Blam?

3 O Retorno


Eu poderia ter fingido que não estava mal, e acho que até tentei. Fiz minhas malas sem silêncio. Poderia ter colocado fones no ouvido e embalado o ritual com boa música, mas temi que a música marcasse aquele momento e eu tivesse que descartá-la depois. Esperei pacientemente o decorrer das horas, sentado na minha cama, com os braços cruzados. Quando minha mãe disse que a viagem seria à noite, liguei para Sebastian e propus que a gente se encontrasse. O encontro durou uma hora, mas eu o durei em alpha, no modo automático. Recordo apenas de ter retornado para a casa e de descalçar os tênis antes de me jogar na cama. Não comi nada durante o dia. Quando minha mãe bateu na porta do meu quarto para me chamar para a partida, lembro-me apenas de me jogar no banco do passageiro do carro e apertar o cinto. Nem das malas eu tomei conta.

Apaguei. Achei que seria tomado por nostalgia enquanto percorria as estradas em direção ao Maine, mas quem me tomou foi o sono. Tive sonhos. Sonhei com Sam, como não podia deixar de ser. Sonhava que eu clamava pela atenção dele e ele me desprezava. Ele andava com copos de bebida na mão. Eu implorava para que me aceitasse de volta, mas ele fazia de conta que não me ouvia. Era um pesadelo, é claro, mas, quando acordei, estava decidido de que a realidade seria exatamente contrária a ele.

Quando acordei, recebi o anúncio de que já estávamos perto da casa em que eu passaria os meus próximos meses.

– Acho esses vilarejos tão agradáveis – disse minha mãe. – Você não acha que eles parecem aqueles bairros privativos de Nova Iorque?

– Nunca fui a um desses – eu respondi, forçando uma boa educação. O cochilo prolongado me deixara com um leve mau humor. O silêncio era aquilo que eu mais desejava.

O carro parou em frente a uma casa puramente térrea, tão pacata e suburbana como todas as outras das redondezas – inclusive a de Angelina e de Sam. Por conta disso, eu não sabia nem dizer se seríamos vizinhos deles, embora, no fundo, torcesse para não sermos.

– Lugarzinho charmoso, você não acha? – disse minha mãe, apanhando as próprias malas no porta-malas do carro. – Acho que vamos passar um tempo bacana e tranquilo por aqui.

A entrada da casa compreendia uma sala de estar e uma cozinha. Sim, era uma casa charmosa, bem decorada e arrumada. Tinha televisão. Um corredor levava aos dois únicos quartos da casa e a um banheiro. No fim dele, uma porta de vidro levava a um jardim de trás. Passei por ela e me deparei com uma pequena piscina, visivelmente menor do que a da casa de Sam, e uma área para churrasqueira e festas. A nostalgia me arrebatou apenas nesse instante.

– Estou de volta ao Maine – eu deixei escapar. Joguei-me de joelhos na grama. – Oh, meu Deus, eu realmente estou em Portland.

–... Acha que não tem problema mesmo? – disse minha mãe a alguém. Não era a mim, porque ela estava distante, na cozinha, e eu conseguia vê-la através do vidro da porta enquanto ela caminhava de um lado a outro. Falava ao celular.

Há quanto tempo estamos aqui, afinal?, perguntei-me, limpando a grama dos joelhos. A pergunta fazia sentido, porque eu podia jurar que não tinha deixado Nova Iorque há mais do que alguns minutos, mas já era noite e minha mãe parecia super à vontade em uma casa que acabara de conhecer. Talvez já estivéssemos lá há meia hora – então eu ficara meia hora ajoelhado no jardim?

O tempo passa de um jeito estranho quando estamos ansiosos. Ou quando estamos com muito sono.

– Vou aguardá-los, então – foi o jeito como minha mãe finalizou a conversa. – Até logo. – Parou no centro do hall da casa e voltou o olhar para a porta de vidro. Encontrou-me no mesmo instante. – Blaine, eu trouxe alguns mantimentos em uma das malas, acha que consegue trazê-las até a cozinha?

Era uma exigência simples. Por que os pedidos dos pais, na maioria das vezes, não podiam ser como aquele? “Pegue as compras no carro para mim” era muito mais fácil de atender do que “Mude-se para o Maine mais uma vez e abandone seus atuais amigos. Faça novos por lá. Ature o Sam”.

