Bleach: O Surgimento de uma Nova Era - Reboot
2 O despertar
Notas iniciais
Exaustão e cansaço eram tudo que ela estava sentindo naquele momento. Seus passos largos e rápidos ecoavam por todo o local soturno e vazio. Apoiou-se com uma de suas mãos na parede, enquanto que com a outra limpou o suor que escorria de sua têmpora, o mesmo que fizera seu cabelo molhar e grudar em sua nuca. Sua sombra movia-se lentamente conforme o balançar das chamas dos pequenos candelabros que se encontravam nas paredes ao longo do corredor estreito. Não sabia por que nem onde estava, tudo que sabia é que tinha que seguir em frente, pois algo a chamava, um chamado direto de seu coração.
Ao avistar a pequena luz ao fim, sentiu um aperto forte em seu coração, e, ao se aproximar cada vez mais, a luz perdia seu tom branco, ficando cada vez mais vermelha. Liberou um pequeno ruído de exaustão após ir de encontro ao que parecia a saída. Apoiou-se sobre os joelhos, respirando ofegantemente antes de notar uma figura em pé a sua frente. Lentamente levantou a cabeça, seus olhos violetas indo de encontro aos olhos vermelhos do rapaz, e, quando finalmente olhou diretamente para ele, notou que este estava ensanguentado e sangue escorria em demasia de sua boca e olhos. Levou à mão a boca, queria gritar, mas sequer um ruído saiu de sua garganta. Suas pernas tremiam e não respondiam ao chamado de seu desespero. O rapaz então se aproximou lentamente, em passos curtos, em direção a garota, esticando a mão em sua direção. Rukia... Rukia... Rukia... sussurrava incessantemente, até que finalmente tocou sua face com um de seus dedos machucados.
Rukia!
Rukia despertou em um pulo, sentando e retirando as pressas o luxuoso edredom que a cobria. Sua respiração estava ofegante e transpirava em demasia. Olhou em volta, ainda estava em seu quarto. Não pôde deixar de soltar um suspiro de alívio ao perceber que aquilo não passara de um sonho. Mais um sonho.
Não sabia ao certo quanto tempo fazia desde que começara a ter o mesmo pesadelo, mas já havia assimilado o tempo ao dia que encontrara o misterioso rapaz quase morto em volta da Seireitei. Os cabelos vermelhos, os olhos de quase mesmo tom e o sangue. Sabia que estava sonhando com ele, soubera desde a primeira vez, mas nunca descobrira o porquê.
Levantou-se, passando a mão nos cabelos para desgrudá-los da têmpora – onde tinha suado mais. Tomou banho rapidamente, vestindo-se com a típica roupa de shinigamis: um shihakushou, chinelos e meias brancas. Seguiu ao lado da porta, pegando sua Zanpakutou em um canto e, antes que fechasse a porta, olhou para o próprio quarto. Ambas as paredes e o piso eram brancos. Cortinas, móveis vitorianos e tapetes entravam em sintonias, com cores variando entre azul-bebê e lilás; no centro, sua confortável cama queen size e, logo atrás, a porta que dava acesso ao banheiro.
Suspirou. A exaustão estava falando mais alto em seu corpo. Fechou a porta antes que se arrependesse da escolha e seguiu caminho a fora.
Rukia seguiu pelas ruas tortuosas da Sereitei; casas e comércios por todos os lados, e ruas feitas de paralelepípedos. Realmente era um lugar muito confuso. Não foi á toa que se perdeu duas ou três vezes quando foi morar na grande capital.
– Rukia – uma voz familiar encontrou seus ouvidos. Virou-se para notar aquele que batalhou junto a ela para que se tornassem shinigamis, Renji.
– Renji – acenou Rukia, feliz por ver o companheiro.
– Está indo pra onde? Pensei que a décima terceira divisão ficasse para lá – apontou para lado oposto, confuso.
– Estou indo para a quarta divisão – respondeu Rukia. O que fez com que Renji captasse o motivo.
– O rapaz misterioso... – disse ele. – Aquele que encontramos aos arredores do muro, você está indo visitá-lo, não está?
– Sim...
– Você sabe que não precisa assumir a responsabilidade por ele, não sabe? – disse Renji preocupado com a amiga. Havia associado à visita a exaustão e preocupação clara em seu rosto.
– Eu sei – respondeu Rukia, virando-se de costas para o amigo. – Mas é que tenho tido sonhos... não, pesadelos com ele. Talvez ele esteja tentando se comunicar comigo de alguma forma.
