Bleach: Dawn of the Hero
1 Capítulo 1
A luz do sol batia nas vestes negras. Parada de pé acima de um poste, a garota esticou uma dobradura branca a sua frente, lendo o conteúdo
— Deve ser por aqui – A voz melodiosa que veio de sua boca não poderia ser ouvida pelos outros mesmo que ela estivesse metros abaixo, nas ruas – Sim... sinto uma forte presença espiritual
Uma borboleta negra passou, conforme ela saltava de onde estava e seguia seu caminho
...
Saindo da escola, o sol da tarde batia no rosto de Ichigo, que semi cerrava os olhos. Trazendo a mochila em seu ombro, ele já estava pra sair
— Ei, Ichigo, nem falou comigo hoje – Tatsuki Arisawa encarava o jovem, chegando a seu lado. Seus cabelos negros estavam curtos, e ela trazia sua bolsa da mesma forma que ele
— Ah, Tatsuki... – Em um movimento súbito da parte dela, ele tentou virar ligeiramente a face, escondendo as marcas abaixo de seus olhos
— Sabe que pode me contar quando estiver com problemas, não sabe?
Ele riu. Apesar da diferença de dois dias entre ambos, e Ichigo sendo o mais velho, Tatsuki agia, desde pequenos, como uma irmã mais velha para ele. Ajudava em seus momentos difíceis, e era sua única amiga de infância. Ela conhecia o Ichigo chorão, que sempre perdia para ela em suas aulas de karatê. Era, nos tempos tempos difíceis que ele encontrava, a pessoa que mais conseguia entende-lo, e por isso mesmo que ele não gostava de preocupa-la
— Sei
O jovem a encarou mais uma vez. A expressão preocupada dela foi aos poucos se diluindo, até sumir
— Então me diga o que está acontecendo...
— Tatsuki!
Chamando atenção dos dois, uma bela garota ruiva se aproximava dos dois aos saltitos. Sua voz era doce em comparação a de Arisawa, que era um tanto mais rude. Sua pele era muito branca, e sua beleza, pura, ingênua, refletida em seus olhos castanhos
— Ah, Orihime –Falou ela, notando a amiga
Interrompendo a si mesma, notando a presença do garoto, a ruiva recuou ligeiramente
— Ah, Ichigo – Disse, ruborizando um tanto – Desculpa, eu não sabia que vocês tavam ocupados...
Ela tentava evitar encara-lo, com um ligeiro sorriso no canto do rosto
Orihime Inoue, por muito tempo, havia sido a ‘’paixão’’ de Ichigo. O ar agradável que vinha dela, seu jeito meigo o atraia, o jeito como sua mente estava sempre livre, vagando pelas boas memórias e pensamentos. Ela era diferente dos outros. Um contraste... tal que era aos poucos apagado da mente de Ichigo, ceifado pelo stress
— Não era nada demais Inoue, não se preocupe – Um sorriso forçado surgiu dos lábios dele
Ela retribuiu a expressão. Mas tal gesto, que antes poderia encher o dia do garoto, como o sol numa noite fria, se tornava hoje em dia uma vela num quarto escuro
— Eu to indo. Preciso checar umas coisas antes de ir pra casa – Afirmou Ichigo, se despedindo com um aceno
Tatsuki fez menção de que iria falar algo, mas desistiu no meio do caminho, achava ainda que, se algo acontecesse de ruim, ele a chamaria. Olhando para a amiga, que olhava com pesar para a saída do jovem, ela soltou uma ligeira risada
— Que foi!? – Disse Orihime, ruborizando
...
Passando pelo caminho de casa, o céu fechava-se aos poucos. Seria uma noite de chuva, achava o garoto. Em uma encruzilhada de ruas, olhando ao lado, Ichigo viu algo que o atiçou: Um garotinha de joelhos ao lado de um poste, derramando lágrimas, com um vaso de flor quebrado a sua frente
Ele estreitou os olhos. Pouco mais a frente, um grupo de delinquentes ria alto de alguma coisa, enquanto um deles rodava pela rua andando de skate. A raiva subiu por sua espinha, e ele entrou naquela rua, desviando de seu caminho
As vozes deles ficaram mais altas, e não pareceram notar a aproximação dele. Quando o que deslizava pela rua de rodinhas notou, já era tarde
O som do impacto reverberou pela rua. O punho de Ichigo já havia encontrado o rosto de seu alvo, que saltou do skate, caindo com a boca e o nariz sangrando. Um olhar de relance, e os outros seis já o encaravam, primeiro confusos
— Ei você – Sua voz veio confiante – Caiam fora daqui
Depois, enraivecidos
O mais feio do grupo deu alguns passos a frente. Vestia um gorro, uma camisa aberta, e além do bigode tosco, possuía um piercing dourado no nariz
— O que?! – Berrou ele – Você aparece do nada, bate no Yama-Chan, e ainda quer que a gente caia fora?
Aqueles delinquentes poderiam parecer intimidadores, mas eram bem mais fracos do que alguns que o garoto já havia enfrentado, porém a arrogância maior que a própria feiura era uma característica que não mudava
— Tá de brincadeira né? Tá querendo morrer? – Continuou – Hein?!
Passando a mão pelo cabelo bagunçado, e olhando mais sério e entediado do que poderia, ele percebeu que os outros o cercavam. Podia parecer cansado e transparecer isso, mas Ichigo Kurosaki era forte. Muito forte
O delinquente já estava muito próximo, o suficiente para golpear o jovem
— Diz alguma coisa, seu...
