Blam?

19 O Banho


Tudo começou com um banho.

E eu estava precisando de um, considerando todas as coisas que eu fizera naquela noite. Não se tratava apenas de limpar a sujeira que Sam fizera no meu corpo, embora essa tivesse grande parte da culpa, mas também de me livrar de tudo o que grudara em mim durante aquele encontro horroroso que fora o jogo de Blackjack na noite anterior. Quando pensava no acontecido, meu corpo estremecia com o que eu imaginava ser nojo ou constrangimento. Se arrependimento matasse, imagino que estaria morto. A pior decisão que eu pudera tomar naquela semana fora justamente ter aceitado ir a um encontro com pessoas que eu nem conhecia, ou os tais “amigos” de Sam, aquelas pessoas que pareciam se esforçar para serem desagradáveis o tempo todo. Teria ganhado muito mais ficando em casa, fazendo de conta que não existia, enquanto me escondia em cobertores.

Mas aí eu não teria feito nada do que fiz com Sam.

Tampouco teria tomado aquele banho.

Mesmo quando morara naquela casa, eu nunca tivera coragem de desvendar os segredos que guardavam o quarto de Angelina. Talvez por respeito. Mesmo quando o vira ser invadido por casais de estranhos durante as festas que Sam marcava, eu não me sentia no direito de invadi-lo; já era suficientemente abusivo da minha parte morar ali, logo, invadir o quarto da dona da casa, mesmo que pelo mais simples dos motivos, não me parecia certo. Mas naquela ocasião, esse e qualquer outro tipo de freio moral que pudesse me impedir de acompanhar Sam para o interior do quarto de Angelina não se fizeram presentes. Acho que eu estava hipnotizado.

Tanto tempo de respeito pela privacidade de Angelina jamais me permitiram saber, por exemplo, que ela tinha um banheiro próprio, de pisos e azulejos brancos, grande o suficiente para caber uma banheira. Estava tudo muito limpo, brilhando, quase reluzindo, consequência não de uma manutenção diária da sua limpeza, mas do que eu imaginei ser falta de uso. Comecei a me perguntar se Angelina andara tomando banho e quase fiz a pergunta a Sam. Ainda bem que não fui adiante; aquele não era o momento e, além do mais, a casa tinha outros banheiros, e certamente Angelina não teria paciência para tomar banho de banheira todos os dias.

Sam fechou a porta quando passamos e selou o trinco.

— O que vamos fazer? – eu perguntei como se já não soubesse.

— Tomar um banho. Eu preciso de um. Você também não precisa?

— Definitivamente.

Sam se sentou na borda da banheira e abriu duas torneiras: uma de água quente e outra de água fria. Deixou a de água fria com vazão menor, portanto, procurava um banho quente. Era ao lado da banheira que ficava a única janela do recinto, uma grande, que dava vista para o jardim de trás da casa, com sua piscina e espaço para festas. A pessoa dentro da banheira teria que ficar pelo menos de joelhos para ver tudo isso, mas não havia a mesma dificuldade para ver o céu. Sendo assim, o dia ensolarado jorrava sua claridade para dentro do banheiro tornando-o ainda mais claro do que já era. Acredito que foi esse momento que me fez criar tanta admiração pela cor branca e me fez sonhar em ter um banheiro como aquele algum dia.

A água ainda estava na metade quando Sam retirou a própria camiseta. Mesmo sentado com a coluna curvada, sua barriga não exibia dobras. Fosse qual fosse sua rotina de treinos na academia ou educação alimentar (que não era tanta), o conjunto dos dois surtia efeito.

Em pé em frente à pia, contemplei meu reflexo no espelho, um daqueles que serviam para guardar todo tipo de pílula misteriosa que adultos costumavam tomar. Pensei se aquela não seria uma boa hora para retirar minha camiseta também, mas só esse pensamento me fez ficar arrepiado, como se uma brisa fria tivesse entrado pela janela (algo que não tinha acontecido em absoluto e jamais aconteceria em um dia tão fresco). Mesmo tendo hesitado, achei melhor retirá-la antes que Sam pedisse para eu fazê-lo. Acho que já era hora de eu começar a improvisar os próximos passos daquela dança, ao invés de esperar que Sam os ditasse.

