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16 #16
Notas iniciais
Hoje era um dia especial. Kurt contou com a ajuda de Quinn e Katie para montar um formoso piquenique no parque, com alguns quitutes e mimos para seu namorado. Era bom de vez enquanto jogar todas as incertezas e dúvidas pro ar e tentar fingir que sua vida era perfeita, pelo menos aos olhos dos que vêem de fora. Havia combinado com Blaine de se encontrarem no parte (sem citar o motivo, claro). As meninas foram embora e deixaram um Kurt sentado em plena grama, ouvindo o canto dos pássaros e os gritos das crianças que brincavam ali perto. A brisa do começo de outono começava a bater em seu rosto e o sorriso esperançoso se abria no rosto do castanho. Esquecer aquela incerteza e aquela insegurança foi uma ótima ideia.
Enquanto isso, no hospital o clima era bem diferente. Enfermeiras corriam pelo corredor tentando salvar a vida de algum paciente. O barulho dos passarinhos da janela eram substituidos pelo barulho das macas sendo empurradas e os desfibriladores que marcavam a frequencia cardíaca de algum doente.
Blaine corria de uma cirurgia para a outra, sempre olhando no relógio. Infelizmente o hospital estava cheio e alguns médicos não haviam chegado, fazendo o serviço de Blaine dobrar. O oftalmologista sorria ao ver sua última cirurgia do dia finalizada, e em seu escritório deixava o jaleco branco e pegava suas chaves.
– Doutor Blaine, Doutor Blaine. — Disse a enfermeira apavorada assim que encontrou o médico quase entrando no elevador.
– O que aconteceu? — Perguntou assustado.
– A emergência acabou de lotar... — Deu uma pausa para respirar. — Aconteceu um acidente no portal da cidade envolvendo dois ônibus e trouxeram todos os feridos pra cá... O dr. Sant e o dr. Hans não estão dando conta dos curativos e perguntaram se o sr. não poderia ajudá-los. — Disse tudo de uma vez, apressada.
Blaine suspirou, deu uma olhada no seu relógio de pulso e assentiu lentamente com a cabeça, e pelo corredor voltava o herói que iria salvar mais algumas vidas por hoje, como se as que já havia salvo não fossem suficientes. Blaine era, sim, um herói, mas sem capa, apenas com seu jaleco branco e seu estetoscópio.
[...]
Kurt suspirou, e pelo silêncio do parque e das crianças, algo lhe dizia que já era hora de ir para casa. Esfregou seus olhos inúteis e tateando foi guardando todo o banquete em sua cesta de palha velha. O relógio avisava que era seis horas e já começava a escurecer, e pela estrada abaixo descia um garoto cego, sem bengala e sem cão-guia, apenas com seus instintos e sua mágoa de ter levado um bolo em seu aniversário de namoro. Blaine deveria ter um bom motivo, pensava o castanho.
O parque não era longe de sua casa, para a sorte do castanho. Porém o garoto nem precisou chegar em casa. Ouviu um carro parar ao seu lado e suspirou. Se fossem assaltantes, a única coisa que poderia levar era sua cesta com pão e geléia (não mais frescos a essa altura do dia), e se fossem arruaceiros prontos para o espancar, bom... Kurt não tinha muito mais a perder. Sentiu uma mão em seu ombro que o fez gelar.
– Por que você está sozinho, filho?
O castanho apenas desabou em um abraço no velho pai. Em um abraço apertado entrou na velha van e logo estava em casa, de banho tomado, roupas limpas e em sua cama, sozinho, mas seguro. Pensou inúmeras vezes em pegar o telefone e ligar para Blaine, pedir uma satisfação, ou não. Aceitaria qualquer desculpa esfarrapada, porque se fosse um super herói, sua kriptonita seria Blaine. Apenas deitou-se em seu travesseiro e dormiu, porque ultimamente o sono era seu refúgio.
Acordou com gritos vindos da sala.
– Mas Sr. Hummel, me deixe explicar. O-o hospital...
– NÃO, BLAINE. Agora não. Eu encontrei meu filho deficiente visual vagando sozinho pelo bairro, indo caminho contrário de minha casa sozinho, e que quando ouviu meu nome começou a desabar em lágrimas. O que você quer que eu pense? Que você é uma boa influencia pro meu filho???