Outro som de impacto encheu a rua. Um chute. O tênis foi contra a face do atacante, e o garoto estava de pé, com o semblante intacto
Os outros, surpreendidos, começaram a cochichar entre si, nervosos. O susto foi maior que a realidade, porém quando o vândalo caído tentara se levantar, Ichigo pisou em sua cabeça
— Então – Disse o garoto – Já que vocês tem a audácia de ficar, alguém pode me explicar o por quê daquele vaso estar ali?!
Em meio aos múrmuros deles, ele pode ouvi-los dizer seu nome. Sabiam quem ele era
‘’ótimo, mais medo ainda’’
— Ah, é uma para aquela criança que morreu aqui outro dia? – Disse um deles, dando um passo atrás
— Olha só, mesmo parecendo o mais fedorento, parece que é o mais esperto também! – Berrou Ichigo – E sabe me responder por que o vaso tá caído? Hein?
Ele hesitou. Dois dos outros estavam vendo a situação do primeiro a ser nocauteado, enquanto os quatro restantes cercavam o estudante, insegurança estampada nos olhos pelo medo dos boatos. Eles não pareciam notar a garotinha chorando. Não, eles nãoa notavam
— Por acaso vocês não tem nenhum respeito pelos mortos não? — Continuou ele
Dois deles avançaram. Um homem pouco mais alto que Ichigo, de cabelos cheios e crespos. Um simples golpe do cotovelo do estudante o desequilibrou, e um chute no estômago o fez cair. O outro veio para cima agarrando-o, mas sem ninguém para golpear o jovem, ele segurou o braço direito do atacante e o torceu até ouvir um som estranho, e o arremessou por cima de seus ombros
Sem arfar, o garoto inflou o peito
— Se vocês não tem respeito com os mortos...
A garota, que antes estava de joelhos, agora estava ao lado do estudante. A parte esquerda de seu rosto estava repleta de sangue, que respingava em seu ombro. Pela primeira vez, os vândalos a notaram, e suas expressões de horror já davam uma resposta
— Não teremos respeito pelas suas vidas!
Os dois que estavam cercando ele fugiram instantaneamente, os que ajudavam o primeiro a ser golpeado saíram ajudando ele a correr, e os que estavam no chão tremeram, antes de partir em retirada. O que estava abaixo dos pés de Ichigo gritava igual uma criança assustada
— Desculpa!! Desculpa!! – Disse ele, se levantando e correndo – A gente nunca faz mais isso! Eu juro!
O garoto suspirou. Sim, ele estava longe de ser normal. Ele não era um simples estudante, ele podia ver fantasmas. Os boatos que corriam dele não eram apenas de sua má conduta, mas também de sua ‘’secreta’’ habilidade. Quando perguntado, ele sempre negava, mas não fazia questão de esconder suas ações, e ele achava que já tinha se acostumado com tal vida
— Assustados desse jeito, eles nunca devem voltar para cá
Virando-se para a garota, que agora flutuava a seu lado, ele notou como ela podia parecer normal se não fosse o sangue. Tinha cabelos castanhos em Maria Chiquinha e olhos de mesma cor e, seu vestido era rosa, com a gola e detalhes em branco.
— Foi um bom improviso – Disse Ichigo – Desculpe por usa-la assim...
— Não... você só está me ajudando, indo atrás deles – Respondeu o fantasma – Isso é o mínimo que eu deveria fazer. Mas...
Ela apontou para o fim da rua, de onde o estudante viera, hesitante. Seus olhos começaram a resplandecer um medo
— Mais deles tem aparecido por aqui – Ela recuou — Aquelas capas pretas me dão medo
O estudante encarou o local para onde ela demonstrava. De onde ele tinha vindo. Ele imaginou em algum outro momento, os bichos de mantos negros e máscaras prateadas passando por ali, arrastando suas garras e trazendo barulhos metálicos pelo ar.
A faísca de um pesadelo cintilou por sua mente, logo se apagando. Ele sorriu quando se virou para ela.
— Vai ficar tudo bem – Continuou – Eles só te atacariam se você estivesse fraca... Desaparecendo...
— Sim... – Ela, por um momento, pareceu confiante – Obrigado tio. Agora eu posso descansar em paz
— Não foi nada – Disse ele, se despedindo – Só se apresse e vá logo pro céu
...
As luzes da clínica estavam ligadas, saindo pela porta de vidro, contrastando com o luar que banhava toda a cidade. As vagas ao lado estavam vazias. Um bom sinal. Não era legal quando vinham ambulâncias.
A placa, acima da porta, dizia:
‘’Clínica Kurosaki’’
Dobrando a maçaneta, ele entrou. Sua pele se aqueceu por um momento, e enquanto seus olhos se ajustavam à luminosidade, ele não viu a ameaça chegando. Não antes de ser tarde demais
Uma revista aberta bateu contra a face de Ichigo, e dando um passo em falso sem a visão, ele escorregou e caiu no chão. O catálogo de móveis voou, caindo em seu tronco logo depois
Batendo com o punho no chão, o jovem levantou enraivecido
— Qual teu problema, velho!? – Reclamou, encarando o pai
Isshin, médico da clínica e cabeça da família Kurosaki. Seus cabelos eram negros, um tanto espetados e curtos, penteados para frente. Seus olhos castanhos escuros encararam seu filho, caído no chão
— Cala a boca e senta logo na mesa, delinquente! – Retrucou, sentado na cabeceira da mesa – Tem ideia de que horas são? Não sabe que servimos o jantar as 7 horas em ponto?
