Blam?

13 O Sanduíche


A tarde na cozinha foi apenas o começo de uma série de propostas que Sam ainda faria nos dias seguintes.

Nos divertimos naquele dia, e tudo dentro dos limites impostos pela inocência. Cozinhamos o macarrão seguindo um vídeo tutorial no Youtube (apesar de eu já saber, mais ou menos, como preparar macarrão comum, mas queria deixar Sam aprender algo, então não julguei sua escolha de pesquisar a receita) e fizemos molho de tomate comum. Ele disse que adorava esse prato especificamente e que sofria por não saber prepará-lo sozinho. Eu me perguntava se isso tinha algo a ver com o fato de Angelina estar pouquíssimo presente em sua rotina nos últimos dias, o que o obrigara a agir e correr atrás dos próprios interesses. Não era uma hipótese tão absurda.

Misturamos laranja, limão e tangerina e fizemos um suco que, de tão azedo, não nos deixava ficar de olhos abertos enquanto o tomávamos. Eu o tomei primeiro e Sam riu da minha cara de sofrimento como eu não me lembrava de já tê-lo visto rir antes. Não era uma risada zombeteira, mas a de alguém que vê algo engraçado e quer deixar claro de só o achou engraçado, nada mais. Quando o efeito do azedume na minha língua passou, consegui rir junto com ele, mas só consegui gargalhar de verdade quando ele próprio tomou o seu copo de suco, engolindo tudo de uma vez como alguém que sente sede há mais tempo do que acha que pode aguentar. Mal conseguiu abrir os olhos enquanto a mistura ardia na sua garganta e na sua língua.

De fato, não me deixou lavar a louça quando terminamos o almoço, e fez um ótimo trabalho com tudo. Claro que não era a primeira vez que ele se sujeitava a isso – e eu esperava mesmo que não fosse, já que aquela não era a primeira vez que Angelina não aparecia para o almoço –, mas uma coisa é fazer algo sem muita vontade e outra é entender a razão de uma tarefa, e Sam sabia, ou suspeitava, que, se ele não deixasse aquela pia limpa nos próximos instantes, nenhuma outra pessoa o faria.

Despedi-me dele quando o sol já se escondia por trás dos telhados de algumas das casas no horizonte, anunciando que a tarde caminhava para um fim. Sam me acompanhou até a porta como faria com qualquer outra visita e paramos por ali, na soleira, por um instante para umas palavras finais.

— Me diverti hoje, Sam – eu disse.

— Era justamente o que eu ia dizer – ele disse, e eu não duvidava disso, porque ele, de fato, tinha aberto a boca quando comecei a falar, mas desistiu quando fui até o fim. – Deveríamos fazer isso mais vezes.

— Deveríamos.

Sam assentiu com a cabeça. Avançou na minha direção e, pela primeira vez em tempos, não roubou um beijo meu, mas apenas me abraçou. Seu queixo descansou no meu ombro e eu o envolvi pelas costas.

— Muito obrigado – ele disse ao meu ouvido.

E as mudanças de Sam não estavam só relacionadas a como ele agora gastava o seu excesso de tempo livre, fosse cozinhando ou procurando outros hobbies. A maneira como ele me tratava e o jeito como conversava comigo eram outros. Eu não era só o cara que dormia de favor na mesma casa que ele, eu era um amigo que ele queria ter por perto. Que motivações ele tinha para isso me eram um mistério, um bastante difícil de desvendar, levando em conta nosso histórico. Quer dizer, a memória de Sam era boa e ele ainda devia se lembrar da conversa que tivéramos no passado, que me levou a deixá-lo para trás, mas, sendo isso verdade, era como se ele não se importasse. E que pessoa no mundo conseguiria agir assim, quando tantos julgamentos tinham sido feitos e tantas decepções tinham sido provocadas?

Ninguém além de alguém que não sabia entender muito bem as mensagens do coração. Ou alguém que estava disposto a ignorá-lo em prol daquilo que considerava certo. Eu mesmo jamais voltaria a falar com ele e tampouco seria amigável se ele mesmo já não tivesse tomado suas providências para isso. As coisas seriam bem diferentes se dependessem de mim, mas, como geralmente acontecia quando as coisas se tratavam de Sam, elas não dependiam de mim. Nunca.

