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Notas iniciais
Os olhos de Blaine quase perfuravam o rosto de seu pai e sua mãe. A aparência dos dois continuava a mesma, apenas algumas rugas e alguns pés de galinha, e até parecia que abandonar seus filhos fizera bem para a Sra. Anderson.
– Blainey... – Suspirou a mãe se levantando da cadeira, provavelmente esperando um abraço do filho sumido. Blaine puxou a cadeira da mesa e se sentou, ignorando totalmente a ruiva de braços abertos.
– Blaine, meu filho. – O Sr. Anderson sorriu com os olhos brilhando.
Katie percebeu a tensão na mesa. Sabia que o irmão estava ali por Kurt e por ela, e que se dependesse dele, estaria a quilômetros de distancia dali. Resolveu quebrar o gelo.
– Então... Eu estava contando pro papai e pra mamãe sobre sua faculdade...
– Fiquei surpresa ao saber que você se tornou médico. Você sempre sonhou em ser um artista, tanto como cantor ou pintor. Ainda tenho algumas telas suas guardadas. – Falou Joele animada.
– Bom, já eu, diferente de sua mãe, adorei a escolha e adorei saber que você seguiu a profissão do pai. Então você é clínico geral, o doutor Anderson júnior? – Perguntou o Blaine pai.
Sim, esse era um fato que Blaine odiava admitir. Seu verdadeiro nome era Blaine Anderson II, um fato que apenas seus pais e sua irmã sabiam. Odiava ter que carregar o nome do homem que o colocou no mundo e alguns anos depois o abandonou. Para os demais, era apenas Blaine Anderson, o único.
– Na verdade, eu sou especializado em oftalmologia. – Blaine sorriu falso para os pais. – Achei que se me especializasse em algo, poderia me dedicar mais, então escolhi oftalmologia para ajudar Katie e todos os outros.
– Blaine dá aulas voluntárias no centro de deficiência visual para crianças. – Katie falou entusiasmada.
– Mesmo? – Perguntou Joele.
– Sim... – Blaine tocou no assunto como se não quisesse conversar sobre ele. A mãe entendeu, mas resolveu mexer um pouco mais no assunto.
– Por quê? Digo, você deve ganhar bastante sendo médico, e seu tempo deve ser corrido demais para dividir entre hospital, Katie, seu namorado e o centro de deficiência visual.
– E-eu não quero falar sobre isso. – Blaine gaguejou.
– Ah, desculpe, querido. Eu só... – Katie interrompeu a mãe.
– Ele dá aulas para as crianças que os pais não conseguem acompanhar a deficiência. Crianças que agora moram em abrigos e orfanatos porque os pais as abandonaram ao saber que eram cegas. – Katie falou com orgulho e Blaine tinha os olhos vermelhos.
– Oh, Blainey... Eu não sabia...
– E Katie ajuda as crianças a desenvolverem os sentidos. Olfato, tato, criatividade para as crianças que nasceram cegas... Ela que é a artista aqui, vamos falar sobre ela. – Blaine sorriu, limpando algumas lágrimas que escorriam.
Nunca pensou que isso fosse acontecer, mas seu coração estava, pela primeira vez, completo. E de repente a presença dos pais não se tornou mais pesada ou indesejada. De repente, tudo o que Blaine sempre negou era que se encontrasse os pais, não conseguisse mais odiá-los. Estavam se divertindo em família, uma coisa que por muito tempo Blaine não sabia o que significava.
[...]
– Então você simplesmente o deixou lá com eles? – Quinn perguntou e Kurt assentiu a cabeça orgulhoso do plano que havia bolado. – Kurt, você é demais!
A loira jogou um travesseiro no castanho, que desviou, fazendo o travesseiro acertar bem no rosto de Rach.
– AI!
A morena gritou, porém Quinn deu de ombros. Era uma das primeiras vezes que convidava as meninas para um “sleepover” em sua casa desde o acidente. Kurt adorava a companhia de Blaine e de Katie, mas era um adolescente e precisava das amigas de antes. Sentia falta de conversar com Rach pelos corredores do McKinley; de colar bilhetinhos no armário de Quinn; das crises de riso com Santana durante as aulas de espanhol; ou até mesmo das broncas que Mercedes o dava.
– A brincadeira está boa, a brincadeira está maravilhosa, mas temos que tratar do grande elefante na sala, meninas. – Lembrou Santana.