O estudante se levantou, arremessando o catálogo. Seus olhos fuzilavam seu pai, que o olhava sério de volta; enquanto isso, suas irmãs mais novas comiam tranquilamente: Yuzu, a mais nova das duas, servia Karin, a mais velha
— Parem de brigar vocês dois! — Pediu Yuzu, com um olhar preocupado – O jantar vai esfriar!
— Primeiramente, que outro pai no mundo obriga um estudante do ensino médio a respeitar um toque de recolher as 7? As regras aqui são rígidas demais! – Respondeu Ichigo
— Ignora eles, só bota mais aí – Mandou Karin, com um semblante entediado
Isshin coçou a barba que seguia por seu queixo e bochechas, ignorando completamente o filho, a principio com um sorriso maldoso.
— E quem disse que eu ligo moleque? – Respondeu – Acha que desculpinha de ‘’Eu estava fazendo um exorcismo’’ conta? Tem que ser muito idiota pra perder tempo com algo assim ao invés de vir jantar!
Ichigo entortou os lábios, irritado
— Olha aqui...
— Ei, tem um espírito atrás de você Ichigo! – Disse Yuzu
As duas irmãs mais novas do estudante tinham certa capacidade similar a dele, mas não tão elevada. Enquanto ele podia vê-los, interagir com eles, elas podiam apenas ver borrões diante de seus olhos, apenas os percebendo quando estes estivessem próximos
Hesitando, o garoto se virou. A alma de um trabalhador o seguia: cabelos escuros, óculos, engravatado com uma camisa branca. Um homem comum
— Que merda... sempre que eu me livro de um, vem outro – Reclamou – Cai fora logo!
O espírito se atiçou, assustado, ele recuou
Ao longo do tempo, Ichigo aprendeu sozinho mais sobre almas do que qualquer outro. Não era qualquer uma que ficava no mundo dos vivos, se não, as ruas ficariam lotadas destas. As almas que ainda se aventuravam pelo mundo dos vivos, eram aquelas que ainda tinham deveres a cumprir, promessas a realizar... este que jazia a sua frente provavelmente tinha vivido pelo trabalho para pagar dividas, e morreu por elas, ficando preso, atado ao mundo. Destes, o jovem tinha pena.
— Quer saber, eu vou dormir... – Ele virou-se, irritado, subindo os lances de escada para o segundo andar
— Ah, maninho! – A expressão de Yuzu era preocupada, chamando por ele
Isshin virou-se para seu prato e voltou a comer. Yuzu encarava a escadaria, enquanto Karin soltava um riso
— É, ele foi embora – Disse ela – A culpa é sua pai
— E porque? Por ele ser fresco demais?
— Ele tem passado por maus bocados esses tempos – Retrucou Yuzu – Ele tem tido que lidar com muito mais almas que o normal esses dias!
Antes mesmo que o pai pudesse responder, sua filha mais velha o interrompeu.
— E ele tem tido problemas pra dormir por conta disso também.
Naquele exato momento, o semblante de Isshin mudou. Mesmo que o cabeça da família não quisesse transparecer tal fato, ele estava preocupado com seu filho, mesmo que tal preocupação apenas tomasse pontada de si.
— Falarei com ele depois sobre isso...
Mas nada que ele falasse adiantaria de muito. A tensão nos ombros de seu filho eram mais pesadas do que até o próprio Ichigo pudesse imaginar o porquê. A máscara branca sorridente, que agora o parecia tão lúcida, assombrava seus sonhos com empenho, e ele caçava diariamente os motivos. Enquanto parecia que, a cada exorcismo, ele chegava mais perto da resposta, quando ele deitava em sua cama, o futuro parecia tão longínquo...
Colocar a mão sobre o espírito, iluminar sua própria alma, ver o felizardo sumir como pó, sorridente pela libertação. A cada exorcismo, ele parecia mais perto da resposta. Mesmo que as pessoas normais não pudessem o entender, Chad conseguia sentir a presença dos espíritos. Nos tempos atuais, seu amigo o acompanhava, e conseguia ver o fenômeno, até mesmo sentir sua própria alma; nos tempos atuais, Ichigo desmaiava de tanto esforço, e enquanto seu parceiro o levava de volta inconsciente para a clínica Kurosaki, os sonhos do ruivo, que o davam respostas, se tornavam mais claros. Mas não o suficiente.
— Que droga hein... – Disse ele, entrando em seu quarto e batendo a porta.
Caindo em sua cama, o jovem encarava o teto, pensativo.
Mas não importava o que ele pensasse, nada iria o preparar para o que estava por vir
Ele notou um movimento sereno no meio de seu quarto. Uma borboleta de compleição completamente negra, voando calmamente pelo cômodo. Porta trancada, janelas fechadas...
Deitado, ele a observou.
— Como você chegou aqui?
No instante seguinte, um vulto surgiu. De pé, sobre sua escrivaninha, bela como a morte, uma jovem de vestes negras observava o pequeno inseto
Ichigo quase caiu da cama. Seus olhos arregalados, buscando entender o que aquilo significava: os cabelos negros lisos, descendo até seus ombros, com uma mecha delineada entre os olhos; a roupa que se parecia um quimono negro, com uma saia presa por uma fita branca; uma espada japonesa embainhada em sua cintura. Seus olhos cor púrpura, como ele nunca tinha visto antes, olharam por seu quarto por um curto momento, ignorando totalmente a presença do jovem ali. Como se fosse invisível
Sua voz saiu melodiosa, enchendo o quarto
— Está perto...
