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17 #17
Notas iniciais
Blaine segurou a mão de Kurt e o começou a subir a escada — desnecessária na opinião de Kurt. Durante aquela pequena caminhada o silencio se estabeleceu no local. Entraram no quarto de Blaine e quando a porta foi fechada, ambos começaram a suar frio. Blaine suava por medo e ansiedade do que Kurt poderia falar, tinha medo que o castanho terminasse o namoro. Já Kurt estava suando de nervosismo. Durante o caminho ensaiara com Finn todo o diálogo, mas ao ouvir a voz de Blaine, e sua mão sobre a dele, tudo o que mais queria fazer era esquecer toda essa história e perdoá-lo.
– Então... — Quebrou Kurt o silêncio.
– Não, espera. — Blaine puxou Kurt para se sentar na cama junto com ele e segurava suas mãos firmemente. — Antes que você possa falar alguma coisa, tenho que te pedir enormes desculpas... O hospital acabou ficando lotado e eu não pude sair... Sei que deveria ter ligado, ou pelo menos tentado... — Abaixou a cabeça.
– Deveria. Sei que é egoísmo pedir para você largar um paciente quase morrendo pra vir ter um encontro comigo, mas eu sou egoísta sim. Era o nosso dia, um de tão poucos que temos desde que começamos a namorar e... Se isso é oficialmente um namoro, eu exijo saber aonde estamos indo, e pra onde isso está levando. Não é comum um garoto como eu nessa cidade namorar um cara como você, e ainda mais nessa minha situação...
– Sua situação? — Perguntou Blaine um pouco irritado.
– Cego. Incapacitado de fazer muitas coisas que você poderia fazer com outra pessoa! Esse sou eu, esse é meu lado inseguro que está gritando cada vez mais. — Kurt falava rapidamente, como se tivesse tirado um peso da consciência. A conversa que tivera no carro com Finn era bem diferente dessa, mas a essa altura, Kurt nem precisava de falas decoradas. Tudo fluía.
– Por que você faz isso? — Blaine soltou as mãos do castanho.
– Isso o quê?
– Se rebaixa. Desde que te conheço sempre foi "porque comigo? um garoto como eu não faz essas coisas, ou um garoto como eu não ganha um namorado como você". Você é exatamente igual as outras pessoas, Kurt. Do jeito que uma pessoa consegue escrever um poema lindo, e outra não. Do jeito que uma pessoa consegue dançar maravilhosamente bem e outra não, uma pessoa consegue enxergar e você não, mas isso não é uma condição. É apenas algo!
– Minha insegurança é algo pra você? Durante dias tive que ouvir os imbecis da minha escola gritando na frente da minha casa coisas como "que pena que você não morreu naquele acidente", e pra você, minha insegurança é apenas algo? — Blaine engoliu seco. — Pode parecer estranho, mas ficar cego, nessa situação, foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu conheci muita gente, passei por muita coisa, e conheci você, mas parece que estou prestes a te perder. — Blaine levantou uma das sobrancelhas. - Eu sei sobre Atlanta.
– V-você sabe? O que você sabe?
– Sei que eles te ligaram, e que é uma honra ter um médico jovem e conceituado como você no hospital deles. Sei que não vão sossegar enquanto você estiver preso à essa cidade... a mim. — Sussurrou no fim.
– Você acha que eu deveria ir? E deixar tudo que construí aqui pra trás? — Blaine segurou as mãos de Kurt. — É claro que Katie iria comigo, eu lá sou louco de deixar ela sozinha... — Sorriram. — Mas... Eu tenho amigos aqui, uma carreira maravilhosa e tenho você.
O silêncio se formou na sala.
– Você conversou com eles? — Kurt quebrou.
– Não, estava os evitando até achar um jeito de te contar... Katie me falou que a direção geral do hospital de lá telefonou dizendo que viajaria pros Estados Unidos e que me fariam uma visita mês que vem.
– Eu não quero que você vá, estou deixando isso claro. Não gosto de mentiras e acho que elas estragam um relacionamento, mas também não posso exigir que fique. — Kurt deixou claro. — Você tem seus sonhos, eu tenho os meus... Seria egoísta.
– Há alguns minutos você se auto-intitulou egoísta. — Blaine sorriu, chegando mais perto de Kurt.