– Do que você está falando? – Mercedes perguntou com a boca cheia de pizza.
– ¡Padre mío! Vocês são lerdas assim mesmo? O porcelana está namorando o médico delicioso por cinco meses. Vocês realmente não querem saber dos detalhes na cama?
– Santana! – Kurt advertiu, corando.
– Isso é um pouco pessoal, San... – Brittany completou.
– Mi hermosa, si no hay nada personal em el sexo. Eu só concordei em passar a noite nesse aqui, que por sinal está me incomodando por ter esse cheiro que ainda não decifrei o que é, talvez lubrificante anal, apenas para saber detalhes da vida sexual do Hummel para depois poder espalhar para a escola inteira se ele fica por cima ou por baixo. – Todas encararam a latina. – ¡Venga, todos ustedes le encantaria saber acerca de la vida sexual de Hummel ya que todos son frigidas y triste!
– Ela tem um bom argumento. – Mercedes interviu e encarou Kurt.
– E-eu não me sinto bem conversando sobre meus momentos íntimos com Blaine.
– ¿Entonces hay momentos íntimos? – Santana se levantou, animada. — ¿Quién está en la parte superior, que se come a quién?
– SANTANA! – Gritaram todos e a latina apenas levantou as mãos para o ar.
[...]
Blaine acordou e trabalhou com o intuito de depois do serviço ir até a casa de Kurt agradecer pelo dia anterior. Podia sentir Katie feliz, cantarolando pela casa, ou sorrindo enquanto falava com seus pais pelo telefone, e não querendo assumir, mas Blaine levantou da cama com um sorriso essa manhã.
– Bom dia, doutor Anderson. – Passou Sebastian pelo corredor. Sebastian era o enfermeiro assistente e também braço-direito de Blaine naquele hospital. Sem ele, uma cirurgia do médico provavelmente não aconteceria. Sebastian parou no corredor, estranhando o médico, e deu alguns passos para trás.
Blaine estava trocando a placa de identificação de sua sala. Onde antes estava escrito Doutor Blaine Anderson, agora uma placa com os dizeres Doutor Blaine Anderson II tomava lugar, e Blaine estava na frente com um pequeno sorriso nos lábios.
– Me dá a liberdade de saber o porquê da mudança repentina?
– Porque hoje é um novo dia. – Blaine caminhou até Sebastian e ensaiou uma dança com o enfermeiro, que segurava a barriga de tanto rir.
– São quase seis horas. Você almoçou? – Perguntou receoso.
– E eu lá tenho tempo de almoçar? Acabei de atender o Sr. Holowitz. Se ele continuar se recusando a usar óculos, irá perder a visão logo logo.
Blaine estava inacreditavelmente de bom humor naquele dia.
– Então creio que posso te convidar para almoçar, certo?
– Certo! Só vou pegar minhas coisas, tirar essa roupa branca com cheiro de remédio e nos encontramos no saguão. Que tal?
– Você tem quinze minutos.
Blaine assentiu e Sebastian saiu com um sorriso enorme estampado no rosto. Adorava a companhia do chefe, adorava as piadas e a diversão e passar alguns minutos a mais com o Anderson não era algo desagradável.
Seguiram até o restaurante que ficava a algumas quadras do hospital. Blaine agora vestia roupas adequadas à de Sebastian. Caminharam até o restaurante e se sentaram em uma mesa afastada.
O médico ficou surpreso com o convite do funcionário, porque as vezes que conversavam era apenas sobre trabalho, ou um breve “me passe o bisturi”. Já Sebastian tinha assuntos mais sérios a tratar com o moreno, apenas não sabia como tratar deles, afinal, estava há muito tempo escondidos.
– Você não acha estranho segurar uma faca depois de uma cirurgia? Quisera eu que ela cortasse tão bem como um bisturi... – Brincou Blaine, fazendo Sebastian gargalhar.
– Apenas se estivermos falando de qualquer coisa que não seja o Sr. Marques.
As piadas internas entre os dois eram a melhor coisa que Sebastian podia ter. Ele era um menino solitário. Sua casa sempre foi uma bagunça e sua mãe nunca lhe deu atenção desejada, e na faculdade de enfermagem se saía muito bem nas notas, porém não com as pessoas. Blaine era o mais próximo que Sebastian tinha de um amigo.
– Depois de um longo dia de trabalho, nada melhor que relaxar. – Sebastian tomou um gole de sua cerveja. Não apreciava o gosto, era apenas para tomar coragem.