Seu comportamento na escola também era uma atração à parte. Por uma infelicidade do destino – ou talvez por decência da sua parte –, eu e ele não mais tínhamos aula juntos, o que acabava por permitir que só nos víssemos na entrada ou na saída da escola e durante os intervalos. Sam podia estar agindo de forma mais amigável ultimamente, mas seus amigos continuavam os mesmos, o que me levava a crer que eles nada tinham a ver com isso. Quando entrava no refeitório, ele e sua trupe de garotos grandes demais para a idade que tinham tomavam a habitual mesa que sempre tomavam e faziam tanto barulho quanto só um grupo de trinta pessoas poderia fazer, não um de dez. Riam como se apenas a presença um do outro já fosse hilária o bastante e comiam mastigando com a boca bem aberta, como só homens que querem mostrar superioridade perante os demais em cima de regras de etiquetas quebradas podem fazer. Sam os acompanhava em tudo, agindo como sempre agira. Era longe deles que as coisas mudavam.

Eu não tinha um lugar fixo no refeitório, o que me dava liberdade tanto de escolher uma mesa individual no refeitório coberto quanto no pátio, mas, não importava em que lugar eu estivesse, ele sempre me achava. Desgarrava de seu bando e se aproximava de mim, vestido no casaco do time de futebol da escola que deixava seu tronco ainda maior do que já era. Sempre carregava algo na mão, fosse um boné, um envelope de papel ou algum lixo que queria jogar fora, talvez algum objeto que servisse de álibi perante os amigos e justificasse sua saída. Naquele dia, no entanto, ele trazia um embrulho de papel alumínio.

— É um sanduíche de pasta de amendoim com pão torrado na grelha – ele disse, oferencendo-o a mim. Havia uma cadeira vaga na minha mesa, mas ele não se sentou, deixando claro que seria breve.

— Não vai comê-lo?

— Já comi o meu. Esse aqui é para você.

Era surpreendente que ele tivesse se preocupado comigo, ainda mais estando eu passando por aquela fase que passava. Morando sozinho, eu mal tinha tempo ou coragem de fazer serviços domésticos, quanto mais de preparar meu lanche. Tinha dias em que eu só trazia frutas, que vinham de suas árvores já prontas para consumo, sem necessidade de preparo. Quando não, me aproveitava da comida do refeitório mesmo, que não era ruim. Mas eu não estava passando por necessidades, porque tanto meu pai quanto a minha mãe garantiam que eu sempre tivesse um pouco de dinheiro a mais para que não só pagasse as minhas despesas como pudesse me dar algum luxo de vez em quando, como uma ida ao cinema.

Sam, que certamente não sabia disso, talvez tivesse entendido a situação de maneira errada.

— Eu trouxe o meu próprio lanche – eu disse, mostrando a ele um pedaço de bolo de laranja parcialmente devorado. – Comprei isso aqui na padaria a caminho da escola. É muita bondade sua preparar um lanche para mim, mas...

— Não fui eu que fiz.

— Ah, não?

— Foi a Angelina.

Me causou uma coceirinha bem no centro da nuca ouvi-lo chamar a própria mãe pelo nome, o que eu considerava um tratamento muito impessoal.

— Agradeça a ela por mim...

— Vou fazer isso, mas pegue o lanche, Blaine – disse ele, sacudindo o pacote na minha frente. – É um presente. Eu disse a ela que você me ajudou a preparar aquele delicioso macarrão que comemos naquele dia – Sam dizia, os lábios fazendo força para conter um riso que podia tanto ser de divertimento quanto de constrangimento. – Sobrou tanto que ela comeu um pouco dele no jantar e adorou. Prometeu que retribuiria o favor preparando um lanche para você.

Já haviam se passado mais de dez dias desde a ocasião do macarrão. Será que Angelina tinha passado todo esse tempo tomando coragem de fazer algo ou só não estivera em casa para providenciar as coisas?

— Está tudo bem com vocês lá, Sam? – perguntei, usando um tom brando, procurando evitar qualquer reação mais enérgica da parte dele.

— Melhorando. – Novamente, sacudiu o lanche diante dos meus olhos. – Aceite o lanche e depois me diz o que achou. Ela ficaria muito feliz em saber que você gostou, principalmente depois de...

— Depois do quê, Sam?