Renji pensou em zombar dela. Um rapaz em coma tentando se comunicar? Aquilo era demais para se aceitar. Mas, ao reparar a tensão nos ombros de Rukia, pensou que talvez ela estivesse dizendo a verdade.
– Certo, vou com você então – foi o que acabou dizendo.
– Renji, você não precisa... – começou a dizer Rukia, virando-se para o companheiro.
– Eu quero saber como ele está. Nós o encontramos junto, então se ele é sua responsabilidade, também é minha. – retrucou.
Rukia pensou em relutar, mas acabou dando de ombros, dando espaço para Renji passar e seguindo-o logo atrás.
– Kuchiki-san, Abarai-san, é um prazer recebê-los em nosso esquadrão – cumprimentou um pequeno garoto, aparentando não ter mais que 14 anos, parado a frente do 4° esquadrão. – A que devo a honra?
Rukia não pôde deixar de notar a semelhança com Hanatarou. Será que todos os membros desse esquadrão tinham aparência e jeito iguais?
– Viemos para ver um paciente – pronunciou-se Renji. – O rapaz que foi encontrado há algumas semanas por nós.
– Certo, por favor, sigam-me.
Rukia e Renji seguiram em silêncio enquanto adentravam o esquadrão. Passaram pela porta dupla de madeira da entrada, virando a direita no longo corredor, chegando à sala de espera. O cômodo era composto por um balcão, em que uma shinigami de longos cabelos negros penteados em um rabo de cavalo permanecia sentada atrás lendo uma revista de fofocas, quadros de avisos de silêncio e esterilização de utensílios medicinais pendurados nas paredes e uma pequena fileira de bancos de espera.
– Aguardem aqui, por favor. – disse o pequeno shinigami, indicando as cadeiras.
Sentaram e aguardaram alguns minutos, até que uma mulher esguia, de cabelos compridos e trançados, apareceu no recinto.
– Capitã Unohana! – disse Rukia, ficando em pé no mesmo instante. Renji seguiu a amiga.
– Renji, Rukia – cumprimentou Unohana. – Takiro me disse que estão aqui para ver o rapaz ruivo que encontraram.
– Sim, vamos vê-lo – foi a vez de Renji se pronunciar – Quero dizer, se ele puder receber visitas – corrigiu-se, notando a autoridade com que havia falado.
– Ele não só está recebendo visitas, como tem alguém que o visita todo dia há uma semana – disse Unohana. – Por favor, sigam-me. – voltou ao corredor principal e seguiu em direção ao final do mesmo.
Rukia seguiu-a, com Renji logo atrás, e enquanto atravessava o longo corredor, sentiu-se momentaneamente como se estivesse em seu sonho, seguindo pelo caminho que parecia infinito e ansiando para chegar ao final, e descobrir o motivo do chamado em seu coração.
– É aqui — Unohana parou em frente a uma porta semi fechada, apenas um rastro de luz podia ser visto dentro do cômodo. – Acho que vão gostar da visita. Volto mais tarde quando o horário de visita se encerrar. – disse, e então se retirou andando rapidamente; sua trança balançando conforme o andar.
Renji colocou-se a frente, percebendo que Rukia ainda parecia estar um pouco atordoada. Cuidadosamente abriu a porta, tendo a visão ampla do quarto. Um cômodo pintado com cores claras, uma pequena pia a esquerda, janelas altas de vidro a frente, uma porta que provavelmente daria ao banheiro à direita, e uma cama com lençóis brancos centralizada. Ao lado da cama, uma poltrona de acompanhante, onde uma figura familiar de cabelos laranja arrepiados estava sentada.
– Ichigo! – surpreendeu-se Rukia, correndo para perto do amigo.
– Rukia! – Ichigo, parecendo ter despertado de um devaneio, levantou-se rapidamente e sorriu para amiga. – Renji, você também está aqui.
– Hei, Ichigo – acenou Renji.
– O que estão fazendo aqui? – questionou Ichigo – Pensei que estivessem em seus postos.
– Eu que pergunto o que você está fazendo aqui? – disse Rukia – Não era para estar no colégio? Não me diga que você está faltando novamente, idiota?! – irritou-se.
– Há mais ou menos uma semana, fiquei sabendo através do Urahara, que esse rapaz havia sido encontrado gravemente ferido e nenhum parente ou amigo se pronunciou – apontou Ichigo para o rapaz em coma a sua frente. – Então resolvi vir para ver se o conhecia ou pelo menos ajudar a encontrar alguém que o conheça. – respondeu Ichigo – E a propósito, estou de férias. – retrucou.
– E você o conhece? – perguntou Rukia esperançosa.