O sangue de Ichigo pulsou forte. Forte de uma forma diferente, diferente de quando enfrentava delinquentes. Aquilo era... medo? Medo de uma garota bem menor e mais fraca que ele? O jovem estudante levou sua mão ao canto da cama, apalpando até encontrar o objeto de madeira
Em um movimento, o bastão de beisebol cruzava o ar, zumbindo e realizando um baque surdo ao encontrar o alvo
Os olhos dela, arregalados, encaravam o garoto, fitando uma vez e outra o ferimento no pulso, vermelho causado pela defesa do ataque. Ela havia recuado um metro inteiro com o golpe, reagindo no último instante. Seu semblante era de maior surpresa do que quando o garoto a vira aparecer de repente em seu quarto. Um arrepio subiu por sua espinha; a forma com que os olhos dela vagavam por cada um de seus cantos, o analisando, como algo estranho. Ele não aguentava aquilo, por algum motivo obscuro que arranhava seu subconsciente
— Quem é você? E que porra é essa de...
— Você pode me ver – Interrompeu ela, com a duvida nos lábios
Sua garganta estava seca, e mesmo assim ele engoliu a pouca saliva que restava
— Óbvio que eu consigo te ver – Retrucou. Em uma parte de sua mente, a pontada de incerteza que o incomodava não sabia exatamente o que queria – Agora cai fora logo daqui, antes que eu chame a polícia
Seu coração palpitou mais forte. Não, não era aquilo que ele queria. Ele queria que ela ficasse mais ali, por algum motivo obscuro. Por sua beleza estonteante? Ou pela promessa de algo novo, algo que ele não sabia, tal promessa marcada nas roupas, olhos, cabelos e na própria arma da garota
Mas antes que ela pudesse responder, um rugido. Um rugido estremeceu todo o quarto, quase como um terremoto. Algo que ele nunca tinha sentido antes, muito pior que o terror da primeira vez que viu as almas negras que vagavam pelas ruas. O rugido o tremeu por dentro, como se caçando sua alma, arrancando o medo de dentro de seu coração
Só que o quarto estava estático. Parado. Em um instante para o outro, sua visão foi de algo turvo para de volta aos olhos da jovem, que trocava seu peso entre as pernas, como se nada houvesse acontecido
— ...um médium, um humano com poder espiritual grande – Disse ela. Assim que o grito se foi, sua audição voltou ao normal, cortando parte do que ela dissera
Algo doía em si. Não era seu corpo, era algo mais profundo, como se sua alma ainda tremesse, independente do corpo estando normal. Ela não ouvira? Não ouvira o rugido aterrorizante? O corpo físico do estudante ainda estava de pé, mas jurava com todas as suas forças que parecia prestes a cair
— Ei, você não ouviu isso não?
— Moleque, eu vou ter que te levar para um interrogatório. Estou em meio de uma missão e...
— Ei, me responde, caralho! – Interrompeu ele – Você não ouviu essa porra desse rugido?
— Ei, me ouve quando eu estiver falando – A resposta veio como um disparo. O mau pressentimento arranhava a pele de Kurosaki – Você sequer sabe com quem está falando?
— Eu não quero saber com quem eu to falando! – Ele já podia discernir pouco do que ela era. Era mais uma alma, diferente, mas era. Mas o que quer que tivesse soltado o som que ouvira, não era uma alma. Não podia ser – Você é uma alma, ou coisa do tipo. Mas quer saber, eu to pouco me fudendo pro que você é, o que eu quero saber é o que foi essa coisa fazendo esse barulho agora a pouco
Ele se ergueu. Sua silhueta mais segura, bem maior que a dela, apontando o bastão mais uma vez para a alma a sua frente. Nunca tinha visto nada como ela, não mesmo...
— Caminho da Conexão: Restrição
O sibilar de tais palavras veio seguido a dois dedos a sua frente. O indicador e o médio estavam apontados a testa de Ichigo, e por um instante, se fez um silêncio. E no seguinte, ele sentiu um choque percorrer seu corpo
Ele tombou ao chão. Seus braços estavam como se amarrados por algo invisível em suas costas; ele não conseguia mexe-los, não importava que força exercesse. Teria mais chance de arrancar os braços do que livra-los
— Ei! Que merda é essa?
Antes que sequer pudesse engolir em seco, sua cabeça fora pisoteada contra o chão. O chinelo de palha dela o pressionava, e a jovem, acima, posava orgulhosa
— Escute quando alguém superior a você estiver falando. Sua mãe não te deu modos?
Um nervo foi puxado com força. Um estalo de raiva correu por suas veias
— Que que você disse...?!
— Eu sou algo que você não pode compreender garoto. Até onde vai minha juventude, estive em campos de batalha antes do nascimento de seu pai, e do pai dele – Seu garbo chegava a ser literalmente irritante quando recebido por debaixo de sua sola. Mas Ichigo não se importava com isso. Estava preocupado demais pensando em como ela era antiga. Como alguém com tanta idade poderia parecer tão nova? Porque, mesmo sendo uma alma, ela parecia tão tocável quanto um humano comum? – Eu saio a noite a procura de almas, garoto. O ceifador encarnado. Por isso existo...
