Blind
13 "Acordada"
Notas iniciais
Percy ainda estava com a cabeça doendo. Ele finalmente achou que Leo tinha razão e deveria parar de beber. Ele estava esperando na sala de espera junto com Leo e Calipso. Quando deu o horário de visitas ele foi de pressa até a sala de Annabeth, Walter de alguma maneira que Percy julgou ser muito ninja, conseguiu trazer a sua bengala que ele tinha esqueci em Nova Iorque. Então de certa forma, ele consegui se guiar sozinho, o único problema é que desde que ele chegou em Charleston, ele sempre estava bêbado e com os sentidos naturais confusos.
Naquele dia ele não estava com tanto álcool no sangue, mas tinha uma tristeza que o incomodava ao extremo. A única forma de amor que ele havia conhecido foi com o seu namoro com Rachel, mas perto do que ele sentia por Annabeth, aquilo que ele havia tido com Rachel parecia paixão de adolescente. O irônico é que Rachel queria rouba-lo, Annabeth queria mata-lo. Porém, o coração dele teve que amar logo a que queria a sua morte. O mais irônico nisso tudo é que ele desconfiava que ela sentia a mesma coisa por ele.
Seria um milagre se tudo isso fosse verdade. Seria um milagre se ela acordasse e seria um milagre maior ainda se ele parasse de beber depois disso.
Ele foi até a cadeira que sempre estava do lado da cama dela, se sentou ali e procurou com todo o cuidado a mão dela no colchão da cama. Ele tirou os óculos escuros, não precisava deles quando estava com Annabeth. Enquanto suas duas mãos estavam segurando a mão dela, ele pensou em algo que tinha ouvido uma vez. Será que era mesmo verdade que pessoas em coma podiam ouvir quando alguém falava com elas? Ele acreditava que não. Porém ele nunca tinha tentado antes e aquilo era uma curiosidade muito grande para ele.
Então, depois de duas semanas entrando ali e não dizendo uma palavra, ele decidiu começar um monologo com Annabeth. Quem sabe ela não o ouvia?
Quem sabe não acontecia um milagre?
[...]
Annabeth não sabia por quanto tempo estava dormindo, só sabia que o sono era bom. Todas as vezes que ouvia vozes, a sua vontade era de esganar a pessoa que estava atrapalhando seu sono e voltar a dormir. Ela se sentia fraca demais e também não queria acordar. Afinal, ao que parece a única voz que ela queria ouvir, não estava mais ali. Percy a tinha deixado de vez e aquilo era doloroso demais, ela tinha começado a ama-lo rapidamente e o perdeu na mesma velocidade.
Ela sentia um tubo na sua garganta, sentia também pequenas gotículas de água vindo dela. "Eles estão me alimentando por aqui", pensou ela.
Então ela se deu conta do porque não conseguia acordar, ela estava em coma. Mas isso não importava, ela não queria acordar se ele não estivesse lá.
Então, de repente, ela ouviu um choro baixinho e sentiu o rosto de alguém na sua mão esquerda. O rosto da pessoa estava molhado em lágrimas e ela pode ouvir uma voz sussurrante dizendo:
–Eu queria que você acordasse, mesmo que tentasse me matar de novo depois, eu só queria que você estivesse aqui. -Era uma voz rouca, embargada de dor e a voz que sempre a fazia sorrir. Era a voz dele! — Eu não queria ter falado aquilo pra você, eu estava com raiva.
Ela tentou mexer a mão, mas era impossível. Parecia que ao invés de uma mão, aquilo era chumbo, impossível de ser levantado. Ela sentiu a familiar barba por fazer na sua mão, sentiu o cheiro de maresia que só ele tinha.
–Sabe, eu gosto de ficar bêbado. As pessoas dizem pra eu parar, mas eu gosto. Beber vinho, uísque e vodka, me deixa alegre. Alegre daquela forma que somente você me faz ficar. Mas que porra, Annabeth. De que adianta eu ficar bebâdo se não tenho você? -Ele fez uma pausa como se lembrasse de algo. -Me desculpa, eu sei que você não gosta de palavrão.
