de uma mulher, jamais deveria bater ou machucar uma; e além do mais, ele a amava muito pra fazer isso. Mas a raiva dentro dele era quase incontrolável. Ele agarrou os cabelos dela e fez com que o seu rosto ficasse encarando o dele.

–Sua vadia, eu confie em você.

–Percy, eu posso te explicar. — Ela disse o empurrando de leve para que ele soltasse seu cabelo.

–Annabeth, me diga a verdade. Esse homem chegou aqui dizendo que você estava em um plano para se casar comigo e depois fazer parte do meu assassinato. Eu quero muito que esse homem esteja mentindo. Por isso me diga, o que ele disse é verdade?

Ele continuou segurando o cabelo dela, mas afrouxou o aperto, afinal não era a intensão dele machuca-la.

–Percy, era isso que eu queria te contar inda a pouco ...

Ela continuaria a falar se não fosse o soco que Percy deu na parede bem ao lado do rosto dela.

–Me diga, isso é verdade. — Ele soltou o cabelo dela dessa vez, mas estava com uma expressão tão feroz que pode perceber que ela havia se encolhido na parede amedrontada.

–Sim, isso é verdade. — Disse ela com a voz trêmula de medo e tristeza.

Ele estava arrasado. Não sabia se ela estava chorando, ela com certeza não estaria, era durona demais pra chorar na frente dele depois de ter sido tratada daquela forma. Ele queria fugir pra algum lugar feliz naquele momento. Não queria ter falado daquela forma e assustado a mulher que amava, mas estava com raiva demais para se desculpar.

–Saia da minha frente. E saia agora. — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer.
Ela saiu e fechou a porta. Percy ficou ali parado, sem fazer nada e com o coração completamente destruído. Se lembrou que Walter ainda estava ali e decidiu tirar uma última dúvida para que pudesse se retirar daquele escritório.

–Você disse que Billy estava tentando matar ela também. Porquê?

–Bem, meu filho, parece que antes de morrer Frederick Chase, o pai de Annabeth, ganhou 500 mil numa aposta. No testamento dele, ele deixou escrito que aquele dinheiro era pra ser dado a Annabeth apenas quando ela terminasse a faculdade, para que pudesse fazer o que quiser com o dinheiro. Como Billy tinha tido a guarda dela, se ela morresse ele ficaria com o dinheiro. Annabeth não faz ideia que esse dinheiro existe. E é por isso que ele está tentando matar ela também.

–Então é isso o que a vida de Annabeth vale pra esse desgraçado? 500 mil dólares? — Percy soltou uma risada sem humor, somente para intensificar seu nojo por aquele cara.

–Parece que sim. Mas você tem uma escolha agora. Cuidar dela enquanto Billy não é preso e fugirem juntos para o sul do pais ou deixa-la nas ruas de Nova Iorque para ser morta. Ela não tem lugar para morar na cidade no momento, o apartamento que ela estava era de Billy e o dinheiro que ela usaria para voltar pra São Francisco, ele deu um jeito de confiscar. Ela está sozinha e completamente vunerálvel.

–E daí? Você quer o quê? Quer que eu banque o retardado que protege uma mulher que estava tentando me matar?

–Não, eu quero que você seja o homem piedoso, que eu sei que os seus pais o criou pra ser. Que não retribui mal com o mal, e que tenta salvar quem um dia já quis a sua morte.

Walter andou até onde ele estava, abraçou o homem arrasado na frente dele. Percy continuou sem se mexer e nem ao menos retribuiu o abraço. Ele entendeu que o tempo que Walter ficou fora era apenas para protege-lo de traficantes desgraçados como Billy. Ele ainda sentiu o amor de pai que Walter tinha lhe dado.

Ficou com uma cara emburrada olhando pro chão e com os braços cruzados.

–Walter, como você sabe de tudo isso?

–Digamos que o tempo que eu andei fora eu conheci um pessoal bem informado. — Aquilo significava que ele não podia falar nada, pelo menos não agora.

–Tudo bem, eu vou subir.

–Meu filho, faça a coisa certa está bem? E espero que você tenha me perdoado.

–Eu te perdoei sim, seu velho presunçoso. — Percy disse abrindo um sorriso mínimo.

Ele se despediu de Walter e subiu para o seu quarto. Quando abriu a porta, Annabeth se apressou a dizer:

–Se quiser que eu vá embora, eu vou. É só disser.

–Por mim você podia ir para o inferno, mas tenho que bancar o bom moço e mate-la comigo por um tempo.

–Porquê?

–Não te interessa. -Ele disse e foi até o banheiro.

Ele ligou o chuveiro e sentiu a água bater no seu corpo. Sentiu algumas lágrimas escorrerem por seu rosto. O destino era cruel até o último fio de cabelo com ele. Pensou no que iria fazer dali pra frente e sabia que teria que ir pra Miami, na Florida. Ele tinha uma casa de verão lá e era o mais extremo sul do país, um ótimo lugar para se esconder.

Ele iria levar Annabeth com ele, é claro, mas não iria ter nada com ela nunca mais.

Terminou seu banho e saiu do banheiro apenas de toalha. Trocou de roupa na frente dela, que estava deitada na cama. Ele não podia acreditar que a poucos minutos atrás apenas queria ama-la pro resto da vida e agora sentia um ódio incomum que iria durar quase o mesmo tempo.

Ele olhou para cama — já que não tinha a menor ideia em qual direção ela estava, apenas disse:

–Eu não vou falar com você. Walter está voltando daqui a 30 minutos e irá te explicar tudo. Você não precisa falar comigo também, e eu espero que você nem fale. — ele disse e caminhou até a porta.

–Percy, eu tentei te contar tudo antes. Eu não queria que fosse assim. Me perdoe.

–Eu não tenho mais nada a dizer a você. — Ele fechou a porta e ouvia ela chorando dentro do quarto.

Pediu um uísque a Rosa, se sentou no sofá da enorme sala e ficou com o rosto voltado pra cima. Desejou morrer naquele momento. Não sabia dizer se poderia perdoar Annabeth algum dia, mas queria uma única vez poder vê-la e obter uma imagem dela na sua mente. Queria se lembrar dela como a garota divertida e atrevida que sempre tinha uma resposta na ponta da língua. Queria se lembrar da mulher que sempre o ouvia e que não demostrava pena, mas que demostrava amor e cumplicidade todas as vezes que estavam juntos.

Quando ele percebeu já tinha bebido a metade da garrafa de uísque e provavelmente já estava bêbado. Ele ouviu a porta da sala se abrindo e a voz de Walter dizendo.

–Nada disso, não invente de ficar bêbado agora. — Ele foi até onde Percy estava e tirou a garrafa de uísque da mão dele. — Temos que pegar um voo pra Miami.