Seu rosto estava escondido por sombras, mas o estudante podia jurar que via o brilho nos olhos púrpura ao finalmente empunhar sua espada. A lâmina apontava para baixo, para sua testa. Talvez o brilho em seus olhos fosse sadismo ao ver a hesitação no olhar do garoto, fugindo-lhe a coragem, e as partes antes não tensionadas do corpo finalmente cedessem. A perspectiva da morte a sua frente, apontando uma arma a seu rosto, afiada como sabe se lá o que, nunca tinha passado por sua mente. A luz do quarto parecia clara demais, e os cabelos e a túnica dela, escuras demais
Tudo aconteceu em um instante. Rápido demais para ele tomar um susto. A alma do homem engravatado que o seguira durante a tarde agora estava ao seu lado, perplexa enquanto a garota pousava a ponta do cabo da espada em sua testa
— Para guiar as almas perdidas para o céu. Uma Shinigami – Terminou seu pensamento
Um brilho momentâneo consumiu todo o corpo espiritual do homem, enchendo o quarto de luz, que desapareceu no instante seguinte. Seus olhos demoraram a se reacostumar ao voltar, porque aquilo não fora fenômeno físico. Ele vira aquilo tantas vezes, incontáveis vezes, de uma perspectiva tão diferente... o exauria tanto... mas agora, era nada mais que um show de luz
— Vocês fazem o meu trabalho...
— Seu trabalho?! – Sua audição ainda estava deturpada, mas ele podia jurar que notou a curiosidade pontada em meio a aversão da resposta
Antes mesmo que ela pudesse continuar, mais uma vez. O rugido entrou por seu ouvido como se destruísse tudo; sua cabeça latejava como nunca. Imobilizado e ainda sobre os pés da garota, ele se remexia, contorcendo-se pela dor e pela incapacidade de alterar sua postura em tentativa de alivia-la
— Ei, sua imbecil, não tá ouvindo essa porra não? – Ele podia ouvir sua voz. Mas, conforme os lábios dela se mexiam, ele não conseguia ouvir bem as palavras que saíam. Não importava o quanto resmungasse, ela parecia o ignorar também
Por um momento, segundos depois do rugido cessar, ela parou. Levantando a sola da cabeça do garoto, ele ainda não podia se mexer, os braços continuavam tensionados por algum tipo de magia
— Ouvir o que? Você é um maluco, isso sim... minha maior compaixão será deixa-lo aí, para que se envolva em sua própria loucura
Sem mais alarde, ela o deixou ali. Abriu a porta do quarto e seguiu para fora. O corpo do jovem estremecia, e ele não conseguia se livrar de suas amarras. Ao mesmo tempo que, assim que saiu, seus olhos se arregalaram com a onda de energia vinda repentinamente. ‘’O rugido que o garoto mencionara’’, foi o que ela pensou. Como era possível que ela, uma Ceifeira, não fora capaz de ouvir aquilo antes, mas ele conseguiu? A energia era muito poderosa, uma das maiores que ela já sentira.
Uma garotinha, subindo arrastando-se pelo corredor surgiu sob suas visões. Ensanguentada, ela deu um frágil sorriso, contrastando com a expressão desesperada de Ichigo
— Ah – Disse ela fracamente – Ichigo, ainda bem que você tá legal...
— Karin! – Berrou ele – Karin, o que aconteceu, porque você tá assim?
Mesmo caído, o estudante fez ainda mais força. Muito mais do que qualquer momento antes, ele queria se soltar dali, e ir atender Karin. Ele nem sabia o que fazer, por onde começar. Só queria saber de duas coisas.
O como. E o quem.
— Aconteceu do nada. Alguma coisa quebrou a parede da sala, um borrão, como se tivesse invisível, mas eles não conseguiam nem ver ele... – Ela tossiu – A coisa pegou o papai, era muito grande, quase quebrou o teto batendo a cabeça... sangue pra todo lado... ela me atacou primeiro, me jogou longe com um golpe.
Primeiro?
Não, não podia ser. Ele começou a se debater ainda mais forte que antes, a imagem de Yuzu em sua cabeça. A Shinigami notou o esforço do jovem, por um momento, pensando se deveria mantê-lo ali. Mas ele faria escândalo demais se solto... e se podia vê-la, talvez pudesse ver o Hollow... e aí seria pior ainda
Um último olhar de relance para a humana. Ela sobreviveria, não tinha feridas de urgência, e a única coisa que se perdia nela era a consciência, não a vida. Ela passou pela garota, pronta para descer as escadas num salto apressado.
— Ei, Karin! Presta atenção em mim! Ei! – Ele berrava conforme sua irmã aos poucos cedia, sentindo-se pesada, e seus olhos desciam – Ei caralho! Droga... droga...
Sua raiva estava no ápice. Ele estava estressado, angustiado e irado. E não podia fazer nada, porque as porcarias dos braços estavam presos a uma corrente invisível. Mas ele não ligava. Não ligava mais pra se a garota vestida de preto tinha 100 ou 1000 anos, ou se parecia que tinha 15 ou 20. Não estava mais nem aí pra isso, mas ele tinha que se soltar. Tinha. A imagem do pai ferido, de Karin caída a sua frente e sem nem saber se Yuzu estava viva o perturbavam ao ponto dele sentir, sentir que sua raiva era suficiente para quebrar seus grilhões.
Ele os sentiu partindo. Ele os sentiu cedendo, se expandindo conforme ele forçava-os muito mais. Até o momento que...
A Shinigami se virou, sentindo a oscilação espiritual atrás de si, deturpando seus sentidos mais uma vez. Ela viu, e arregalou os olhos para o garoto humano sozinho que quebrava sua magia, despedaçando o selo e enchendo seus olhos de luz. Luz que ofuscou sua visão, e nem deixou a ver que o jovem já estava a atender a irmão, pegando-a no colo e vendo desesperado os batimentos de seu coração.
