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29 #29 Eu lhe avisei sobre os riscos da cirurgia
Notas iniciais
68 HORAS ANTES DA CIRURGIA
– O-oi. — Falou Kurt quase em um sussurro.
– Oi. — Sorriu o médico sem graça.
Quinn tentou franzir o cenho, mas era quase impossível com tanta fofura à sua frente. Mesmo depois de tudo que passaram, mesmo depois de noites com Kurt tentando fazer o castanho esquecer o ex-namorado, tudo ali pareceu em vão, e ela não estava nem um pouco chateada com isso. Parecia que, não importa o que acontecesse, tudo acabaria assim.
Kurt percebeu que ainda estava de mãos dadas com Blaine e então as tirou rapidamente, tentando esconder o sorriso no rosto. Blaine deu um longo suspiro e caminhou até o lado do Doutor Whil, que parecia impaciente.
– Bom, Kurt. Precisamos que você se vista de acordo e nos encontre na sala de cirurgia em alguns minutos. Se a Srta. Fabray quiser participar da operação terá que prometer ficar quieta, e não ter nenhuma reação à sangue ou neurótica. — Complementou o mais velho.
– Tudo bem.
A loira sorriu rapidamente e levou Kurt até o vestiário. Enquanto isso Blaine e Whil conversavam com o anestesista, Paul era seu nome. O velho homem de mãos calejadas de tanto aplicar injeções tinha em mãos fortes doses de anestesia. A cama em que Kurt seria operado estava pronta, assim como todos os objetos de corte e metade da equipe de Blaine no hospital. O moreno fez questão que Sebastian participasse da cirurgia também.
– A-antes que comecemos a cirurgia... — Whil foi até Blaine. — Notei algo de interessante na sala de exames, alguma coisa entre você e Kurt. Sei que você não o aconselhou a cirurgia, mas eu sou seu oftalmologista agora e peço que, pelo menos pelas próximas seis horas, não mantenha nenhum laço com Kurt. Seja apenas o médico que observa e ajuda na operação, tudo bem?
– Sou profissional, George. — Blaine engoliu seco.
– Espero que seja.
O doutor deu as costas e saiu, indo checar se sua câmera e seu gravador estavam bem posicionados. Todos os relatos acontecidos naquela sala seriam, futuramente, usados em um livro, ou talvez um filme. A história de Anne McBell, a personagem principal do livro de George P. Whil seria baseada na vida de Kurt, já que o médico estava com problemas com a continuação da história. Kurt já havia assinado, entre os papeis com o termo da cirurgia, a autorização de publicarem sua história em um livro, e o castanho nem sabia disso. Eram dezenas de folhas em braille para Kurt ler, então decidiu confiar no médico e apenas assinar... Ele deveria ter ouvido Blaine.
– Estamos prontos. — Quinn entrou na sala de cirurgia acompanhada de Kurt. Ambos vestiam vestes azuis claras. Blaine ignorou seus pensamentos de olhar para o ex-namorado e ter fantasias com o mesmo dentro de seu consultório.
– Tudo bem. Kurt, precisamos preparar seu rosto. Venha comigo, sim? — Sebastian acompanhou Kurt até a mesa de centro.
– Deixe-me fazer isso, tudo bem Seb? — O enfermeiro estranhou, porém aceitou o pedido do chefe e foi ajudar as enfermeiras de Whil na preparação dos instrumentos.
Blaine caminhou até o castanho que tinha os olhos azuis com as pupilas bem dilatadas (e arranhadas... Arranhões daquele maldito acidente de carro). O moreno pegou em sua mão uma pequena gaze com álcool e começou a passar pela pele do castanho, percorrendo todo o rosto de Kurt.
– É um pouco gelado. — Alertou Blaine, fazendo o coração de Kurt bater mais forte e mais rápido. Não era a primeira vez que o castanho ouvia isso do seu ex-namorado. Fechou os olhos e sentia os dedos de Blaine percorrem seu rosto, enquanto sua outra mão segurava o canto de seu rosto.
O médico terminou de limpar a área da cirurgia, e antes de acompanhar Whil no procedimento Blaine levou seus lábios até o lóbulo da orelha do ex-paciente e sussurrou.
– Se alguma coisa der errado nessa cirurgia saiba que seu lindo médico estará estirado no chão com alguns olhos roxos. — Kurt gargalhou baixo.
– Acho justo. — Disse com um sorriso lindo.
Blaine assentiu e foi até o Doutor Whil, checando o que o médico tanto mexia naquela câmera fotográfica.
– Você vai filmar a cirurgia? — Perguntou com uma das sobrancelhas levantadas. — Isso é legal?
– Sim, e tenho um termo assinado por Kurt. — Revirou os olhos antes de virar e encarar o médico. — Não é porque você é o oftalmologista geral daqui que eu tenho que me sentir pressionado, amedrontado. Você me pediu para assistir a cirurgia, então quem está no comando sou eu. Deixe-me fazer as coisas do meu jeito que tudo sairá bem. — Disse em um tom cínico e saiu de perto de Blaine.