– Viu? É por isso que eu tenho que escrever um roteiro e pedir pra você segui-lo da proxima vez, senão eu mesmo acabo me perdendo em uma deixa. — Riu.
– Kurt, eu quero tanto ir... — Suspirou, encostando a cabeça no ombro do namorado. — Mas se isso acontecer vai ser em cerca de meses. Podemos simplesmente esquecer isso um pouco, e começarmos a curtir nós mesmos? Você está certo. Eu vivo enfiado naquele hospital e não tenho tempo nem pra mim mesmo, afinal... — Levou a mão de Kurt ao seu rosto. — Nem a barba tenho tempo de fazer. Mas prometo me dedicar.
Kurt tentou esconder um sorriso bobo nos lábios — adorava caras de barba.
– Tudo bem... Mas prometa que iremos conversar sobre isso quando não der mais pra evitar. — Kurt suspirou, aliviado.
– Prometo. — Entrelaçaram seus mindinhos.
Kurt sorria, mas ainda estava preocupado. Por quanto tempo esconderiam aquele assunto e fingiriam que nada havia acontecido? Porque afinal, uma hora ou outra, Blaine teria que se despedir.
– Você falou que queria conversar sobre meus pais. — Blaine lembrou o castanho, que novamente, sentiu o peso em suas costas.
– Ah, sim. Vou ser totalmente breve, tudo bem?
– Claro.
– Eles voltaram e querem ver você. — Blaine levantou uma das sobrancelhas. — Katie falou com eles, contou sobre vocês e eles parecem bem arrependidos. E eles aceitam você, nós! Eles querem voltar.
Blaine ficou com o olhar vago, certamente se lembrando dos bocados que passou com a irmã. Ela era nova, mal se lembrava da dificuldade que passara, mas já Blaine, tinha em mente tudo que havia acontecido. Ficou estático por alguns minutos, sem motivos. Lembrou de tudo que queria falar com seus pais quando os reencontrassem, mas as palavras haviam fugido de sua boca.
– Eles procuraram Katie? — Falou seco, depois de alguns minutos.
– Sim. Mas não é culpa dela ter cedido, Blaine. Ela é uma garota e não teve a presença da mãe e nem o suporte do pai com essa doença. Você acha que eu estaria bem desse jeito se meu pai tivesse morrido naquele acidente? Ou se eu não tivesse o apoio que ele me deu? E ela...
– Pare de falar, Kurt. — Blaine falou seco, afinal, precisava de um momento depois da notícia ser jogada em sua frente como uma bomba. CABUM.
– Leve o tempo que precisar. — Falou calmamente.
– Você acha que vou simplesmente abrir meus braços e abraçar aquelas pessoas que são duas desconhecidas pra mim? — Seus olhos se encheram de lágrimas, e Kurt não precisava enxergar para saber. — Eu passei anos cuidando da minha irmãzinha, com ódio deles e do nada eles aparecem e querem que sentemos na mesa e jantemos como uma família comum? — O coração de Kurt se quebrou. Sentia a raiva e o abandono na voz do namorado. — E-eu não consigo, Kurt. Eles são hipócritas de nos procurar depois de tudo isso. E falar que nos aceita? Eles nunca me aceitaram do jeito que eu era. Eles me chamavam de aberração durante o jantar, e no dia de "traga seus pais no colégio" eles não apareciam por vergonha de mim. Isso é o amor que eles dizem hoje sentir por mim? — Blaine soluçava agora, enquanto as lágrimas caíam em sintonia. Kurt o apertou em um abraço firme, deixando Blaine descansar na curva de seu pescoço.
– Eu sei que não posso entender o que você sente, mas você também não pode entender o que Katie sente. Ela sempre quis uma mãe, não quis? — Blaine assentiu, ainda afundado no abraço apertado do outro jovem. — Então dê à sua irmãzinha que você tanto zelou uma. Eu acho que você deveria os dar uma chance, para mostrar que não precisou deles, e que talvez, não precise agora. Ou para perdoá-los. Apenas... fale com eles. Por mim. Nunca foi bom guardar ódio de ninguém. — Falou sinceramente.
Blaine saiu do abraço com um sorriso fraco nos lábios, que lentamente se colaram com os do Kurt por poucos segundos.