– E-eu cometi um erro. Apenas um, e foi por um motivo nobre.
– Você não pensou em ligar? Deixar um recado com Carole, Finn, ou até mesmo eu? Ou o senhor doutor tem a vida mais ocupada que a de um simples mecânico para dar uma ligação? — Burt parecia irritado, e Kurt ficou preocupado (apesar de ter gostado de ouvir seu pai o defender). — Venha amanhã, e converse com Kurt.
E logo o barulho de porta se batendo foi escutado. Kurt suspirou e caiu no sono novamente.
Blaine chegou em casa praticamente chutando todo o lugar. Cadeiras e estantes que estavam em seu caminho agora ficariam fora de ordem. Blaine estava com raiva, não de Kurt, nem Burt, mas de si mesmo. Não poderia desistir de sua carreira, mas Kurt era importante e precisava de si.
– Quem é? E-eu tenho uma arma. — Apareceu Katie no topo da escada, assustada com os barulhos, segurando um cabo de vassoura.
– Está tudo bem, Pandinha. Sou eu. — Disse suspirando com as mãos na cintura.
– O que aconteceu?
– Eu sou um idiota, e foi isso que aconteceu.
– Você estragou tudo, não estragou? — Pelo suspiro que conhecia, Blaine havia assentido com a cabeça. A irmã caminhou até o irmão mais velho e o abraçou. — Você pelo menos aproveitou o piquenique?
– Era um piquenique? — Perguntou emocionado, fazendo a irmã o soltar.
– Você nem chegou a ir??!
– Não, e-eu...
– Você é um idiota.
Deixou o irmão sozinho na sala e voltou para seu quarto. Poderia imaginar o que Blaine havia estragado, afinal, era Blaine, e quando o assunto era Blaine, era fácil de deduzir que o moreno estragaria tudo.
Blaine suspirou e esperou um novo dia chegar, um novo dia que viria com um novo clima no ar, porque aquele estava péssimo.
Era de manhã e o café estava servido. Algumas panquecas (preferidas de Katie) e suco de abóbora (qual Katie não suportava). Os dois sentados na mesa, frente a frente, sem poder conversar nada porque Blaine sabia que se abrisse a boca, receberia um corte da irmã.
– Abóbora? Você está brincando com a minha cara! — Katie cuspia o suco novamente no copo, fazendo Blaine cair na risada. — Você quer conversar sobre ontem?
– Não. — Deu um gole do suco. — Q-quero dizer, sim, mas só depois que eu conversar com Kurt. Acho que lhe devo uma satisfação, ou sei lá o quê. E-eu nunca fui bom em romance, sabe?
– Se fosse, Carl ainda estaria com você. — Blaine mostrou a lingua para a irmã, que conhecia os atos de Blaine certinhos. — Apenas falei a verdade.
Blaine sorria ignorando a irmã, quando a campainha tocou.
– Você está esperando alguém? — Perguntou Blaine.
– Não.
– A não ser que seja Mark... — Blaine gargalhou e caminhou até a porta. — Ele tem vindo muito aqui ultimamente, sabia, mocinha?
– Eu tenho idade suficiente para namorar, se é isso que você quer saber. — Ignorou o irmão e tomou um gole de suco, se esquecendo que era do sabor que odiava. — Meu Deus, Blaine, você gosta mesmo desse suco?
Blaine gargalhou e alcançou a porta, abrindo sem sequer olhar pelo olho mágico. Seus olhos brilharam ao ver Kurt na porta o esperando, e um sorriso se abriu. Porém o mesmo sorriso se foi quando percebeu que Kurt não estava com cara de muitos amigos.
– E-entre, Kurt. — Disse com as mãos suadas.
Kurt caminhou até o meio da sala e se virou, como se pudesse realmente enxergar Blaine com medo. O moreno caminhava lentamente até Kurt, mas parou no meio do caminho quando percebeu que seria rejeitado se tentasse algo.
– V-você veio sozinho?
– Vim com Finn. — Falou firme. — Precisamos conversar.
– S-sim. Eu iria na sua casa depois do turno no hospital. O que aconteceu ontem foi um impervisto, e-eu- — Kurt o interrompeu.
– Não somente sobre isso. Sobre tudo.
– Tudo?
– Sobre ontem, sobre sua viagem para Austrália e sobre seus pais.
Blaine engoliu seco.
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