O agora Australiano já não gostava do novo médico do ex, e agora parecia ter sido a gota d'agua. Avisou Sebastian para não se comprometer muito, apenas ajudar no que precisasse e ficou no canto da sala ao lado de Quinn enquanto Kurt se deitava para iniciar a operação.
– Você não parece muito feliz... — Sussurrou Quinn.
– Essa cirurgia é uma péssima ideia. Esse médico não é nem um pouco profissional e duvido que alguma coisa aqui dê certo. Só quero ter certeza que, se algo der errado, vou estar aqui para tentar reverter. — Sussurrou sem expressar nenhuma reação.
– Você realmente gosta dele, não é?
– Mais do que você imagina, loirinha. — Sorriu para Quinn. — Mas todos temos momentos que precisamos abrir mão de algo, e eu abri mão dele.
– O-o que aconteceu naquela noite? P-por que você abandonou Kurt? — Perguntou insegura. Não sabia se Blaine responderia, mas poderia tentar.
– Katie. — Respondeu seco, sem tirar os olhos de Kurt por um instante. O castanho levava uma picada de agulha perto da orelha, anestesiando o local por completo. — E-ela se envolveu em uma briga com o ex-namorado, e nossos pais a abandonaram novamente... Ela estava prestes a desabar e eu havia prometido a mim mesmo nunca deixar Katie desmoronar. Ela precisava de ares novos, de algum lugar onde fosse ficar segura do resto do mundo. Então aceitei a oferta e vim pra cá. Seria loucura tentar trazer Kurt junto comigo, e relacionamentos à distância não duram. — Engoliu seco.
– Você já pensou em contar isso pra ele? — Perguntou surpresa.
– Não, e seria bom se você não contasse. — Suspirou ao ver Kurt piscar os olhos lentamente, com o efeito da anestesia. Desde o começo da operação Kurt não tirava os olhos de Blaine. — Parecer um monstro parece ser melhor para Kurt, ainda mais com toda essa distância entre nós.
Quinn assentiu lentamente. Blaine era totalmente diferente daquela máquina que a loira pensava que o médico fosse, ele, no fundo, tinha algum tipo de sentimentos, e eles pareciam ser muito grandes por Kurt. O moreno preferiu o ódio da pessoa que amava, apenas para ver Kurt feliz e isso significava alguma coisa, pelo menos para Quinn.
Kurt deu sua última piscada lenta e fechou os olhos. Sebastian colocou o tubo se respiração em sua boca e colocou o suspensor abrindo os olhos azuis de Kurt, desacordados. Whil deu um sorriso pequeno e começou a cirurgia, Blaine apenas observava de longe.
65 HORAS ANTES DA CIRURGIA
Fazia três horas de cirurgia. Quinn dormia discretamente apoiada na parede. Sebastian e as enfermeiras estavam exaustos, assim como o anestesista. Blaine achou que a situação estava ficando crítica. Kurt havia acordado cinco vezes nessas três horas porque a anestesia não era forte o suficiente, e isso atrapalhava todo o progresso da cirurgia. Whil suava frio, suas mãos trêmulas perto da córnea de Kurt não era um bom sinal. Piscou algumas vezes e se sentiu tonto, se afastando um pouco da mesa.
– Está tudo bem, Dr. Whil? — Perguntou Sebastian o segurando para não cair.
– E-estou bem. — Balançou a cabeça e voltou à mesa de cirurgia.
Kurt havia acabado de tomar outra dose da anestesia cavalar, o que preocupava Blaine. O molde da córnea de Kurt já estava feita, assim como o procedimento de retirar os cacos de vidro de tamanho microscópicos de toda a pupila de Kurt. Os olhos azuis sangravam pouco, o que poderia ser um bom sinal.
A mão de George alcançou o bisturi e o médico se aproximou do globo ocular do paciente com muita calma. Por mais que tentasse fingir que estava tudo bem, estava mais nervoso que todos daquela sala. Suas mãos tremiam e não sabia se conseguiria fazer aquilo direito. Fechou os olhos, respirou fundo e colocou delicadamente a ponta do bisturi sobre o olho de Kurt.
– DR. WHIL. — Gritou a enfermeira fazendo o médico dar um pulo de susto e se afastar da mesa.
Os olhos de Kurt agora sangravam em maior quantidade e os enfermeiros tomaram conta da mesa para estancar o sangramento. Blaine arregalou os olhos e correu até a mesa de cirurgia, preocupado com Kurt que tinha o rosto todo ensanguentado.
– Que merda você fez?! — Gritou fazendo Quinn dar um pulo assim que acordou.
– E-eu acho que errei milimetricamente e... — Tentou achar alguma desculpa mas Blaine apenas o lançou um olhar que poderia penetrar George e o matar, como se fossem balas de um fuzil.
O Dr. Anderson retirou imediatamente o bisturi das mãos de George e caminhou até a mesa de cirurgia, analisando a bela cagada que o outro médico havia feito. George havia praticamente perfurado as têmporas de Kurt, que precisaria de alguns pontos (bem feios e deselegantes). Sebastian olhou atentamente para o feitio preocupado do chefe.
