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28 #28 Blaine se intrometendo
Notas iniciais
125 HORAS ANTES DA CIRURGIA
A família Hummel-Hudson, Rachel e Quinn ficaram em um hotel cinco estrelas, com direito à carro alugado e tudo mais, tudo pago pela Clínica de Oftalmologia Whil. Kurt estranhou de início o interesse de George em si, em pagar todas essas coisas caras para um menino desconhecido fazer uma cirurgia, mas assim que viu o tamanho do closet do hotel, ignorou suas ideias. Os quartos ficaram separados por Carole e Burt em um, Rachel e Quinn em outro (para a infelicidade da loira que tinha que dormir com os roncos da judia), Finn em um e Kurt em outro separado. Finn até sugeriu em dormir no mesmo quarto que o irmão, mas as roupas de Kurt ocuparam todo o espaço do closet, e desistiu na hora.
Não haviam saído do hotel ainda, mas Atlanta era maravilhosa. Os quartos tinham uma ótima visão para o mar e os jovens só falavam em como aquela visão era linda (irônico, não?). Kurt aproveitava o vento entrando em seu quarto, aproveitava o som tranquilo vindo do rádio enquanto lia um livro em braille que achou perto da escrivaninha de centro.
Tudo parecia bem. Kurt estava sentado em sua cama, usando roupas confortáveis (até demais... Kurt tinha quase certeza que aquela camiseta cinza que usava era de Blaine). Seu celular repousava em cima do criado-mudo ao lado de sua caixinha de música, ouvia a ruir do rádio procurando alguma estação para tocar e respirava um ar fresco que saía do ar-condicionado. Estava em paz.
96 HORAS ANTES DA CIRURGIA
– Eu poderia desconfiar... — Blaine tirou seus óculos de leitura e apertou as têmporas, fechando lentamente a tela de seu macbook.
– Aconteceu alguma coisa? — Katie sentiu o clima ruim no ar. Ainda sentada no sofá, apenas encarou o irmão.
– Kurt tem esse novo médico que recomendou a cirurgia. — Saiu de sua mesa e caminhou até Katie, se sentando ao lado da irmã. — Doutor Whil, já ouviu falar?
– Whil... George P. Whil? Eu lia alguns de seus livros para as crianças... Ele é um dos melhores, por que está tão preocupado? Kurt está em boas mãos.
– Duvido disso. — Encostou sua cabeça no peito do sofá e fechou os olhos, suspirando. — Está em toda a internet que Whil vai encerrar sua coletânea de livros sobre oftalmologia. Não discordo de você, todos os livros do cara são ótimos... Devo ter uns cinco no meu escritório.
– Mas?
– Mas eu sinto que tem algo de errado. Kurt se consultou com ele semana retrasada e quatorze dias depois ele simplesmente manda um paciente para o outro lado do Oceano porque "quer ajudar"? — Fez aspas com os dedos, sem se importar com Katie não pudendo ver. — E seu último livro ainda está sendo escrito, é sobre uma garota que não aceitava seu destino, não aceitou ter perdido a visão e fazia de tudo para enxergar novamente, de simpatias até as mais duras cirurgias...
– E você acha que ele quer usar Kurt para terminar seu livro? — Perguntou Katie.
– É horrível pensar isso de um médico tão respeitado, mas sim. Eu temo que sim. A diretoria do hospital me contou que Whil chega amanhã de manhã... Talvez eu converse com ele para saber sobre... — Katie o interrompeu.
– Blaine, você está se ouvindo? Você terminou com Kurt de um jeito horrível, não explicou que estava se mudando do país por minha causa e não atendeu as ligações de ninguém durante dois meses. Você acha que tem o direito de interferir nas decisões de Kurt? — O médico engoliu seco, não esperando essas palavras saírem da boca da irmã. — Eu sei que doeu, do mesmo jeito que doeu em mim me distanciar de Mark, mas você precisa deixar isso pra lá.
– M-mas...
