Blam?
1 Prólogo
Parecia um sonho. E talvez tivesse sido, durante algum tempo da minha vida.
Eu estava deitado em uma cama confortável, coberto por lençóis brancos, em um quarto desconhecido, inteiramente novo. Não conseguia mover meu braço esquerdo, porque havia algo pesado sobre ele, mas a cabeça eu conseguia, e foi com um movimento simples que me voltei na direção da janela. O sol de uma manhã que começara já há algum tempo jorrava claridade para dentro do lugar, enquanto uma brisa fraca sacudia cortinas finas e alaranjadas, com serenidade. O céu não estava azul, mas branco, ou talvez fossem os meus olhos que ainda não estavam acostumados com a claridade.
Havia uma cômoda em frente à minha cama e, sobre ela, uma televisão. Desligada. Nem eu nem ele quiséramos barulho durante a noite, porque distrações eram, como seu próprio nome dizia, distrações, e não queríamos nos distrair. Não com a televisão. Não com a programação fraca e pouco produtiva da TV aberta de uma madrugada de domingo. Nem com a da manhã.
No chão, ao meu lado, eu via jogada uma camiseta, branca, sem estampa. Era minha. Um pouco além, um casaco de tricô, que eu vestira na noite anterior porque minha mãe acreditava que fosse fazer frio. Não fez, mas a noite estava fresca, e o casaco cumpriu sua função. Ao seu lado, um jeans – o meu jeans. Enfiado nele, uma cueca comum, leve como um short, de uma cor que estava perdida entre o marrom e o laranja. Meus sapatos, ao contrário do restante das roupas, estavam bem organizados no chão, unidos, guardando também minhas meias. Foram as únicas peças que eu tive um cuidado especial para tirar na noite passada.
Um pouco mais ao lado, era possível ver uma segunda camiseta, essa um pouco mais descolada, sem estampa, mas com uma coloração azul que se assemelhava muito aos muitos nuances do mar. Ao lado dessa, um casaco de couro, de aspecto caro, e eu acreditava que fosse mesmo. O jeans próximo a ele era muito parecido com o meu, e eu poderia até confundi-lo, se não houvesse uma cueca boxer branca enfiada nele – eu não tinha nenhuma cueca boxer. Os calçados estavam fora de vista, talvez do outro lado da cama, do lado dele da cama.
Eu nunca havia estado em um motel, mas ele já. Segundo o que dissera, só era preciso ser maior de dezessete anos e ter um documento de identificação para alugar um quarto como aquele por uma noite. Arrumá-lo foi tão fácil quanto ele prometera, mas os instantes que precederam a nossa entrada foram, para mim, difíceis.
Porque eu ainda me sentia inseguro. Perguntava-me se ele acharia o meu corpo disforme ou se o incomodaria que eu não estivesse com a depilação em dia. Perguntava-me se ele se importaria quando se desse conta de que eu mais baixo, enquanto ele era praticamente um poste. Perguntava-me se ele ainda me quereria quando eu estivesse nu, e o que eu faria a seguir. Além dessas, eu tinha várias outras questões sobre o futuro, mas a maioria delas foi se respondendo no decorrer da coisa, enquanto as horas da noite iam passando e a cidade de Nova Iorque mergulhava em silêncio.
Ele tinha iniciativa e foi o primeiro a avançar. Invadiu minha boca com sua língua enquanto sua mão, de dedos finos e compridos – demasiadamente compridos –, apalpava cada centímetro do meu ser. Apertava meus mamilos. Cravava suas unhas nas minhas costas, na minha bunda. Às vezes, sua mão me segurava pela mandíbula, como se para refrear qualquer ímpeto meu de fugir do beijo. Não que eu quisesse.
E eu não precisei tomar muita iniciativa, porque ele sabia bem o que queria. Quando quis que eu engolisse seu pau, um membro comprido envergado para cima, encoberto por poucos pelos, com uma cabeça convidativa, guiou-me pelo queixo até ele e forçou sua entrada. Não me senti ofendido, porque era por isso que eu estava ali. Querendo ou não, aquilo me dava tanto prazer quanto parecia dar a ele, e ele gemia alto, de um jeito que eu não estava acostumado. Falava bastante. Coisas sujas, pedidos, promessas. Eu ouvia a tudo e só concordava.
