Notas iniciais
– É tudo culpa minha – disse Rukia, cabisbaixa.
Rukia, Renji e Ichigo estavam de volta à sala de espera, onde chegaram atordoados pela confusão, sendo guiados por Takiro até o banco de espera, sob o olhar de reprovação da moça atrás do balcão.
Aguardavam notícias há quase uma hora, mas nada lhes foi informado. A tensão começava a pairar no ar.
– Não – disse Ichigo. – Eu quem fui perguntar o nome dele, talvez isso deva ter dado início a sua dor de cabeça.
– Não, Ichigo – disse Rukia. – Você só estava querendo ajudar.
– Mas não ajudei...
– Chega – disse Renji, colocando-se de pé. – O único culpado aqui sou eu, por ter dado detalhes sobre a noite que o encontramos. Foi por isso que ele teve essa crise, por minha culpa!
– A culpa não foi de nenhum dos três – disse Isane, reaparecendo.
O trio a olhou com espanto. Todos tinham tantas perguntas a fazer, mas sabiam que não era uma boa hora. Era a hora de admitir seus erros e assumir a culpa.
– Ele teve um colapso mental, é normal em pacientes com perda de memória – continuou ela. – Mas já está sedado e agora precisa descansar, estará bem ao acordar.
Rukia não pôde deixar de liberar um pequeno ruído de alívio. Enquanto aguardava notícias do rapaz, sua mente processava inúmeros problemas que poderiam ocorrer a ele e por sua culpa. Não importava o que Ichigo ou Renji a falasse, sentia-se responsável por sua recuperação, sentia-se ligada de alguma forma ao rapaz que nunca vira na vida. Algo que nem ela própria poderia explicar. E saber que ele estava bem agora, foi como retirar um peso de seus ombros.
– Ele pode receber visitas? – questionou Rukia, esperançosa em poder rever o rapaz e se desculpar.
Isane suspirou. Era claro que não era recomendável que ele recebesse visita de alguém, muito menos de alguém que sequer conheceu. Mas, sabia que podia abrir uma excessão.
– Certo – disse em meio a um suspiro. – Mas não demore. Se a Capitã Unohana ficar sabendo disso eu estarei encrencada.
– Obrigada – disse Rukia, abrindo um pequeno sorriso logo após.
Seguiu em direção ao corredor central, sendo seguida por seus companheiros, mas, antes que pudesse seguir rumo ao quarto onde o rapaz estava, foram impedidos por Isane.
– Na verdade – disse ela. – Só uma pessoa pode visitá-lo. Ele ainda está em recuperação e outro tumulto só o prejudicaria.
– Droga, tudo bem... – disse Renji. – Rukia, acho que você pode ir. Não acha, Ichigo?
– Por mim tudo bem – Ichigo deu de ombros. – Só ela não torturando o pobre rapaz com aqueles desenhos horríveis quando for explicar sobre hollows e shinigamis.
– Calado, idiota! – irou-se Rukia. – Meus desenhos são práticos e auto-explicativos para melhor entendimento – disse, com orgulho de si mesma.
– Não sei o que coelhos mal desenhados têm de auto-explicativos. – resmungou Ichigo, virando o rosto contra a companheira.
– Eu vou, então – Rukia deu um passo à frente, ignorando o último comentário de Ichigo. – Encontro vocês depois – com um aceno despediu-se dos companheiros e seguiu em direção a sala ao fim do corredor.
Rukia permaneceu em silêncio enquanto atravessa o longo corredor, sendo guiada por Isane. Agora, mais do que nunca, a cena parecia familiar com seu pesadelo. Balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Não, é apenas um sonho, pensou, recompondo-se, antes que a tenente a sua frente parecesse em frente à porta, cuja placa de metal indicava o número 205.
– Tente ser breve – disse Isane. – Volto em alguns minutos.
– Certo, obrigada novamente – respondeu Rukia. Isane acenou com a cabeça e se retirou, voltando pelo corredor.
Rukia ficou algum tempo parada em frente à porta, tomando coragem para entrar e conversar novamente com o rapaz. Inúmeras perguntas que queria fazer a ele surgiram em sua cabeça, mas sabia que teria que fazer somente as perguntas necessárias. Nada de deixar que minha curiosidade atrapalhe, pensou.
Determinada, abriu lentamente a porta, aliviando-se por vê-lo dormindo. Aproximou-se lentamente dos pés da cama apenas para verificar, e, já estava com a mão na maçaneta da porta para se retirar, quando o rapaz se pronunciou.
– Yuzuke – disse ele, a voz ainda meio rouca.
Rukia virou-se espantada, ele não estava dormindo, afinal.
– O quê? – questionou, atordoada.
– Meu nome – disse ele. – Seu amigo de cabelos laranja me perguntou... é Yuzuke.
– Ah, certo – respondeu Rukia, ainda meio confusa. – Meu nome é Rukia.
– Rukia? É um belo nome. – Assim como você é bela, pensou ele.
– Desculpe pelo tumultuo de hoje mais cedo – disse ela, um pouco constrangida. – É que nunca tivemos um caso parecido aqui na Seireitei – relatou.
– Seireitei, certo? – disse ele, com tom de dúvida. – É o local onde eu estou?
– Sim, você está em um dos esquadrões que forma a Seireitei, o 4º esquadrão, comandado pela capitã Unohana.
– Esquadrões, capitães... é tudo tão confuso – disse ele. – Não consigo me recordar de nada.
– Isane disse que você perdeu a memória — disse ela. — Provavelmente você não se lembre de nada antes de você… se acidentar — exitou de contar a verdade.
