Blam?
20 À Beira do Abismo - Parte 1
Quando terminamos o banho e fomos nos arrumar, eu fui o primeiro a terminar. Mas também eu nem tinha recursos para demorar demais na minha arrumação, quando tudo o que eu tinha era a roupa do meu corpo – o que era uma pena. O dia estava mais quente do que a temperatura estivera na noite anterior, então meu casaco estava fora de contexto. E também o estava a calça. Um adolescente vestido para inverno curtindo o que seria um dia de verão.
Sam se “embonecou” durante uma grande quantidade de tempo, sabe-se lá Deus por quê. Quando apareceu, o relógio já acusava uma da tarde, e aqui preciso esclarecer uma coisa: mesmo que ele tenha demorado tanto para se arrumar, estou falando de ao menos uma hora enfiado em seu quarto. Se conseguíramos passar do meio dia ainda naquela casa fora por causa do banho, que levou mais tempo do que deveria.
Porque primeiro houve as carícias. Depois os beijos. O banho não foi mais “quente” do que isso, mas não deixou de ter seu tom de erotismo. Demos um jeito de ficarmos abraçados, e assim ficamos. Acho que cochilei no ombro de Sam, o que explicaria com perfeição a rápida passagem de tempo. Ele adquiriu o costume de beijar a minha testa e o topo da minha cabeça, e cada vez que fazia isso era como se meu corpo se contaminasse por uma grande quantidade de arrepios.
Decidimos que era hora de deixar a água já tarde demais, quando a pele ardia de tanta limpeza. Eu nunca me demorara tanto em um banho, e talvez por isso fui o primeiro a notar que não era certo continuar com aquilo. As pontas dos dedos das mãos e dos pés estavam enrugadas, sofridas. Secamo-nos um ao outro no que ainda foi uma continuação do romantismo do banho. Vesti toda a roupa que eu trouxera comigo e desci. A partir de então, Sam se enfurnou em seu quarto e só saiu de lá quando era mais de uma hora da tarde.
E estava ofensivamente bem vestido.
Quer dizer, não estou falando de roupas de marca nem nada do tipo, estou falando de estar pertinentemente bem vestido para uma ocasião. Camisa florida, bermuda de sarja e um tênis baixo. Desde quando Sam guardava esses tesouros em seu guarda-roupa? Eu não conseguia me lembrar de tê-lo visto vestido daquela forma antes.
O ponto alto do visual, no entanto, era o cabelo. Desde que eu voltara ao Maine, os cabelos de Sam tiveram tempo para crescer e serem penteados, e foi justamente o que ele fizera naquela tarde. Usara alguma coisa nele, porque os fios estavam comportados e perfeitamente penteados para trás. Estavam brilhosos, com aspecto de molhado, mas, sinto muito, não estavam bonitos; a junção do que vestira com aquele penteado o deixava parecendo um mauricinho, filho de pais ricos que o bancavam com o que precisasse, e não o garoto relativamente humilde que eu conhecera quando chegara a Portland. Mas eu entendia o que estava acontecendo, afinal: Sam queria surpreender. Certamente, pesquisara na Internet aquele jeito de se vestir e o reproduzira com fidelidade. Fora muito bem sucedido.
— Você está lindo – fui obrigado a dizer.
— Agradeço – ele respondeu, e posso jurar que o vi corar, mesmo que ligeiramente.
— Está tão lindo que não vejo como posso sair com você assim— e apontei para o meu próprio corpo.
— Achei que fosse querer ficar mais à vontade, mesmo, e é uma sorte que eu ainda tenha isso – ele disse e revelou o que a mão antes segurava às costas. Até então, eu não tivera raciocínio suficiente para perceber que ele escondia algo de mim.
Assim que vi o que ele segurava, reconheci aquelas coisas como minhas: uma bermuda xadrez e uma camisa polo branca. Por um momento, me perguntei como aquelas peças de roupa poderiam estar na mão de Sam, quando eu nem mesmo as trouxera para Portland, mas a resposta para essa pergunta era óbvia e chegou a mim com rapidez: eu não as trouxera para Portland porque nunca as levara para Nova Iorque, inicialmente.
— Ainda estava na lavanderia quando você... Quando você foi embora – Sam explicou. – No meu momento de fúria, quis jogar tudo fora quando o carro da lavanderia chegou para entregá-las, mas minha mãe me impediu, disse que seria ainda mais deselegante da minha parte do que eu já tivera sido com você até então. Disse que só pioraria as coisas.
Angelina estava certa.
— Pode vestir isso, se quiser – Sam insistiu e agitou a mão com as roupas.
