Blam?

12 O Domingo


Sam podia não ter bebido muito, mas bebera, e eu começava a me perguntar como a Lei Seca do Estado do Maine entenderia isso, caso nos parasse e pedisse que soprássemos um bafômetro. Sam não parecia bêbado e, na verdade, não estava – a partir de certo ponto da festa, sua boca se ocupou mais com salgados e bebidas doces, como suco de laranja, estratégia essa que eu conhecia muito bem para evitar ou amenizar o efeito do álcool. Talvez tivesse funcionado. Mas eu ainda estava angustiado.

Era a droga do vídeo. Talvez ele nem tivesse acontecido mesmo, mas mesmo a possibilidade de haver um me preocupava. Eu ainda não tinha me assumido, o que significava que grande parte das pessoas que me conheciam não sabia de mim, mesmo que eu suspeitasse que algumas suspeitavam, e um vídeo viralizado por redes sociais não era exatamente a melhor maneira de mudar esse cenário.

— Você fez isso de novo – disse Sam, ao volante, de repente.

— O quê?

— Essa respirada profunda. Por que está fazendo isso?

O cenário ao nosso redor era macabro como só o Maine poderia oferecer: estrada fina, simples, margeada por campos arborizados que escondiam os maiores segredos e terrores daquela cidade. Em um pesadelo, eu me imaginava ali, parado, erguendo o polegar enquanto pedia carona. Entraria no carro de alguém estranho e então teria que conversar com essa pessoa, para distraí-la. E que tipo de pessoa me daria carona numa noite nebulosa como aquela? Talvez não a de melhor tipo.

— Não é nada – foi o que eu disse como resposta.

— É o lance do vídeo, não é?

— Isso não te preocupa mesmo?

— Você conhece o Mark?

— Conheço – foi a resposta que dei por impulso. – Não, não conheço. Quem ele é?

— Nos “bastidores”, chamamos o Mark de Frodo, e isso por uma série de motivos. Uma vez, vimos os pés dele descalços e eles são cabeludos, Blaine, como os do Frodo, mas o que nos levou a chamá-lo dessa forma, de verdade, foi o fato de ele ser pequeno. Acho que não tem mais de um metro e sessenta.

— E daí?

— Ele não conseguiria erguer um braço sobre a porta do banheiro para nos filmar, e mesmo que tivesse feito isso pelo vão que fica embaixo da porta, eu duvido que conseguiria filmar algum rosto.

Apoiei meu braço em uma parte da janela e voltei a encarar a noite que nos cercava. Aquela paisagem me fazia pensar que não havia mais ninguém no mundo, além de mim e de Sam. Até Mark parecia um personagem inventado pela mente dele.

— Você tem certeza disso? – perguntei.

— Ah, tenho sim. E, vai por mim, ele não tem o melhor celular do mundo para fazer filmagens, especialmente em lugares escuros. Nunca quis trocar aquela droga de Samsung arcaico que tem. Nem Android aquela porra tem – Sam comentou e riu, quase gargalhando.

Eu estava meio sonolento, e isso fez parecer que a viagem de volta levou mais tempo para acabar do que a de ida. Quando chegamos à rua em que eu vivia em Portland, pensei em suspirar de alívio e até devo ter feito isso. Jamais saberia.

— Posso te deixar aqui ou você pode vir para a minha casa, se quiser – disse Sam, diminuindo a velocidade com a proximidade da minha casa, mas não parando o carro. – Minha mãe não está em casa. Disse que ia dormir na casa de uma amiga do trabalho, pois tinha muita coisa para fazer e iria aceitar a carona dela quando fossem embora. Ficaríamos à vontade.

Eu não sei se Sam estava insinuando que queria transar mais uma vez, até porque essa possibilidade, para mim, era improvável. Não bastasse o fato de termos feito isso ainda há pouco, o quarto de Sam não era um poço de boas memórias para mim, portanto, voltar até lá para fazer o que antes fazíamos com tanta indiferença não me parecia uma oferta tão atraente. Mesmo se ele quisesse usar o quarto de hóspede. Pior ainda seria se ele sugerisse o quarto da própria mãe.

— Eu estou muito cansado, Sam, sinto muito – eu disse.

