Blam?
15 A Verdade e O Desafio
— Que tal se a gente jogasse Verdade ou Desafio? – sugeriu o amigo de Sam que trouxera as primas.
Nem a minha e nem a resposta de Sam foi positiva à sugestão (na verdade, mantivemos silêncio e esperamos a coisa se decidir por si só), o que, talvez, foi o maior dos nossos erros naquela noite.
Jovens em idade escolar com hormônios à flor da pele não estão acostumados a passar tanto tempo fazendo algo tão inocente, e essa era uma observação que eu já devia ter feito há muito tempo. A proposta do Sam era simples: comer fondue de queijo, que estava uma delícia, e tomar vinho, que combinava melhor do que qualquer outra bebida com o fondue. Era quase uma festa no paladar. A sugestão tinha como pretexto apenas unir amigos e provocar conversas, algo que eu fazia bastante em Nova Iorque com os meus poucos amigos, embora não com fondue, e que sempre dava certo. O máximo de inocência que se perdia quando nos encontrávamos era quanto falávamos de sexo, afinal, éramos adolescentes e tínhamos nossas fantasias. Kurt adorava falar sobre as suas.
Mas não íamos mais distante do que isso.
Mas os amigos de Sam não eram da mesma laia, nenhum deles, aqueles ou os outros que conheci em outras festas ou de vista, na escola. Todos tinham os mesmos costumes e essa vontade incontrolável de transformar o menor dos encontros em algo com contexto sexual, mesmo que não muito explícito. Não era muito diferente de como Sam agia às vezes, fazendo até uma simples hora de diversão na piscina ganhar outro sentido, e isso num piscar de olhos. Me admirava que os seus amigos tivessem demorado tanto tempo para fazer o mesmo naquela noite.
Uma garrafa de vinho vazia ficou, tombada, no centro de nós sete. Eu era o único que ainda me importava como fondue. A garrafa foi girada e eu não conseguia sentir outra coisa, senão apreensão. Em nenhuma das três primeiras rodadas ela parou em mim, mas em uma delas parou em Sam.
— Verdade ou Desafio? – perguntou o seu amigo.
— Verdade – Sam respondeu sem hesitar, talvez deixando claro que não tinha intenções de ser desafiado naquela noite.
— Pois bem, aqui vai. – O amigo chegou a pigarrear antes de dizer: – Ao contrário do que muitos pensam, não foi o excesso de academia ou seu vício em hobbies estranhos que fez com que o Sam fosse tão ruim nas aulas de inglês. Ele não é só burro, é disléxico!
Houve quatro bocas rindo, com exceção da minha, da de Sam e a do amigo que revelara a verdade. Eu não ria porque achava aquela uma revelação forte demais. Dislexia era um caso sério, e eu já tinha reparado que Sam não era muito bom com palavras escritas. Mesmo assim, ele sorriu, e isso de um jeito bem diferente do sorriso do seu amigo, que foi maldoso. O sorriso de Sam expressava consentimento, como se ele dissesse “Sim, é verdade, mas o que posso fazer?”. Senti compaixão por ele.
Nas rodadas seguintes, houve um beijo na boca entre um dos caras e uma das garotas, quando ela escolheu desafio. Não houve descontentamento de nenhuma das partes e mesmo o desafio não pareceu ter se acabado quando as bocas se afastaram; o olhar que a garota destinou a Sam, tão afiado quanto o gume de um cutelo, dizia que ela não se arrependia pelo beijo e que esperava que Sam se sentisse mal por isso. Se Sam captou esse olhar, não esboçou reação nenhuma. Com o cotovelo apoiado em uma das pernas, ele encarava a situação como uma pessoa que só está ali de passagem, aguardando o final, sem se dedicar muito à atividade, diferentemente dos seus amigos, que pareciam torcer e muito para que o topo ou a parte de baixo da garrafa os escolhesse na próxima rodada.
O destino tinha me evitado até onde pôde quando a garrafa girou pela décima vez.
— Verdade ou Desafio? – perguntou-me a garota à minha frente.
Eu deveria ter pedido um desafio, mas não o fiz, e em parte isso aconteceu por conta da maneira como aquela garota me olhava. Suas intenções não eram e nem nunca seriam das melhores, e suas sobrancelhas arqueadas repetiam essa informação como uma transmissão de rádio em loop infinito. Ela poderia pedir que eu fizesse algo bastante constrangedor, como ficar pelado no meio de toda aquela gente, eu tinha certeza disso. E essa foi uma das razões de eu ter escolhido a verdade.