– Blaine, você acha que Whil irá fazer algum mal à um paciente? Você só está com ciúmes porque Kurt está se consultando com ele, e não com você, e isso é ser egoísta. Queria que Kurt pegasse um avião, atravessasse metade do globo apenas para uma consulta com um cara que o abandonou em pleno natal?
– Por que você está sendo tão mal?
– Porque alguém precisa te dar um choque de realidade. Kurt ficará em Atlanta por cinco dias, vocês não terão a chance de conversar e sequer se ver. Por que fica alimentando essa ideia de que vocês se encontrarão e ficarão juntos novamente? — Blaine abriu a boca, mas nada saiu dela. Estava sem palavras.
Katie estava certa. Kurt estava em Atlanta apenas para fazer uma cirurgia (qual Blaine deixou bem claro que não estaria presente) e depois voltaria para Nova Iorque para fazer a segunda e última etapa da cirurgia, isso se ocorresse tudo certo durante a primeira. O médico abraçou a irmã e deixou os sentimentos voltarem, voltarem com força, precisava daquilo. Não havia esquecido Kurt, mas precisava.
72 HORAS ANTES DA CIRURGIA
Andou por aqueles corredores como se fosse uma das últimas vezes que precisasse entrar em um hospital. Sentiu aquele cheiro de luvas de borracha e estetoscópios como se nunca mais fosse senti-los. Entrou no consultório oftalmológico do Centro de Oftalmologia de Atlanta de mãos dadas com Quinn.
– Você deve ser o Sr. Hummel, certo? — Perguntou uma japonesa baixinha que recepcionava os pacientes. Quinn assentiu com a cabeça rapidamente. — Um minuto que o doutor Whil já irá lhe atender.
Agradeceram e se sentaram em um sofá confortável da sala de espera. Quinn tentou folhear algumas revistas, mas só havia panfletos sobre olhos e doação de córnea, nada do que a loira fosse gostar.
– Você acredita que sua cirurgia vai ser daqui a três dias? — Perguntou a loira enquanto mandava algumas mensagens pelo celular.
– Parece que foi ontem que tudo aconteceu. — Suspirou.
Quinn iria contar uma piada que acabara de receber por mensagem de Carl porém George Clooney na versão médico acabara de entrar na sala, com um sorriso enorme. Quinn podia jurar que terminaria com Carl por mensagem se o médico lhe desse uma pequena piscada de olho.
– Kurt, pronto para a consulta preparatória? — George caminhou até o cego.
– Desde o primeiro dia cego. — Sorriu e se levantou, acompanhado de Quinn.
O médico lentamente levou seus dedos até os olhos de Kurt e tirou os óculos escuros que o castanho usava.
– Breve você não precisará mais usar óculos de sol. — Kurt abriu um sorriso. — Bem... Na verdade, não tão breve assim porque se na cirurgia ocorrer tudo certo você terá que ficar um tempo longe de muita claridade e tomar cuidados e... — Kurt o interrompeu.
– Eu entendi a intenção da frase. Podemos entrar?
O doutor assentiu e levou a loira e o castanho até uma sala enorme, cheia de aparelhos que Quinn nem imaginava para quê serviam. Kurt se sentou na pequena maca que ficava no canto da sala enquanto George mexia em alguns papeis em cima de uma mesa. Quinn observou cada canto da sala com seus olhos.
– Esse é seu escritório? — Perguntou ela ainda olhando os certificados na parede.
– Não, é de um antigo colega de faculdade meu que acabou se mudando pra cá logo depois de terminar o colégio. Ele me emprestou para cuidar de Kurt. — Sorriu e Quinn continuou a observar as paredes e os aparelhos de perto. — Cuidado para não quebrar nada. Essas máquinas costumam ser uma fortuna.
– Estou bem. — Assentiu no momento que esbarrou em um fio no chão e caiu em cima de uma mesa com alguns protótipos de globo ocular. O médico lançou um olhar agressivo para Quinn que corou na hora e tratou de ajuntar os "olhos" que estavam rolando pelo chão. — Culpa minha.