— Ela está viva – Disse a Ceifeira, ainda arregalando os olhos, apenas soltando as palavras porque não aguentava ver a preocupação a sua frente, o desespero do irmão mais velho, que a tocou em alguma parte de seu espírito – Apenas desmaiou, seu apego a vida está muito longe de se perder
Ichigo virou-se para ela. Seu desespero passou para alívio, que foi para o ódio fumegante em sua expressão. Ele a deitou ali, estendendo-se para o quarto e pegando seu bastão de beisebol. Pondo-se de pé, ele disparou por ela, descendo as escadas
Quando a Shinigami percebeu, sua surpresa foi deixada de lado. O sentimento de incompreensão escapou de sua mente num movimento ao perceber que ele corria em direção a morte – Não faça isso humano! – Ela berrou
A luz azul da lua invadia a casa, substituindo a das lâmpadas. Ele chegou ao pé da escada em um instante, mais rápido do que pode perceber, e ele viu o pai caído num canto, bem mais ensanguentado que Karin e escondido pelas sombras. Porém, quando estava para gritar seu nome, ele percebeu o outro lado da sala, de onde a luz vinha.
Um monstro. Essa era a coisa mais fácil que ele podia pensar. Um monstro de boca aberta que trazia Yuzu aos dentes. E ele não ligou para mais nenhum detalhe antes de avançar, nem percebeu a Shinigami atrás de si, gritando para que ele parasse de imediato.
Ele só veria aquilo. O monstro devorando Yuzu era a última coisa que poderia acontecer, e ele pulou pelo buraco da parede, levantando o bastão e o preparando para acertar a cabeça. A cabeça que mais parecia um crânio, de branco tão límpido que brilhava com a luz da noite. E a raiva o cegou para sua ação, imaginando o que queria, despedaçar a cabeça, e não viu que o monstro o percebeu. Não viu que o monstro movera-se sobrenaturalmente rápido demais. Ou vira, mas era rápido demais para sua mente processar.
O canto direito de seu corpo fora acertado, e ele sentiu seu braço, torso e pernas estalando, rachando por um momento enquanto era acertado no ar. Não importava com quantos gangsters já havia lutado, não importava por quantos delinquentes tivesse sido espanado e tivera espancado, aquela dor era surreal demais. Surreal demais pra poder existir, como se fosse necessário morrer para senti-la.
Ele foi arremessado, se chocando o chão e na parede e causando mais dor ainda. Ele por um momento engoliu o berro de dor, que quase o cegou para a criatura. Não estava mais com Yuzu em suas mãos, pelo menos isso aliviava-o um bocado. Mas um olhar mais detalhado para a criatura fazia o terror encher suas veias, terror por não poder disparar dali por causa dos membros danificados. O tamanho era arrebatador, sendo praticamente maior que a clínica Kurosaki. Seu crânio brilhava ao luar, o crânio de um peixe das profundezas, com olhos para dentro e de cor escarlate, com uma boca repleta de dentes longuíssimos e afiados como já vira em peixes abissais em documentários. Mas o resto era estranho demais... com um corpo que parecia humanoide, sua cabeça terminava em uma pele cinza e que parecia escamosa, que seguia para membros quase humanos. Os braços pareciam ser feitos de tecido, com a pele sobrepondo-se, onde mal se via a separação entre o braço e o antebraço, terminando em cinco dedos com garras nas pontas. As pernas eram como os de um raptor, porém com 3 dedos escamosos para frente e um para trás.
Ele tinha um buraco no meio do peito, um círculo perfeito, que dali de onde estava, parecia prender a lua dentro de si.
A criatura estava com a atenção presa em Ichigo, e ele não conseguia se mexer. Mas por um momento, ele não sentiu desespero. Não. Porque seus vasos sanguíneos estavam entupidos de raiva, raiva pelo que ele fez a sua família, e uma raiva diferente... algo dentro dele que tinha total aversão ao monstro a sua frente, como se soubesse o que era e o odiasse com todas as forças. E ele o odiava. Quando a besta soltou um rugido gutural para ele, ele berrou de volta em desafio, vendo a morte a sua frente e vendo seu reflexo reluzir nos dentes do ser.
E o fato dele não ter fechado os olhos por um instante o deu a visão de sangue jorrando, do sangue da criatura jorrando por uma ferida no topo da cabeça, um corte que o fez recuar e rugir de dor. A Shinigami estava no ar, graciosamente, sua espada fora da bainha brilhando fortemente refletindo a luz, horizontalmente atrás do corpo. E em um momento em que a besta recuou, ela pousou, ainda a encarando com seriedade.
— O corte não foi tão profundo – Disse ela, o olhando e desviando para Ichigo – Se não fosse tão inconsequente, eu poderia ter priorizado força e técnica a velocidade.
O monstro pareceu se recuperar, pois parou de arfar de dor e encarou mortalmente a Shinigami. E ele avançou, com o corpo gigantesco, fazendo movimentos que seus olhos mal conseguindo captar. Mesmo com seu tamanho. E a jovem era um movimento turvo, dançando entre os ataques das garras mortais, transparecendo graciosidade mesmo sem parecer despreocupada demais. Cada movimento parecia contar, porque sangue sempre jorrava de alguma parte da besta peixe. Seus braços, cabeça e tronco, até que um momento, seu braço esquerdo caiu, causando tremores ao chão. Outro berro gutural. Ele parou, jogando sua visão sobre Ichigo e estocou contra o jovem, se aproximando rápido demais do que tinha direito.
E ele tombou ao lado, destruindo outra parede da clínica ao se chocar. Não entendera o que aconteceu, se a garota o puxara para o lado por cima, se cortara seus calcanhares ou se cortara o canto de seu rosto. Ela fez os três. E Ichigo nem sequer sentiu-se ser puxado até estar encostado num poste, longe na rua. E nem se deu o trabalho de se surpreender.