Quando me deitei de costas para que ele me fodesse, um pensamento rápido perpassou minha mente: será que eu sabia o que estava fazendo? Quando seu pau me invadiu, só me restou revirar os olhos e cravar as unhas nos travesseiros mais próximos. Eu mesmo gemi um pouco mais alto do que me lembrava de fazer. Quando ele se jogou sobre meu corpo, seu calor se transmitiu para mim quase que por indução.
Repetimos o ritual várias vezes durante a noite, tirando rápidos cochilos, seguindo um ciclo que me fatigou muito rapidamente. Quando terminávamos, eu sentia uma vontade incontrolável de fechar os olhos e dormir, e o fazia, enquanto ele me envolvia com seus braços e corpo. Eu acordava com os seus beijos e um pau ereto pressionado contra a minha bunda. E então começávamos de novo.
Mas naquela manhã, esse ritual não se repetiria. Eu estava exausto e ele também parecia estar, pois, sobre o meu braço, dormia como se tivesse morrido, aquele sono pesado que parece também deixar a pessoa adormecida mais pesada. Porém, ainda que eu soubesse que precisava de mais algumas horas de sono, eu estava desperto; meus olhos não queriam mais se fechar.
Mesmo assim, aquilo parecia um sonho.
Eu ainda me lembrava de quando o conhecera, no Maine, e de como ele me fizera sentir. Lembrava-me de quando ele me abordara e das coisas que me dissera. Mesmo só o timbre da sua voz me deixava um pouco mais fraco – excitado –, até porque ele sabia que palavras escolher. Era alguém por quem eu me apaixonaria facilmente, porque era atraente e sabia conversar, mas eu não o fazia porque...
Bem, ele não era o Sam.
Shhh!
O rádio-relógio ao lado da televisão emitiu um bipe, avisando que atingira uma hora inteira. Eram dez horas da manhã.
– Sebastian – eu disse, apalpando-o por sobre o lençol. Seu enorme e magricelo corpo estava coberto dos pés à cabeça. – Sebastian, acorda!
Sebastian resmungou, umedeceu os lábios com sua língua e só então abriu os olhos, aqueles maldosos e violentos olhos, como os de uma ave de rapina.
– O que houve? – ele perguntou. – Quer foder mais uma vez? Se quiser, podemos tentar, mas confesso que estou muito cansado...
– Não quero tentar mais nada, eu quero ir embora.
– Mas por que a pressa? Esse é um domingo. Temos mais um dia inteiro de coisas para fazer antes de...
– Eu falei para a minha mãe que tinha ido a uma balada, e baladas não duram até tão tarde... Cedo, eu quis dizer. Eu já devia ter voltado.
– Por que mentiu? Ela ainda não sabe que estamos...?
– Namorando? – eu completei. Eu repetia a palavra sempre que podia na esperança de me acostumar com ela. Isso nunca acontecia. – É claro que não.
– Mas já faz quatro meses...
– Eu ainda não estou pronto para revelar esse tipo de coisa.
– Você vai ter que revelar em algum momento.
Sim, eu sabia disso, mas, ao mesmo tempo, não achava que Sebastian fosse a pessoa certa para me motivar a tomar essa decisão. Eu não confiava nele tanto quanto queria, e ele não dava o seu melhor em me convencer do contrário. Seu ideal de sentimento amoroso mútuo se baseava em simplesmente me chamar de namorado e esperar que eu o chamasse assim também. Eu o fazia, mas era da boca para fora. Não porque Sebastian não fosse atraente ou interessante, mas porque ele não era o...
– Minha mãe vai andar Nova Iorque inteira em uma viatura até me achar se eu não sair daqui agora – eu disse para Sebastian, exagerando, em vários níveis, a maneira como minha mãe reagia em relação à preocupação que sentia por mim.
– Já que é assim – ele disse e afastou os lençóis para o lado. Eu já havia gozado muitas vezes naquela noite, mas o seu corpo, aquele longo par de pernas e seu pau amolecido, ainda assim me hipnotizava. Sebastian se sentou na cama e pôs-se a calçar um par de meias. – Vai fazer algo hoje à tarde?
– Sim. Pretendo dormir até cansar.
– A vida é muito curta para gastar seu precioso tempo subexistindo, Blaine...
