Blam?
2 A Xícara de Chá
Incrível como, às vezes, as coisas podem sair de um sonho para um pesadelo num piscar de olhos. Ou vai ver eu só estava confortável demais, ou até conformado, com minha vida medíocre, o que acabou por me dar essa impressão de que meu mundo estava desmoronando de repente.
Mundo desmoronando. Quando eu parava para pensar na extensão do problema que a menção do nome do Sam simbolizava, era essa expressão que vinha à minha mente. Mas não era como se meu mundo de fato desmoronasse, com paredes caindo como se um terremoto assolasse a cidade; eu estava falando da minha sanidade. Conviver com Sam era como tomar um remédio cujos benefícios eram acompanhados por efeitos colaterais aterradores. Sam causava desmoronamentos, sim, mas a mim. Ele me derrubava.
Mesmo após meses sem vê-lo.
Eu jamais permitiria que Sebastian me desse carona até tão próximo da minha casa. As casas de Nova Iorque podem ser fechadas, sem jardim na frente sobre o qual donas de casa poderiam manter uma mangueira apontada, mas tinha janelas suficientemente grandes para permitir que os mais desocupados assistissem carros estranhos pararem para deixar um garoto ainda em idade escolar na porta da sua casa. Mesmo que eu não devesse nada da minha vida aos vizinhos, eu não queria que uma conversa estranha começasse entre eles e levantasse questionamentos da minha mãe. Eu não sabia mentir muito bem, logo, a omissão era o caminho mais certo.
Da esquina mais extrema, caminhei até a entrada da casa, distribuindo sorrisos para duas ou três pessoas que eu conhecia e passando a mão com frequência na cabeça, esperando comportar os cabelos. Para os que me viam, talvez aquela fosse só mais uma manhã comum em que eu voltava de um passeio matutino. Mal sabiam eles que os gostos da boca e do pau de Sebastian ainda estavam na minha boca. O que um silêncio não pode guardar, não é mesmo?
Apesar do tom que minha mãe usara no celular, o clima em casa parecia absolutamente comum. Havia uma televisão ligada na cozinha e minha mãe afundava e desafogava um sachê de chá em uma xícara enquanto mantinha o olhar voltado para o noticiário. Era um cenário com o qual eu estava acostumado: ela adorava chá pelas manhãs e jamais perdia o noticiário, mesmo que não estivesse prestando atenção nele. Naquela manhã, não havia pães acompanhando seu café da manhã tardio.
Notou minha presença e sorriu.
– Bom dia, filho.
– Bom dia, mãe – eu disse e puxei uma cadeira à mesa. Sentei-me. Grande parte da minha noite fora passada sobre uma cama, mas, mesmo assim, eu me sentia cansado como tivesse feito parte de uma maratona de aeróbica. – Está tudo bem?
– Está sim, filho, nada com o que se preocupar.
Ela estava com medo de mencionar o assunto, detalhe que percebi assim que recebi aquela vaga resposta e que se confirmou quando ela voltou a olhar para a televisão. Tinha algo sério para falar, mas não a agradava ser a pessoa a colocá-lo sobre a mesa, obviamente. Talvez a situação fosse pior do que eu imaginava, isso se algo pudesse ser pior do que se apaixonar por um Sam perturbado por pensamentos confusos.
– Mãe, o que aconteceu com a Angelina? – eu perguntei, então. Ensaiei apanhar uma fruta na fruteira sobre a mesa, mas eu não estava mesmo com fome. Eu estava mais cansado do que faminto.
– Ela não está bem.
Como eu imaginava.
– Está doente? – perguntei.
– Pode-se dizer que sim.
O assunto era tão desconfortável para a minha mãe que ela não tinha coragem de continuar a falar sozinha. Não tardei a perceber que o ritmo da conversa seria aquele: eu faria as perguntas e ela as responderia, uma por uma, e não falaria mais do que eu quisesse saber.
Embora, no fundo, eu torcesse para que as coisas não fossem assim.
– O que houve? – tornei a perguntar.
– O filho dela, o garoto chamado Sam, me ligou hoje de manhã. Parecia abalado. Disse que tinha acabado de chegar em casa depois de uma festa e que encontrou a mãe estirada no jardim da frente.
– Morta? – eu perguntei, os olhos arregalados.
– Desmaiada. Mas parecia morta, segundo o que disse. Os regadores do jardim jogavam água sobre ela e ela não reagia.
– Mas...?
