Blind

11 "Atingidos"


Notas iniciais
De boa galera? :) Não tenho nada pra dizer, então tenham uma boa leitura.

Annabeth se lembro de uma vez ter passado em frente a um homem na rua, segurando uma placa escrita: "Aquilo que você plantar, você colherá. Não adianta plantar o mal e tentar colher o bem. Para não sofrer com a lei da semeadura, seja um bom agricultor." Ela percebeu que aquele homem deveria fazer parte de um grupo filosófico e ideológico que sempre ficava falando coisas sem nexo por aí.

Naquela manhã ela percebeu que, por mais que naquele momento ela tivesse achado a frase idiota, a frase era baseada no que realmente acontece na vida. Ela se lembrou de que já fez muitos homens caírem a seus pés e entregarem verdadeiras fortunas para toda a rede criminosa da qual ela fazia parte, se lembrou dos homens com quem dormia, se lembrou de quando viu um homem ser assassinado por Ethan Nakamura (um antigo amigo dela e contratado de Billy). Se lembrou que uma vez viu uma prostituta sendo estrupada e não fez nada, apenas saiu do local e deixou os capangas de Adams "se divertirem", afinal enquanto ela estivesse bem, aquela inútil mulher não importava.

Como uma pessoa como ela, que apenas plantou em toda a sua vida um mal monstruoso, poderia colher algo bom?

Ela estava inerte em todos esses pensamentos enquanto olhava para o teto do quarto de Percy. Ela ainda continuava deitada na cama, sentindo o cheiro dele e se lembrando da noite passada. Ela recordou que em algum momento da noite tinha olhado para o teto branco do quarto dele e que tinha percebido que tinha ali milhares de pontos levemente brilhantes, era uma constelação muito bem elaborada. Não entendeu porque um cara cego colocaria aquilo em seu quarto. Mas percebeu que ele era muito perfeccionista em deixar as coisas mais bonitas, mesmo que não pudesse vê-las.

Percy era uma colheita muito boa para uma agricultora de péssima qualidade como ela. Ele tinha o coração muito ferido por coisas passadas e ela, no lugar de um coração, tinha um arsenal de armas, que daria a ferida fatal para destruir o coração dele.

Ela havia ficado com medo dele, o medo que ele transmitia era pior por causa da bondade em seu coração parecer ter se apagado. Ela merecia uma surra naquela hora, merecia ser jogada na rua e ser esquecida. Mas ele era cruel demais e retribuía o mal com o bem, a fazendo queimar de remorso e arrependimento.

Ela vestiu as roupas com as quais entrou naquela casa na noite anterior. Colocou uma mascara invisível no seu rosto, era orgulhosa demais para mostrar que estava arrasada, apesar da aparência dela não importar muito, afinal Percy não enxergava. Ela saiu do quarto e foi até a sala esperar Walter.

Antes de chegar na sala ela ouviu uma parte da conversa confusa de Walter e Percy, que em menos de 30 minutos tinha conseguido ficar completamente bêbado.

–Walter, eu não quero saber, eu não quero ter que levar ela pra nenhum lugar. — ele balbuciava cada palavra como se estivesse com a língua pressa. Era o sutaque dos alcoólatras.

–Garoto, você mais do que ninguém sabe que quer ela por perto. — Walter disse dando uma risadinha.

Quando ela chegou na sala, recebeu um sorriso preocupado de Walter. Ele olhava para Percy que balançava a cabeça de uma lado pro outro como se fosse uma criança mimada.

–Pelos menos eu transei com ela, não é? Levei a pior, mas consegui tirar proveito. — Ele riu e depois virou o rosto para a direção dela. Mas como sempre fazia, olhou para algum ponto na sala que estava próximo dela, ele havia retornado com a sua mania de cego ao olhar para o lado errado. — E falando no diabo...

