Blam?
18 A Transição
Os sonhos que Blaine andara tendo naquela noite seriam interessantes de serem assistidos, mas não de serem vivenciados.
Já perto de despertar, ele sonhava que rolava morro abaixo, acertando diversas pontas de rochas com várias partes do corpo, o que, apesar de lhe fazer gritar no sonho, não causava dor nenhuma. Mas seu desespero tinha fundamento: podia não sentir dor a cada nova estocada, mas sabia que, quando aquela queda tivesse um fim (isso se ela tivesse um fim), as dores se acenderiam como luzes de pisca-pisca em uma linda árvore de Natal. Achava curioso o fato de ainda conseguir pensar com clareza enquanto caía, a começar pelas reflexões sobre as dores que estavam por vir. Uma pessoa normal, durante um acidente, não costumava refletir com tanta coerência, costumava? Ele não saberia dizer com certeza, mas suspeitava que não. Nunca sofrera um acidente, mas esperava não ter que passar por um para tirar suas dúvidas na prática.
Havia alguém rolando ao seu lado também, colidindo com os cantos vivos como ele e deixando o corpo se envolver por camadas e mais camadas de terra e grama, pois era disso que era feito o morro pelo qual desciam. A pessoa não tinha fisionomia, mas, apesar de se encontrar em uma situação crítica, conseguia articular palavras com a facilidade de alguém de alguém sentado e muito bem acomodado em uma poltrona de couro. Coisas que acontecem em sonhos. Blaine mal entendia o que lhe dizia, mas podia jurar que nada tinha a ver com a queda. A pessoa que caía estava mais preocupada com a marca de bebida que teria que levar para uma festa mais tarde naquela noite do que com as possíveis fraturas graves que aquela originaria. Era desesperador.
Tão desesperador que não teve como Blaine aguentar aquilo por mais tempo, então antes que pudesse colidir novamente com outra rocha...
...Eu abri os olhos e a claridade que encontrei não era exatamente a que eu esperava.
Não houve cenário por um momento, apenas aquela luz forte, tornando todo o espaço branco e muito bem iluminado. Quando reabri os olhos foi que percebi que a luz vinha da janela, uma claridade quente de uma manhã que já estava em seu auge. Eu chutaria que eram mais de nove horas já. Aquele era o primeiro sábado em que eu acordava tão tarde.
Em seguida, houve as dores.
E elas acenderam em pontos específicos: em um músculo das minhas costas, no meu ombro, na parte de trás de uma das minhas coxas e uma leve cãibra na barriga que não seria um problema se o meu próximo movimento fosse bem calculado e cuidadoso. Acontecia que eu estava com o torço bem contorcido, o que deixava a parte de cima do meu corpo virada para cima e a de baixo, para baixo. Não era uma boa posição para dormir, considerando que eu não queria ter problemas de coluna tão cedo.
É culpa da queda, foi o primeiro pensamento incoerente que tive naquela manhã. Em seguida, me questionei de que queda estava falando, e não obtive resposta. Talvez eu tivesse sonhado com alguma queda, no que seria meu inconsciente tentando justificar as minhas dores. A realidade, no entanto, era que eu passara a noite deitado em um tapete felpudo que, ainda que feito de pelos macios, não tornava o chão mais confortável. E eu jamais me sujeitaria a uma “aventura” como aquela, o que só podia significar que eu não estava sóbrio antes de chegar àquela situação.
Só precisei de um segundo para me lembrar de onde estava, e não seriam precisos mais do que dois, tendo em vista que Sam estava logo ali, sentado no sofá, devorando uma tigela de cereais com leite.
Vestia apenas a camiseta que vestira na noite anterior, nada mais do que isso. Seu par de pernas, com ambos os pés bem apoiados no chão, perdiam ainda mais a cor com a forte claridade que vinha pela janela. Mas eram belas pernas. Eu não precisava ver mais do que isso para saber que ele não vestia mais nada e que, em algum ponto que estava longe da minha vista, seu pau estava livre para respirar. Sam devorava a tigela com a fome de um sem-teto. Vê-lo assim me deixou com fome também.
Não sei com que frequência ele andava me observando, mas não tardou até que percebesse que eu estava acordado. E se pronunciou:
— Bom dia.