– Tudo bem. Só porque você está pedindo, e porque eu sei que quando Katie se tranca no quarto é de saudades deles. O que talvez só aumente mais meu ódio por eles.
Kurt se levantou, puxando Blaine para outro abraço.
– Então estamos bem...? — Perguntou Blaine com a voz abafada pelo choro ainda. Se odiava por ter chorado na frente do namorado, não sabendo que Kurt tinha adorado ver a parte sensível do médico, que até então, tinha sido tipo um robô quando se tratava de sentimentos.
– Você ainda me deve um piquenique, mas sim, estamos bem. — Sorriram. — Agora vamos descer, porque sua irmã deve estar achando que estamos fazendo outra coisa aqui no quarto.
Blaine sorriu maliciosamente. Segurou a mão de Kurt e o levou até a escada, aonde desceram e encontraram Katie e Finn conversando, que quando viram o casal soltaram um sorriso malicioso. Blaine ignorou e convidou Kurt para tomar café. Finn foi pra casa depois disso, já que Blaine prometera que levaria Kurt quando o castanho quisesse ir embora, e então ficaram conversando enquanto passava um documentário na TV sobre morsas, ou monucleose. Ninguém estava prestando atenção de qualquer jeito.
Blaine contou para Katie que daria uma chance para seus pais e a morena se encheu de emoção, pulando nos dois rapazes, explodindo de alegria. Almoçaram lasanha feita por Kurt e auxiliada por Blaine (que acabou deixando tempo demais no forno, depois de teimar com Kurt que a receita dizia 45 minutos, e não 30). Katie foi dormir cedo, assim que o sol foi indo embora. Precisava acordar cedo no outro dia pois tinha palestra, e com um beijo na testa de ambos os garotos subiu as escadas e se encontrou no sono profundo em alguns minutos.
– É, hoje foi um dia produtivo. — Suspirou Blaine desligando a TV.
– Quem diria que descobriríamos que uma morsa pode ser mais forte que um leão e mais pesada que um elefante... — Zombou Kurt de Blaine, que adorou o documentário.
– Chato.
Zombou, puxando Kurt pela mão e o fazendo levantar, ficando a centímetros do maior. Sorriram.
– Você está apaixonado por mim. — Disse Blaine olhando nos olhos brilhantes (e vagos) de Kurt. — E muito.
– Você que está apaixonado por mim. Não consegue ficar um minuto sem me tocar... — Se referiu à Blaine que tinha as mãos na cintura de Kurt.
– Realmente, tenho que concordar com você...
Blaine sorriu e puxou Kurt, colando seus corpos. Mas foi Kurt quem quebrou o espaço entre as bocas, que agora estavam coladas em um beijo calmo e molhado. Kurt podia jurar que estava voando, sem os pés no chão. Durante os beijos Blaine deixava escapar alguns gemidos, o que deixava aquele momento ainda mais íntimo. As mãos de Blaine deslizaram da cintura até o quadril, e levemente chegaram até a bunda de Kurt, que agora gargalhava.
– Qual o motivo da graça? — Falou ofendido. Era o primeiro passo "sexual" que tomava na relação, e agora Kurt estava rindo?
– É que... — Pausou para retomar o fôlego. — É que eu não estava esperando... E de repente foi "whoa, tem um garoto com as mãos em mim". Me desculpa.
– Tudo bem...
Blaine ficou com um pé atrás, mas voltou a beijar Kurt com a mesma intensidade que antes. Suas mãos estavam na cintura, mas Kurt ainda gargalhava durante o beijo, o que fez o moreno ficar um pouco irritado.
– O que foi? Minhas mãos estavam bem longe dessa vez!
– É que eu lembrei de antes... — Gargalhava baixo.
– Ah, meu deus. — Se rendeu, levando as mãos ao ar. Se jogou no sofá. Kurt repetiu o ato e abraçou o namorado, que agora ria do acontecido.
Os olhos de Blaine ligeiramente passaram sobre o relógio em cima da lareira da sala, o que o deixou preocupado. O tempo passara muito rápido quando estava com o namorado. Namorado. Namorado. Namorado!
– Está tarde. Que tal eu te levar pra casa agora?
– Que tal eu dormir aqui hoje? — Disse Kurt firme.
Blaine ficou surpreso com a atitude do castanho.
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