— Entendo. – Sam tamborilou em seu volante, parando o carro de vez. – Bem, pelo menos eu tentei. Seria legal ter um pouco de companhia hoje à noite.

— Por quê? Em algumas horas, já vai ser dia.

Sam riu antes de dizer:

— Eu tenho passado muito tempo sozinho naquela casa, Blaine. – Ainda ria, como se achasse graça da própria situação, quando disse: – Minha mãe nunca está lá. Minha opinião é que ela descobriu alguma amiga que curta beber tanto quanto ela e que achava uma ótima ideia jogar um colchão no chão para ela, para quando já não tivessem mais o que beber.

Achei estranho ele não dizer “para quando não quisessem mais beber”, o que sugeriu que Angelina não tinha outro freio para bebida, que não fosse a falta dela.

— Por isso digo que seria legal ter alguém por lá – Sam continuou. – Ia quebrar essa rotina chata que tem sido acordar e não ter com quem conversar.

Ouvir Sam falar daquele jeito era comovente, ainda mais com os meus ânimos do jeito que estavam. O sono me deixava sensível. Mas eu não sabia quais eram, ao certo, as intenções dele com aquela proposta, e aquele era eu, mais uma vez, não sabendo lidar com o lado imprevisível de Sam. Além do mais, passar a noite sozinho não era um grande desafio – e eu já vinha fazendo isso há um bom tempo, desde que retornara à Portland.

— Se precisar de ajuda com a sua mãe, me chame – eu disse e me aproximei para abraçá-lo. Senti Sam levar sua boca até próxima da minha, mas eu não estava esperando um beijo, então seus lábios grudaram na minha bochecha. – Estou cansado demais para mais uma viagem. – Sorri amigavelmente quando disse: – Obrigado por essa noite. Por tudo.

— Por nada.

Passei para dentro da minha minúscula casa sem olhar para trás, mas ouvi o carro de Sam partir assim que fechei a porta. Os acontecimentos posteriores a esse passaram num piscar de olhos, algo que envolveu eu jogar a cabeça embaixo do chuveiro e tirar o excesso de creme para pentear que eu usara naquela noite e uma escovada de dentes demorada e pouco dedicada em frente ao espelho. Consegui trocar o terno por uma roupa de dormir e, quando me joguei na cama, apaguei antes que pudesse jogar a coberta sobre o meu corpo.

~//~

Acordei com o típico som que só um celular vibrando pode fazer.

Pensei em despertador e que era hora de ir para escola, mas então me lembrei de que aquele era um domingo, o que me forneceu uma rápida sensação de alívio. Mesmo assim, o som persistiu por mais tempo do que achei que duraria. Só podia ser uma ligação. Quando o celular parou de vibrar, soltei um último suspiro e mergulhei o rosto no travesseiro.

Não demorou muito e o celular voltou a vibrar.

Caralho! – ouvi minha voz dizer e apalpei a mesa de cabeceira em busca do aparelho. Não estava onde eu o deixava, o que me obrigou a abrir os olhos imediatamente.

Esquadrinhei o quarto em busca dele; o dia já amanhecera e o quarto agora recebia a luz do sol. Mas onde estava o meu celular?

— No terno!

Corri até a cadeira em que meu terno se encontrava e apalpei o bolso interno. O celular vibrava com ainda mais força, como se se estrangulasse em busca de atenção. Vi o relance da foto de Sam na tela, mas atendi a ligação antes que tivesse chance de associar isso ao fato de que era ele quem me ligava.

— Alô?

— Oi, Blaine, é o Sam.

— Que horas são?

— Quase meio dia.

— Está tudo bem com você?

— Estou. Mas preciso de ajuda aqui.

Ele não precisou dizer mais.

Tirei-me da roupa de dormir e me enfiei em uma roupa casual decente num piscar de olhos. Lavei o rosto, mais uma vez escovei os dentes e apenas ajeitei os cabelos. Calcei tênis confortáveis, pois planejava correr até a casa, apesar de ela não ficar tão distante assim. Tranquei a porta da frente quando saí e me deparei com um belo e inspirador dia ensolarado.

A casa de Sam ficava a poucos quarteirões da minha e, sendo aquele domingo um dia que ainda estava começando, praticamente, não encontrei muitos vizinhos nem carros andando pelas ruas. Corri sem interrupções e parei à porta de Sam com a testa pingando de suor.