– Infelizmente, não – respondeu Ichigo, para a decepção da amiga. – E em uma semana que estive aqui, ninguém apareceu para sequer perguntar sobre ele.
– O coitado é um zé-ninguém – suspirou Renji, havia certa compaixão em seu tom de voz.
– Também não há registro dele no banco de dados da Seireitei – disse Rukia, fazendo com que Renji a olhasse com espanto. Então ela realmente estava levando isso a sério.
– Bom, não há muito o que fazer por agora – disse Ichigo, cruzando a sala em direção a porta de saída. – Bom, vou indo. Antes que o velho comece a resmungar que cheguei atrasado para o almoço de novo.
– Ichigo – chamou Rukia, fazendo o amigo virar para olhá-la. – Obrigado por ter vindo todos os dias – começou a falar. — Quero dizer, não é sua responsabilidade. É minha. E eu não estava cumprindo-a.
– Do que está falando? – estranhou. – Não é só porque foi o Renji e você que o encontrou que a responsabilidade seja de...
Estava retrucando Ichigo, mas, antes que pudesse terminar de falar, uma forte pressão tomou conta do local. Paredes começaram a tremer e os vidros da janela a rachar. Rukia sentiu as próprias pernas bambearem ao mesmo que tempo que a luz começou a falhar e, Ichigo e Renji, esforçavam-se para conseguirem manter-se de pé.
Rukia se apressou e apoiou-se a cabeceira da cama. A situação em si era espantosa, mas o maior espanto veio a seguir. As pernas de Rukia falharam fazendo com que ela caísse em cima do rapaz, e, ao apoiar as mãos sobre o peito dele para que pudesse se levantar, sentiu uma enorme quantidade de reiatsu emanando do corpo do mesmo. Fora questão de segundos até que a pressão sumisse repentinamente e o rapaz começasse a ofegar.
Ele havia despertado.
O borrão de luz havia tomado conta de sua visão. De repente, a escuridão desaparecera. Aos poucos conseguiu enxergar cores, borrões brancos para todos os lados, estranhos borrões vermelho e laranja à esquerda e um barrão preto sobre si. Tentou se levantar, mas a cabeça doía muito, como um latejar de mil pulsações em seu cérebro. Desistiu. Em vez disso, tentou focar, lutando contra a dor do clarão nos olhos, fazendo com que os borrões pouco a pouco fossem tomando formas, até que pôde ver com clareza. Uma garota de cabelos curtos, na altura dos ombros, e negros como a noite, com olhos violetas brilhantes, estava sobre ele. Era uma imagem angelical. Os cabelos negros em contraste com os belos lábios vermelhos, e os olhos como estrelas capazes de iluminar até a mais sombria noite. Teria ele morrido e agora um anjo o estava buscando para levá-lo ao paraíso? Não sabia dizer, tudo o que sabia era que aquela era a imagem mais bonita que já vira.
Rukia notou o rapaz sob ela despertando, seus olhos abrindo lentamente e o vermelho do lírio aparecendo pouco a pouco, até que se arregalaram completamente.
– Você está bem? – questionou preocupada.
A boca do jovem rapaz se abriu, mas nenhum som fora emitido.
Rukia voltou a questionar.
– Eu te fiz uma pergunta – resmungou.
Não houve respostas. Apenas ruídos indecifráveis.
Renji, que estava junto a Ichigo, observando com espanto a cena, resolveu se pronunciar.
– Acho que ele está tentando dizer algo Rukia – deu um passo a frente. – Talvez devesse se aproximar mais.
Rukia, aproveitando que já estava sobre o rapaz, inclinou-se e abaixou-se lentamente, deixando seu ouvido próximo a ele.
– Não... consigo... – sussurrou o rapaz.
– Não. Consigo. – disse Rukia em voz alta, como para ditar aos companheiros o que estava ouvindo.
– Respirar...
– Respirar. – disse Rukia.
– Com você... em cima... de mim – disse o rapaz, finalmente.
Uma enorme placa escrita “idiota” pareceu se acender diante Rukia quando percebeu o que estava fazendo. Como não percebera que estava em cima do rapaz esse tempo todo?
Saltou rapidamente da cama, ficando extremamente ruborizada pelo ato vergonhoso que cometera.
– M-me desculpe... – disse baixinho, estava envergonhada.
– Tudo bem... – disse ele, ainda sem forças e tentando se levantar. Ichigo e Renji, notando o ato, ajudaram-no a sentar-se. – Obrigado – disse em agradecimento aos dois shinigamis. – Onde estou? – questionou colocando a mão sobre a nuca.
– Você está na Sereitei – pronunciou-se Rukia, agora com a seriedade de volta em sua face.
