Blam?

17 O Medo


Quem visse o estado de Blaine naquela noite, já quase de madrugada, talvez tomasse uma conclusão errada sobre como ele se sentia. Qualquer um que entrasse naquela sala de estar e o visse estirado no tapete, vestindo apenas uma camiseta, uma perna esticada e a outra, semiflexionada, e um dos olhos semiabertos no que parecia um sono profundo poderia julgar que aquele garoto, aquele sim, entrara em coma alcoólico. Poderia até estar morto. Sua boca, semiaberta, não emitia o típico ronco de alguém que costuma dormir de barriga pra cima com a boca aberta, mas essa pessoa precisaria saber que não havia desvio nenhum no septo de Blaine e que ele não passaria a roncar tão cedo. Talvez quando e se engordasse, mas não agora, com menos de vinte anos e um início de vida adulta até que bastante saudável.

O mesmo já não poderia ser dito sobre o rapaz que se encontrava ao seu lado, Sam. Ambos tinham bebido mais do que poderiam para uma noite de sexta-feira, mas talvez Sam tivesse se dedicado mais ao fondue que fora servido mais cedo e, por isso, não sofresse tanto as ações do álcool. Deitado sobre um braço, ele não parecia muito diferente de Blaine, com uma perna esticada e outra dobrada, vestindo apenas uma camiseta que ele erguera há pouco para ficar alisando a própria barriga com o indicador. O que o diferenciava de Blaine, portanto, era justamente o fato de estar acordado, e não só isso; ele estava bastante desperto. O jeito como o peito de Blaine subia e descia vagarosamente deixava claro que o garoto se encontrava num sono profundo, enquanto Sam nunca estivera tão distante disso.

Focava o teto. Tentava se lembrar de como fora parar ali, naquela situação. Fodera Blaine com tanta força e dedicação que ficara exausto. Quando ejaculou dentro do cu do garoto, suas forças pareceram ir embora junto com cada gota do esperma. Tinha desabado sobre Blaine e Blaine desabou sobre si próprio. Blaine tinha fechado os olhos e sorrido por um instante – o próprio esperma agora escorria para os lados em sua barriga –, e Sam teve esse pequeno instante de sobriedade do garoto para observar. O achava bonito e gostava de como ele ficava quando estava muito excitado, algo na maneira como ele curvava as sobrancelhas para cima numa expressão triste, de dor. A expressão típica de alguém que sofre por prazer, o ápice da coisa, algo do qual Sam nunca sofrera.

Porque ele, quando sentia prazer, sentia também euforia. Não sofria, pelo contrário; sentia-se jubiloso. Agia como uma criança que passa a vida inteira desejando ir ao cinema e, quando lá está, degusta cada segundo do filme, sem nunca deixar de prestar atenção. O sexo para ele era assim, mas com Blaine parecia ser duplamente assim. Não era como quando ele metia seu pau na boceta de qualquer garota, e não tinha nem como comparar as duas formas. Comparar uma transa com Blaine com uma feita com qualquer garota, daquelas muito parecidas com as primas de Luke, era como comparar o entusiasmo de um trabalhador ao ir a uma festa com o dessa mesma pessoa ao ir ao trabalho.

Não é profissional, ele pensou. E estava certo. Com Blaine, era divertido, bom de um jeito que podia ser comparado ao de comer um pudim de leite sem sentir culpa. Com as garotas, reinava o sentimento de obrigação, de algo que precisava ser bem feito porque ele, na posição de um rapaz bonito, de corpo atlético, parte do time de futebol americano da escola e líder de uma trupe de sabe-se lá quantos garotos precisava fazer isso bem. Fora assim desde quando perdera a virgindade, aos quinze anos. Sempre se preocupara com a própria reputação e sabia que qualquer garota que fosse se deitar com ele falaria a seu respeito com as amigas ou até com os amigos, então era bom que ele fizesse a coisa certa. Adquirira o profissionalismo e experiência necessários para isso assistindo pornografia.

