Blam?

14 O Blackjack


Eu não sabia o que levar para um encontro de fondue de queijo com vinho numa sexta-feira à noite, acompanhado de um jogo de cartas, então pesquisei na internet o que era mais interessante. Sites especializados (ou não) em culinária sugeriam pão. Na tarde daquele mesmo dia, portanto, fui ao mercado e comprei duas baguetes. Sam não tinha especificado a quantidade de pessoas presentes, mas imagino que elas também levariam algo, então duas baguetes pareciam suficientes da minha parte.

Vesti um pulôver listrado, que eu achava que combinava com a ocasião e me protegeria do frio que aquela noite nos prometia. Fui a pé, exatamente às oito da noite, para a casa de Sam. Cheguei poucos minutos depois e bati na porta. Luzes acesas indicavam que a casa estava a pleno vapor, então imaginei que já estivesse atrasado para o encontro.

Foi Sam quem abriu a porta.

— Blaine? – ele disse, olhando-me com surpresa, como se não me esperasse.

— Sim, sou eu. – Tentei observar o interior da casa pela pequena fresta que ele abrira da porta, mas Sam, por alguma razão, estava disposto a me impedir de ser bem sucedido. – O que está havendo?

— Não achei que fosse chegar agora. – Olhou para o saco em que eu carregava as duas enormes baguetes. – O que é isso?

— Não conhece baguetes?

— Ah, que seja. – Puxou-me pelo braço para dentro.

Ao contrário do que eu imaginava, a casa ainda estava relativamente vazia. Havia movimento por ali, sim, mas os únicos responsáveis por ele eram Sam e sua mãe, Angelina, que eu já não via há um tempo. De costas para mim, ela trabalhava em algo no balcão da cozinha, em silêncio. Estava muito bem vestida, para alguém que só planejava gastar o resto daquela noite em casa, sentada no sofá, assistindo a um bom filme. Talvez esses não fossem os seus planos, afinal.

— Preciso esconder isso... – disse Sam, tentando tomar a minha sacola.

— Mas por quê...?

— Blaine? – disse a mulher da casa.

Angelina estava assustadora, e é bem provável que eu não tenha conseguido esconder meu choque quando seu rosto se voltou na minha direção. Sua pele estava estranha, demasiadamente enrugada, e pintas haviam surgido em vários pontos. Seus olhos estavam levemente amarelados. Angelina tinha tentado pentear os cabelos naquela noite, mas não fora muito bem sucedida. Aquele não era mais o estado de alguém viciado em bebida, mas o de alguém doente. Seguido ao choque, portanto, o que senti foi compaixão e uma vontade tremenda de abraçar aquela pessoa.

— Não sabia que viria para cá hoje – ela continuou.

— Chamei o Blaine para... – Sam olhou para o pacote de pão antes de continuar: –... para comermos pão.

Angelina encarou as baguetes por um instante.

— É muito pão para duas pessoas.

Eu sabia!, foi o que pensei.

— Mas temos muitos filmes para serem assistidos ainda, e tenho certeza de que vamos precisar de todos esses pães, não é mesmo, Blaine?

— A senhora está bem? – perguntei, quando a oportunidade de falar me foi dada.

Angelina franziu o cenho quando me perguntou:

— Por que a pergunta?

Talvez não fosse óbvio para ela e nem para Sam, mas Angelina estava acabada de um jeito que não era saudável. Ela precisava de ajuda. Minha mãe tinha me trazido de volta à Portland porque queria que eu estivesse por perto para evitar que Angelina se afundasse ainda mais no poço em que se colocara, mas Sam nunca me dissera que a situação fosse tão crítica. Estava escondendo coisas de mim.

Mas aquela não parecia uma boa hora para levantar polêmicas.

— É só porque me esqueci de perguntar isso assim que entrei – foi o que respondi.

E então ela disse que estava tudo bem, e perguntou se eu também não estava. Eu disse que sim.

Quando Sam e eu nos afastamos, nos enfiando no canto mais distante da sala de estar com as duas baguetes, Sam me ofereceu a explicação que eu esperava para o clima tão estranho que eu tinha encontrado naquela casa.

— Ela não sabe do fondue.

E eu ri, porque essa era a explicação mais estranha que eu poderia ter ouvido. De todas as coisas que ele já fizera naquela casa, o fondue seria a mais inocente, aquela que geraria menos sujeira, provavelmente, em todos os seus sentidos.