— O que é – Sua voz falhou, finalmente notando a dor após tanto tempo sem entender – Aquilo...
— Aquilo é um Hollow. Uma Alma Penada – O ser se debatia sobre sua própria dor, uns 500 metros dali, soltando gritos guturais um atrás do outro, arranhando as paredes com movimentos rápidos de suas garras – Ele e alimenta de almas. E este aqui sentiu a sua, por isso está atrás de você tão desesperado.
Ela se postou de pé, com sua espada a sua frente entre ela e o Hollow. Sim, ele sentira a alma do garoto, mas aquilo era estranho. Não soubera que uma alma tão poderosa vivia ali, o Humano com a maior energia espiritual que ela já vira em toda a vida. Com tanto poder, muitos Hollows viriam tentar o devorar, mas ela mesma só o sentiu depois, não percebendo alguém assim, que ela poderia sentir assim que pisasse os pés do outro lado da cidade. Quem ele era, porque era tão forte a ponto de quebrar um Kido e porque ela não o sentira eram perguntas que deveria guardar em sua mente. Ele falaria com seus companheiros sobre isso de imediato. E sobre o que ele disse, sobre o trabalho de um Shinigami ser o trabalho dele...
— Então quer dizer que minha família está a beira da morte por minha culpa?
Ela arregalou os olhos, sentindo-se idiota. Péssima escolha de palavras, a pior possível, e ela entendeu o peso daquela frase no instante em que ouviu a última palavra. ‘’Culpa’’. Sobre se ela tivesse percebido antes o Hollow, aquilo poderia ter sido evitado, e ela podia apostar que se passava em sua cabeça que se não tivesse sido fraco demais e se soltado quando ouvira da primeira vez, aquilo poderia ter sido evitado. Ela mesma se perguntava se sua família destruída poderia ter ficado bem se ela nem sequer o tivesse contido; Num. Momento. Estúpido. De. Arrogância. Nem mesmo conseguira detectar se o pai estava vivo, merda! Ele estava confuso e sentindo-se culpado naquele momento. Mas não podia. A única culpada ali era ela. E ela viu em sua face, a face de alguém mais. E viu em seus olhos, os olhos de alguém que perdera há muito tempo.
— Não foi isso que...
Mas ela baixou a guarda. Um milissegundo foi o que o Hollow precisara para arremessar o carro de seu pai, praticamente o amassando, e o arremessar. Força o suficiente para que ele destruísse os postes, destruísse paredes e criasse uma única fissura grossa no chão de concreto. Metade desse tempo foi o que ela precisou para cortar o carro ao meio com um golpe. E esse tempo foi o que a criatura precisou para percorrer o caminho, tendo disparado logo após o carro, pegando-a de surpresa após o lançamento do veículo. Não, ele poderia ter menos tempo, e ainda teria conseguido.
Ele fechou suas presas na Shinigami, a dilacerando de vários lados. Por instinto, ela conseguiu cortar alguns dentes, mas não o suficiente para não ser moída por dentro. Ela não teve tempo para reclamar da dor nem por um segundo, e moveu a Katana para cima, dividindo em dois parte da face e olho esquerdo do Hollow.
Também por instinto, a besta a golpeou com as costas da mão, atendendo a própria face quando a jovem voou, se chocando contra a parede.
O lugar parecia um campo de batalha. Mais ainda agora, com tudo a volta destruído, postes caídos e fissuras no chão, com cortes nas paredes. A besta estava sem um braço e sem um olho, a Shinigami estava com o corpo praticamente retalhado por dentro, com todas as costelas destruídas, e o Humano...
E o Humano...
E o Humano estava a frente dela, de pé. Praticamente todos os ossos do lado direto do corpo quebrados, fraturados de alguma maneira, com um sangramento vindo do topo de sua cabeça e de seu ombro. Parte dos escombros do carro o acertaram, e parte da destruição promovida pelo ato o feriram. Mas porque ele estava de pé? Porque conseguia ficar de pé, como era capaz?
— Ei, Shinigami, deixa eu adivinhar – Chamou ele, sem tirar os olhos da besta, que ainda se encolhia no canto. Poeira levantada – Com essa espada aí... seu trabalho é mandar as almas boas pro céu, e com a lâmina... – Sua expressão estava confiante – Matar esses monstros que devoram as almas dos outros.
Mas nem por um momento ele esperou a resposta. Ele sabia que essa era a óbvia. Ele sempre se perguntou o que aquelas almas menores com máscaras e tecidos cobrindo todo o corpo se tornavam, ou se algum dia, mudavam. A expressão sem vida nos rostos daquelas coisas, ele se perguntava porque eles eram tão diferentes das almas alegres que ele encontrava regularmente. E a resposta estava a sua frente. Era isso que se tornavam, não era? E ele nem precisava ser pensar muito pra saber que a resposta era um ‘’sim’’.
— Mas desculpa, você vai ter que dizer pro teu quartel general das donas mortes, ou seja lá de onde você é, que você perdeu essa presa aqui... – Seu olhar era tão confiante, que conseguia aplacar a surpresa nela. Porque ele olhava pro perigo com tanto desejo? Porque parecia que ele queria que aquilo continuasse, porque parecia que ele queria tão fortemente lutar? Ele era louco por acaso? E qualquer que fosse a resposta, sua loucura a contagiava – Porque esse aqui, é meu!
Ela novamente, por um momento, viu outro alguém em sua face. Outro alguém em seus olhos mais que confiantes, outro alguém nesse desejo que ele exalava. E por um momento, ela se apegou tanto a esse sentimento, que não pode evita... torcer...