Resmunguei uma resposta, mas nem eu a entenderia se fosse o ouvinte.
— Não parece muito confortável... – ele prosseguiu.
— Não estou – foi o que meus novos resmungos quiseram dizer.
—... mas eu não quis te acordar. Tenho meus motivos. Sabe, às vezes, são as posições mais desconfortáveis aquelas que achamos mais confortáveis. Você não concorda? – Não sei se ele esperava resposta, mas eu não dei uma. – E você parecia dormir tão bem. Imagino eu que seria ofensivo da minha parte interromper isso.
Talvez fosse, mas como saber? Eu não me sentia exatamente feliz de estar deitado e seminu no chão da sala de outra pessoa, mas pelo menos estava descansado. Com dores, mas descansado.
— Não fique com raiva de mim – Sam acrescentou depois de um tempo.
E por que ficaria?, pensei. Eu não tinha motivos para ficar com raiva dele, tinha? Não agora. Acordar ao lado de Sam – ou pelo menos perto dele – era sempre uma experiência inigualável, prazerosa e revigorante. Do tipo que diminuía a importância de qualquer atitude antiga sua, até mesmo dos momentos em que ele evitara falar comigo por quaisquer que fossem as suas razões ou quando me tratava como apenas um boneco sexual. Acordar na sua presença pintava o quadro de que estava e sempre esteve tudo bem entre a gente, que eu não tinha que me preocupar com nada, que Sam sempre estaria ali por mim. E poderia eu querer prova maior disso do que o fato de que ele nunca fugia na manhã seguinte?
Mas também não se esqueça de que você está na casa dele, então para onde mais ele poderia ir?
Eu estava na zona de conforto dele.
Girei meu quadril para que meu corpo todo ficasse deitado para cima e tomei todos os cuidados para que a cãibra na minha barriga não se tornasse algo pior. Funcionou. Sentei-me no tapete e levantei-me num único impulso, já esquadrinhando o chão em busca do que vestir.
— Por que está se cobrindo? – Sam perguntou.
— Do que está falando?
Ele apontou com o olhar para as mãos que eu mantinha em frente ao pau, escondendo-o.
Eu até pensei em respostas para aquela pergunta, e a primeira delas era a mais verdadeira de todas: pudor. Envergonhava-me ficar nu na frente de Sam, ainda mais em um ambiente tão bem iluminado. Em seguida, sabendo que estar pelado na frente dele nada significava, uma vez que já tínhamos feito muito mais com os corpos naquele estado, pensei em dizer uma mentira. A janela estava aberta e alguém poderia me ver daquele jeito, foi o que pensei, e eu não queria isso.
Mas ele não me deu tempo para abrir a boca.
— Tire as mãos daí.
Não usava um tom autoritário, mas ainda assim aquela era uma ordem.
— Por quê? – perguntei.
— Não é possível que esteja querendo se esconder de mim.
— Não estou.
— Eu gosto do seu corpo. De tudo sobre ele. Gosto dele principalmente porque ele pertence a você.
Nada daquilo me soou compreensível ou coerente por um instante, então minhas mãos continuaram onde estavam.
— Olhe como estou – ele continuou, mas ele não precisava pedir para que eu visse. As pernas abertas formavam um vale no qual seu pau se alocava amolecido e comum. – Achei que isso fosse encorajá-lo a ficar assim também, ou que pelo menos fosse deixá-lo mais à vontade.
Eu quis rir, e só não o fiz porque, de repente, percebi que Sam estava sendo sincero. A parte cômica estava justamente nisso: ele estava sendo sincero e sério sobre querer que eu me descobrisse só para mostrar a ele que estava à vontade. E por que isso?
— Vamos.
— Vamos o quê, Sam?
Bateu uma mão no assento ao seu lado e tentou sorrir. Agora a tigela jazia entre suas pernas, quase tão cheia como se ele tivesse acabado de enchê-la.
Eu me sentei ao seu lado e só quando lá estava foi que pensei no que estava acontecendo. Obedecia às ordens de Sam sem que fosse da minha vontade, quando o que eu queria mesmo era ir para a minha casa, aquela construçãozinha charmosa e vazia que me encheria de tédio durante todo o fim de semana. Mas eu tinha lições para fazer, e aquela enrolação com Sam não adiantaria o meu lado.