Eu a vesti sem pensar duas vezes, surpreso com o cheiro de roupa limpa que ainda ostentava, mesmo depois de tanto tempo guardada.
Joguei a roupa antes usada no banco de trás do seu carro, quando Sam assim pediu. Ele tomou o banco do motorista e eu me sentei ao seu lado, no do carona. O carro seguiu pelas ruas de uma Portland ensolarada, preparada para construir um dia perfeito, como aqueles dos filmes de comédia romântica. Nada mais pertinente, pois era justamente num filme desse tipo que eu me sentia, mesmo sem saber quais eram os planos de Sam.
No caminho que fizemos para qualquer que fosse nosso destino, Sam fez algo que nunca tinha feito: contou histórias sobre si que envolviam lugares que ele já frequentara.
— Aquela casa, por exemplo – disse quando passamos em frente a uma pequena construção térrea, numa avenida muito movimentada. – Quando nasci e quando meu pai ainda estava com a gente, era lá que morávamos. Mas minha mãe nunca gostou dela, porque mesmo à noite era possível ouvir os carros passando na avenida. Sempre brigou com o meu pai sobre esse assunto, dizendo que queria morar num lugar mais suburbano. Quando ele se foi, ela realizou o seu sonho.
Também apontou um terreno baldio que costumava frequentar com seus amigos do ensino fundamental. Houvera algum tipo de árvore por lá na qual, com muito esforço e tempo dedicados, eles tinham construído uma casa da árvore.
— E ela era perigosa – Sam disse e riu. – Digo isso porque, bem, fora construída por crianças de, o quê?, oito, nove anos? Usávamos pregos velhos encontrados nas ruas e as tábuas de madeira a gente roubava de uma madeireira que ficava próxima à nossa escola. Talvez a madeira fosse o único material bom naquela casa, mas o restante... Usávamos a casinha para jogar jogos de carta. Um de nossos amigos gostava de usá-la para estudar, e nós não o atrapalhávamos. Quebrávamos cofrinhos e comprávamos guloseimas para embalar nossas tardes ou noites por lá. Já menti que iria dormir na casa de um amigo e passei a noite com eles por lá. – Sam mais uma vez riu, fechando um punho em frente à boca como se para esconder o riso. – Aquela casa era tão perigosa que, se nossas mães soubessem que ficávamos lá, a teriam destruído com as próprias mãos. Quando andávamos, o chão rangia e se curvava. Se a madeira não fosse de tão boa qualidade, teríamos caído do alto da árvore antes que pudéssemos evitar.
— Crianças não têm muita noção dessas coisas, mesmo.
— É verdade. – Lembrou-se de mais um detalhe e ergueu o indicador, batendo-o no volante. – E tinha aquele cheiro, um cheiro forte de coisa amarga. Vinha de uma outra árvore, uma menor, que ficava lá perto, uma com uns frutinhos verdes e pequenos como ervilhas. No começo, o cheiro incomodava, mas acabamos nos acostumando. Mesmo assim, se o vento estava a favor, nossa casa da árvore se enchia com aquele cheiro e nós nos forçávamos a fazer de conta que ele não estava lá. – Riu novamente.
Não havia nenhuma razão específica para Sam me contar aqueles relatos de sua infância, mas eu conseguia enxergar a intenção oculta nisso. Ainda estava relacionada ao seu desejo de proximidade. Muitos livros falavam sobre como verdadeiras amizades são formadas por troca de confidências, e, muito embora eu tenha certeza de que Sam nunca leu nenhum deles, seu subconsciente sabia do efeito que isso causava. Ele queria se aproximar ainda mais de mim, de um jeito que o sexo não aproximava.
— Não tínhamos direito a esse tipo de prazer em Nova Iorque – eu lhe disse. – Terrenos baldios são raros por lá, se você morar perto do centro de Nova Iorque. Mas quem mora no centro não tem vontade de se afastar dele, quando tudo do que se precisa está por perto.
— A cidade grande é diferente daqui.
— Bem diferente. Mas eu adoraria ter tido uma infância agradável como a sua.
— É... Foi bem agradável, mesmo. Obrigado – disse e agora sorriu para mim.
Quando menos pude perceber, estávamos entrando no drive-thru de um Mc Donald’s.
— Está com fome? – Sam perguntou. Abriu o porta-luvas à minha frente e retirou uma carteira de lá.
— Um pouco.
— Acho que é uma boa hora para um almoço, então. O que quer daqui?
— Hum... Um cheeseburguer qualquer com fritas e refrigerante pequeno.
— É uma ótima pedida.