– Seire... o quê? – questionou confuso.
– Sereitei – repetiu Rukia. – A área central da Soul Society, onde o Gotei 13 está localizado.
– Seireitei? Gotei 13? – questionou o rapaz claramente sem entender.
– É amigo – Ichigo se pronunciou. – Só um minuto, preciso conversar uma coisa urgente com meus companheiros – e então puxou Renji e Rukia, recuando bizarramente para o canto da sala com os dois. – Eu tenho a leve impressão que aquele cara ali não se lembra de nada – sussurrou Ichigo apontando com ambos indicadores para o rapaz.
– Como pode ter tanta certeza? – questionou Rukia em voz baixa. – Talvez ele não seja daqui.
– Ah, qual é Rukia – sussurrou Renji. – Você sabe muito bem que é impossível se chegar a Soul Society, a não ser que você seja um shinigami ou morra, e ele não me parece um shinigami. – terminou de falar olhando de soslaio para o rapaz que ainda permanecia confuso, olhando ao redor como se quisesse reconhecer algo.
– Ele estava usando um Shihakushou quando o encontramos – retrucou Rukia, controlando-se para não elevar a voz. – Olha, não estou dizendo que ele é um shinigami, mas não teria como ele estar usando um de nossos trajes e na Soul Society se fosse um humano comum – suspirou. – Ele deve pelo menos saber o próprio nome...
– Ei amigo – Rukia mal terminou de falar e Ichigo já estava ao lado do rapaz novamente. – Você ao menos sabe seu nome? – questionou com sua autoritariedade natural.
– Meu nome? Bem... – disse, tentando se lembrar – Meu nome é... meu nome... hum... – seus olhos cerraram-se, como se estivesse fazendo força para fazer com que o cérebro trabalhasse. – Eu... eu não me lembro – respondeu, enfim, parecendo decepcionado consigo mesmo.
– Viu, foi o que eu disse, ele não se lembra de nada – disse Ichigo, afastando-se do rapaz.
– Me deixa fazer algumas perguntas a ele – Rukia deu um passo à frente. – Talvez ele se lembre de algo.
– Nem pensar – Renji se colocou entre a amiga e o rapaz. – Você acha que só você tem direito de interrogá-lo?
– Mas eu nem perguntei nada! – indignou-se Rukia.
– Não foi só porque você foi o encontrou primeiro caído e em meio a poça de sangue que isso te da mais direitos. – resmungou Renji.
– Caído em uma poça de sangue...? – sussurrou o rapaz.
– Renji... – começou Rukia.
– Não me interrompe – retrucou Renji. – Desde que o encontramos você se sente a responsável por ele. Não é porque ele foi encontrado quase morto que isso significa que somos os responsáveis por ele!
– Eu... quase morto...? – voltou a sussurrar o rapaz, olhando para as próprias mãos, enquanto flashes de uma noite soturna vinham a sua mente, fazendo-o enxergar sangue por todo seu corpo.
– Ele foi resgatado, e está aqui sob cuidados do quarto esquadrão – disse Renji, um contínuo de seu sermão. – E já está melhor, olha como ele aparenta bem! – elevou seu tom de voz, apontando para o rapaz e virando-se apenas para concluir com os olhos o que acabara de falar. O que não foi possível.
O misterioso rapaz estava com a cabeça entre as mãos, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Balançava para frente e para trás, como alguém tentando espantar uma voz incômoda, e elevou aos poucos seu tom, até elevar-se a um grito agonizante e desesperador.
Os três shinigamis ficaram paralisados diante a cena.
Em poucos segundos a porta se abriu, revelando uma moça esguia, mais alta que Uhonana, e com cabelos brancos, curtos e bagunçados.
Estava ofegante.
– O que está acontecendo aqui?! – questionou a moça, preocupada.
– Isane – pronunciou-se Rukia, tentando fazer com que sua voz fosse ouvida em meio aos gritos. – E-eu não sei... Perguntamos a ele algumas coisas, mas ele não parecia saber de nada e então Renji começou a dizer algumas coisas sobre o dia em que o encontramos e ele começou a gritar.
– Ele precisa de um dopante – disse Isane, em tom de voz elevado, aproximando-se do paciente. – Preciso que saiam da sala – disse, mas ao virar notou que os três ainda permaneciam parados no mesmo lugar. – Agora! – gritou.
Renji foi o primeiro a se retirar, com Ichigo o seguindo logo atrás. Rukia se retirou por último, encostando lentamente a porta antes de sair e tendo como sua última visão o rapaz gritando em agonia.
Fale com o autor