Os olhos dela estavam pesados. Ela queria olhar para ele e não conseguia. Aquele sensação era insuportável, agora ela sabia como ele se sente por não poder ver as pessoas que ama.
–Eu queria dizer isso com você acordada, mas talvez se você não estivesse assim eu não teria te perdoado. Então se você estiver me ouvindo, saiba que eu te amo. Eu sou um idiota por te amar, mas seria mais idiota ainda se não te amasse. Me perdoe por tudo. Ah cara, caralho ... -Ele afastou o rosto da mão dela e bufou. -Desculpa, eu não vou falar mais palavrões por hoje, prometo.
Aquilo foi o impulso que faltava a Annabeth para abrir os olhos. Ela arranjou forças e conseguiu mexer sua mão também. Percy estava tão emocionado que não percebeu. Ela estava agora olhando para o teto do quarto e quando virou o rosto viu ele ali sentado do lado esquerdo dela. Ele tinha uma expressão séria e o rosto com as algumas lágrimas descendo, parecia que chorar era uma coisa inaceitável para ele. E as suspeitas dela foram confirmadas quando ele disse:
–Quem disse que homem não chora? -Ele deu uma risada sem humor. -Da última vez que eu chorei foi no enterro dos meus pais, eu era só um menino naquela época. Mas eu sou um homem agora e descobri que ainda choro. Você estava vendo o quanto eu te amo? Você está vendo o que faz comigo? Quando você acordar vai levar uma boa surra por ter me feito chorar.
Ele estava rindo agora e ela pode ver o seu sorriso. Ela olhava para aqueles olhos verdes e decidiu apertar a mão dele com força.
–Aí, quer quebrar minha mão Annabeth, mais que merda -Ele disse em reação ao aperto, mas depois que se ligou no que tinha acontecido disse: -Peraí, você apertou minha mão ... Meu Deus, você acordou.
De repente ele ficou com a respiração acelerado e estava rindo como um babaca. Ela assistia a cena feliz por ve-lo assim. Então ela viu um botão no final da cama, aquilo com certeza era pra chamar os médicos. Ela voltou a apertar a mão dele com força.
–O que? o que foi? -ele com certeza não sabia o que fazer e ela não podia falar por causa do maldito tubo na sua garganta.
A única esperança era que ele se tocasse do que tinha que fazer . E depois de um tempo foi isso o que ele fez. Ela viu ele procurar o botão pela cama e encontra-lo. Ele o apertou e depois de uma tempo os médicos e enfermeiros entraram na sala.
–Você não pode ficar aqui, rapaz -disse o médico entregando a Percy a sua bengala e seus óculos. -Quando ela estiver estabilizada nós chamamos vocês.
–Tudo bem, doutor. -Ele ainda estava olhando na direção dela. -Onde está a porta?
Um dos enfermeiros bateu na porta e Percy foi andando naquela direção.
Quando ele saiu da sala Annabeth sentiu um dor aguda no peito. Ela ouviu os seus batimentos cardíacos se desestabilizarem no monitor de acompanhamento. De repente o barulho do "pi pi pi", passou a um "piiiiii" compulsivo.
Ela viu de relance os enfermeiros com aqueles aparelhos de choque indo na direção dela. Eles abriram o seu roupão hospitalar, ela teria sentido vergonha de estar nua na frente deles, mas se não ficasse poderia morrer.
Eles pressionaram aquilo umas duas vezes nela, então o monitor dos batimentos voltou com o seu habitual "pi pi pi". Ela ouviu os médicos suspirarem de alivio. Uma enfermeira voltou a cobri-la com o roupão hospitalar.
–Você precisa se acalmar, senhorita Chase. -O médico loiro e bonitão era quem estava falando com ela. -Você acabou de ter uma pequena paralisação cardíaca, muito raro em pessoas da sua idade.
Tudo bem, agora ela se sentia uma velha.
Depois de alguns segundos, o médico bonitão que ela descobriu se chamar Apolo, tirou o tubo de dentro da sua faringe. Aquilo era um alivio enorme, aquele maldito tubo a incomodava bastante.
Apolo sorriu e disse:
–Como está se sentindo, senhorita Chase?
–Acordada, doutor. -Disse ela. — Acordada.
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