– Eu que o diga! – Blaine repetiu o ato do amigo. – Faz tempo que não saio para almoçar com um amigo depois do expediente, mesmo que o almoço seja meia porção de batatas fritas e o amigo seja meu enfermeiro chefe.
Sebastian riu.
– Eu devo querer me consultar com você algum dia... – O coração de Sebastian bateu forte.
– Por quê? Algum problema com seus olhos? – Perguntou o médico levando uma batata até a boca.
– Acho que sim... Eu não consigo tirá-los de você...
Sebastian não soube dizer se Blaine não entendeu a cantada, ou se fez como se não tivesse entendido, mas a gargalhada que soltou fez as pessoas restantes naquele restaurante (que mais parecia um bar) os encararem.
– Essa foi boa. – Limpou algumas lágrimas que caíam de tanto rir. Sebastian tentou não fazer careta, mas era quase impossível. Tanta coragem jogada por água abaixo. – E-espera, era sério isso?
– Meio que sim, até você começar a rir... – Blaine encarou o enfermeiro com a maior cara de espanto possível. – Foi a melhor coisa que eu consegui bolar desde quando saímos do hotel.
– Mesmo? – Blaine sorriu. – Bom, eu infelizmente tenho que recusar... Eu meio que tenho um namorado.
Sebastian entendeu. O doutor Anderson era muito reservado, e Sebastian era muito burro. Devia ter perguntado sobre algum relacionamento na vida do médico antes de tentar se jogar nos braços (e que braços) do Anderson filho.
– Meio que? – Tomou um gole de sua cerveja, pronto para ouvir a história de Blaine.
– Ainda não conversamos sobre isso, mas faz cinco meses então... Creio que sim.
– Cinco meses e vocês não conversaram sobre isso? – Sebastian engasgou, o que fez Blaine pensar.
Nunca hesitou em chamar Kurt de namorado, nunca pensou em sair com outros caras (não que Blaine fosse assim, mas poderia se quisesse) e nesse tempo nunca se atraiu por outra pessoa que não fosse Kurt. Amava o castanho, disso ele tinha certeza, amava se sentir bem, amava sentir o cheiro do shampoo de Kurt e amava ouvir suas piadas (por mais esforçadas que fossem) sobre o trabalho, sobre braile... Sobre qualquer coisa.
– Sim, pensando bem... Ele é meu namorado. – Falou orgulhoso, tomando a última gota de cerveja que havia ficado em sua garrafa.
– Então o que você está fazendo tomando cerveja em um bar com um cara que você vê doze horas por dia, enquanto seu namorado está sozinho?
Blaine pensou rápido e Sebastian apenas assentiu, o deixando ir. Blaine esbarrava nas pessoas na rua tentando chegar até seu carro. Não havia sido um bom namorado com Kurt, obvio que não. Dirigiu até a floricultura mais próximo e lembrou-se de não chegar perto dos lírios. Lírios lembravam Kurt do acidente. Comprou uma rosa amarela e uma vermelha, nem se preocupou em escrever um cartão e foi até sua casa. Seus pensamentos nem cogitaram em dirigir até a casa de Kurt.
Blaine passou horas na cozinha inventando algo novo, algo revolucionário (como se fosse um mestre cuca ou algo). Sorriu satisfeito com o resultado.
– Estou saindo e não durmo em casa. – Gritou Katie descendo as escadas.
– Ótimo, ia te pedir isso mesmo! – Blaine abraçou a irmã assim que a morena chegou à cozinha.
– Você cozinhando, cheiro de rosa no ar, eu tendo que dormir em casa... Noite romântica para Kurt? – Blaine concordou com um sonoro “uhum” e Katie abriu um sorriso enorme. – Acontece que você teve a mesma ideia que Mark.
– Então vocês estão sério mesmo?
– Sim. – Falou orgulhosa. – Devíamos jantar qualquer dia desses. Eu, você, Mark e Kurt.
– Quem sabe papai e mamãe possam vir também.
Katie abraçou o irmão o mais forte que pode. Não chorou porque o choro é algo particular de quem está triste, e a sensação que sentia era qualquer uma, menos tristeza.
– Promete que vai se cuidar? Qualquer coisa que ele tentar e você não quiser, você me liga e eu vou correndo até a casa daquele desgraçado. – Falou protetor.