Havia arrependimento no seu olhar, tanto que ele mal conseguia olhar na minha direção. Sem dizer nada, eu podia ouvir seus pensamentos dizerem “Depois de o seu filho tê-lo decepcionado tanto. Até hoje ela não superou bem toda aquela cena pela qual passamos, que acabou fazendo você fugir de casa sem explicar o porquê. A Angelina não entende muito bem as coisas, principalmente se a pessoa que provocou a sua decepção não se deu nem o trabalho de explicá-las. Se ela conseguir te agradar pelo menos com esse sanduíche, acho que já ficaria feliz. Pelo menos um pouco, por alguns instantes, o suficiente para não beber nada até o jantar”.

Engoli em seco.

— Diga a ela que estava saboroso – eu disse quando apanhei o sanduíche.

— Mas você ainda nem comeu...

— E há alguma dúvida de que ele está bom? Já comi tanta coisa na sua casa, Sam, a maioria feita pela Angelina, então tenho certeza de que esse sanduíche vai estar uma delícia também. Ela nunca erra.

Sam pareceu rir, mas impediu-se de ir adiante muito rapidamente.

— Acho que ela não sabe mais usar a grelha, Blaine, então pode que ser que esteja um pouco queimado.

E estava.

Quando nossas conversas não levavam tanto tempo quanto essa, ele fazia questão de me notar na multidão e pelo menos acenar para mim, mesmo que estivesse no meio de seus amigos. Eu acenava de volta e até sorria. Não sabia ao certo que mensagem eu queria passar com isso, mas assim fazia. Talvez Sam estivesse apenas querendo ser simpático com um amigo, ou um conhecido, mas eu o cumprimentava como aquele que cumprimenta a pessoa que mais admira, uma paixão oculta. Cada vez que ele me notava, uma onda de calor nova me possuía. Era bom. Era maravilhoso.

Outro dia, quando o tempo estava mais fresco e nós, de Portland, tínhamos sido obrigados a pelo menos vestir um casaco de lã sobre uma camiseta, ele se aproximou de mim no refeitório com um pedaço de papel bastante velho entre o indicador e o dedo médio. Seu casaco do time de futebol estava fechado até a garganta.

— Quer carona para a casa hoje, Blaine? – foi como começou a conversa. – Não tenho nenhuma aula extracurricular hoje, então posso te deixar na sua casa antes de ir para a minha. Eu até te chamaria para a minha casa para talvez nadarmos na piscina, mas não acho que o tempo esteja favorável...

— Não está mesmo. Aceito a carona, sim, mas vou precisar passar na biblioteca antes. Você pode aguardar alguns minutos? Acho que vai ser rápido.

— Aguardo. Tenho a tarde inteira livre. – Olhou ao redor. Uma brisa fraca, que entrava por uma das enormes janelas abertas do refeitório, fazia alguns dos seus fios de cabelo dançarem como se tivessem vida própria. Seu cabelo já estava quase do tamanho que estivera no passado, quando o conheci. – Vai fazer alguma coisa na sexta à noite?

— Não tenho nada em mente, por quê?

Foi então que ele me entregou o pequeno pedaço de papel. Era um rasgo de folha de caderno, com o endereço já conhecido da casa de Sam e um horário: 8:00 p.m.

— Eu, alguns garotos e umas garotas estamos pensando em tomar vinho e comer fondue de queijo enquanto jogamos baralho nesse dia, lá em casa. Topa aparecer por lá?

O jeito como Sam tinha dito “fondue”, pondo mais ênfase na primeira sílaba e quase engolindo a última, como se tivesse vergonha de dizer a palavra, me desconcentrou por um instante, mas consegui responder:

— Tem certeza de que me quer por lá?

— E por que não quereria?

Porque eu não sou um dos seus amigos de verdade, sou?, foi o que pensei em responder. Seus amigos provavelmente nem me conhecem, mesmo aqueles que me viram no casamento.

Mas a proposta de Sam era inocente e não consegui pensar em uma boa desculpa para justificar minha estadia em casa. Além do mais, eu não tinha nada melhor para fazer.

— Pode contar comigo. Não sei jogar a maioria dos jogos de baralho, mas aprendo.

— Eu te ensino. Te espero por lá, então. Até mais.

— Até mais – eu respondi, erguendo uma mão, muito timidademente, acima do nível da mesa. Sam não a vira, já estava longe, mas não tinha problema.

Provavelmente, no dia seguinte ele voltaria a me procurar para falarmos sobre qualquer assunto banal por um minuto ou dois durante o intervalo, então eu teria outra chance de fazer meu aceno ser percebido.

Notas finais
E feliz aniversário, São Paulo! o/