Notas iniciais
Guizos vibravam ao vento quando o shinigami de cabelos espetados se mexia. Um hollow ousou pular em sua direção e foi cortado ao meio sem piedade. Outro apenas soltou grunhidos monstruosos e irreconhecíveis, ameaçando avançar a qualquer instante.
– Venham, seus vermes! — gritou Zaraki Zenpachi, apontando sua lâmina de forma ameaçadora aos monstros.
O hollow respondeu a ameaça avançando ferozmente contra o capitão, que com facilidade o eliminou com apenas mais um corte de sua zanpakutou.
– Vamos, cadê a diversão?! — gritou ele aos ventos. — Esses hollows não servem de nada — sussurrou.
– Ken-chan, não acha que devemos avisar os outros esquadrões que estamos sob ataque dos hollows? — questionou Yachiru, surgindo detrás das costas do capitão, com o dedo indicador sobre os lábios numa pose pensativa.
– E ter que dividir toda a diversão? De jeito nenhum! — respondeu ele, sorrindo ferozmente.
– Mas, você não acabou de dizer que isso não tem nenhuma diversão? — questionou Yachiru, sem entender.
– Cadê o Ichigo? Estou doido para ter uma batalha de verdade!
– Mudou de assunto… — sussurrou Yachiru para si, uma gota escorrendo de sua têmpora.
Três hollows aproveitando o momento de distração — por puro instinto -, pularam em cima do capitão, que rapidamente girou, cortando dois com sua lâmina e, ainda sem sequer se mexer, esticou o braço para o lado e agarrou o terceiro pela cabeça.
– Fracos demais — disse ele, friamente, e esmagou a cabeça do monstro com força bruta. — Viu só, isso não tem diversão alguma — disse ele a Yachiru.
– Ken-chan você é tão confuso — disse Yachiru.
Um outro hollow então, surgiu repentinamente pelas costas de Zaraki e enfincou seus grandes dentes em seu ombro.
Sangue começou a escorrer do capitão.
Um pequeno sorriso surgiu em seu lábios, que olhou de soslaio para o hollow que ainda permaneceu o mordendo.
– Vamos brincar um pouco — disse ele, aumentando sua reiatsu em grande escala, fazendo com que o hollow se dissipasse por tamanha pressão.
– O que está acontecendo? — questionou Rukia, seguindo Ichigo e Renji, que saltavam nos telhados das casas usando passos de shunpo.
– O portão norte está sob ataque dos hollows — relatou Renji, seriamente.
– O portão leste? Mas assim, de repente?
– Não temos mais informações ainda, apenas que já há um capitão no local.
– Qual capitão? — questionou Rukia.
Uma enorme pressão tomou conta do ar. Os passos dos shinigamis começaram a ficar mais densos e pesados. Aquilo claramente era uma pequena parte de um grande poder.
– Zaraki! — disse Ichigo sorrindo, mais para si do que para os outros.
– Vamos, isso é tudo que vocês têm!? — gritou Zaraki, enquanto atravessou o crânio de um Hollow com sua lâmina.
Outro hollow pulou a sua esquerda e, mal havia o eliminado, quando virou e girou sua Zanpakutou em movimento decrescente com enorme força, fazendo com que o barulho de duas lâminas se chocando preenchesse o ar.
– Ichigo! — disse Zaraki, sorrindo entredentes.
– Ei! Não sou eu que sou o inimigo aqui — disse Ichigo, defletindo o golpe do capitão.
– Esperei tanto tempo por uma revanche, e vai ser agora que a terei! — retrucou Zaraki, deixando todos os três shinigamis abismados.
Mas, antes que pudesse retirar o seu tapa-olho para uma luta séria, Rukia se pronunciou.
– Capitão Zaraki, não acha que devemos cuidar dos hollows primeiro? Eles provavelmente atrapalhariam sua luta com Ichigo — disse a shinigami, apontando para a enorme quantidade de hollows que pareceu surgir repentinamente.
– Tudo bem — disse ele, voltando-se para os hollows. — Mas só porque não quero interferências na batalha — sorriu, liberando um ruído de empolgação do fundo de sua garganta.
– Obrigado, você salvou minha pele — sussurrou Ichigo para Rukia.
– Não me agradeça ainda — respondeu Rukia, posicionando-se para batalhar.
Ichigo seguiu para a linha de frente, junto a Zaraki. Rukia e Renji ficaram na retaguarda protegendo o portão.
