Blam?

16 O Ego, o ID e o Superego


Eu nem sabia que o hall da casa de Sam tinha um relógio de parede até aquele presente momento, quando ele fechou a porta às minhas costas e mergulhou a casa num silêncio constrangedor. O relógio tiquetaqueava em seu ritmo padronizado, mas ao mesmo tempo observava a casa com seu olhar interessado, sério, de alguém que pensa, ao invés de falar, “Essa, sim, é uma cena interessante de acompanhar, estou curioso para saber como vai terminar”. Era um pensamento que eu também tinha.

No hall de entrada daquela casa, vi Sam sumir na escuridão da cozinha e retornar com uma garrafa de vinho semiacabada – ou um pouco cheia, dependendo do ponto de vista. Caminhou até a sala de estar, puxou uma cadeira à pequena mesa que lá havia e se sentou. Largou a garrafa sobre a mesa e retirou sua rolha com o polegar, comprovando que aquela não era a primeira vez que a garrafa era aberta. Havia outras três cadeiras ao seu redor, mas Sam pediu que eu me sentasse naquela que estava à sua frente, e o fez sem dizer uma palavra, só com o olhar.

Sentei-me antes que pudesse me dar conta disso.

— Pegue esse copo – ele pediu, referindo-se a uma taça que lá havia. Quando eu a apanhei, Sam entornou uma boa quantidade de vinho em seu interior. – Quando essa noite terminar, não haverá mais bebida nessa casa.

— Não podemos beber tudo o que você tem agora, isso vai nos matar.

— Não vai. Minha mãe bebe muito mais em uma mesma noite do que eu ou você bebemos na vida inteira, e está aí, viva. A única coisa que lhe aconteceu foram os dentes podres.

— Não fale assim da sua mãe...

— Não quero mais viver em segredos, Blaine, porque uma vida que nem essa é muito cansativa.

E o que você quer dizer com isso?, foi a pergunta que minha consciência fez, mas que minha boca não proferiu. Claro que ele estava se referindo ao fato de tratar o problema da mãe como um tabu, evitando falar sobre ele como se isso, por si só, resolvesse a situação. Talvez Sam não tivesse percebido, mas o que acabara de dizer também podia estar relacionado ao que tínhamos. Se não queria mais uma vida de segredos era porque queria assumir para os que conhecia que eu e ele não éramos simples amigos? Será que, quando me beijou momentos atrás, de forma intensa demais para o propósito que tinha, essa era a sua vontade? Era uma boa justificativa.

Mas Sam não estava inteiramente sóbrio e eu não me admiraria se ele só estivesse falando através do álcool. Até suas atitudes podiam ser fruto dele. Não pensava em consequências, no momento.

— Sei o que você está pensando, que estou bêbado demais e falando pelos cotovelos – e, ao dizer isso, com o queixo, ele indicou a minha taça. Bebi por impulso. – Pode ser que eu esteja bêbado, mas o único papel que a bebida exerce em mim nessa noite é o de me dar coragem. Coragem de dizer as cosas que realmente quero dizer, ao invés de tentar agradar a tudo e a todos.

Coragem.

Era disso que eu estava precisando e, se funcionara com ele, por que não funcionaria comigo? Apanhei a taça e a bebi toda de uma vez. Vinho era a bebida que eu mais apreciava, mas isso não queria dizer que eu estava acostumado com ela. A bebida desceu queimando pela minha garganta e foi quase no mesmo instante que minha cabeça começou a rodar. A sensação acabou rapidamente, para a minha felicidade. Se íamos sentar àquela mesa para uma conversa, que eu estivesse bem.

Mas quando foi que ele quis agradar alguém?, disse novamente a minha mente, aproveitando a minha pausa nos pensamentos para expressar sua opinião. E ela tinha razão. Mesmo quando Sam me levava para cama ou me beijava, eu duvidava que sua intenção fosse a de me agradar. O que ele queria era agradar a si próprio, sempre foi. Talvez não fosse da nossa relação que ele estava falando, portanto, mas de outro assunto, talvez até dos amigos.