– E de quem mais seria? — Perguntou o doutor escondendo uma risada.
Kurt deixou as mãos do médico tocarem seu rosto, trazendo certa nostalgia de um tal médico de cabelos cheios de gel e uma barba a fazer todos os dias de manhã. Suspirou e deixou a consulta continuar.
– Você se importa de eu fazer algumas anotações? É sobre do documentário pessoal que lhe falei...
– Tudo bem. — Assentiu o paciente.
– Bom, suas pupilas se dilatam no escuro e se retraem na luz. O funcionamento delas está normal, mas estão gastas e... Como posso achar uma palavra?
– Podres?
– Sim, podres! Como se fossem uma máquina que trabalha vinte e quatro horas para enxergar alguma coisa. — Kurt assentiu, se lembrando de quando o namorado (ex) lhe falara isso. — Podemos tirar o molde delas ainda hoje a tarde, tudo bem por você? Posso agendar?
– C-claro. Como é feito?
– Algumas fotografias, um colírio e uma impressora 3d são a primeira parte. Depois precisamos anestesia-lo para submissão à parte mais arriscada, que é a raspagem da córnea para termos exatamente o mesmo formato. É como se tirássemos a primeira camada e deixássemos apenas uma fina película.
– É perigoso? — Perguntou Quinn brincando com um olho de pelúcia.
– Não mais do que a segunda parte da cirurgia, que é ligar o sistema ocular com essa falsa córnea... Acho que seu antigo médico lhe contou sobre as consequências. — Kurt assentiu.
– Se não tiver problema, eu gostaria de filmar o procedimento que faremos a tarde. Tudo bem por vocês?
Após um breve "sim" George colocou um sorriso no rosto. Durante o almoço Quinn e Kurt comeram em um lugar perto do hospital, não dando muito bola para a quantidade de pimenta na comida. George enquanto isso procurava por gravadores, filmadoras e qualquer coisa que detalhasse a experiência para o futuro livro.
– Sr. Whil? — Linda, a secretária coreana do doutor bateu algumas vezes na porta.
– Sim?
– Tem um homem aí fora querendo falar com o doutor. Ele veste roupas do hospital também e se apresentou como oftalmologista chefe de todo o departamento, seu nome é Blaine Anderson II.
Whil sabia que o Dr. Anderson foi o primeiro médico de Kurt. Sabia que, por proibir o paciente de fazer a cirurgia, era porque se preocupava com a vida do Hummel (coisa que Whil não zelava tanto).
– Claro, pode mandar entrar. — Sorriu nervoso.
.:.
– Dr. Anderson. — George o recebeu com um aperto de mão. Blaine cumprimentou o médico e passou os olhos rapidamente por aquela sala, que era de um colega seu de trabalho.
– Dr. Whil. — Assentiu.
– A que devo a honra de ter o oftalmologista chefe em meu consultório em pleno horário de almoço? — Tentou parecer o mais firme possível.
– Queria conversar sobre um tal paciente, Kurt Hummel.
É claro que era sobre Hummel. Foi idiotice trazer Kurt no mesmo hospital onde seu antigo médico trabalhava. Whil havia descoberto assim que Blaine entrou na sala com os olhos desesperados procurando por algum pedaço de Kurt naquela sala, em vão. Engoliu o tremer das mãos, ignorou o frio na barriga e sorriu tranquilamente.
– O Sr. Hummel, claro.
– Eu quero trabalhar com você nessa cirurgia. — Whil se espantou. — É claro, só na parte de Atlanta.
– Desculpe, como? — Piscou rapidamente.
– Como os prontuários já dizem, cuidei de Kurt durante praticamente oito meses após o acidente, sei praticamente tudo sobre o estado dos olhos do Hummel, então gostaria de acompanhar a cirurgia, afinal, em uma operação arriscada como essa, qualquer ajuda é bem vinda, certo? — Perguntava cínico. Blaine não havia gostado daquele cara.