– Já viu o seu quarto? – minha mãe perguntou, puxando o zíper da mala de mantimentos. Encheu o balcão com embalagens de comida congelada, ramos de verduras e caixas de cereal. Havia cereal ali para um mês, segundo as minhas contas. Uma maçã rolou e caiu no chão.

– Não – eu respondi. Apanhei a maçã caída, lavei-a na torneira da pia e cravei os dentes em sua polpa. Apesar de não estar com muita fome, a maçã era tão vermelha e prometia ser tão suculenta que me pareceu irresistível. Mais uma vez, acho que era o sono.

– Aproveita. Acho que você vai gostar. – Ela tentava soar animada, desde o começo, como se esperasse me deixar confortável. Estava funcionando. O choque inicial da coisa eu já tivera muito mais cedo naquele mesmo dia, de qualquer forma. Nada mais me surpreenderia. Nada. – Temos um tempo antes de a Angelina e o Sam chegarem para o jantar.

Nunca é tarde para se perceber enganado.

Eu entrei no quarto, arrancando nacos da maçã pelo caminho. Sentei-me na cama. Não dei atenção ao armário embutido na parede, que me faria pensar em filmes de terror – O Stephen King está em cada canto desse lugar, como isso é possível? – ou ao fato de que a cama era um box, com uma segunda cama escondida embaixo dessa. Também tinha uma cômoda comum de madeira, com uma televisão sobre ela. Uma mesa de criado-mudo ao lado da cama, com direito a um relógio despertador. Tintas lascadas nos cantos mais distantes do teto. Tapete em uma parte do chão; o restante era coberto por lajotas de madeira. Um lugar confortável, fresco e silencioso. Uma janela me concedia a vista do jardim de trás; uma bela vista, se eu tivesse atenção para outra coisa além da minha própria consciência.

Senti vontade de chorar, e motivações para isso eu tinha algumas. Não estava sendo fácil mudar de casa, de escola e de rol social tão subitamente. Trocar de realidade não era tão fácil quanto muitos poderiam supor, ainda mais trocar o movimento de Nova Iorque pela tranquilidade do Maine. Eu me sentia frustrado. Terrivelmente frustrado.

Também tinha o Sam, e talvez ele fosse o principal culpado pela culpa que forçava descida pela minha garganta. Quando deixei seu quarto meses atrás, após dizer-lhe tudo o que tivera vontade, eu tinha certeza absoluta de que jamais voltaria a vê-lo. E eu já tinha me conformado com isso. Eu estava bem. Sam podia ter-me feito especial por um tempo, mas também era capaz de jogar alguém no fundo do poço usando apenas alguns pares de palavras. Só consegui sair de lá no dia que tomei um avião de volta para Nova Iorque.

Mas agora eu estava de volta.

Respirei fundo. Meus olhos voltaram a funcionar do jeito que deveriam e então eu pude ver o quarto. Notei a falta de luz e iluminei o ambiente com um apertar de botão no interruptor. Percebi o armário macabro e o abri. Havia mais espaço ali do que eu tinha para as minhas roupas em casa – o que não era de se espantar, considerando que em Nova Iorque era preciso se adaptar a pequenos espaços a preços altos. Talvez eu pudesse passar a comprar roupas, agora que tinha onde guardá-las. O pensamento me animou por um instante.

O som da campainha foi quem serviu de balde de água fria para essa animação.

– Já vai! – anunciou minha mãe, e o som do salto de seus sapatos até a porta eu pude escutar de onde estava. Pude também ouvir o ranger que o abrir da porta da frente gerou.

Ouvi os beijos no rosto que minha mãe e Angelina trocaram.

Ouvi a voz de Sam dizer “Boa noite, Sra. Anderson”.

Engoli em seco e escondi o rosto nas mãos. Aquilo era real. Por mais que eu quisesse negar tantas e tantas vezes, o fato estava ali, escrito na parede: Eu estava de volta ao Maine.

Eu estava de volta ao Sam.

– Blaine? – chamou minha mãe, à porta do meu quarto. Quando ela tinha chegado?

– Oi, mãe.