Eu me achava demasiadamente branco, pálido como alguém doente. Naquela manhã, no entanto, minha pele não parecia muitos tons diferentes do branco da parede às minhas costas. Não fosse pelo tufo de cabelos pretos que preenchia a minha virilha ou a mancha cinza de pelos recém-nascidos que agora tomava o meu peito, talvez meu corpo sumisse no cenário do banheiro, aquele corpo magro no qual eu via tão poucos atrativos.

Mas pelo qual Sam estava, agora, fascinado.

Na água, ele fazia círculos com a mão enquanto a banheira enchia. Estava tão compenetrado nessa distração que em nenhum momento desviou sua atenção para mim, então não percebeu que eu observava o tempo inteiro. Devia conhecer bem a rotina que envolvia a preparação de um bom banho de banheira, pois quando se dobrou na direção de um pote de sabonete líquido, despejando uma quantidade na banheira, não o fez como se experimentasse a quantidade ideal, mas como se soubesse a quantidade ideal. Voltou a fazer aqueles círculos com a mão. Quando considerou a altura da água boa (na minha mente, ainda podia encher um pouco mais), fechou as torneiras.

— Poderia encher um pouco mais, não? – sugeri.

— Não se não queremos que a água escorra para o chão.

— Com um pouco mais de água, não acho que a banheira despejaria água se você entrasse...

— Mas se você entrar comigo, vai derramar, sim.

Então esse era o propósito.

Os movimentos feitos por Sam na água fizeram com que o sabonete líquido gerasse bolhas. Muitas delas tinham cores diferentes ao receber a luz do sol, o que tornou aquela imagem ainda mais bonita do que eu jamais poderia imaginar.

— Por favor – pediu Sam, sacudindo da mão a água ensaboada e se levantando da borda da banheira. Apontou-a. – Faça as honras.

Encaminhei-me em direção à banheira e, sem nunca ter entrado em uma antes, eu não fazia ideia de qual era a melhor maneira de fazê-lo. Não precisei pensar em uma, entretanto. Sam apanhou uma das minhas mãos e a ergueu no alto.

— Um pé de cada vez – disse, e foi o que fiz.

Mesmo tocando-a apenas com as pernas, percebi a água mais quente do que eu esperava. Mas eu me acostumaria. Sam me ajudou a me sentar, e eu o fiz sem hesitar. Era fácil, quando se tratava de uma água tão distante de ser fria. Com o nível da água na altura do peito, suspirei com aquele tipo de alívio que eu já tinha assistido inúmeras vezes em filmes nos quais os personagens se sujeitavam a um banho de banheira, e quase gargalhei quando me dei conta disso.

— Isso está perfeito, Sam – ouvi-me dizer. – Mas será que sua mãe não vai...?

Interrompi a pergunta quando o vi entrar na água. A banheira não era exatamente grande; encostado em um dos extremos, meus pés quase tocavam o outro lado. Foi nele que Sam se acomodou, jogando as pernas na minha direção, descansando-as sobre as minhas. Com isso, a água subiu alguns níveis, quase tocando o meu pescoço, mas sem oportunidade de derramar para os lados. Sam sabia o que fazia.

— É bom, não é? – ele perguntou, e avistei um sorriso em seus lábios.

— Muito.

— Vamos precisar sacudir um pouco da água para fazer bolhas. É só fazer alguns círculos aqui na superfície. Tome cuidado para não derrubar água no chão.

— Sua mãe ficaria uma fera.

— Estou mais preocupado com o trabalho que vamos ter para limpar o banheiro depois. Então vamos com calma.

Fizemos as bolhas, um processo que não era muito divertido, mas que fez Sam sorrir mesmo assim. Ele adorava as bolhas. O nível da água podia estar seguramente alguns centímetros abaixo da borda da banheira, mas logo as bolhas formaram uma espuma alta, quase independente da água, que poderia criar uma parede entre mim e Sam.

Ele pegou um pouco dela e soprou na minha direção.

— Ah, meu Deus! – eu exclamei, levando a mão ao rosto.

— Acertei os seus olhos? – ouvi a voz dele perguntar.

Meu olho esquerdo ardia, mas não era nada que um pouco de pressão não resolvesse.

— Não – eu disse e tornei a abrir os olhos –, só ficou um pouco...