– T-tudo bem.
– E então, em que parte estamos? — Blaine alcançou o prontuário de Kurt na mesa e deu uma lida por cima das anotações desnecessárias do outro doutor. O médico rolou os olhos e começou a detalhes suas consultas com o paciente. Nunca gostou de trabalhar em grupo, ainda mais quando sua dupla seria possivelmente primeira pessoa a impedi-lo de realizar a cirurgia.
[...]
69 HORAS ANTES DA CIRURGIA
Kurt terminou seu almoço de frutos do mar e arrastou Quinn para longe do barman bonito do restaurante. Geez, essa menina tinha um namorado nos Estados Unidos!
– E-eu só estava pegando mais uma coca-cola... — Se desculpou e Kurt apenas rolou seus olhos.
Quinn dirigiu até o Centro Oftalmológico novamente. Kurt aproveitou a viagem para conversar com os pais e o irmão/cunhada por telefone. Kurt exigiu que nenhum dos quatro aparecesse no hospital esses dias, porque a finalidade de Quinn era essa, servir de apoio. Burt não gostou muito da ideia, mas um pouco Carole o convenceu de visitar os arquipélagos de ilhas e o mecânico logo aceitou.
Chegaram ao mesmo hospital de antes, subiram os mesmos andares pelo elevador e passaram pelas mesmas portas nos corredores. Falaram com a mesma coreana secretária de antes e se sentaram nas mesmas poltronas confortáveis de antes. Kurt sentiu um breve deja vú.
– Sr. Hummel, o doutor Whil te espera na sala de exames. — Quinn agradeceu a coreana que caminhou com Kurt até a maldita sala.
Deu alguns toques e assim que recebeu permissão para entrar girou a maçaneta, só não esperava encontrar Blaine Anderson abrindo a porta com o olhar mais tranquilo do mundo.
Kurt podia jurar que conhecia aquele perfume com um toque amadeirado, mas ignorou e entrou na sala, se sentando na mesma maca de antes. Quinn lançou um olhar mortal para o Anderson, que apenas sussurrou para Quinn manter a calma.
– Almoçou bem, Kurt? — Perguntou George terminando de arrumar as massas para o molde. Blaine ignorou o ciúmes de ver o médico chamando seu namorado (ex) pelo nome, porque tudo que conseguia ver agora era Kurt vestido em suas roupas apertadas.
– Sim. — Sorriu. — Os frutos do mar daqui são os melhores! — Blaine quase derreteu quando ouviu a voz suave de Kurt a alguns centímetros de si.
– Kurt, temos a presença de outro médico agora, ok? Ele é o oftalmologista chefe e pediu para que ele pudesse acompanhar a cirurgia, pois queria ver de perto. Acho que vou dispensar as apresentações, afinal, ele é um conhecido seu.
– Quem? — Perguntou Kurt sem ligar uma coisa à outra.
Blaine deu alguns passos ficando frente a frente com o castanho e se martirizou por não poder pegar aqueles lábios grandes nos seus. Quinn observava tudo de longe. Com tudo que Kurt havia lhe falado sobre Blaine, poderia pegar um desses bisturis que estavam espalhados pela sala e tirar os órgãos de Blaine de tanta raiva que estava, mas observar a interação dos dois era... Apagava tudo que Quinn podia fazer de mal.
O médico lentamente pegou as mãos de Kurt, que reconheceu na hora o toque. Sua primeira ação foi tirar as mãos rapidamente, mas assim que se deu conta, Blaine estava ali. Seu Blaine estava ali em sua frente, o tocando, e estava ali por Kurt... Tudo mudou.
– O-oi. — Falou Kurt quase em um sussurro.
– Oi. — Sorriu sem graça.
Whil acompanhou tudo de longe, apenas tentando decifrar o que passava entre aqueles olhares.
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