Kurt não tinha aceitado nada bem o fato de que ele havia ficado cego. Não era algo que você aceitasse. Não era algo superável. O fato de estar cego significava uma enorme mudança na vida. Uma mudança a qual Kurt não queria passar por.

Burt estava sentado na poltrona ao lado da cama de Kurt, esperando o filho acordar. Foi quando seu médico entrou pela porta, vestindo o mesmo jaleco de sempre, segurando a mesma prancheta de sempre, porém com um sorriso em seus lábios maior do que o que ele carregava nos dias anteriores.

– Bom dia, Sr. Hummel. — Blaine disse trocando a folha que estava na cabeceira da cama do paciente.

– Novidades? — Bufou Burt, trocando o canal da televisão, procurando alguma programação que não fosse documentário ou filme.

– Hoje começamos a fisioterapia de Kurt. O osso já está no lugar, o gesso parece estar confortável... Precisamos fazer a circulação voltar ao normal. — Blaine falou, sentando na beirada da cama de Kurt.

– Como você acha que ele vai lidar com tudo isso?

Os dois rapazes não perceberam que Kurt abrira um dos olhos. O castanho havia acordado ao sentir o médico sentar em sua cama, porém não se manifestou. Fechou os olhos e continuou a ouvir a conversa alheia.

– Eu não sei... Kurt tem sido agressivo com toda essa situação. Esperamos que ele se conforme. — O doutor disse encarando o chão.

– Você sabe que isso não é sua culpa, certo? Não é culpa de ninguém.

– Eu sei, porém eu sinto como se devesse fazer alguma coisa, ajudá-lo de alguma forma já que não pude fazer seus olhos novos novamente... — Blaine tirou um cartão do seu bolso. — Esse é o cartão da AAPDV. É uma Associação para Ajuda a Portadores de Deficiencia Visual. Eu sou membro dela. Todos os dias da semana no período da tarde eu presto assistência lá. Dou aula em braile, treino as pessoas a agirem normalmente em algumas funções do dia-a-dia e até dou apoio aos familiares... Você poderia levar Kurt lá, quando ele levasse alta.

– Obrigado, doutor. — Burt disse recolhendo o cartão. — Kurt precisará de bastante apoio.

– Eu posso não enxergar, mas minha audição continua a mesma. Será que dá pra vocês pararem de conversar que eu quero dormir? — Reclamou Kurt, tirando um sorriso de Burt ao ver o filho tão reclamão como ele mesmo.

– Vou deixar os dois a sós. — Blaine segurou sua prancheta no peito, levantando da cama de Kurt. Antes de sair do quarto, observou pai e filho começarem a conversar.

Blaine não sabia exatamente o motivo. Ele havia se encantado com Kurt. Ele havia criado aquele sentimento paternal, que deveria proteger o mais novo de qualquer coisa que fosse. E ele faria.

[...]

Kurt estava impaciente. Alguns minutos atrás o tal Dr. Anderson viera no quarto o avisar de que sua fisioterapeuta viria fazer sua consulta. Ele não queria, não mesmo. Ouviu a maçaneta a porta se virar, e logo a porta abrir. Estava levando jeito com esse lance de cegueira.

– Oi, eu sou Daniele e serei sua fisioterapeuta. — Disse a moça, alcançando o paciente e tocando a perna não-doente de Kurt para ele perceber sua presença.

– Você vai curar o osso quebrado da minha perna? — Perguntou bravo o castanho. Todo aquele lance de ser bravo, nervoso e ríspido era um jeito de fugir do assunto. Kurt não queria pena das pessoas. Ele estava cego, estava com uma perna quebrada mas ainda era capaz das coisas.

– Não, mas eu estou aqui par... — Tentou completar a frase, porém Kurt a interrompeu.

– Então vá embora. — Se virou na cama, tomando cuidado com seu machucado na perna. A moça assentiu e saiu do quarto, deixando o castanho sozinho.

[...]

– Bom dia, Kurt. — Disse Annie, a faxineira do quarto. Era a única pessoa com quem Kurt se dava bem. Não bem, porém era a única que conseguia manter uma conversa com o rapaz.

– Bom só se for pra você. — Cuspiu as palavras.

– Muito bom. Minha filha ganhou o bebê. — Disse Annie começando a molhar o pano que serviria para limpar as janelas do quarto.

– Que bom, Annie. — O rapaz parecia irônico, porém não estava. Se sentou na cama, a fim de conversar mais com a diarista. — Você tem alguma ideia de quando eu irei sair daqui?

– Não... Tentei falar com o doutor Blaine, mas ele estava na ala infantil. Ele sempre vai lá conversar com as crianças. — Kurt estava começando a gostar do médico. Ele não tinha culpa do acontecido. Kurt não duvidava que ele havia feito de tudo para tentar recuperar a visão do mais jovem.

[...]

– Passarinhos me disseram que você não está colaborando com o tratamento... — Disse Blaine abrindo a porta do quarto e encontrando Kurt sentado na cama, tentando desesperadamente enxergar suas mãos que estavam elevadas na altura de seus ombros, aonde dedos se mexiam freneticamente.

– Você veio com a cura pra essa terrível doença? Caso contrário, a porta ainda está aberta. — Resmungou.

O doutor sorriu com o rapaz ranzinza, deixando sua prancheta do lado da cama e lhe entregando um livro.

– Eu não posso ler. — Kurt disse nervoso.

– Apenas abra.

O doutor se sentou na beirada a cama, observando seu paciente. Seus olhos azuis — quais o médico achava muito bonitos por sinal — procurava algum ponto aonde enxergasse algo. Em vão.

Kurt torceu seu lábio, mas se convenceu em abrir o livro. Assim que colocou a capa para o lado, passou seus dedos pelas folhas que continham pequenos buraquinhos.

– É o alfabeto braile. Pensei que ajudaria. — Blaine disse sorrindo, mesmo sabendo que Kurt não poderia vê-lo.

Fazia algumas semanas depois do acidente, porém Kurt continuava no hospital a pedido do médico. Ele precisava de cuidados especiais por sua perna e seus olhos.

– Ótimo, tudo o que eu precisava. — Resmungou Kurt irônico, colocando o livro ao lado da cabeceira da cama.

– Apenas queria ajudar. E você também ajudaria se colaborasse com a fisioterapia... — Blaine pegou sua prancheta, com fim de sair do quarto. Kurt se deitou, esperando que o doutor saísse. Quando o médico alcançou a porta, Kurt o chamou.

– Hey, doutor. — Blaine se virou. — Obrigado pelo livro.

O doutor sorriu e saiu do quarto, fechando a porta. Kurt era um paciente difícil, porém também tinha coração. Não seria um caso tão difícil assim...

Notas finais
Feliz páscoa! {=^.^=}