— Eles queriam que eu pegasse aquelas garotas – ele disse, o que, de certa forma, confirmou as minhas suspeitas. – Não pela primeira vez. Já fiz esse favor a várias outras garotas, mas não queria fazer mais essa vez. Isso não me faz bem, nunca fez. Eram só favores. Elas sempre curtem, mas e quanto a mim? Será que a vida é isso, fazer a vontade alheia só para ser bem aceito?

Abri a boca, sim, mas, mais uma vez, não foi para falar. Aliás, era provável que Sam nem estivesse esperando que eu falasse, que só quisesse um ouvinte. Tomei a iniciativa de encher a minha taça com vinho, ignorando por completo o pensamento que eu tivera há pouco, de manter a minha sobriedade. Àquela altura, eu já quase não tinha controle sobre mim, e o pouco que tinha estava inteiramente destinado aos movimentos que foram precisos para encher minha taça até quase a boca. Bebi um terço da bebida e teria bebido mais, se Sam não tivesse voltado a falar.

— Não é o que eu quero. O que eu quero é...

Ele ainda não sabe o que quer.

Cruzei os braços sobre a mesa, mas logo voltei a descruzá-los para apanhar a taça. Sorvi mais uma boa quantidade do vinho e, quando olhei para o fundo da taça, quase não havia mais bebida por lá, só um restinho. Mas eu ainda tinha vontade de beber. Não esperei que esvaziasse para tornar a enchê-la, o fiz naquele mesmo instante e logo sanei o meu súbito surto de sede daquela bebida tão ácida.

O que você quer é sexo, eu concluí em pensamento quando a mão de Sam tocou a minha coxa, alisando o seu interior quase próximo de onde a cabeça do meu pau se encontrava. Nem mesmo me perguntei como ele tinha se movimentado tão rápido, tendo saído da cadeira em que se encontrava para se sentar ao meu lado. O vinho me deixava leve e fácil, então não neguei o toque.

Levantei o olhar para o meu lado e lá ele estava. Quase sorria enquanto me olhava, os lábios gordos selados, sem pretensão de dizer nada. A mão fazia seu trabalho para frente e para trás, com carinho.

— Sou muito jovem e o que quero é... – a voz de Sam voltou a dizer, mas seus lábios não se moveram para isso. No início, achei aquilo curioso, mas, quando a razão deu as caras, me perguntei como ele podia tê-lo feito.

De qualquer forma, a voz não parecia vir dele, mas do Sam que ainda estava sentado à minha frente.

Havia dois Sams naquela mesa. Um deles ainda fitava a superfície da mesa enquanto bebericava do seu copo, enquanto o outro alisava a minha perna. O que falava estava agora em silêncio e de vez em quando olhava para mim, como se para se certificar de que eu ainda estava lá. O Sam que alisava a minha perna mal se dava o trabalho de abrir a boca, e agora estava indo mais longe com a sua mão, roçando-a na cabeça do meu pau, fazendo-o ficar ereto em dois instantes. Uma pessoa sóbria não aceitaria com facilidade o que estava acontecendo, mas aquela carícia era boa demais para eu negar. O que eu queria era que ele continuasse ali, da mesma forma como desejava que o Sam do outro lado da mesa continuasse a falar.

E ele continuou, o que, por sorte, acobertou o suspiro involuntário que soltei quando os dedos na minha coxa a apertaram com força.

— Eu só queria ter a sensação de estar fazendo a coisa certa – o Sam à minha frente falou. – Não queria gastar a minha vida...

—... Fodendo com aqueles por quem você não sente nada? – Foi a voz de Sam que disse aquilo, mas não foi aquele que estava à minha frente quem falou. Tampouco foi o que alisava a minha perna; foi um terceiro, um que tomara a terceira cadeira vaga e que agora encarava o Sam original com um olhar de quase desprezo. – Se fosse um adolescente e ainda precisasse perder a virgindade para se impor entre os amigos, eu entenderia, mas não é mais o caso, é?

— Não é questão de se impor, é de se divertir! – respondeu o Sam ao meu lado, e se aproximou de mim. Retirou a mão da minha perna e a enfiou pelo cós da minha calça, agarrando minha nádega direita. – É questão de se divertir e de deixar que saibam que você está se divertindo!

