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31 #31 A fita com as verdades
Notas iniciais
A irritação que aquelas faixas que circulavam a cabeça de Kurt davam era absurda. O castanho pensou inúmeras vezes em arrancá-las e se livrar daquela coceira. Fazia um dia da cirurgia e hoje ganharia alta apenas para embarcar naquele avião e ir até Nova Iorque completar a segunda etapa da cirurgia.
– Sr. Hummel? — Era a voz de Sebastian. Revirou os olhos (no sentido figurado, porque com aquelas talas Kurt mal conseguia piscar) e assentiu para o enfermeiro adentrar ao quarto. — O hospital já lhe concedeu a alta e o avião decolará daqui à uma hora, então vou lhe ajudar a empacotar as coisas.
– Você não está aqui tentando compensar alguma coisa que seu chefe fez, certo? Porque se estiver, eu não quero ajuda. — Disse ríspido, se lembrando de quando conhecera Blaine e havia sido duro com ele. Um sorriso tentou brotar em seus lábios ao se lembrar do passado, mas Kurt se recompôs.
– Não, apenas fazendo meu trabalho.
Colocava as roupas de Kurt dobradas na mala. Blaine havia lhe contado sobre Kurt acreditar que a cirurgia havia sido feita por George e que o médico havia sido apenas um empecilho durante a operação. Sebastian entendia a mágoa do Anderson, mas não entendia porque o médico praticamente implorou para tentar não convencer Kurt o contrário.
Kurt sorriu, magoado. Por mais que estivesse com raiva e ódio do médico, esperava que ele tivesse mandando Sebastian. Queria ser procurado, queria que Blaine o puxasse e tentasse o convencer de que tudo que George falou era mentira, mas ele nunca o fez.
– Seus pais e a Srta. Fabray o esperam no corredor. Eu poderia te ajudar a se vestir ou...
– Não. — Interrompeu dando um sorriso fraco. — E-eu consigo fazer isso sozinho.
– Tudo bem. — Sebastian entregou algumas roupas para Kurt e logo saiu da sala.
Kurt se sentou na cama e respirou o ar australiano fundo. Daqui a algumas horas estaria longe desse país, longe desse hospital e longe de uma pessoinha muito querida no coração do Hummel. A possibilidade de nunca mais ver Blaine quebrava seu coração e agora tinha medo da cirurgia, porque antes sabia que Blaine estava ali por ele, mas e agora? Suspirou novamente e resolveu se vestir, não queria perder o voo... Ou queria?
24 HORAS ANTES DA CIRURGIA [...]
Kurt entrou de braços dados com Rachel pelo saguão do aeroporto. Sabia que as pessoas o olhavam (porque não era todo dia que viam uma pessoa enfaixada igual uma múmia andando de avião), mas não se importava. A Fabray olhava a interação Hummelberry de longe, odiando o amigo por não ter acreditado em si. Esperava que durante as horas no avião conseguisse conversar com Kurt sobre o fato de Blaine ser o mocinho e George ser o vilão.
O check-in foi feito e logo a família Hummel e as convidadas entravam no avião. Burt sentou com Carole, Finn sentou com Rachel e Kurt, consequentemente, sentou-se com Quinn. O castanho tentava ignorar a loira, estava magoado com Quinn. Em que mundo sua melhor amiga defende seu ex-namorado ao invés de ficar do seu lado?
– Uma boa viagem pra você. — Disse orgulhoso, Quinn apenas revirou os olhos.
– Você vai mesmo fazer isso? Porque se sim, juro que troco de lugar com a Berry. — Kurt deu de ombros. — Qual é, Kurtie. Já menti alguma vez pra você? Não. Então porque mentiria agora?
O castanho ainda não olhava para Quinn.
– Kurt, pelo amor de Deus! — Levantou as mãos para o alto. — Será que dá pra me escutar?
Kurt sussurrou um breve "não" e chamou a aeromoça. Quinn arregalou os olhos surpresa. Impossível que o castanho não acreditasse nem em Blaine, nem na loira.
– Sim? — Disse a jovem comissária de bordo.
– Está um pouco barulhento aqui... — Quinn revirou os olhos. — Será que tem como colocar um filme e me trazer alguns fones? — Antes que a aeromoça estranhasse o fato de um cego querer ver um filme, Kurt interviu. — É que preciso me distrair, e com as vozes dos filmes eu consigo.
– Um minuto, sim? — Sorriu e caminhou até a cabine geral.
– Por mais incrível que pareça, a companhia do Finnútil é mais agradável que a sua. — Praticamente gritou para Kurt e saiu batendo os pés pelo corredor. Kurt engoliu seco.
Durante o caminho até a poltrona do casal do ano, Quinn sentiu um leve desconforto em seu sutiã. Levou alguns segundos até a loira sorrir de orelha a orelha e mudar seu destino, passando a poltrona do Hudson e caminhando até a comissária que procurava algum filme para Kurt.
[...]
– Aqui estão seus fones, senhor. — Lana abriu a pequena televisão na frente do cego e lhe entregou os fones já plugados. Kurt agradeceu a aeromoça lhe avisou que o filme começaria em alguns minutos.
Logo a aeromoça caminhou até o final do corredor, onde a Fabray estava de braços cruzados.
– Você sabe que posso perder meu emprego por isso, não sabe? — Disse a comissária de bordo com um pé atrás da decisão que havia acabado de tomar.
Quinn deu de ombros e entrou na cabine aonde Lana havia entrado também. A jovem mulher aceitou o pedido da Fabray para trocar o filme que Kurt assistiria pela pequena fita que a loira tinha em mãos, mas em troca de uma coisa.