Outra razão para eu ter feito isso foi que, bem, ela não me conhecia. Que verdade poderia dizer sobre mim?
Mas eu subestimei a sua inteligência.
— Eu não te conheço, Blaine – ela começou dizendo, como se tivesse lido meus pensamentos e já tivesse pensado em uma maneira de contornar o problema –, mas uma verdade precisa ser dita aqui, e é você quem vai dizê-la. Do contrário...
Eu provavelmente teria que ficar pelado no meio de toda aquela gente.
— Já fumei um cigarro de maconha uma vez – eu disse, mentindo. Aquela história não era minha, e não vem ao caso dizer de quem ela era. – Fiz isso para me enturmar, mas odiei.
— E quem nunca fez isso? – a garota disse em tom debochado, apertando seus olhos na minha direção como se me considerasse um idiota para o qual não valia a pena dedicar tanta atenção. Os amigos pareciam concordar com ela. – Conte outra coisa, senão...
E se eu ficasse excitado quando tirasse as roupas na frente de todo aquele pessoal? Eu precisava dizer algo e logo!
E foi a pressão do momento quem me fez revelar aquilo da maneira como foi dito:
— Eu sou gay.
Houve um suspiro em algum lugar, e ele foi feminino, mas eu não descartava a hipótese de ele ter sido soltado por algum dos garotos. O instante de silêncio que tomou conta do jogo durou não mais do que dez segundos, mas, a mim, pareceu uma hora inteira. Eu só esperava o momento de algum deles se levantar e dizer que não tinha mais por que continuar com aquele jogo, depois de uma revelação como aquele. Me surpreendi quando um dos garotos disse:
— Isso sim é uma surpresa! – riu com simpatia quando emendou: – Agora, sim, esse jogo está acontecendo!
Por mim, ele já estava acontecendo desde quando tinha começado.
A minha revelação mudou o rumo de grande parte das etapas seguintes do jogo de Verdade ou Desafio. Um dos garotos revelou que já tinha recebido insinuações de um garoto e que o afastou aos gritos, dizendo que não queria nada com ele. Em seguida, disse que, no fundo – e entre as pernas dele –, sentiu curiosidade de tê-lo para si. Um dos desafios envolveu ver as duas garotas se beijando. Houve palmas e urras. Agora, sim, eu me sentia no meio de jovens babacas de verdade.
Sam se retirou para se servir de mais uma taça de vinho e não ofereceu a bebida para mais ninguém. Estava quieto, o que talvez significasse que não estava de bom humor. Eu nunca mais o tinha visto beber daquela forma, mas, querendo ou não, a ocasião pedia isso, por uma questão de sobrevivência. Como eu poderia julgá-lo?
Voltou a se sentar e, por uma infeliz coincidência, a garrafa o escolheu como próxima vítima. Seria uma das garotas a que lhe faria a pergunta:
— Verdade ou Desafio, gatinho?
Bebida dá coragem, e era por isso que tantos jovens se sujeitavam a beber. Depois de tanto vinho, Sam estava mais corajoso, portanto. Poderia aguentar numa boa ouvir mais uma de suas verdades, por mais obscura que ela fosse, mas surpreendeu a todos quando pediu um desafio pela primeira vez desde que o jogo tinha começado.
— Um desafio, Sam? – disse a garota. – Tem certeza disso?
Na minha mente um pouco enevoada por causa das duas únicas taças de vinho que eu tinha tomado naquela noite, aquela garota tomava a forma de uma cobra, deixando veneno verde e brilhante como luz neon escorrer de suas presas. Suas sobrancelhas arqueadas e seus olhos claros facilitavam a ilusão. A imagem era assustadora.
— Sim, mande o que quiser – ele disse, balançando a taça na direção da garota. – Qualquer coisa. Estou pronto para o que for.
Ela pediria para ele beijá-la – quem teria dúvidas quanto a isso? Desde que entrara naquela casa, a garota – e também a sua amiga – estivera de olho em Sam e em seu corpo escultural, escondido, naquela noite, em roupas leves. O desafiaria a beijá-la e então poderia aproveitar não só do toque dos seus lábios excessivamente gordos, mas também do seu corpo, alisando-o e até o pressionando contra si. Era tão previsível que tive vontade de rir.