— Blaine – disse Sam quando abriu a porta.

Passei para dentro e olhei ao redor, em busca de Angelina. Primeiro parei o olhar no sofá, onde eu imaginei que ela fosse estar agonizando, mas não a encontrei. Nem na cozinha ela estava.

— Sam, onde ela está?

— Quem?

— A sua mãe.

— Provavelmente, ainda na casa da amiga – ele disse, encostando-se no portal da cozinha. Vestia-se com roupas típicas de verão, regata e bermuda, roupas simples que, nele, ficavam sexies. – Por que a pergunta?

— Você disse que precisava de ajuda...?

— E você não me deixou terminar de dizer com o quê – ele disse, aproximando-se de mim com passos lentos e vacilantes. Chegou tão próximo que seu cheiro, tão característico, invadiu minhas narinas. – Eu estava pensando em fazer um almoço legal hoje, mas não sabia ao certo o que cozinhar. Ia pedir sua ajuda com isso, e até cheguei a te enviar algumas mensagens, mas você não as leu.

— Eu estava dormindo.

— Como conseguiu dormir tanto assim?

— Deve se lembrar de que chegamos tarde em casa.

— Ou cedo, depende do ponto de vista. E então, o que sugere para fazermos no almoço?

Eu não estava com apetite ainda, mesmo não tendo tomado café da manhã, o que não era de todo incomum. Além do mais, eu ainda estava cansado e provavelmente ainda estaria dormindo, se Sam não tivesse me ligado. Sendo assim, pensar em opções de almoço não foi algo que me ocorreu com tanta facilidade. Além do mais, eu estava um pouco irritado com o fato de Sam ter me enganado com a sua proposta e não conseguia pensar com razão.

— E que ingredientes você tem...? – comecei a perguntar.

— Vai fazer alguma coisa hoje, Blaine? Porque, da última vez que chequei, tínhamos um dia inteiro para fazer o que quiséssemos, sem nos preocupar com tempo ou consequências. Se eu não tiver algum ingrediente, podemos ir ao mercado e comprá-lo. Não seria um grande desafio.

O que Sam me propunha era bastante claro: passar uma tarde cozinhando com um amigo. Mas o que aquelas palavras intrinsecamente diziam não era exatamente o que queriam dizer, e cada vez que Sam abria a boca, mais eu tinha certeza disso.

— E o que você está a fim de comer hoje? – perguntei.

— Não sei. Talvez massa. Poderíamos pensar em um molho bem elaborado. – Colocou a mão no meu ombro quando disse: – Não precisa se preocupar com as louças, eu vou cuidar de tudo, vou deixar tudo limpo.

— Que ótimo.

— E não vou precisar da sua ajuda nisso, faço questão de trabalhar sozinho. Aí você fica por aí, tomando um suco enquanto assiste televisão, não sei. Aliás, poderíamos comprar frutas pra suco também, o que acha?

Mais e mais, eu tinha certeza.

— É uma ótima ideia também.

— Que bom que está gostando. Fico feliz. Agora vamos? – disse ele, sacudindo um molho de chaves diante de mim.

— Sam.

— O que foi?

— Você não está preocupado com a sua mãe?

Ele não respondeu de prontidão. Desviou o olhar para o chão, para mim, voltou ao chão e, quando retornou o olhar para mim, falou:

— Acho que prefiro não me preocupar.

E por isso está propondo esse encontro de amigos na cozinha, eu pensei.

— Ela é uma adulta, não tenho nenhum poder sob as escolhas dela – ele disse em seguida. – Queria que ela estivesse aqui, mas não está, e não posso deixar isso me afetar.

Ele está carente.

E era por isso que estava propondo mil atividades para fazermos.

— Mas se você não estiver a fim, Blaine...

— Quem disse que não estou a fim? – eu o interrompi. – Achei que estava com a chave do carro na mão porque já estávamos de saída.

O sorriso de Sam iluminou aquela parte da cozinha e uma parte pequena da minha alma. Deixava-me feliz vê-lo sorrir com tanta sinceridade.

Notas finais
Lesson learned and the wheels keep turning... ♪