Eu não ficara nem dez segundos de olhos fechados, mas esse fora tempo suficiente para permitir que Sam se desgrudasse de onde estava e se dobrasse na minha direção. Vencera a parede de espuma para isso. Agora, suas pernas não estavam mais sobre as minhas, mas eu as sentia por entre elas, mantendo Sam ajoelhado. Eram as mãos deles, apoiadas no chão da banheira muito próximas das minhas coxas, que me desconcentravam, ainda mais do que o olhar brilhoso e preocupado que ele mantinha voltado para mim.

— Tem certeza de que está tudo bem? – ele perguntou, por fim. Deve ter notado que um dos meus olhos estava irritado, pois levou a mão justamente à face esquerda, acariciando-a com o polegar.

— Está tudo ótimo – eu respondi numa voz baixa.

— Ótimo.

O barulho da água enquanto Sam movimentava o corpo. O som do grito de alguma criança na rua, provavelmente irritada com o resultado de alguma brincadeira. O farfalhar das cercas vivas no jardim de trás da casa. A minha respiração. A respiração de Sam.

O jeito como ele me olhava.

Tudo isso preencheu meu coração com um turbilhão de sentimentos intensos e maravilhosos, tantos que o fizeram doer uma dor prazerosa, como se quase não conseguisse mais mantê-los ali. Eu tinha medo de piscar e tudo deixar de existir. O pensamento de que aquilo poderia ser um sonho, apenas um sonho maravilhoso e perfeito criado pela mente de um jovem em idade escolar, me perturbava e amedrontava. Eu focava minha atenção em cada um dos olhos de Sam como se para ter certeza de que eles sempre estariam lá.

O som que o ar fez pela minha garganta quando engoli em seco.

— Deixe-me te ajudar com isso – Sam disse num sussurro pertinentemente encaixado no meio de todos aqueles sons. Acredito que até ele tinha noção da importância do que estava acontecendo ali.

— Me ajudar com o quê...?

Sam retirou parte do corpo da água apenas para apanhar uma bucha cor-de-rosa que antes estivera pendurada em um gancho na parede acima da minha cabeça. A bucha parecia uma flor de pétalas gigantescas feitas de rendas e o sabão se infiltrou em suas entranhas sem dificuldade quando Sam a mergulhou na água.

— Sam...

— Eu quero fazer isso. Por favor.

— Mas...?

— Eu insisto.

O que eu queria era tirar uma dúvida. Quer dizer, se estávamos em uma banheira, com água para todo o lado, não bastava eu mergulhar para que meu corpo ficasse limpo por inteiro? Ou seria esse só mais um típico pensamento de quem não tinha banheira em casa?

Quaisquer que fossem as respostas para essas perguntas, foi bom que eu não as tivesse feito. O que Sam desejava nada tinha a ver com limpeza realmente. Era o toque. Era a proximidade. Era a conexão que aquilo criava entre nós. Era o gesto.

Ele mais uma vez segurou minha face, dessa vez a direita, e seu polegar a explorou como se para ter certeza da textura que tinha. Afastou-a quando levou a bucha ao meu peito, e o fez devagar, com se a água tivesse oferecido resistência ao movimento. Parou-a por ali.

— Eu também quero – acabei dizendo.

— O que você quer?

— Eu quero o que você quiser.

Sam assentiu, e pude ouvir o gulp! que sua garganta fez quando ele engoliu em seco. Mas sorriu em seguida, como se tivesse ouvido exatamente o que queria ouvir.

— E você sabe o que eu quero, não sabe, Blaine? – ele perguntou, agora massageando meu peito com a bucha.

— Eu sei?

— Você sabe.

— Acho que... Acho que sim. Mas às vezes eu tenho dúvidas.

Sam se dobrou para frente e beijou o centro da minha testa. De todas as carícias que compartilháramos naquele dia ou em qualquer outro, foi naquela que eu senti mais densamente o seu amor. E eu jamais a esqueceria.

— Tudo a seu tempo, Blaine – ele disse ao se afastar.

Retomou o movimento que fazia no meu peito e agora não mais me fitava nos olhos; olhava para o meu peito, como se para ter certeza de que fazia a coisa certa. Isso me permitiu observá-lo em silêncio durante todo o tempo, sem ressentimentos ou preocupações.

E me permitiu ver quem Sam realmente era, quando despido do caráter que vestia diariamente para sobreviver à adolescência.