– Ela estava bêbada. – Minha mãe engoliu em seco: – E Sam receia que ela estivesse drogada também.
– Mas... A Angelina? Não pode ser. Ela sempre foi tão correta...
– Não em determinada época da vida, pode ter certeza disso, Blaine. Além do mais, muitas pessoas só vestem a couraça de um cordeiro quando já estão cansadas de ser o lobo. E a Angelina não foi uma santa por muito tempo.
– Você não parece surpresa.
– Não estou. – Minha mãe mergulhava o saquinho de chá na água quente há tanto tempo que eu imaginava a essência do saquinho fazendo parte da bebida agora.
– Não está nem preocupada?
Minha mãe suspirou com pesar.
– Muito. – Bebeu um gole da xícara. – A Angelina é a única amiga de verdade que eu tenho, filho. Mesmo distantes, somos próximas. Não há dia em que eu não fale com ela ou que não tenhamos novidades ou confidências para trocar. Quero dizer... – Fez uma careta constrangedora antes de continuar: – Estávamos assim. Até alguns meses.
Foi a minha vez de engolir em seco.
– Preciso confessar que nossa amizade já não era mais a mesma – disse minha mãe.
– Vocês discutiram ou...?
– Na verdade, ela simplesmente decidiu se afastar. Parou de falar comigo. Pensei que fosse passageiro, ou que ela finalmente tivesse encontrado um homem. A Angelina sempre foi assim: encontrava um homem para chamar de seu e então se esquecia das amigas. Mas eu a conheço há bastante tempo e sei que isso é normal. Mas a ligação do Sam nessa manhã foi o que me fez duvidar disso. – Sacudiu a cabeça em negativa. – Ela estava bebendo...
– E se drogando? – eu perguntei, querendo confirmação. Pelo tempo que fiquei ao lado da Angelina, ainda me era improvável o pensamento de que ela estivesse lidando com entorpecentes. Se minha mãe tivesse falado que fora o Sam a pessoa encontrada no jardim pela manhã, eu não faria mais do que bater na mesa e falar algo sobre como já era de se esperar. Mas a Angelina...?
– Eu prefiro não acreditar nesse pensamento.
Eu também preferia.
– Ela deve estar precisando de ajuda – acabei dizendo. – Quer dizer, eu passei um tempo no Maine e sei como aquele lugar é estranho. É vazio. Nem parece que há vizinhos por perto. A Angelina não tinha nem para quem pedir açúcar se precisasse.
– Não é a falta de vizinhos, é a arrogância deles.
– Eles pensam a mesma coisa de nós, que moramos em Nova Iorque.
Minha mãe sacudiu a cabeça em negativa, como se desprezasse o que eu acabara de dizer.
– Ela não poderia pedir ajuda a ninguém se precisasse – disse em seguida. – Os vizinhos gostam de fazer de conta que não há ninguém morando ao lado deles. Só se propõem a aparecer quando morremos e um banquete é feito na nossa sala de estar em nossa memória.
– Isso é cruel...
– Mas é a verdade, e é melhor que você comece a se acostumar com ela. – Mais um gole em seu chá. – Ela devia estar se sentindo tão sozinha...
– Mas tinha o Sam – eu sugeri, embora duvidasse ao extremo de que ele pudesse ajudá-la com alguma coisa, sendo que ele próprio precisava de auxílio para os inúmeros problemas de convivência que tinha.
– A Angelina é orgulhosa, jamais permitiria que o filho percebesse os seus problemas. Mas se tivesse falado com alguém antes, mesmo se fosse comigo, evitaria que ele a encontrasse do jeito que a encontrou. Ele ainda está em idade escolar...
– Deve ser bem difícil ter que lidar com isso e com provas ao mesmo tempo.
– Não é? – ela disse e apontou a xícara para mim. – Pobre garoto.
Torci o nariz para o lado. Sam podia ser muitas coisas, mas pobre, em nenhum dos sentidos da palavra, era o que ele era. Não que eu achasse que ele precisava passar pelo choque de ver a mãe sem condições de viver no jardim de casa, mas, em contraparte, eu achava que Sam precisava receber um pouco de realidade, nem que fosse no jardim de casa, para criar um pouco mais de responsabilidade.
Pensamentos como esses faziam com que eu duvidasse da minha própria sanidade. Afinal, eu mesmo não decidira que não pensaria mais nele? Que não me importaria? Sim, fora uma promessa que eu fizera a mim e ao Kurt, quando contei a ele os acontecimentos de Portland. Mas as considerações que agora eu fazia na mesa da cozinha não eram exatamente o contrário de todos esses preceitos?