– Está pronto Ichigo? Só vê se não morre antes de acabarmos com isso — provocou Zaraki.
– Você também. — retrucou Ichigo.
A batalha então começou. Quatro shinigamis contra incontáveis hollows.
Zaraki saiu em disparada à um grupo de hollows próximos, dilacerando-os com sua Zanpakutou e esmagando-os com sua mão livre. Ichigo seguiu logo atrás, partindo inimigos ao meio com sua grande espada.
– Vamos Ichigo, você está mole demais! — zombou Zaraki, enquanto partiu para cima de mais hollows que se aproximavam.
– Não enche — resmungou Ichigo, enfiando e percorrendo com sua lâmina todo corpo do hollow semelhante a uma centopéia que estava a sua frente
– Shakkahou! – gritou Rukia, liberando uma grande bola de fogo da palma de sua mão, que acertou em cheio dois hollows do enorme grupo que se aproximava do portão — Renji!
– Já sei — respondeu Renji — Hoero, Zabimaru! – invocou sua shikai, atravessando o restante dos hollows do grupo com a flexibilidade de sua espada. Mas, antes que pudessem comemorar, uma quantidade ainda maior de inimigos surgiu instantâneamente.
Horas de batalha se passaram, não importava quantos hollows eles matassem, sempre mais e cada vez mais surgiam de lugar nenhum. Nenhum reforço aparecera no local, o que fez com que os três shinigamis — fora Yachiru que estava sentada sobre uma rocha assistindo a luta e Zaraki que parecia não se cansar nunca — ficarem exaustos.
– Renji, minha reiatsu está no fim — disse Rukia, exaurida, retirando sua zanpakutou, antes enfincada em hollow que estava desaparecendo a seus pés. — Não sei se vou aguentar por muito mais tempo.
– Não podemos desistir — disse Renji, eliminando um que se aproximava da companheira. — Aguenta só mais um pouco — requisitou, suando frio.
Na linha de frente Zaraki pareceu não se esgotar nunca.
– Vamos Ichigo, já está cansado? — zombou, após ter eliminado dezenas de hollows em poucos instantes.
– Nunca — brandou Ichigo, tentando conter a respiração ofegante.
Ao longo do portão uma sombra pareceu brotar do chão, estava acompanhada, e, apenas quando uma nuvem cobriu o forte Sol acima de sua cabeça, que Renji conseguiu reconhecer os grandes chifres.
– Capitão Mayuri!
– Ora, ora — disse Kurotsuchi Mayuri, acompanhado de sua tenente e assistente, Nemu. — Parece que vocês estão tendo problemas por aqui — ironizou.
– O que você está fazendo aqui, Mayuri? — resmungou Zaraki, da linha de frente. — Ninguém precisa da sua ajuda.
– Bom, eu posso ir embora agora se é o que você quiser — respondeu ele. — Mas não estarei aqui para selar o portal quando você estiver sem reiatsu.
– Droga — Zaraki deu-se por vencido. — Vá em frente — e dirigiu-se para a entrada da Seireitei, sendo seguido por Yachiru. — E Ichigo, não pense que vou esquecer que temos uma batalha pendente — disse, sumindo cidade adentro.
– Alguém aqui tem mais alguma reclamação? — disse Mayuri, mas apenas o barulho do vento e dos hollows, que estavam surgindo novamente, pôde ser ouvido. — Foi o que pensei — e tirou um frasco de seu bolso e os estraçalhou em suas mãos, fazendo com que os hollows retornassem imediatamente para onde quer que eles haviam saído. — Nemu, faça.
Sua tenente então se dirigiu para perto de uma das poucas árvores que existiam naquele campo a céu aberto, esticando suas mãos e pronunciando palavras inaudíveis; provavelmente algum tipo de bakudou. E em poucos instantes, os hollows, antes infinitos, pararam de surgir.
– O que foi isso? — questionou Renji, espantado.
– Um portal — relatou Mayuri. — E isso aqui — disse, segurando outro do mesmo pequeno frasco em suas mãos. — É uma espécie de repelente contra hollows.
– Então esse tempo todo os hollows estavam surgindo através de um portal? — questionou Rukia. — Mas não parecia haver nada aqui.
– Não é o mesmo portal que os hollows normalmente usam para atravessar para o mundo dos humanos — Nemu se pronunciou. — Este é um tipo diferente, um portal implantado.
– Um portal implantado? — foi a vez de Ichigo falar.
– Sim, e não só aqui, como nos portões Norte, Sul e Oeste.