— Eu o desafio a beijar... – ela começou a dizer. O veneno agora esguichava de suas presas como se fosse uma grande vazão de água tóxica forçando passagem por uma torneira fina demais. – Eu o desafio a beijar o Blaine.
A realidade me acertou em cheio quando ouvi meu nome.
— O quê? – ouvi minha voz dizer.
— Ele é gay – disse a garota –, acabou de revelar isso. Vai fazê-lo feliz nessa noite, Sam!
— Além do mais – a outra garota começou a dizer –, eu sempre tive vontade de ver dois garotos se beijando, ainda mais quando os dois são bonitos.
Nem o elogio desviou minha atenção do que realmente estava acontecendo.
— Sam, não precisa fazer isso – eu lhe disse.
— É lógico que ele precisa! – disse um dos garotos. – Essas são as regras do jogo. Ele pediu um desafio, então vai ter que cumpri-lo!
— Sam, você está na sua casa, então essa palhaçada pode muito bem acabar assim que você der a ordem! – insisti.
Sam só olhou para mim nesse instante. Estava visivelmente alterado pelo álcool, mas nem por isso parecia menos racional. Estava mais corajoso, isso era inegável, mas nem por isso estava fora de si. Qualquer palavra que dissesse ou atitude que tomasse naquela noite, mesmo após as taças de vinho, seriam lembradas por ele, mesmo que ele depois jogasse a culpa no álcool e dissesse que não se lembrava de nada.
— Que palhaçada? – ele disse para mim. – Essas são só as regras do jogo.
Sua taça não fez nenhum barulho quando ele a colocou, com mais força do que devia, no carpete, mas seus lábios, quando se uniram aos meus, fizeram um estalo. Eu não deveria ter fechado os olhos quando isso aconteceu, mas Sam fechou os próprios, então me deixei envolver. O desafio proposto pela garota não pedia nenhum beijo elaborado, digno de cinema ou nada do tipo, mas mesmo assim Sam enfiou sua língua na minha boca, em busca da minha língua. A tocou rapidamente, fechou a boca e pensei que o beijo tivesse terminado ali.
Mas não terminou.
Ele se dobrou tanto na minha direção que fui forçado para trás. Teria me jogado deitado no chão, se sua mão não estivesse me segurando pelas costas. Sam mordia meus lábios e chupava a minha língua em um beijo que, para um desafio simples de um jogo de Verdade ou Desafio, estava intenso demais. Qualquer um poderia suspeitar que havia certa veracidade naquele gesto, até mesmo eu, que era quem recebia o beijo. Nunca imaginei que ele pudesse ser tão dedicado em um beijo, mesmo quando havia olhos ao nosso redor.
Quando terminou, achei que fôssemos ser motivo de piada, que algum dos garotos fosse chamá-lo de “viado” a partir de agora e que a fama de Sam seria toda jogada no lixo. No entanto, logo após ouvir um comentário de uma das garotas (“Acho que molhei minha calcinha”), Sam fez aquilo que provavelmente desencorajou qualquer possível chacota vinda de seus convidados.
— Era isso o que queriam? – Havia agressividade no seu tom. – Aqui está o beijo. Espero que tenham apreciado! Mas, agora, me façam um favor imenso e sumam da minha casa. Essa merda de jogo já estava uma droga desde quando começou, e não foi pra isso que eu os chamei para vir para cá hoje! Eu os chamei para um pouco de fondue e Blackjack! Não foi? – Não esperou resposta quando disse: – Foi!
E, de qualquer forma, acho que estávamos todos chocados demais para dizer algo.
— Agora vão. Vão! – insistiu, quando ninguém se moveu. Todas as bundas se desgrudaram do chão e os pés daqueles que não moravam por ali fizeram seu caminho até a porta. – Volto a vê-los na escola, não é mesmo? Até segunda-feira!
Fui o último a passar pela porta, mas não cheguei a dar nem dois passos no lado de fora da casa de Sam quando ele disse:
— Não me lembro de ter pedido para você sair.
Fiquei um segundo imóvel e então me voltei na direção dele. Os amigos de Sam partiam sem se despedir e o clima era horrível.
— É tarde e a noite é perigosa. Passe a noite por aqui – ele sentenciou, sem pedir “por favor” ou abrir espaço para eu tomar uma decisão.
Aquele foi um vislumbre do Sam que eu conhecera meses atrás, quando viera à Portland pela primeira vez, e isso não me animou nem um pouco.
Fale com o autor