Foi a gota d'água para ela. Ela estava errada, muito errada, mas era cabeça dura demais pra admitir e se arrastar pedindo desculpas. De encontro a ela, Percy também era um cabeça dura que não conseguia discutir um problema, e ainda fugia dele ficando bêbado e deitado estirado no sofá como se tivesse levado uma rajada de metralhadora no peito.

É claro que ia dar merda.

–Seu idiota, eu tentei te contar tudo. Eu já tinha desistido daquele plano e colequei a minha vida em risco quando decidi ajudar a preservar a sua. Agora não me venha com esse tratamento de baixo nível. — ela estava gritando compulsivamente com ele. — E além do mais, eu não sou um objeto que você usou pra disser que "pelo menos transou comigo".

Percy deu um gole na sua garrafa de uísque, que já estava quase acabando.

É, aquilo realmente ia dar merda.

– Olhe só isso Walter. — Percy começou a dizer. Se Annabeth não estivesse com tanta raiva, teria rido da cena que ele estava protagonizando. Por estar bêbado os 4 sentidos vitais que restavam a ele, pareciam ter evaporado. Tanto que ao invés de olhar para Walter ele se virou para lareira no final da sala, enquanto Walter apenas estava ali, parado do seu lado. — Vamos ouvir os relatos deste ser imaculado, que apenas pensa em redimir os seus atos de maldade com uma bondade sobre humana confessando todos os seus pecados. Quem sabe você não me cura da minha cegueira? Afinal já está dando uma de santa ...

Ele foi silenciado com um tapa estalado no rosto. Ele caiu sentado no sofá com a mão esfregando o lado esquerdo do seu rosto, onde o tapa tinha batido. No rosto de Percy estava a marca dos dedos de Annabeth. Ela agarrou a gola da blusa dele e olhou no fundo dos seus olhos verdes.

–Você nunca mais fale comigo assim de novo. — Parecia que se comunicar gritando era o padrão efetivo da conversa, porque lá estava ela com a voz a uma oitava acima novamente.

–Por que senão o que? Você vai tentar me matar? Ah não querida, risque esse item da sua lista, — Ele rosnava cada palavra. — PORQUE ISSO VOCÊ JÁ TENTOU!

–Já chega vocês dois. — Walter se meteu na discussão separando os dois. — Um criminoso altamente perigoso está tentando mata-los e você resolvem discutir a relação como crianças no jardim de infância.

Nessa hora ele ouviram a voz de alguém que acompanhava toda a conversa a um bom tempo.

Leo Valdez tinha ido a casa de Percy para lhe contar de um novo motor que ele havia inventado, ele ainda não sabia para que o motor seria usado, mas iria ajudar muito em novos projeto que Percy estava querendo investir.

Como de costume o porteiro o deixou entrar e como também era de costume ele abriu a porta da frente da sala sem ao menos bater antes. Ele fazia isso desde que conhecia o rapaz cego. Mas naquela manhã, ele ouviu uma conversa de fazer borrar as calças de medo. Era um papo de Annabeth ter tentado matar Percy e um criminoso estar tentando matar os dois.

Quando todos perceberam que ele estava ali, Walter perguntou:

–Valdez, em que parte da conversa você chegou?

– Na parte em que Annabeth começou a gritar com o cara bêbado e cego jogado no sofá. Alguma coisa como ela ter tentado avisar algo a ele. — Ele estava com medo de todo aquele papo de tentativa de assassinato ser verdade e não mais uma das pegadinhas de Percy.

–Então quer dizer que você ouviu toda a conversa, inclusive a parte em que um traficante perigoso está tentando matar eles dois? — Continuou Walter a questionar.

–Érr ... sim. Eu ouviu tudo sim.

Todos ficaram calados na sala, Percy bebeu o último gole restante da garrafa de uísque.

–Puta merda. — Ele começou a falar com o seu sotaque alcoólatra. — Mas um que se fodeu ...