– Um portal implantado em todos os portões da Seireitei?! — espantou-se Rukia. — Então é por isso que não houve reforços nesse lado, provavelmente estavam cuidando das entradas principais… — sussurrou.
Mayuri e Nemu já estavam voltando para o Departamento de Pesquisas e Tecnologia, quando Rukia sentiu um aperto no coração. Parecia um chamado, como o de seu sonho. Olhou em volta, desesperada, procurando o que fosse que seu coração quisesse lhe alertar...
E avistou.
Yuzuke aparecera próximo ao portão, parecia desnorteado e fora de si, como se estivesse procurando alguém. E, próximo a ele, um último hollow, enorme e com braços gigantescos, avançava em sua direção ferozmente.
– Yuzuke! — gritou Rukia, correndo automaticamente em sua direção. — Yuzuke, fuja!
O rapaz, ao reconhecer a voz familiar, parou e olhou em direção a Rukia, que continuava a gritar algo que ele não conseguia entender, devido a distância, tornando-se assim um alvo fácil para o hollow que pulou em cima dele, derrubando-o com força no chão.
O desespero percorreu todo seu corpo, e, antes que pudesse se mexer, o hollow já estava em cima de si novamente. Yuzuke gritou, e o hollow abriu a boca pronto para devorá-lo…
Mas foi desintegrado por um enorme raio vermelho que saiu das mãos do rapaz. Mayuri abriu um longo sorriso após notar a semelhança do raio com o Cero.
– Parece que nosso novo amiguinho tem conexão com os Arrankars, interessante!
– Esse lugar me dá arrepios… — sussurrou Rukia, passando por um tubo que continha líquido verde e uma mão flutuando.
Estavam no Departamento de Pesquisas e Tecnologia, a pedido de Mayuri, que insistiu parecendo estar entusiasmado para fazer alguns exames no rapaz. O local era soturno e silencioso, podendo-se ouvir apenas o barulho dos líquidos nos tubos que em todos os cantos e do digitar dos outros shinigamis que ficavam a frente de grandes e diferentes computadores. O lugar cheirava a formol e carne humana.
– Deite-se na mesa — disse Mayuri a Yuzuke. — Vou lhe aplicar uma anastesia, você não irá sentir nada — disse, carregando consigo um bisturi e uma agulha de injeção.
– O quê?! — disse Yuzuke em desespero.
– Ei, isso não era para ser apenas exames?! — questionou Ichigo, desconfiado.
– Eu estava apenas brincando, apenas brincando. Eu não dissecaria uma pessoa viva — disse Mayuri, porém o seu sorriso demonstrava controversa.
– Senhor Mayuri, a câmara está pronta — disse Nemu, surgindo de uma pequena porta de metal aos fundos.
Yuzuke paralisou, olhando desesperado ao redor até encontrar o olhar de Rukia, que acenou positivamente com a cabeça como um recado de que ele poderia confiar e tudo ficaria bem.
O rapaz entrou em silêncio na câmara de vidro, mantendo seu olhar fixo em Rukia, que parecia estar angustiada de vê-lo naquela situação.
– Iniciem o exame — ordenou Mayuri.
O barulho de máquinas entrando em trabalho preencheu todo o local, e uma forte luz branca emergiu da cabine, vetando todos os olhares que estavam sobre o rapaz. Os líquidos verdes dos tubos ao redor começaram a borbulhar e entraram em fervura. Ichigo olhou de soslaio para Rukia, que pareceu estar se controlando para que não corresse até a porta de metal e apertasse o portão para abrí-la.
Após alguns minutos o barulho das máquinas suavizou e a luz foi aos poucos perdeu a intensidade, tornando-se possível ver um Yuzuke atordoado dentro da câmara.
Enquanto Ichigo e Renji ajudaram a retira-lo de dentro da cabine, Nemu apareceu com alguns papéis em sua mão e entregou-os para o Mayuri.
– Mas isso é…! — sussurrou ele, impressionado.
– O que houve, o que o exame revelou? — questionou Yuzuke, estonteado.
– Esse rapaz… ele… — disse Mayuri, para os três shinigamis.
– Ele…? — questionou todos, curiosos.
– Ele… — disse Mayuri, olhando seriamente para os três. — Ele não tem nada demais.
– O quê?! — disseram todos em uníssono, chocados.
– É isso que vocês ouviram, ele não tem nada demais, agora por favor se retirem que tenho trabalho a fazer.