– Ele nem fez nada e você já o odeia assim? – Gargalhou. – Acredite, ele não irá tentar nada... que eu não queria. – Blaine arqueou a sobrancelha, mas logo relaxou. – Se cuida, e boa sorte.
– Te amo, pandinha.
E Katie saiu, indo até Mark. Blaine vigiou os dois por um tempo, mas logo os deixou com sua privacidade e voltou a fazer o que pretendia. Cozinhou mais um pouco, andou um pouco pela casa caçando as coisas que havia preparado e quando tudo estava em seu devido lugar, se lembrou de que o principal não estava ali: KURT.
Ligou para o castanho e o chamou para casa. Kurt aproveitou que Finn estava saindo de casa e pegou uma carona com o irmão. Prometeu que ligaria caso acontecesse alguma coisa (exatamente como Blaine e Katie. Era praticamente como uma coisa de irmãos; estariam sempre lá um pelo outro).
Blaine foi receber Kurt na porta.
– Boa noite. – Sorriu o médico colando seu corpo com o de Kurt.
– Boa noite.
Suas bocas se colaram ali mesmo, na parte de fora da casa. Alguns vizinhos perceberam a troca de carinho entre os dois, mas acharam adorável. Quanto tempo não viam Blaine Anderson com alguém? Quanto tempo não viam Blaine Anderson feliz?
O beijo terminou depois de alguns segundos, mas mesmo assim, ambos estavam sem ar.
– O que aconteceu de tão urgente para me tirar de casa às oito da noite? – Kurt perguntou divertido. Blaine apenas segurou sua mão e o levou até a varanda da casa.
Puxou a cadeira para Kurt se sentar. O castanho sentia diversos cheiros, um deles foi entregue em suas mãos. Duas rosas. Não sabia diferenciar uma da outra, mas sabia que eram diferentes uma da outra, e talvez fosse isso que deixasse seu cheiro ainda melhor.
– Esse outro cheiro é o que estou pensando? – Perguntou com um sorriso.
Blaine apertou o botão de play do radio. Não havia música, apenas o cantar de alguns passarinhos.
– Blaine... – Kurt estava curioso, demais.
– Eu não pude comparecer ao seu piquenique... – Blaine abriu uma cestinha que estava sobre a cadeira e estendeu uma toalha vermelha listrada sobre a mesa. – E prometi que lhe faria um... – O médico distribuiu os pratos. – Como trabalho toda manhã e só saio quando o sol já se pôs, seria meio impossível te levar para o parque a essas horas. – Gargalhou, colocando os copos sob a mesa.
– Seria loucura.
– Não é?! Com tantos ladrões espalhados por aí... – Fez Kurt gargalhar. – E como um bom namorado, eu fiz um piquenique noturno. Até trouxe os pássaros...
– Estou vendo... – Kurt tinha um sorriso bobo nos lábios.
– E meu namorado merece tudo do bom e do melhor. E como ele já disse uma vez que adora minha comida, me arrisquei mais uma vez em fazer o maior doce de piquenique de todos.
– Não me diga que...
– Não. Eu tentei fazer o doce de abóbora, mas isso só me rendeu duas panelas queimadas e talvez um dedo também... – Kurt gargalhou gostoso. – Então, com o que sobrou, seu namorado lhe fez geleia de uva.
– Geleia de uva? –Perguntou divertido.
– Foi o melhor que eu consegui cozinhar. – Sentou e segurou a mão de Kurt. – Mas prometo que vou praticar mais alguns pratos na cozinha... Apenas para agradar meu namorado. – Sorriu.
– Você repetiu a palavra namorado muitas vezes... Está tentando provar alguma coisa, ou...?
– Não. – Sorriu para si mesmo. – Eu apenas gosto de lembrar que você é meu namorado.
– Ok então. – Kurt sorriu também.
– Ok. – Blaine sorriu e encarou o castanho que tinha os olhos iluminados pela lua. — E talvez você queira dormir aqui novamente...
– Ahá! Eu sabia que isso tudo levaria a alguma coisa. – Kurt gargalhou fazendo Blaine rir também. – Mas estou um passo a frente de você. Já conversei com meus pais. Hoje sou todo seu.
– Se tudo acontecer como nos meus planos, tenha certeza que sim.
E com um sorriso malicioso, fizeram o piquenique noturno e se deliciaram com o sanduíche de geleia de uva, apenas abrindo o apetite para o que viria no decorrer da noite.
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