O dia já havia chego e Kurt acordava com o barulho de macas sendo arrastadas pelo corredor daquele hospital. Por incrível que pareça, ele estava começando a se acostumar com aquele lugar. Daqui a alguns dias ele poderia ir para casa, com a ajuda de muletas ou até mesmo uma cadeira de rodas. Porém nada o ajudaria a enxergar.

Sentou na cama, com dificuldade e começou a exercitar seus sentidos. Uma vez cego sem volta, ele teria que aprender a viver. Seu pai havia trazido alguns cegos para ensinar Kurt de como ele deveria agir, porém a única pessoa que estava realmente o fazendo melhor era Quinn.

A loira ouviu sobre o acidente em um sábado aonde prestava serviços comunitários e resolveu ajudar Kurt, afinal, eram uma família desde o ano passado quando Quinn entrou no coral.

Kurt esfregou os olhos, com intenção de abri-los e enxergar algo, porém havia esquecido que daqui em diante, apenas preto veria.

– Mas que droga. – Resmungou ao se lembrar de sua situação.

Apalpando, levou sua mão até a mesinha ao lado da cama aonde havia um despertador que seu médico havia lhe dado. Com um botão em cima, o despertador soou “Bom dia. São 10:42hrs de uma terça-feira, dia 17.”

Daqui a alguns minutos Kurt teria fisioterapia. Nada mais do que uma mulher pegando sua perna e levantando, recuperando os sentidos aos poucos. Kurt não gostava, mas fazia pois não via a hora de sair daquele maldito lugar.

Ainda apalpando a mesinha ao lado de sua cama, Kurt encontrou algo grosso. Era o livro que Blaine havia o dado dias atrás. Com intuito de fazer o tempo se passar, trouxe até si e começou a folhear.

Aquilo era ridículo para o castanho. Era como se estivesse freqüentando a escola desde o início. Ele teria que aprender a escrever e ler novamente, de um jeito totalmente novo e difícil. Afinal, o que eram aqueles pontinhos que marcavam em relevo na folha?

– Pelo visto vejo que gostou do livro. – Disse Blaine, entrando na sala e encontrando seu paciente tateando o objeto. Não sabia porque, mas sorriu naquela hora.

– São só pontinhos de qualquer jeito... – Resmungou, deixando o livro repousar novamente na cabeceira.

– Você deveria parar com esse mal humor, sabia? – Brincou o médico enquanto trocava o prontuário. Por que diabos aquilo precisava ser trocado quinhentas vezes por dia? Kurt apenas deu um sorriso falso e encostou suas costas novamente na cama.

– Eu me sinto um bebê. Vou precisar de ajuda para fazer tudo!

– Só se você quiser. – Kurt pôde sentir Blaine sentar no canto de sua cama. Como ele queria enxergar. A curiosidade de saber como o rosto daquele homem que tentou salvar sua vida era o matava. – Minha irmã, Katie, é cega desde quando nasceu. Ela faz praticamente tudo sozinha.

– Quantos anos ela tem? – A mão de Kurt apalpava o colchão, procurando a mão do médico. Ele queria sentir que não estava sozinho. Agora cego, o tato era o principal sentido do castanho.

Blaine sorriu e levou sua mão até a de Kurt. – Hoje ela tem 21. – Passou seus dedos pela pele macia que era a mão de Kurt.

“São 11:00hrs. De uma terça-feira, dia 17.”

– Eu vou quebrar esse relógio. – Resmungou Kurt, fazendo Blaine gargalhar um pouquinho. O moreno soltou a mão de Kurt, deixando-a na cama e pegando sua prancheta.

– Você tem fisioterapia! – Lembrou o médico, se dirigindo até a porta.

– Obrigado por me lembrar desse sufoco, doutor.

– Blaine. Me chame de Blaine.

– Blaine.

– Sim.

– Blaine, Blaine, Blaine. Legal. – Kurt deu um sorriso de meia boca e voltou sua atenção ao relógio, que não parava de apitar.

– Vou trazer Katie pra te fazer uma visita qualquer dia desses. – Blaine tinha que sair, mas algo não queria o deixar. Ele queria passar o dia inteiro conversando com Kurt.

– Traga-a. Vai ser bom falar com alguém que tem as mesmas coisas para reclamar.

– Falando nisso, ela é solteira. – Blaine sorriu e saiu porta a fora, deixando um Kurt confuso. O doutor não havia percebido a opção sexual do garoto? Ele fora o único. Seus pensamentos foram interrompidos por alguém abrindo a porta novamente.

– Bom dia, Kurt. Vamos começar a sessão de hoje? – Disse a fisioterapeuta.