– Venha, vamos embora desse lugar! — resmungou Rukia, puxando Yuzuke pelo braço até que estivessem do lado de fora. — Não acredito que ele fez tudo isso para falar que o exame não deu em nada! — disse, exasperada.
– Ei, calma — disse Ichigo. — Isso é um bom sinal pelo menos.
– É verdade, Rukia — Renji se pronunciou. — Pelo menos sabemos que Yuzuke é normal — disse ele, fazendo com que Yuzuke o olhasse com expressão de desentendimento. Era quase possível se ver um ponto de interrogação sobre sua cabeça.
– Eu preciso ir — disse Yuzuke — Obrigado pela ajuda.
– Aonde você vai? — questionou Rukia.
– Preciso ir ao quarto esquadrão — disse ele. — Na verdade, não deveria nem ter saído de lá.
– Por falar nisso — Renji deu um passo a frente. — O que você estava fazendo no portão leste?
Todos os olhares se direcionaram ao rapaz.
– Eu não sei… — explicou ele. — A última coisa que me lembro é de estar em minha cama e quando percebi já estava caído com aquele monstro sobre mim.
– Estranho… — sussurrou Ichigo, pensativo — Talvez seja alguma coisa relacionada a sua perda de memória.
– Bom, eu também preciso ir, tenho um relatório a fazer — disse Renji. — Vejo vocês depois — e então saiu em direção ao 6º esquadrão.
– Eu vou com o Yuzuke para a quarta divisão — disse Rukia. — Você vem, Ichigo?
– Claro.
– Nemu — disse Mayuri, sua assistente rapidamente se aproximou. — Fique aqui, eu preciso apresentar este relatório ao comandante.
– Sim, senhor — respondeu ela.
– Tenho certeza de que ele vai se espantar — disse, com olhares tentadores sobre os papéis. — Nunca vi nada parecido em toda minha vida.
– Então, chegamos — disse Rukia, parando em frente a quarta divisão. — Você vai ficar bem? — questionou, preocupada.
– Está tudo bem — respondeu Yuzuke. — Provavelmente eu leve uma bronca, mas não é nada demais. — disse, rindo modestamente. — Obrigado por tudo Rukia, e obrigado Ichigo — despediu-se, Rukia e Ichigo acenaram com a cabeça, e seguiu para dentro do esquadrão, onde Isane o esperava desesperada.
– Para onde você vai agora, Ichigo? — questionou Rukia.
– Eu vou voltar e contar tudo para o Urahara, talvez ele descubra algo sobre esses tais portais implantados.
– Certo, nos vemos por aí — despediu-se Rukia.
– Ei, Rukia — chamou Ichigo, fazendo com que a garota virasse novamente na direção dele. — O que você acha que vai acontecer com o Yuzuke?
– O que vai acontecer com ele? — questionou ela, sem entender.
– É, você sabe — disse ele. — Ele apareceu há algumas semanas, sem parentes, sem pertences, sem memória. E sequer é um shinigami para que continue a viver aqui na Seireitei.
A última frase fez com que Rukia o olhasse com descrença.
– Quero dizer, você melhor do que ninguém sabe como as regras são rígidas aqui. Sabe o que quero dizer.
– Eu sei, Ichigo, mas eles não podem simplesmente despejar alguém que não tem nem como se defender por aí.
– Rukia, você já foi uma moradora de Rukongai. — disse ele. — Se eles não fazem nada por eles, quem dirá por alguém que nem sabe quem é ou de onde vem. Ele não tem nem ao menos um lugar para ficar…
– Ele vai ficar na minha casa — disse Rukia, antes que Ichigo pudesse terminar de falar. — Eu sei que o que acontece em Rukongai e é exatamente por isso que não vou deixar que aconteça com ele.
– Rukia, acho que você não dever…
– É a minha decisão Ichigo! — gritou Rukia, exasperada.
– Tudo bem — disse Ichigo. — Eu tenho que ir agora — então desapareceu em passos de shunpo.
– Droga… — sussurrou, percebendo o que havia acabado de fazer.
Rukia não sabia ao certo porque agira daquele jeito, tudo o que queria era que Yuzuke estivesse a salvo, seguro e perto de si. Era um sentimento de proteção, parecido com de uma mãe com seu filho, mas de uma forma diferente. Seu coração sequer suportava a ideia de perdê-lo assim, sem ao menos lutar. Estava tão confusa e preocupada que não notara o sentimento que estava crescendo dentro de si. Um sentimento maior e mais poderoso que qualquer coisa...
O amor.
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