Nossa vez de fazer o pedido demorou um pouco para chegar, pois o fluxo de clientes, por conta do horário, estava intenso. Talvez foi por isso que quando a atendente eletrônica perguntou qual era o nosso pedido Sam desembestou a falar:
— Um Big Mac e três cheeseburguers, tudo acompanhado de batata-frita grande, e dois copos de Coca Cola de setecentos, por favor.
— Sam!
— Um cheeseburger é muito pouco, Blaine, e você ainda vai me agradecer por ter pedido dois para você.
E ele estava certo.
O pedido surgiu rápido e eu fui o responsável por carregá-los a partir de então. Sam fez sua rota para fora do drive-thru e, ao invés de fazer o caminho de volta para casa, continuou seguindo em frente. O destino final não era o Mc Donald’s, portanto.
Não tardou até o caminho se tornar algo mais campestre do que fora até ali. Tudo bem que Portland, ainda que urbana, não era exatamente uma metrópole como Nova Iorque, mas, mesmo se tratando dela, os caminhos que tomamos, para mim, eram estranhos e inesperados.
Tomamos uma estrada isolada, margeada por florestas densas. Fazíamos um rota para cima, sempre subindo, como se planejássemos chegar ao topo de uma montanha. O rádio parou de funcionar quando ganhamos distância, e só então eu percebi que o rádio estivera ligado. Algumas das copas das árvores eram tão densas que fechavam um teto sob nossas cabeças, fazendo parecer que o dia já escurecera, aproximando-o da noite. Era ilusão, pois, alguns metros à frente, sempre aparecia um novo trecho de luz solar, um relance daquele dia de filmes de comédia romântica que tínhamos deixado para trás e substituído por aqueles de começo de filme de terror.
— Para onde estamos indo, Sam? – foi a pergunta que eu de repente fiz, embora devesse tê-la feito antes de percorrer toda aquela meia hora de trajeto.
— Para o topo dessa montanha.
— Você só pode estar brincando.
— Vai valer a pena, acredite em mim.
Os lanches já estavam frios àquela altura da viagem e eu me perguntava se ainda conseguiria beber tanto refrigerante, quando esse já estava em temperatura ambiente. Era provável que sim, considerando a fome que eu tinha no momento. O cheiro de carne com queijo já tinha preenchido o carro de um jeito não muito diferente que as frutinhas verdes da árvore próxima à casa da árvore da infância de Sam, que provavelmente eram jurubebas, tinham enchido a casinha. A diferença era que o presente cheiro me deixava com o estômago nas costas. Eu já começava a ansiar pelo gosto de gordura da batata-frita como jamais tinha desejado em toda a minha vida.
Minha barriga roncou.
— Eu deixo você comer uma das batatas, se quiser – disse Sam, que na certa tinha escutado o ronco.
— Obrigado – eu disse, me sentindo tolo por não ter pensado nessa possibilidade antes.
Chegamos ao famigerado topo da montanha pouco tempo depois. O carro estacionou, Sam puxou o freio de mão e eu não conseguia erguer os olhos, porque o sol, naquela altura, ficava quase no nível dos olhos.
— Venha – pediu Sam e deixou o carro. – Deixe os lanches aí – disse antes de bater a porta.
Abri a porta e fiz como ele pediu, me apressando para acompanhá-lo. Estávamos no topo de um rochedo, com os faróis do carro voltados para o mais belo horizonte que eu já tinha visto na vida. Se não tivesse tomado cuidado, teria caído precipício abaixo, de tão próximo que Sam estacionara da beira do abismo.
Mas isso não parecia deixá-lo triste; na verdade, o excitava. Sam contemplava a paisagem à nossa frente com um sorriso largo, daqueles que deixam os dentes darem as caras. Abriu os braços como se esperasse um abraço e a brisa das alturas o envolveu, colando a roupa ao seu corpo e fazendo o que podia para desprender seus cabelos da brilhantina.
— Não é lindo, Blaine? – ele perguntou, animado, voltando olhos perturbadoramente claros na minha direção.
Ele estava falando da paisagem, mas eu ainda não a observara com a atenção que deveria; estava fascinado por Sam, hipnotizado por ele. Talvez fosse o jeito como ele demonstrava alegria, e esse sentimento era tão contagiante.
— Não é lindo, Blaine? – ele repetiu, alargando o sorriso ainda mais. – Não é?
Aquele Sam sorridente era novo para mim, mas não era só isso, ele também era...
— Sim, Sam, é lindo demais.
Isso pareceu alegrá-lo.
O que me alegraria ainda estava para acontecer.
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