— Por quê?

— Ela está pirada. Não quer que eu chame ninguém para cá, porque acredita que vamos acabar fazendo uma...

— Suruba?

—... bagunça. – Sam apertou os olhos na minha direção, como se achasse um absurdo eu ter levantado aquela hipótese. – Ela tem assistido muitos desses jornais que passam de madrugada e que mostram os jovens como pessoas que precisam de vigilância constante. Ela está ficando paranoica.

O que era sintoma de uso de drogas, sem sombra de dúvidas.

— Por que não me disse que ela estava nesse estado?

— Isso não é problema seu, Blaine. – A frase tinha tudo para ser ignorante e ofensiva, mas a maneira como Sam a havia dito fez parecer que ele lamentava, no fundo do coração, que aquele, de fato, não fosse um problema meu.

— Mas é. É por isso que estou aqui.

— Só por isso?

Não, foi a resposta que minha mente disse de prontidão, mas que meus lábios fizeram o favor de esconder. Eu não estava naquela casa nem há dez minutos e Sam estava disposto a transformar aquela simples visita em um encontro mais sério, com discussão de assuntos mais pesados e densos. Mas eu não estava disposto a isso – não ainda.

— Sam, verifique se todas as torneiras estão fechadas antes de ir dormir – disse Angelina, vestindo a alça de uma bolsa e se dirigindo à porta. – Ajude ele com isso, Blaine, por favor. Eu confio em você. – Não ofereceu nenhuma outra despedida antes de bater a porta ao sair.

— Não foi ela que fez o sanduíche que você me deu no começo da semana, foi? – perguntei a Sam, enquanto ele observava, pela janela, a mãe sumir em seu carro, indo para onde quer que fosse.

Ele não respondeu, mas eu já sabia da verdade. Angelina não parecia mais o tipo de mulher que fazia lanches para os amigos do filho. Além do mais, se o fizesse, não queimaria o pão na grelha.

Os amigos e amigas de Sam só começaram a chegar quando o relógio quase marcava nove horas. Até lá, eu já tinha cortado as duas baguetes em pequenas tiras e Sam tinha organizado no chão toda a parafernália que o fondue exigia. Sentaríamo-nos no chão da sala, então o pequeno fogareiro e a tigela em que o queijo seria derretido foram deixados por lá. Ao seu lado, para início, uma garrafa de vinho e uma porção de taças.

Surgiram três garotos e duas garotas, pessoas inteiramente novas para mim. As garotas eram bonitas, do tipo que figurariam, com facilidade, revistas de catálogo de moda, e eu saberia, com certeza, se já as tivesse visto antes na escola. Os garotos, no entanto, tinham rostos conhecidos, mas seria fácil eu me enganar, sendo os amigos de Sam todos parecidos.

As garotas eram primas de um dos garotos, e por isso pareceram tão pouco à vontade na presença de Sam; elas não o conheciam. De todos os amigos de Sam, aqueles pareciam os menos falastrões, então quando o encontro já durava uma hora e eu ainda não tinha ouvido nenhum grito ou piada sem graça, mesmo que uma primeira rodada de vinho já tivesse sido servida, comecei a sentir falta disso. Que bom que essa sensação durou pouco.

Quando o queijo já estava derretido a ponto de fumegar, uma das garotas, que parecia conhecer toda a rotina do preparo do fondue, se sujeitou a diminuir a intensidade do fogo. Quando a amiga a acompanhou e se sentou ao seu lado, os cinco garotos em pé se juntaram a elas, formando um círculo em torno do fogo.

Com todas as luzes da casa apagadas, foi quase possível se sentir em um lual. A única luz provinha do preparo do foundue, jorrando em todos sua luminosidade quente e bruxuleante, que escondia e mostrava de volta os rostos ao seu redor. O clima estava tão propício a isso que imaginei que, em algum momento, alguém fosse tirar um violão de algum lugar e começar a tocar um pouco de música. Quando algum dos presentes abriu a boca para fazer uma sugestão, no entanto, foi para acender as luzes, o que facilitaria o jogo de Blackjack que estava prestes a começar.