— Sejamos honestos, você não tem chance contra o Hollow – Ichigo a encarou, com tanta fúria, que era como se ele tivesse a vitória a meio passo – Mas... eu posso te ajudar – Ela estendeu a lamina em sua direção – Se eu te perfurar, e te der meus poderes, você terá sua chance. Você poderá vence-lo.
Ele pegou a lamina com força, cortando a mão ao aperta-la. Mas ele não ligava para aquela dor. Tantos ossos quebrados, seus sangue pingava de seu queixo, aquilo não era nada. E aquela visão... ela a animava.
— Se você me acertar com isso, eu vou ter chance de arrebentar esse cara? Se eu me empalar, eu vou poder matar o desgraçado e salvar a minha família?
— Existe a chance de você morrer, caso isso falhe. Existe a chance de perder sua vida aqui e nem ter chance de contra-atacar. Mas sim, se conseguir, você pegará parte de meus poderes, e pode ter chance contra isso – Ela repetia isso para si mesma. Era capaz de funcionar, mas era capaz de falhar. Mas de qualquer jeito, que outra escolha tinha?
Mas ele olhou para a besta e sorriu. A poeira ainda estava alta, e o olho do Hollow, agora focado nos dois, estava desejando sangue. Ele estava pronto. Os dilaceraria e comeria suas almas. Pelo menos tentaria. Mas o sorriso passava por isso, passava pela possibilidade, e ele não ligava se podia morrer, nem ligava para o fato de que aquilo era sua única escolha. Ele faria aquilo. Faria mesmo que tivesse outras 1.000 opções.
— Meu nome não é Shinigami... é Rukia Kuchiki – Disse ela, admirada pelo jovem humano a sua frente. Tão curioso... tão... diferente...
— Prazer, Rukia – Ele voltou a olha-la. Coragem inundando seu próprio ser – Meu nome é Ichigo Kurosaki
E ele não hesitou nem por um instante. Antes mesmo da besta disparar para cima deles, ele já estava a empalar-se. Não se importava com a chance de morte. Ele pegaria os poderes, e ele destruiria aquele crânio branco por completo. Ele mataria.
E a lamina tocou seu coração e o atravessou.
E uma barragem de luz que teria cegado toda a cidade, uma pura tormenta de liberação de poder. O Hollow hesitou, por um momento, sem enxergar nada, ele mal sentiu quando recebeu o dano.
Ele mal sentiu quando do meio da luz que durava tanto, como uma estrela cadente, a jovem Shinigami agora utilizava um quimono branco, e seus olhos se mantinham arregalados pela transferência. Ela der errado. Dera errado porque, em suas veias, não restava nenhum poder.
Mas nas dele, era como uma inundação.
E ele estava atrás da besta. Atrás do Hollow, que agora, perdera a perna inteira do joelho para baixo. E a criatura nem percebera quando ou como, mas já encarava Ichigo, de pé atrás dele.
A poeira tinha sido levantada mais uma vez, e o circundava, rápida, ligeira movida pelo vento como se ele fosse o centro de tudo. Agora, ele vestia o quimono tão negro quanto a noite. A espada, a katana que já parecia grande nas mãos da garota, era praticamente do tamanho de um adulto nas mãos de Ichigo, aonde estava apoiada em seu ombro. A bainha cobria quase toda as costas do estudante, mas para ele, era como não carregar peso nenhum. Ele nunca se sentira tão leve e tão capaz. Ele sentia que poderia destruir sua casa num balanço de sua nova arma. E podia. A besta estava surpresa, mas caída, ela ainda podia avançar. E ela saltou para Ichigo, mas agora...
Agora ele sentia.
Ela estava mortalmente lenta. Ele encarou a Shinigami e se perguntou se aquilo que era ter tanto poder. Ele podia fatia-lo de tantos jeitos diferentes. Mas ele escolheu um só...
Ele levantou a espada aos céus. Sua lâmina gigantesca reluzindo a lua como nova, e berrou ao desce-la, bem no crânio de peixe abissal do Hollow. Ele se deliciou com a vista, se deliciou com a visão da cabeça do monstro sendo separada em duas por suas próprias mãos, o sangue jorrando, mas, conforme voava ao ar, se tornava pó, e ele berrava de dor enquanto recebia o golpe. E ele aproveitou cada segundo ali, cada segunda da impotência da besta em relação ao homem enquanto ele dava o veredito. E o corte continuou criando um outro buraco na parede da clínica, maior do que o produzido pelo Hollow.
Os olhos sem vida, ceifados num instante. Ele nunca se sentira tão poderoso, e achava que podia fazer tudo. Podia fazer tudo ele pensava. E antes mesmo de conseguir encarar a Shinigami, ele caiu, inconsciente no chão.
E a partir de lá, tudo mudaria. E partir daquele momento, tudo mudou.
Um jovem de cabelos negros retesou os fios de seu arco no topo de um prédio. A visão distorcida de um loiro endireitou-se para buscar entender o que aconteceu na outra cidade, que podia sentir. O homem de casaco de couro percebeu que tinha algo novo por vir, e que não estava mais sozinho. E o dono da loja, vestindo um quimono escuro e verde, chegou ao local da batalha, sabendo que finalmente as coisas mudariam, que as cordas do destino se mexiam, e suas rédeas seriam estaladas com movimentos selvagens.
E naquele momento, os olhos do céu encararam-no, e os portões do grandioso sobrenatural, antes semiabertos, se escancararam para Ichigo Kurosaki.
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