Ah, eram, sim. Quando eu conseguiria afastar o Sam da minha vida, afinal?
– Mas e o que ele fez? – perguntei.
– O Sam? Levou a mãe para a casa. Deu-lhe um banho gelado. A Angelina acordou e até conseguiu ajudá-lo a fazer alguma das coisas, mas, sim, ele teve que trocar a sua roupa também. – Novamente, sacudiu a cabeça em negativa, em sinal de descrença. – Deixou-a na cama e não conseguiu dormir.
Era quase possível sentir pena do Sam enquanto ouvia a minha mãe falar.
– E por que ele não a levou para o hospital? – perguntei.
– Ele tem medo de que eles sugiram algum tipo de casa de reabilitação para ela.
– Casa de reabilitação? Mas isso não é para drogados de longa data? Essa foi só uma noite incomum, não?
Minha mãe me fitou nos olhos e, apesar de não ter dito nada, a resposta chegou até mim.
– Você quer dizer que essa história toda sobre voltar a consumir drogas como um jovem que acaba de entrar em uma faculdade já está acontecendo há algum tempo?
– Desde alguns meses, filho.
– Eu achei que você estivesse brincando!
– Não estou. O Sam relatou para mim como tem sido... A bebedeira não tem dia para acontecer, mas a coisa fica pior quando o fim de semana está próximo. Sábado é o dia que ele tem que deixar livre para poder tomar conta da mãe, senão pode ser que ela entre em coma alcoólico e fique presa em algum beco. Não está sendo nada fácil para ele.
– Não mesmo! – eu exclamei, sem exagerar. A situação era pior do que eu imaginava.
– Que bom que você acha isso...
Sorri com compaixão. Minha mãe estava mesmo abalada por tudo aquilo, o que justificava seu tom de voz quando me ligou. Queria compartilhar aquilo com alguém, esperando desabafar e compartilhar a dor. Eu a compreendia. Era exatamente o que eu faria se algo do tipo acontecesse com algum dos meus amigos.
– Ela foi tão boa para você nos dias que você ficou por lá, não foi? – ela disse de repente, acordando-me de um devaneio.
– Melhor anfitriã que já conheci, me deixou super à vontade.
– Ela fez tanto por você... – Sorriu e sorveu mais um gole de chá. – E cuidar de você foi algo que ela indiretamente fez por mim também, porque sabe o quanto eu me importo com você, filho.
– Você tem razão.
– É nessas horas que descobrimos quem são os amigos de verdade.
Assenti com a cabeça, aguardando o final da conversa. Minha cama me chamava e meus olhos começavam a pesar.
– Acho que está na hora de eu retribuir o favor – minha mãe disse, por fim.
E, pela segunda vez numa mesma manhã, eu senti cada músculo do meu corpo se congelar.
– O que quer dizer com isso?
– Estou para tirar umas férias do trabalho agora. Quinze dias, não mais do que isso. Estou pensando em ir para o Maine e fazer uma visita à Angelina, talvez até ajudá-la. Deus sabe como eu quero sair de lá deixando minha amiga bem.
– Mas mãe, o pai está viajando e eu ficaria sozinho...
– Você pode vir comigo.
– Acho que prefiro ficar aqui sozinho.
– A Angelina é uma grande mulher e uma mulher grande, Blaine, então você sabe que vou precisar de ajuda.
– Mas e a escola?
– Pediremos sua transferência mais uma vez.
– Você está mesmo falando só de quinze dias, mãe?
– Eu não sei – ela disse, sendo honesta. – Se isso não terminar logo, receio que vou voltar todo fim de semana ao Maine até garantir que a Angelina esteja bem. – Levantou o olhar da xícara de chá e focou-o em mim quando disse: – E acho que você vai ter que ficar por lá durante esse tempo, filho.
Eu estava estupefato. Mirava os olhos da minha mãe, mas não via nada. Minha boca, semiaberta, sem palavras para dizer.
– São sacrifícios que às vezes precisamos fazer para o bem de alguém que amamos – minha mãe concluiu.
Alguém que amamos...?, eu repeti em pensamento.
Que bom que ela podia ver as coisas dessa forma, porque quando subi ao meu quarto – para dormir ou para fazer as malas –, era num tipo exatamente contrário de sentimento que eu estava pensando.
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