Foi só então que os ânimos se animaram um pouco, mas aqueles amigos de Sam, por alguma razão, não eram dos mais indiscretos. Houve bagunça, houve gritaria e houve até tapas (amigáveis) entre eles, reações típicas aos resultados das partidas, mas nada que fosse muito agressivo. Sam fora feliz com a escolha de companhia daquela vez. Mesmo as garotas agora pareciam à vontade e riam dos garotos como telespectadores em um picadeiro (até porque não contribuíam com muito mais do que o seu riso com o clima de descontração).

Um dos amigos de Sam era consideravelmente melhor do que todos os outros no jogo de Blackjack, mas nem por isso eu fiz feio. Se houvesse um pódio, eu estaria na segunda posição, mas ninguém prestou muita atenção nesse detalhe. A escolha do jogo também fora propícia, pois não era preciso ser um grande ás dos jogos de carta para jogar um jogo que só exigia fazer somas até chegar ao resultado de vinte e um – ou não. Já estávamos no fim da segunda hora de jogatina quando um dos amigos do Sam se levantou e se afastou, dizendo que precisava descansar um pouco a mente.

Fui ao banheiro e joguei um pouco de água no rosto. A combinação de queijo com pão já era pesada, mas ela, somada ao vinho, tinha me deixado sonolento. Eu estava a ponto de conseguir encostar em algum lugar e adormecer, sem esforço, mas essa sensação precisava passar, pois era provável que a noite não terminasse tão cedo.

Quando voltei à sala de estar, o cenário tinha mudado um pouco, e havia algo novo acontecendo por ali. O primeiro detalhe que percebi foi que Sam estava, com um dos seus amigos, no mesmo canto que tínhamos usado mais cedo, conversando aos sussurros. O amigo aparentava tranquilidade, mas Sam não parecia nem um pouco alegre com o que ouvia. O segundo amigo estava tomando, sozinho, o sofá de dois lugares enquanto mexia no celular. As duas primas do amigo que conversava com Sam estavam em silêncio, escondidas atrás de taças de vinho, observando a dupla que conversava no canto com um fascínio assustador. Era quase como se tramassem algo. O terceiro amigo não estava em lugar nenhum.

Não! – disse a voz de Sam, fazendo-me subitamente voltar a ele. – Não e não! Eu não quero isso!

O amigo sussurrava baixo o suficiente para que eu não conseguisse ouvir o que dizia, mas apurei os meus ouvidos até onde pude, esperando pescar algo. Não pude, mas não era preciso ser nenhum Sherlock Holmes para saber que a proposta que ele fazia e que Sam negava com tanto afinco estava diretamente relacionada às primas. Elas também deviam saber disso, porque fuzilavam a dupla com olhares interessadíssimos, como se esperassem que suas boas – ou más – vibrações ajudassem na obtenção do resultado que desejavam.

Será que o que o amigo de Sam sugeria era algo que fosse deixar aquele encontro menos inocente? Não era de se admirar. Na verdade, era bom demais para ser verdade que aquele fondue não tivesse resultado em nada ainda. Eu já devia saber que os amigos de Sam eram tão pouco confiáveis, não?

Sam finalizou a conversa com o amigo colocando a mão no seu peito, um gesto bastante íntimo que teve o seu efeito. O amigo o encarou com uma seriedade que pessoas bêbadas não conseguiriam simular e houve um instante longo de silêncio entre os dois.

— Não – foi a palavra final de Sam, que encerrou a discussão.

De repente, era como se alguém tivesse morrido naquela sala.

As garotas se afundaram no sofá como se tivessem sido profundamente ofendidas por algo e o amigo que conversava com Sam se juntou ao outro que mexia no celular. Após o barulho de uma descarga, o amigo faltante surgiu na sala dele estar, mas até ele parecia contaminado pelo que acabara de acontecer. Era como se todos soubessem do assunto que provocara aquele clímax, o que me fez sentir um peixe fora d’água por não saber ao certo o que estava acontecendo.

— Agora a gente pode voltar a jogar Blackjack? – Sam sugeriu, mergulhando um pedaço de baguete no queijo derretido e o levando à boca. – Quero ganhar pelo menos mais uma, antes de vocês desistirem de vez.

Todos se retiraram de seus cantos e voltaram ao chão, mas o jogo não foi tão divertido quanto antes. Algo alterara os ânimos daquela noite, e eu não via a hora de saber o quê.