–Será que dá pra você parar de falar palavrão? — Annabeth odiava palavrões, eles a fazia lembrar de todos os cara idiotas e nojentos com quem já teve que se envolver. Era algo irônico ela se incomodar com simples palavras quando já tinha feito coisas muito piores.

–Será que dá pra você se retirar do planeta terra, se dirigir o mais próximo possível do vácuo espacial e poupar a raça humana da sua inútil existência? -Ele rebateu.

Eles iam começar uma nova discussão, mas Walter os interrompeu novamente.

–Dá pra vocês dois pararem. Não veem que as cosias começaram a ficar mais sérias aqui? — Ele estava com o rosto vermelho, provavelmente já tinha perdido a paciência com os adultos infantis a sua frente. — Annabeth, Leo, por favor sentem-se. Eu devo algumas explicações a vocês.

Então começou a explicar a Annabeth tudo o que estava acontecendo. O dinheiro que seu pai tinha guardado para ela, que Billy estava sendo procurado por agentes policiais de todo o país e que eles teriam que fugir para Miami, que era o lugar menos improvável de Billy os procurar. Enquanto ele falava, Leo, que estava sentado entre Percy e Annabeth, se sentia muito mais envolvido na história. E algo que ele particularmente temia foi dito por Walter:

–Valdez, eu sei que você já ouviu falar em deletar testemunhas. Não, nós não vamos mata-lo, mas vamos ter que leva-lo conosco. Se Billy descobrir que você sabe de algo, você se tornará um homem morto.

– E -eu v-vou ter que ir com v-vocês? — Leo começou a gaguejar. Ele estava embolando o espanhol com o inglês, coisa que fazia quando estava nervoso.

–Sim, você vai ter que vir conosco.

E fez-se silêncio total entre todos da sala de novo.

–Como eu ia dizendo, -Percy colocou sua garrafa vazia de uísque em cima da mesa de centro da sala. — Mas um que se fodeu.

–Você é ridículo ... — E foi com essas palavras que Annabeth ressuscitou toda a discussão.

Eles teriam continuado toda aquele circo, se não fosse o celular na cintura de Walter ter tocado.

–Alô — disse Walter.

–Müller, aqui é o Sebastian. Tire os garotos da mansão agora. Tem um carro cheio de bandidos andando em alta velocidade na esquina da rua. -disse o outro homem na linha.

[...]

Eles estavam na Mercedes de Walter quando, de repente, ouviram tiros e barulhos de pneus estourando.

Eram os capangas de Billy lá fora, e entre eles Annabeth reconheceu Luke. Ela, Leo e Percy estavam sentados no banco traseiro do carro blindado. Leo estava no seu lado esquerdo balbuciando palavras em espanhol, provavelmente estava rezando. E Percy, de todos os tipos de bêbedos que um ser humano pode se tornar, ele tinha que ser o bêbado idiota, do tipo que faz piadas ruins e que coloca todos em situação de risco em uma perseguição.

–Leo, dá só uma olhada nisso cara, está parecendo o GTA lá fora. — ele tinha aberto o vidro da janela e colocado a cabeça pra fora.

–Percy, abaixe esse vidro. — Ela agarrou os cabelos dele e levantou o vidro da janela. — E aliás, deixe se ser mentiroso, você não está vendo nada. Você se esqueceu que é cego ou eu tenho que lembrar isso a você?

Ele iria rebater, mas o som assustador de outro pneu estourando o interrompeu. Eram os pneus do carro de Sebastian, que todos chamavam de Bash, saindo de cena. Ele estava no carro com mais 3 seguranças do tamanho do gigante Gólias, fazendo a reta — guarda atrás do carro de Walter.

–Para onde estamos indo, Walter? — Annabeth perguntou.

–Para uma pista de voo da CEO Jackson, não fica muito distante daqui. Só temos que conseguir despista-los e estaremos no jato particular de Percy indo pra Miami.