Aquele novo Sam pareceu incrédulo quando olhou para aquele que cravava as unhas na minha bunda.

— Questão de diversão? – Quase ria enquanto falava. – E em quantos buracos esse pau branquelo já não entrou? Será que já não se divertiu o bastante? Estamos falando de várias garotas e garotos! Estamos falando de bocetas e...

—... Cus! – sussurrou a voz de Sam ao meu ouvido e sua língua o invadiu, me fazendo revirar os olhos. Minha boca escancarou em um gemido que não consegui controlar. E eu nem queria controlá-lo.

— O que eu quero é...

— O que eu quero é ser feliz – disse o primeiro Sam, sobrepondo-se ao que se sentava ao seu lado. Não parecia ouvi-los, mas pensava como eles. Talvez aqueles Sams fossem fragmentos da sua personalidade o ajudando a tomar decisões, e ali estava eu, fazendo parte de tudo.

O dedo médio do Sam que explorava minha bunda invadiu meu ânus e meu me joguei sobre a mesa.

— É isso o que tenho feito até aqui! – disse o Sam mais recente, falando com uma voz quase chorosa. – Não sou capaz de assumir que estou apaixonado pelo Blaine, mas não o deixo escapar de jeito nenhum.

— E quem disse que é paixão? – disse o Sam cujo dedo rodopiava dentro de mim. Era tanta coisa acontecendo que eu mal conseguia prestar atenção em uma delas.

É paixão!

— Porque eu quero me apaixonar – disse o Sam da bebida, e voltou a bebê-la.

— Porque eu sempre quis me apaixonar – continuou aquela sua versão mais faladora. – Mas como poderia, insistindo em pessoas que não fazem o meu tipo?

— Pessoas que não possuem um pau entre as pernas? – disse o Sam com a mão nas minhas calças, o mais sacana dos três.

— Pessoas que não são como o Blaine.

— Mas eu... Ah!— foi a minha tentativa de falar, mas agora havia dois dedos em mim, e eu já estava fora de controle.

— Mas você o quê, Blaine? – disseram aquelas três vozes idênticas, cada uma com uma entonação diferente: um sussurro, uma pergunta curiosa e um julgamento.

— Eu... Eu...

O Sam à minha frente, àquele que eu tinha certeza de que era o único real, se dobrou sobre a mesa e parou seu olhar em mim. Senti-me vulnerável. Enquanto sua personalidade atrevida forçava a passagem de um terceiro dedo no meu cu, eu olhava para aquele Sam à minha frente como alguém que precisa de ajuda, e ele me observava como se só esperasse que eu expressasse isso.

— E-Eu preciso de você, Sam.

— Era o que eu precisava ouvir – disseram de novo as três vozes.

O Sam atrevido retirou a mão da minha calça e me ergueu, carregando-me como se carregasse uma criança. Jogou-me no sofá que outrora descansara as bundas dos seus vários amigos. Puxou minha calça e meu pau bateu na minha barriga coberta pelo suéter, tão rijo que doía. Perguntei-me se seria aquele o Sam que me foderia, mas eu estava enganado.

Não seria ele.

Mas foi ele quem começou. Suas sobrancelhas arqueadas lhe adicionavam um semblante maldoso que era ao mesmo tempo irresistível e amedrontador. Quando abaixou as calças, o pau, erguido como um mastro, sacudiu na minha direção. Não tirou mais peças de roupas do que essa e se curvou sobre mim. Brincou na entrada do meu ânus com a cabeça do pau, mas não me penetrou.

— Eu o quero de costas.

E foi no chão que ele se sentou. Se por vontade própria ou se por auxílio dele eu não lembro, mas logo eu estava sentado em seu pau, sentindo-o tocar o mais fundo que podia em mim. Eu gritava, ou gemia, não sabia ao certo.

O segundo Sam surgiu, e foi por conta do seu olhar julgador, de alguém que não mede esforços em defender um ponto de vista, que eu soube que aquele era o que falava mais, o mais novo dos três. Veio segurando a cabeça do pau contra a barriga quando se aproximou de mim e a soltou, fazendo-o sacudir diante do meu olhar.