Mas nada disso servira com Blaine, porque com ele a coisa era diferente. Não era questão de jogar um jogo de conquista e mexer as peças certas para obter o resultado que queria, era mais um lance de se jogar de corpo e alma à coisa e deixar que os movimentos, carícias e o que mais fosse tomassem o próprio rumo. E tomavam, sem que ele tivesse controle, como quando dois corpos já conhecem o embalo de uma música e sabem a coreografia que precisam fazer para que tudo dê certo no final. Transar com Blaine era assim.

Porque transar com Blaine era divertido, afinal.

Mas não é só isso, é?

Sam virou o rosto para o lado e contemplou o perfil solene de Blaine. Com a boca semiaberta, era como se o garoto ao seu lado analisasse os sons da própria mente, tão focado que tivera que fechar os olhos. Sam achou engraçado que sua postura estivesse tão parecida com a sua e refletiu sobre como uma mesma posição pode ser confortável tanto pra quem está acordado quanto para quem está dormindo. Ver o rosto de Blaine assim, tão de perto e imóvel, lhe permitia ver detalhes que eram impossíveis de serem vistos em outra ocasião. Blaine não chegara àquela casa na noite passada com barba, por exemplo, mas o decorrer da madrugada tingira um pouco da linha do seu maxilar e do seu queixo de cinza, algo bem discreto que só poderia ser notado por alguém que já observara aquele rosto e que lhe dera verdadeira atenção.

Do jeito que se encontrava, Blaine estava tão vulnerável que qualquer coisa, de bom ou de ruim, poderia lhe acontecer sem que ele percebesse. Alguém poderia se curvar sobre ele e lhe roubar um beijo e talvez ele nem acordasse. Alguém poderia se aproveitar do fato de que ele já estava sem calças e estuprá-lo, e aí, sim, ele acordaria.

Sam franziu o cenho e contorceu o rosto numa expressão de nojo ao pensar nisso. Em seguida, o delírio o fez sentir compaixão pelo garoto que dormia tão confortavelmente ao seu lado, no tapete da sala de estar da sua casa. Quis protegê-lo de todo mal, nem que fosse apenas o envolvendo por um abraço. Quase tomou iniciativa de fazer isso, mas percebeu a tempo que poderia acordá-lo, e não era isso o que queria.

Porque Blaine estava muito à vontade do jeito em que se encontrava, e essa imagem, para Sam, era de algum modo fascinante. O fato de ele dormir no chão da sua sala não queria só dizer que ele estava exausto e que poderia dormir em qualquer lugar, mas que ele confiava em fazer isso. Confiava naquela casa e também na pessoa que a possuía. Confiava nele.

E por que ele confia em mim?, Sam tornou a pensar. Mudou de posição, ficando agora de barriga para baixo, apoiado nos cotovelos. Assim, tinha uma perspectiva melhor do garoto que dormia ao seu lado. Que motivos eu dei pra ele para que confiasse tanto assim em mim?

Que soubesse, não tinha dado nenhum. Talvez Blaine simplesmente tivesse escolhido confiar nele, independentemente das consequências. Se bem se lembrasse, Blaine dissera há pouco que o amava, e aquela não era a primeira vez. Essa afirmação, por si só, já demonstrava uma grande parcela de confiança. Blaine o admirava a ponto de amá-lo, e isso por quê? Porque ele tirara sua virgindade ou porque ele era um cara atraente que, de um momento para o outro, se interessara por ele? Também poderia ser um caso de amor à primeira vista, e eles eram jovens, esse tipo de coisa acontecia entre gente da idade deles...

...Mas como eu poderia saber?

Esse era um dos grandes mistérios de amar alguém. Talvez nem Blaine soubesse ao certo porque dissera que o amava, talvez fosse algum impulso motivado pela perspectiva de estar prestes a foder. Blaine já dissera mais de uma vez, e até usara um tom de quem se gabava ao fazer isso, que sabia o que sentia e que, por isso, era alguém menos complicado do que Sam, mas será que ele sabia mesmo? Sam quase dissera “Eu te amo também” horas atrás, mas não soubera se era o momento certo e nem se era a coisa certa a dizer para alguém que conhecia há tão pouco tempo.