Annabeth viu a expressão séria e cautelosa dele pelo retrovisor do carro. Reconheceu aquele olhar e ficou surpresa. Os olhos de Walter foram de encontro aos dela. E então a expressão "o mundo é pequeno", finalmente fez sentido.

–Você foi o policial que me prendeu no meu baile de formatura. — Ela sussurrou no ouvido dele enquanto ele continua dirigindo.

–Sim, você estragou a sua noite ao roubar aqueles galões de cerveja do bar do Hall. — Ele sorriu ao se lembrar da garota de 17 anos atrevida e com um humor irônico sentada no banco traseiro da sua viatura.

–Agora entendi tudo. — Finalmente Annabeth conseguiu processar os fatos. — Você deixou Percy porque ficou com medo de que sua profissão pudesse por ele em risco. E ainda tem mais ... Você entrou pro FBI, por isso descobriu todo o plano de Billy.

Walter sorriu, um sorriso amigável, mostrando o quanto apreciava a inteligência de Annabeth.

–Você descobre as coisas a velocidade da luz, Annabeth. Daria uma ótima detetive, se não fosse uma ótima criminosa.

–Ex criminosa. Já não sou mais, um cego me curou. -Ela sorriu ao lembrar de como Percy em poucos dias a tinha feito esquecer todo o seu passado errôneo.

Ela interrompeu a conversa silenciosa deles dois e encostou suas costas no banco do carro. Leo estava calado com uma cara de dar pena, ele não tinha nada haver com aquilo, mas também tinha se tornado um fugitivo. Percy estava com a cabeça encostada no vidro da janela, estava babando e dormindo. Talvez fosse toda a paixão da noite passada, mas naquela manhã ela tinha percebeu que ele roncava.

[..]

Fazia meia hora que Walter tinha conseguido despistar Luke e os outros capangas de Billy. Sebastian e os outros seguranças tinham cuidado deles umas poucas ruas atrás.

Eles tinham conseguido chegar a pista de voo, onde tinha um jato particular pronto para partir esperando por eles. Percy tinha ficado um pouco sóbrio, mas continuava a agir como se Annabeth não existisse. Aquilo doía profundamente nela, mas decidiu que conversaria com ele quando estivessem dentro do avião indo pra Miami.

Ele abraçava uma garrafa de rum dessa vez. Por estarem todos com medo e ele bêbado, ninguém tinha percebido que em cima da mesa de centro da sala tinha também uma garrafa de rum, como ele estava com os nerônios deturbados pelo álcool, a primeira coisa que pensou quando Walter disse "depressa", foi em pegar o vinho e trazer com ele.

Annabeth ficou um pouco triste ao perceber que Walter tinha arranjado novos óculos escuros para Percy. Era um ray ban, no estilo anos 70. Ela percebeu que não iria poder olhar mais para aquelas orbitas verdes.

Foi então que tudo ocorreu depressa demais. Tiros vindo de vários lugares e os todos correndo de uma vez só em direção ao avião. Ela olhou para trás e viu o rosto de Luke e uma pistola na sua mão. Ela sentiu uma pressão muito forte no abdômen e levou a mão até ali, quando olhou a sua mão, ela estava encharcada de sangue.

Sentiu os braços fortes de Percy a envolvendo e a sua visão começando a ficar embaçada. Ela sentia tanta dor que suas pernas tinham parado de funcionar. Ouviu Walter gritando para que Percy corresse e que entrasse logo com ela dentro do avião.

A última coisa que viu foi Luke entrando no carro, dando partida e indo embora. Ela deduziu que ele já tinha comprido sua tarefa do dia.

Ele já tinha almejado um dos quais ele queria matar.

Ele tinha acertado um tiro em Annabeth.

Notas finais
Eu disse que só iria postar na segunda ... Surprese mother fucker rs Beijos, galera. Tenham um ótimo domingo!