– Tenho escolha? – O castanho se sentou na cama.

[...]

– Como isso pode cansar tanto? – Perguntou o castanho, exausto.

– Acontece. Até mais tarde. – Lembrou a médica, saindo do quarto. O castanho pensou que teria um pouco de sossego agora, porém bateram na porta.

– Posso entrar? – Dizia a Quinn com uma voz angelical que Kurt reconheceria até debaixo d’agua.

– Claro. – Kurt era simpático com apenas quatro pessoas naquele hospital. Quinn e Burt, que vinham o visitar, a diarista que havia parado de ir, e Blaine. Não sabia o porquê, só via desnecessário o fato de o odiar.

A loira entrou vestindo seu uniforme das Cheerios. Sue havia se comovido com a história de Kurt e do jeito como Quinn o ajudou – ou talvez pelo fato de ter perdido o patrocínio após os patrocinadores saberem que ela havia dispensado uma menina grávida necessitada – e havia a convidado novamente para ser líder de torcida.

– Como vai o topo da pirâmide, rainha? – Kurt se sentou na cama, alcançando a mão de Quinn.

– Bem. – Ela sorria. – Mas vim aqui saber de você. Alguma melhora? Sabe quando vai pra casa?

– Não.

– Que drog- Quinn interrompeu sua voz ao ver um médico entrar no quarto. Sua visão passou pelos seus cabelos cheios de gel, encontrando seus olhos verdes e se perdendo em seu jaleco.

– Estou interrompendo? Eu posso voltar outra hora.

– Não, tudo bem. – Disse Quinn abrindo um sorriso maior que seu rosto. Blaine passou ao lado da cama de Kurt e segurou sua mão livre.

– Está melhor? Precisa de algo?

– Olhos novos, talvez. – Ironizou o castanho. – Estou bem, obrigado.

– Pelo visto está bem acompanhado também... – Blaine soltou a mão, checando o relatório sobre a fisioterapia que a médica havia deixado ali minutos antes.

– Blaine, essa é Quinn. Quinn, esse é meu médico, Blaine.

– Muito prazer. – Disse sem tirar os olhos das papeladas. Quinn somente suspirou.

– Quinn, você me faria o favor de o descrever? Por que ninguém aqui faz... – Kurt disse, fazendo Blaine gargalhar e tirar seus olhos do prontuário.

– Digamos que eu gosto de surpresas.

– Ele é moreno, Kurt... Tem olhos verdes... É bonito até demais pra um médico... Cabelos cheios de gel... E é bem baixinho.

– Vou concordar com tudo, menos o baixinho. – Brincou Blaine, pegando o prontuário e levando até a mão de Kurt o interruptor. – Preciso ir, só dei uma passadinha rápida. Se você precisar de algo, sabe o que fazer.

– Apertar o botão e esperar. – Kurt assentiu com a cabeça.

– Até. – Blaine deu uma jogada de olhares de despedida até Quinn e se dirigiu até a porta, com passos lentos.

– Ei, espera. – Quinn correu até ele, entrando um pedaço de papel. Quando Blaine abriu e viu o que continha, o fechou novamente. Era o número de telefone da loira. Abriu o sorriso constrangedor e devolveu o papel para a moça.

– Desculpa, não sou do seu time. – E com aquele sorriso saiu da sala. Quinn estava de boca aberta, impressionada. Kurt havia ouvido também, e tinha um sorriso debochado no rosto. Estava esperando o momento certo para zoar da amiga.

– Não acredito nisso... – Ela sussurrou, voltando até Kurt.

– Quem sabe em outra vida, Quinnie. – Disse Kurt, levando um tapa no ombro da amiga que estava nervosa.

– Bom pra você.

– Como assim?

– Qual é, Kurt. Ele é gay, é lindo, e não tem aliança em nenhum dos dedos... Você sabe o que você deve fazer.

– Está me sugerindo para dar em cima do meu médico? Ficou maluca?

– Só pensa nisso. – Ela disse soltando a mão de Kurt e dando um beijo em sua testa. – Volto amanhã, ok?

A loira pegou sua bolsa que estava na poltrona e saiu do quarto, deixando Kurt sozinho. Logo, aqueles toques de Blaine eram mais do que simples toques. Seria possível ele ter algo com seu médico? Mesmo Blaine achando que Kurt era hétero? Uma pitada de esperança nasceu dentro do castanho.

“São 11:15hrs. De uma terça-feira, dia 17.”

Notas finais
Lyandra sumida? Lyandra morta? Sequestrada, desaparecida? Não, só semanas de prova mesmo! Gostem do capítulo porque eu particularmente gostei muito. Beijos :3