– Mas se eu não subexistir hoje, vou fazer isso amanhã durante as aulas, e eu sei quais são minhas prioridades no momento.
– Às vezes, eu queria que você fosse um pouco menos responsável.
– Já eu queria que você fosse um pouco mais.
Vesti-me em silêncio, fechando o zíper do jeans e vestindo o casaco de tricô por último. Verifiquei-me no espelho – um generoso espelho – que havia ao lado da cama (no qual eu estivera observando o meu e o corpo de Sebastian unidos durante a madrugada). Precisava arrumar meus cabelos, mas não havia como melhorá-los com mais do que algumas passadas de mão. Quando Sebastian parou ao meu lado, devidamente vestido, percebi que esse era um problema que só eu tinha, já que seu cabelo, que consistia em um topete exageradamente comportado, de cabelos castanhos, estava arrumado de maneira impecável. Nem parecia que tínhamos dividido a mesma cama naquela noite.
– Você é bonito mesmo quando acorda – ele me disse.
– Você está sendo bondoso. Mas digo a verdade quando digo que você é surpreendente de todas as formas possíveis.
– É, eu sei – ele disse. Às vezes, eu me perguntava se ele sabia como soava convencido. – Mas, mesmo assim, seria uma honra para mim acordar ao seu lado todos os dias da minha vida.
Todos os dias da minha vida...?, eu repeti em pensamento. Parecia muito tempo.
– E você? – ele perguntou.
Eu tinha imaginado que conseguira me safar daquela demonstração de carinho tão melosa, mas como ele havia decidido insistir...
– Não sei nem se vou almoçar hoje.
Sebastian apertou meus ombros com carinho.
– Se já estiver pronto, a gente pode ir.
O carro de Sebastian era típico de um garoto que acabara de comprar o próprio automóvel: velho, da década passada, remendado até onde podia, mas cheio de upgrades que carros de adultos comuns não tinham. Funcionava bem, quando funcionava. Eu admirava o seu esforço em querer levar adiante um carro tão velho, mas também entendia que a dedicação em fazer uma geringonça daquela funcionar era um hobby ao qual muitos caras adoravam se dedicar. Eu não o julgava.
Mas, nem por isso, conseguia evitar compará-lo com o...
– Liga o rádio – eu pedi, incomodado com o silêncio.
– A fim de ouvir o quê?
– Algo animado. Acho que está muito cedo para ouvir baladas românticas e continuar com os olhos abertos.
Meu celular vibrou no bolso traseiro do meu jeans e eu tive que lutar contra o cinto de segurança para conseguir apanhá-lo.
– É a minha mãe – eu disse a Sebastian. – Eu sabia que ela iria me ligar em algum momento.
– Diga a ela que já estamos chegando. Não é mentira.
– Eu sei, mas... – Levei o aparelho ao ouvido. – Oi, mãe. Já estou a caminho.
– É mesmo? – disse sua voz, mecânica, do outro lado da linha. – Que ótimo – e o seu tom não parecia querer dizer o mesmo.
Olhei de relance para Sebastian, que desviou a atenção da rua por um instante para me olhar de relance também. Deu uma guinada com o queixo, como se perguntasse o que estava acontecendo.
– Aconteceu alguma coisa? – foi justamente o que perguntei à minha mãe.
– Não... – ela disse a princípio, mas logo se corrigiu: – Quero dizer, sim. Aconteceu, filho.
– Você está bem?
– Estou, mas o problema não é comigo.
Eu estava com um mau pressentimento.
– Mãe, diga logo o que está acontecendo.
– Preciso de você aqui em casa, Blaine. Precisamos conversar.
– E vamos conversar sobre o quê?
– Não é sobre o quê, filho, é sobre quem.
Eu respirei fundo. Minha tensão era tão grande que estapeava Sebastian em sua cadeira de motorista.
– Mãe...
– É sobre a Angelina. E o filho dela, o Sam. – Ela respirou fundo antes de completar: – Eu acho que eles precisam de ajuda.
Segurei o celular contra o ouvido enquanto meus olhos fitavam o nada à frente.
O que me levou a pensar que era uma grande sorte nossa, minha e de Sebastian, que não fosse eu o motorista da vez, ou o carro já estaria capotando rua afora enquanto eu saboreava o nome que acabara de ouvir.
Notas finais
Espero que gostem do que está por vir.
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