Não é tão pouco tempo assim, é?

Não mesmo. Mas nem por isso todo o tempo em que estiveram juntos pareceu maior do que o pouco tempo em que Blaine estivera afastado. Aquele, sim, demorou a passar, com seus dias que pareciam durar cinquenta horas e semanas cujos fins de semana pareciam ter sido cancelados. Blaine fizera falta.

Seu retorno fora o que diminuíra um pouco da importância que dava à situação da mãe, afinal, se fora justamente seu vício que o trouxera, por que ele deveria sentir raiva disso? Que se entupisse de bebida se quisesse! Blaine estava de volta e Sam se sentia grato por isso. Melhor ainda era ver que ele continuava como sempre fora, tão fascinado por ele quanto ele, Sam, escondia estar por Blaine. E por que fazia isso?

Acho que por medo, respondeu em pensamento. Porque sempre esteve claro para mim que o Blaine me admira e que está sempre esperando por um toque, um beijo ou qualquer outro tipo de investida da minha parte. Ele gosta disso, gosta do pensamento de que está me seduzindo. E se um dia ele soubesse que já me seduziu há muito tempo e que o admiro, ou até que o amo, tanto quanto ele me admira ou me ama? Será que ainda se interessaria por mim? Será que não seria contaminado por aquela infeliz sensação de alguém que já teve seu dever cumprido e que agora pode partir para outra?

Esse tipo de pensamento fazia com que Sam sentisse um embrulho no estômago. Gostava daquilo que tinha com Blaine e, pelo menos por enquanto, achava que poderia prolongá-lo pelo resto da vida, principalmente enquanto Blaine morasse por lá. Não conseguia imaginar uma rotina que não envolvesse vê-lo pelo menos uma vez por semana, nem que fosse só para sentir o toque da sua mão, que costumava ser macio como o de uma garota. Pra que iria para a escola, se não para lhe dar carona na ida ou na volta e, de vez em quando, vê-lo no intervalo? A presença de Blaine era um refresco em sua vida tão controlada para agradar tanta gente ao mesmo tempo. Era como um talismã que lhe permitia ser o que realmente era enquanto os dois ainda estivessem juntos, e prova maior disso não havia, além do beijo que ele fora capaz de lhe entregar mesmo quando havia outras cinco pessoas lhes observando. Aliás, talvez fosse justamente a presença de uma plateia que fizera com que o momento fosse ainda mais excitante em sua memória do que realmente fora enquanto acontecia. Mesmo assim, Sam tivera que se controlar para não fazer mais do que já fizera enquanto aqueles abutres o assistiam.

Blaine se mexeu e soltou um suspiro longo, demorado, muito semelhante ao de alguém que expressa satisfação. Sam costumava soltar um suspiro muito parecido quando passava muito tempo sem mijar e finalmente encontrava um banheiro.

— Blaine? – disse, tomando o cuidado de não soar mais alto do que deveria. E se Blaine não estivesse acordado? Ele que não queria ser o responsável por mudar isso.

Blaine continuou a se movimentar, como só um adormecido que procura uma posição melhor na cama pode fazer. Ficou de lado, apoiando a cabeça em uma mão. O outro braço ele jogou para frente, talvez sem intenção nenhuma de acertar as costas de Sam, mas lá estacionando.

Sam aproveitou a deixa para se aproximar. O rosto de Blaine na sua direção lhe permitia sentir sua respiração no próprio rosto. Àquela altura da madrugada, ela não tinha um cheiro tão bom, e Sam não podia julgá-lo por isso, afinal, passaram grande parte do tempo tomando vinho.

Pensou se não seria uma boa ideia abraçá-lo do jeito como ele agora fazia.

Achou melhor não.

Se ele descobrir que já me tem nas mãos, talvez queira me jogar fora, era a certeza que tinha.

E, se bem estivesse certo, talvez esse fosse também seu único e maior medo.

Notas finais
O Blaine dormiu, então alguém precisava contar como as coisas tinham acontecido, né? rssssss