— Está com fome? – ele perguntou.
— Estou – respondi sem ter certeza.
— Tem cereal ali...
— Na verdade, eu quero muito...
...ir para a casa, é o que eu teria dito, se ele não tivesse me interrompido:
— Eu preparo uma tigela pra você. Só um instante.
Sam largou sua tigela em seu assento no sofá e, exibindo uma bunda pálida e dura, fez seu caminho até a cozinha. Não vou mentir, aquele tipo de vulnerabilidade me fazia sentir amor por ele, ainda mais. Era um tipo de amor ainda mais forte do que o que eu sentia quando pensava nele em momentos em que não estávamos próximos, que me fazia entrar na sua página do Facebook e olhar as suas fotos só para vê-lo. Aquele mesmo Sam que figurava em várias das fotos dos seus amigos era o que preparava uma tigela de cereal para mim, e sem usar nenhuma roupa de baixo.
Vulnerável como só se pode ficar quando estamos em nossa zona de conforto.
Com pessoas em quem confiamos.
— Muito ou pouco leite? – ouvi sua voz perguntar.
— Pouco – respondi, porque essa era a palavra que eu ainda recordava.
E então Sam voltou, o corpo perfeito tendo seus tons de pele modificados a cada novo nuance de luz que o tocava, o pau sacudindo a cada nova passada de perna, despreocupado e sem segundas intenções, apenas existindo. Apanhou a própria tigela de cereal antes de se sentar e entregou aquela nova a mim.
Mergulhei a colher nas bolinhas de chocolate umedecidas e peguei uma quantidade pequena. Eu gostava daquele cereal, mas, ainda que estivesse com fome, me faltava o apetite. Eu não estava totalmente bem, tampouco à vontade com aquela situação. Ali estava eu mais uma vez acatando as ordens de Sam e me deixando levar pelo seu charme e influência, quando eu sabia que tinha responsabilidades a cumprir e coisas mais importantes para fazer. Não foi por isso que voltei à Portland, então por que, mesmo me sentindo tão mal, eu ainda estava ali?
Por que eu tinha esperança de que as coisas com Sam ainda dariam certo, talvez?
— Gosta desse tipo de cereal? – ele perguntou, provavelmente preocupado por eu não ter me dedicado a nenhuma colherada ainda.
— Gosto. É do tipo que eu mais gosto.
— E por que ainda não o comeu, então?
— Porque... – Eu não sabia. A colher desenhava círculos pela tigela enquanto eu pensava no que dizer. Na verdade, eu não tinha o que dizer. – Eu não sei. – Enchi a colher com uma quantidade generosa de cereal e a levei à boca. O sabor daquele café da manhã continuava tão saboroso quanto eu ainda me lembrava.
— Achei que estava se sentindo mal.
— Só estou com um pouco de dor.
— É porque dormiu no chão, não é?
Talvez não só por causa disso.
— É, acho que foi principalmente por isso – foi o que respondi.
— Mas está bem, então?
— É, pode-se dizer que sim.
— O que acha de sair um pouco comigo hoje, então?
Acho que teria engasgado se já não tivesse engolido minha última colherada de cereal, mas mesmo assim foi com incredulidade que olhei para Sam.
— Por que está me perguntando isso?
— Achei que ia gostar da sugestão.
— Eu gosto.
— Mas por que parece que não?
— Porque... Bem, eu passei a noite aqui, acho que estou com vontade de ir para a casa...
— Eu posso te dar uma carona no fim do dia...
— No fim do dia?!
— Se não quiser ir, não precisa.
Ouvir isso me partiu o coração, ainda mais do jeito como foi dito, com um Sam se forçando a parecer menos constrangido e falsificando sua expressão de seriedade. A todo instante, desde quando eu o deparara ao abrir os olhos naquela manhã, ele estivera sendo genuíno e verdadeiro, enquanto eu só agia com evasivas. E se Sam era o que eu mais desejava, por que eu ainda insistia em fazer isso?
— Eu saio com você, Sam. Vai ser um prazer.
Ele sorriu com sinceridade, um sorriso que não queria só transmitir alegria, mas que dizia muito mais. Dizia que suas intenções eram boas com aquela sugestão.
Só que nem esse sorriso me preparou para o que eu estava prestes a encarar ainda.
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