– Hm... — Analisou mais alguns segundos. — Vou precisar da faca sete, você sabe em que parte do meu consultório está, não é Seb? — O enfermeiro assentiu. — Ótimo. E-e vou precisar de linha, agulha, muitas gazes, uma lixa flexível e uma dose de uísque.
– Pra quê a dose de uísque? — Perguntou Quinn assustada ao ver todos os médicos correndo dentro da sala de cirurgia.
– Porque vou precisar de uma dose de coragem pra fazer o que precisarei fazer. — Falou seco enquanto encarava George suar frio no canto da sala.
Sebastian demorou alguns minutos com o pequeno bisturi de Blaine, mas quando chegou a hemorragia estava um pouco controlada pelas assistentes de George. Blaine suava atrás de sua máscara, mas não tinha sequer um segundo para secar as gotas de suor que escorriam pelo seu rosto. Suas luvas estavam encharcadas com sangue (e já haviam sido trocadas algumas vezes).
Blaine tocava o rosto de Kurt com tranquilidade e se Kurt acordasse agora seria praticamente impossível retornar à esse estado da operação.
– Paul, aplique cem mililitros de anestesia no lado direito.
– Mas isso irá desregular a dosagem anterior... — George opinou, fazendo os nervos de Blaine aumentarem. O médico se virou para o outro médico que estava sentado no canto da sala e apontou o bisturi cheio de sangue para Whil.
– Você fez merda enquanto operava o meu Kurt mesmo depois de eu lhe falar que não era uma boa ideia fazer essa cirurgia tão rápido. Agora eu tenho que me colocar ao risco de tentar arrumar o que você fez, então nem ouse em abrir a boca para falar do modo que eu ajo, porque terminando aqui nós vamos ter uma conversa de homem pra homem, entendeu? — Blaine virou para o anestesista. — Cem mililitros no lado direito, por favor.
– Paul, não faça isso. — George avisou. — Você ainda está sob minhas ordens.
O anestesista deu de ombros e pegou sua agulha para preparar a dosagem de anestésico. As enfermeiras olharam arregaladas para George por alguns segundos, e depois voltaram a tranquilizar a hemorragia do paciente. O anestesista demorou algum tempo preparando a seringa, mas logo estava aplicando no lado direito do rosto de Kurt.
Quinn nesse momento estava com os olhos arregalados e suava frio. Era óbvio que, se Blaine não recomendava a cirurgia, não deveria ser uma das melhores opções a se optar. A loira deu a volta na mesa de cirurgia, ficando de frente para Blaine.
– Salve meu Kurtie, por favor. — Sussurrou.
– O sangramento sessou. — Falou Linda mais tranquila.
– Ótimo. — Blaine virou a dose do uísque vagabundo de uma vez, fazendo sua garganta arder assim que o líquido passou. — Seb, prepare a água diluída.
– V-você vai...? — Perguntou o enfermeiro assustado.
– É o único jeito. Olhe como a córnea está arranhada e danificada... — Sebastian assentiu e foi atrás do líquido. — Linda, pegue para mim as próteses mais finas que você tiver, tudo bem? E depois ligue para a Clínica de Olhos e diga que o Dr. Blaine Anderson II pediu, com urgência, aquele pacote qual estava guardando.
– Tudo sim, Dr. Anderson. — E então a japonesa sumiu da sala também.
Quinn tinha lágrimas nos olhos, e Blaine tentava esconder as suas. Era essa a parte do não recomendo essa cirurgia que ele estava falando. Um erro milimétrico e a vida de Kurt estava em risco. Não queria ver Kurt morrer em suas mãos, nunca quis operar Kurt novamente por esse motivo. Uma lágrima rolou, mas Blaine não fazia cara de choro.
Antes que Sebastian ou Linda pudessem voltar, Blaine segurou a mão de Kurt fortemente e beijou sua testa, deixando outra lágrima cair sobre o rosto do castanho.
– Blaine... — Quinn falou chorosa.
– V-vai ficar tudo bem. — Tentou não soluçar.
– Aqui. — Disse Sebastian voltando depressa.
Blaine suspirou e pegou firme no bisturi. Hesitou algumas vezes antes de começar, e só tomou coragem assim que Linda chegou à sala de operações. "Eu te amo, Kurtise" foi o que Blaine sussurrou assim que perfurou a córnea do paciente. Levemente Blaine foi recortando em volta da pequena substância gelatinosa sem deixar uma gota de sangue cair. Quinn admitiu para si mesma que Blaine era o melhor naquilo, e sabia o que estava fazendo.
Do outro lado da sala, George observava vividamente ao oftalmologista chefe operar seu paciente. O remorso começou a o preencher e ele sabia que, optar pela cirurgia e por ter seu livro completo, havia sido a pior escolha de todas.
– K-kurt está acordando. — Disse Sebastian tentando não gaguejar.
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