– Acho que já é hora de cumprimentar nossos convidados, não? – e se retirou.

Hora de cumprimentar os convidados? Talvez fosse. Para mim, no entanto, aquela era a hora de saber como que Sam, aquela incógnita enorme na minha vida, iria reagir quando me visse mais uma vez. Minha reação ao vê-lo eu já imaginava como podia ser.

Ainda que, mais uma vez, eu estivesse enganado.

Quatro ou cinco meses, aproximadamente, mas parecia que eu já não o via há anos. Sam mudara o corte de cabelo; as ondas de que eram feitos seus dourados cabelos tinham sido cortadas, de um jeito que agora era possível ver a sua nuca, enquanto uma franja lhe cobria parte da testa, em um topete. Seu pescoço parecia maior. Seus trapézios pareciam mais trabalhados. A academia estava fazendo ainda mais efeito, sim.

Mas os lábios continuavam os mesmos. Carnudos, estranhamente vermelhos, como se ele os tivesse pintado. Vestia-se com uma jaqueta de couro sobre uma camiseta branca, e então percebi que, na verdade, ele estava muito bem vestido, com roupas diferentes das que usava para ir à academia, que pareciam o único de tipo de roupa que ele tinha.

O tempo, ainda que pouco, o tinha mudado, porque é isso o que o tempo faz, muda as pessoas. Eu me perguntava se algo mais tinha mudado nele.

Não precisava sequer fazer essa pergunta a respeito de Angelina.

Ela emagrecera. Eu nunca tinha reparado que ela era pelo menos cheinha – ou talvez tivesse percebido, mas nunca expressara em voz alta –, mas ela estava muito magra. Seu rosto, cheio de saúde, fora sugado por entre os ossos, deixando os cantos salientes. O brilho em seu olhar era o mesmo, mas Angelina agora parecia uma mulher que passara tempo demais sem comer, ainda que tivesse força de vontade para parecer alguém agradável, apesar dos problemas. Sorria, mostrando dentes um pouco amarelados. Não se dera o trabalho de pentear os cabelos; escondera-os por baixo de um lenço horrorosamente florido.

Claro que eu sabia que a Angelina precisava de ajuda, e eu entendera essa parte desde o momento em que minha mãe começara a explicar a situação. Sentira compaixão por ela, claro que sim. Mas vê-la pessoalmente estava sendo uma experiência estranha. Meu coração se sentiu esmagado. Eu não conseguia parar de engolir em seco, como se temesse ter parte da culpa do que acontecera. Como se tivesse certeza de que a culpa de ela ter se tornado aquilo fosse minha.

E será que não foi?, disse-me minha mente. E toda aquela coisa que o Sam falou sobre ela ser viciada em causar boa impressão? Você ouviu tudo aquilo antes de chupar o pau dele e deixar que ele gozasse no seu cu, não ouviu? E se lembra bem. Foi a razão de o Sam ter ficado tão furioso. A Angelina nada tinha a ver com a situação.

Não tinha.

Oh, meu Deus, o problema era entre mim e Sam, ela não tinha nada a ver com isso!

Caminhei até ele, guiado pela minha mãe. A cena acontecia em câmera lenta, porque meu cérebro estava demorando a processar as coisas. Ergui a mão para um cumprimento, mas Sam ainda não tinha me notado; estava olhando para uma travessa de macarronada que minha mãe preparara. Só me notou quando eu estava a três passos dele, e seu olhar na minha direção não foi muito diferente do que estivera sustentando até ali: sério, de poucas palavras, até um pouco curioso. Ergueu a mão na minha direção e agiu como se eu lhe fosse uma pessoa inteiramente nova.

Apertou minha mão com seus dedos ásperos. Disse “Boa noite, Blaine”, enrugando seus lábios no decorrer da frase.

E eu desejei que tivesse sido ele a pessoa a passar pelo que a Angelina passou; ela não tinha nada a ver com a nossa situação. Ela não tinha que se importar comigo, ele deveria se importar, e por isso que eu o odiava. Eu só queria que ele ficasse doente, que tivesse problemas com bebida porque sentia a minha falta, eu só queria que...

– É bom te ver de novo, Blaine.

...ele me agarrasse pela nuca e me beijasse do jeito que eu lembrava que ele fazia.