– Provavelmente — disse ele, sentando-se, revelando-se estar sem camisa e com gazes enroladas em volta de seu tronco, cobrindo-o quase por inteiro.
– Você está… sangrando! — alertou Rukia, apontando para o lado esquerdo do rapaz, onde surgira uma mancha de sangue e parecia estar se expandindo.
– Parece que eu não podia me mexer — disse Yuzuke, aparentando estar sem graça.
– Eu vou chamar a Isane — disse Rukia.
– Rukia, espere! — disse ele, fazendo com que a shinigami encontrasse seu olhar. — Obrigado.
Rukia sentiu-se surpresa por alguns instantes, então assentiu com a cabeça e saiu para procurar alguém que pudesse ajudá-lo.
Uma semana se passou. Rukia fora todos os dias, entre uma tarefa e outra, visitar Yuzuke, levando sempre flores novas para substituir as antigas no vaso do criado-mudo ao lado da cama. Conversaram sobre todos os assuntos relacionados a Soul Society e Seireitei, deixando bem claro para Yuzuke aonde estava e qual era sua situação. Yuzuke se esforçara para tentar lembrar de algo, antes da noite em que aparecera misteriosamente, mas sempre resultando em crises de dor de cabeça e nenhuma resposta.
– É melhor você parar de tentar se lembrar — dissera Rukia, em uma das ocasiões. — Só está te causando mais dor.
– Eu quero ajudar na investigação — respondera ele.
Os dias restantes da semana passaram como um furacão. Apesar de Rukia gastar horas e horas ao lado de Yuzuke, conversando sobre tudo e todos, o que contribuiu para que se aproximassem cada vez mais.
Ao fim do sétimo dia, Rukia retornou para casa, adormecendo rapidamente e sonhou.
A luz que entrou pela fresta da janela incomodou Rukia, que se remexeu na cama, até ser obrigada a despertar e se levantar. Estava exausta. A semana que se passara fora muito importante, mas igualmente cansativa. Espreguiçou-se, resmungando algo incompreensível antes de se arrumar para um novo dia.
Após estar pronta, saiu em direção ao 4º esquadrão, passando antes para comprar flores, para mais uma visita a Yuzuke. Porém, uma figura familiar surgiu antes que pudesse chegar ao seu objetivo dessa vez.
– Ichigo! — disse Rukia avistando o companheiro.
– Ei, Rukia — disse ele. — Tudo bem por aqui?
– Sim, estou indo visitar o Yuzuke — respondeu ela. — Você vem?
– Claro — disse ele, seguindo-a. — O que é isso na sua mão, são flores? — questionou com tom de insinuação.
– São… — respondeu Rukia, ruborizada. — Mas não é nada demais, é só… para o quarto — disse, tentando disfarçar.
– Para o quarto… sei — provocou Ichigo, com uma expressão de descrença e insinuação.
– Calado, idiota! — gritou Rukia, enfurecendo-se; uma veia saltando de sua testa.
Ichigo riu, percebendo o quanto a amiga ficara sem graça com a brincadeira.
Chegaram rapidamente em frente ao esquadrão, entrando e encontrando-se com Renji. Após os cumprimentos, Ichigo decidiu ficar com Renji na sala de espera, para dar mais “privacidade” para Rukia, o que ela levou para si como mais uma das insinuações dele.
Após falar com Isane, Rukia seguiu o caminho já familiar a ela, entrando ao quarto 205.
– Rukia — sorriu Yuzuke ao vê-la.
– Yuzuke — acenou ela. — Como você está?
– Estou bem — respondeu. — Só com algumas dores, como sempre — disse, mudando o tom de voz.
– Falei com a Isane, parece que logo você vai ter alta — relatou Rukia, enquanto trocava as flores antigas pelas novas. — Você já deve estar cansado de ficar aqui.
– Cansado estou — disse ele -, mas também não tenho para onde ir.
Rukia virou instantaneamente para olhá-lo. Não havia parado para pensar nisso. Yuzuke não era um shinigami, não poderia morar na Seireitei e exercer o trabalho como um. Provavelmente seria jogado em alguma das cidades mais pobres de Rukongai, onde teria que lutar para conseguir o que comer.
Tais pensamentos embrulharam seu estômago.
– Não precisa se preocupar — disse ela -, eu darei um jeito nisso. — disse, forçando um tom confiante, porém não verdadeiro.
– Rukia — disse ele, estendendo a mão para pegar nas mãos dela, o que a surpreendeu. — Obrigado, mais uma vez, por cuidar de mim.
Então como um clique, Rukia pareceu finalmente notar o rapaz que estava adiante dela. Seus cabelos lisos e na altura do pescoço, vermelhos como uma chama, seus olhos grandes e castanho avermelhados, sua sobrancelha grossa mas não exageradamente, seu nariz em contraste com todo seu rosto, sua boca pequena e rosada. Não notara antes, mas seu rosto era de uma beleza angelical. Sentiu o toque macio e quente de suas mãos, e uma estranha sensação percorreu todo seu corpo. Queria fugir, queria se esconder de vergonha. Mas ao mesmo tempo queria permanecer ali, infinitamente, olhando para ele e sentindo seu calor.
Foi quando, de repente, Renji adentrou a sala. Estava suado e ofegando, e apoiou-se nas pernas para recuperar o fôlego. Rukia saltou e puxou suas mãos, disfarçando a cena que passara despercebida por Renji.
– Desculpe interromper, mas… — disse, recuperando fôlego. — Temos problemas — disse ele, seriamente.
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