"O que eu não faço por você, Kurt?" Quinn revirou os olhos e sentiu suas costas serem prensadas na parede do avião e logo sua boca ser preenchida por lábios doces de uma aeromoça contra-as-regras do piloto.
Da sua poltrona, Kurt sentiu um arrependimento pela Fabray não estar ali sentada. Suspirou e colocou os fones (tirando a tala até a altura das orelhas). Quinn estava sentada na poltrona da aeromoça chefe, controlando o tempo do filme de Kurt. Adiantaria os momentos que Kurt precisava ouvir.
"Não é porque você é o oftalmologista geral daqui que eu tenho que me sentir pressionado, amedrontado. Você me pediu para assistir a cirurgia, então quem está no comando sou eu. Deixe-me fazer as coisas do meu jeito que tudo sairá bem."
Kurt levantou uma das sobrancelhas, não entendendo sobre o que o filme falava.
"Está tudo bem, Dr. Whil?"
"E-estou bem"
– Mas que merda...? — Kurt tinha certeza que o "filme" continha as vozes de George, Sebastian e podia jurar que tinha ouvido Blaine e Quinn conversarem ao fundo.
Os próximos segundos foram quietos e Kurt podia ouvir Blaine e Quinn conversarem ao fundo, mas não conseguia distinguir o que era dito. O castanho não acreditava que Quinn teve a cara de pau de gravar a cirurgia.
"DR. WHIL."
"Que merda você fez?!"
Kurt confirmou a voz de Blaine e sentiu um frio na barriga nesse instante.
"E-eu acho que errei milimetricamente e..."
"Vou precisar da faca sete, você sabe em que parte do meu consultório está, não é Seb? Ótimo. E-e vou precisar de linha, agulha, muitas gazes, uma lixa flexível e uma dose de uísque."
"Pra quê a dose de uísque?"
"Porque vou precisar de uma dose de coragem pra fazer o que precisarei fazer."
– Não... — Sussurrou Kurt com medo do que viesse a ouvir.
Da cabine, Quinn adiantava o tempo do vídeo.
"Paul, aplique cem mililitros de anestesia no lado direito."
"Mas isso irá desregular a dosagem anterior..."
"Você fez merda enquanto operava o meu Kurt mesmo depois de eu lhe falar que não era uma boa ideia fazer essa cirurgia tão rápida. Agora eu tenho que me colocar ao risco de tentar arrumar o que você fez, então nem ouse em abrir a boca para falar do modo que eu ajo, porque terminando aqui nós vamos ter uma conversa de homem pra homem, entendeu? ... Cem mililitros no lado direito, por favor."
"Paul, não faça isso. Você ainda está sob minhas ordens."
Kurt naquele momento se sentiu a pior pessoa do mundo. Então era verdade, então George não tinha apenas o enganado, mas tinha quase o matado naquela sala de cirurgia. Se não fosse por Blaine...
"Blaine..."
Reconheceu a voz de Quinn chorosa.
"V-vai ficar tudo bem."
Sentiu um arrepio ao ouvir a voz de Blaine também chorosa. Por um momento Kurt sentiu como se realmente estivesse naquela sala de cirurgia, sentindo tudo o que deveria sentir naquele momento. Sentiu também nojo de ter concordado em operar com George, sentiu nojo de ter sentido raiva ou algum ódio do Anderson e sentiu nojo por ter sido tão rude com Quinn.
"Blaine!!! Salve o Kurt, salve o nosso pequeno!"
"Sebastian, tire ela da sala."
Kurt sentiu a tensão do momento. Viu que Blaine apenas havia tirado Quinn da sala porque ela estava desesperada. Sentiu como se ele tivesse desesperado, e sentiu a voz quebrada de Blaine, a voz de alguém que estava prestes a perder uma das coisas mais importantes na vida.
"Ligue novamente e encaminhe-as para o consultório do Doutor Whil em Nova Iorque, e antecipe suas passagens para amanhã, porque a cirurgia precisa acontecer imediatamente. ... Você vai terminar o que você começou."
"Aproveite e compre mais uma, Blaine irá conosco."
"Não."
"Não?"
"Não. Você se responsabilizou com esse garoto e com essa família. Você e sua equipe vão voltar para Nova Iorque e terminar a segunda fase da cirurgia. E não há outro acordo."
Por mais bobo que fosse, Kurt queria que Blaine estivesse em Nova Iorque na segunda cirurgia. Sentia-se mais seguro. Blaine foi seu primeiro médico, seu namorado e seu melhor amigo, sabia tudo em relação ao castanho. Kurt não conseguia chorar por causa das talas, mas sabia que estaria chorando por ódio de si mesmo de não ter acreditado nas palavras do Anderson.
Se antes não havia chances do moreno voltar para Lima, agora que não teria.
"É muito legal o que você está fazendo."
"Não pense que estou fazendo isso por você. Estou fazendo isso por ele."
"Vocês tinham... algo, não é?"
" Nós tínhamos a melhor coisa que alguém poderia ter."
E logo as vozes de Blaine e George ficaram distantes.
– O quê? — Perguntou em protesto. Queria saber mais, precisava saber mais.
Quinn saiu de trás das cortinas e atraiu a atenção de todos por pensarem que era a aeromoça. Finn gargalhou ao ver algumas marcas de batom vermelhos no pescoço da loira, Rachel apenas arqueou a sobrancelha.
A Fabray se sentou ao lado de Kurt, segurando-lhe a mão. — Acredita agora?
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