Não precisou pedir que eu abrisse a boca, eu o fiz por conta própria. Com a cabeça virada para o lado, deixei que o pau fizesse seu caminho até tocar a minha garganta e o deixei lá por um instante, até sentir falta de ar. Afastei-o e o masturbei com a única mão livre, já que, com a outra, eu me apoiava na coxa do Sam que me fodia. Engoli aquele pau mais uma vez e o suguei, tão desejoso que estava. Minha mão explorou o peito daquele garoto, e todos aqueles toques eram tão reais que nem passava pela minha cabeça que aquilo pudesse ser uma ilusão. Ainda não.

Uma pausa para respirar e, ainda segurando aquele pau, olhei para frente. O Sam que faltava estava agora ali.

— O que você quis dizer com aquilo, Blaine? – ele perguntou. Sentado à minha frente, mantinha os braços cruzados sobre os joelhos flexionados, o olhar estranhamente triste, como se lamentasse que eu estivesse agora transando com suas duas outras versões.

— Acho que nunca te esqueci de verdade – eu disse e, como que em respeito, o Sam cujo pau forçava passagem dentro de mim parou. – Aliás, tenho certeza disso. Não sei o que você tem, mas é isso o que eu quero.

— Blaine...

— E sei que você tem problemas para descobrir o que quer, mas eu não me importo, estou disposto a aguardar.

Sam despejou uma lágrima, ou já a havia despejado antes, não me lembro ao certo, quando ouviu aquilo. Foi uma reação surpreendente porque, da última vez em que eu tinha dito algo semelhante, ele me negou e me tratou como qualquer um. Tinha gritado comigo e praticamente me ofendido, dizendo coisas sobre como eu era idiota em querer algo mais do que ele já oferecia. Sua lágrima era uma reação mais sentimental, diferente daquela que tivera meses atrás. Aquele Sam tinha mudado.

Mas essa não era a primeira vez que eu tinha reparado nisso, era?

— Repita o que você disse – ele pediu.

— Não é nem paixão o que eu sinto por você, Sam.

— E é o quê?

— Acho que eu te amo.

Sam descruzou os braços e se pôs de joelhos à minha frente. Antes de abaixar sua bermuda, ele tocou minha face e me beijou. Era o tipo de beijo que eu mais apreciava e que eu sempre oferecia àqueles por quem eu tinha grande admiração. Foi lento e bonito – sim, essa era a palavra, o beijo foi bonito. Eu aceitaria numa boa se, da sua parte, só houvesse aquele gesto naquela noite, mas não negaria nenhuma das suas investidas, absolutamente nenhuma.

— Eu não sei se eu te amo, Blaine – ele disse, encarando-me nos olhos, ainda segurando a minha face. – Mas, como você mesmo me disse outro dia, como eu poderia saber se te amo, se nem sei ao certo o que sinto?

Dei de ombros, a minha única reação.

— Mas eu gosto de estar com você, e isso é inegável. Gosto muito.

— Eu também gosto tanto, tanto, tanto.

— E aqui estamos nós.

— E aqui estamos nós – eu repeti, embora sem saber se ele se referia a nós quatro ou apenas a nós dois.

Ele retirou sua bermuda e, pela terceira vez, vi aquele mesmo pau bambear, duro como uma estaca. Pus-me de joelhos também e só então abaixei minhas calças também. Quando beijei Sam ali, no carpete, ajoelhado e, por alguma razão, suado, deixei de lembrar que, na minha mente, eu já estivera transando com ele desde alguns instantes atrás, quando sua versão mais agressiva e aquela mais cautelosa decidiram usar seus paus em mim. Só aí me dei conta de que estivera fazendo parte de uma ilusão, provavelmente causada pela bebida.

Mas foi só como alguém sóbrio poderia fazer que percebi o quanto aquele Sam, o real, o que me beijava e que agora me deitava no chão para, enfim, fazer amor comigo, me amava. Ele podia não saber disso, mas eu sabia, e isso já me era suficiente.