Blam?

10 O Casamento - Parte 2


Ninguém estava a fim de dançar quando as músicas animadas de verdade começaram a tocar, porque talvez ninguém estivesse à vontade o suficiente ainda.

Ao fim da retrospectiva, voltamos todos às mesas e continuamos a fazer o que já fazíamos: esperar a boa vontade dos garçons de trazer quitutes à nossa mesa. Bebida era fácil de encontrar, mas as iguarias coloridas e desconhecidas (por mim) que eles carregavam em suas bandejas eram disputadas aos tapas.

– Vamos ter que molhar a mão de algum deles com prata pra ver se eles deixam pelo menos a droga de uma quiche aqui – disse um dos amigos de Sam (eu ainda não decorara os nomes, porque eram todos muito parecidos, então qualquer um era John para mim). – Ei! Ei! – foi o jeito como ele chamou uma das garçonetes, sacudindo uma mão no ar.

– Vamos ter que encher a mesa de comida, se não quisermos passar fome nessa noite – Sam comentou, como alguém que diz que é uma boa ideia deixar a conta em débito automático, se não quiser se esquecer de pagá-la um dia.

– Estamos em uma festa chique, Sam – eu lhe disse. – Não tem medo de ser julgado como “esfomeado”?

Era uma piada em cada um dos seus aspectos, mas Sam a levara a sério o suficiente para respondê-la com uma verdade disfarçada de piada também:

– Já faz um tempo que não vejo comida decente em casa. – Ele ria enquanto falava, mas não os seus olhos; esses se mantiveram sérios e desconfortáveis, como se não julgassem apropriado brincar com uma situação tão delicada. – Pelo menos alguns desses salgados têm carne, e eu já não como carne de verdade há muito tempo, com exceção dos Pringles sabor churrasco, que eu duvido que vá carne mesmo.

A mesa o estava ouvindo, então todos riram escandalosamente, até mesmo as meninas, que talvez nem o conhecessem. Mas quem não teria coragem de rir de uma piada do Sam, sendo ele um cara tão bonito e sedutor sem nenhum esforço? Mesmo se ele começasse a fazer alguma imitação tosca, tenho certeza de que todos ririam, especialmente as meninas.

Foi quando as bandejas começaram a sumir pelo salão e os garçons só se sujeitavam a entregar bebidas, e não mais comida, que os mais corajosos resolveram entrar na pista de dança. Quatro dos lugares da mesa em que estávamos ficaram vagos quando dois dos casais se juntaram aos dançarinos. O casal restante, cujo garoto não parecia ter muita afinidade com Sam, mas que não escondia toda a que tinha com a garota que trouxera como acompanhante, se beijava e se explorava em suas cadeiras de uma maneira quase obscena, que ofendia os meus olhos.

Mesmo assim, em nenhum momento eu pensei em me levantar para dançar. Eu até olhava na direção da pista de dança, hipnotizado por todas as suas luzes e distraído com os movimentos vergonhosos que os parentes e amigos dos noivos faziam em suas belas roupas de grife, mas em nenhum momento pensei em me levantar. Era fácil ignorar os beijos do casal; bastava prestar atenção na música.

Mas se fui pra pista de dança naquela noite foi única e exclusivamente por causa de Sam.

– Quer dançar? – ele disse, cutucando-me no cotovelo.

– O que disse?

– Perguntei se quer dançar. Temos toda uma noite pela frente, acho que isso vai ajudar a passar o tempo.

Fiquei pensando no que ele queria dizer com aquilo. Quer dizer, o que seus amigos pensariam se eu e ele, de fato, começássemos a dançar juntos?

Em seguida, me ocorreu que talvez ele não estivesse me convidando para uma dança de casal, mas para uma dança casual, como a de muitos dos estranhos que estavam na pista agora.

– Vamos – eu acabei dizendo, portanto, e me levantei.

Acompanhei-o até a pista, mas escolhemos um ponto distante do centro, onde os mais tímidos ficavam. Sam ficou de frente para mim e sorria enquanto observava os outros dançarem. Um garoto que eu conhecia da escola agora fazia a típica dança da galinha, erguendo seus cotovelos no alto ao som de um Hip Hop, pouco preocupado com o ritmo. Sam o imitou, mas o fez de maneira exagerada, cruzando as pernas e forçando sua vesguice. Isso me fez rir e muito, o que, consequentemente, me fez sentir calor. Era hora de tirar o paletó.

Músicas pop animadas não exigiam conhecimento pleno de passos de dança, então, quando arrisquei os primeiros movimentos, foi fácil improvisar o restante. Ninguém ali era um ás da dança, estavam apenas se divertindo, e eu me deixei contaminar por isso, usando pouco espaço, mas jogando as mãos no alto, dando alguns giros, sempre voltando a Sam. Ele, por sua vez, dançava inegavelmente mal, como se seguisse um ritmo próprio, dando passos para os lados e forçando um body roll que mais parecia os primeiros sinais de um infarto. Eu o amava ainda mais por não ter vergonha disso e por se sentir tão seguro, mesmo que não fosse tão bom no que tentava fazer. Pelo menos ele tentava.

E esse era um dos traços mais marcantes da personalidade dele, não era?

Sam sempre tentava. Ele não tinha medo de ser julgado ou de ter sua vontade negada, ele simplesmente ia em frente e tentava. Talvez fosse isso o que o tornava tão irresistível, afinal, há poucas outras qualidades tão marcantes quanto a autoconfiança, e Sam a esbanjava. Fazia-me sentir orgulhoso de ser a pessoa dançando em frente a ele e que ele estivesse disposto a me destinar tanta da sua atenção.

Passamos tempo demais dançando, mas não pude mensurar quanto. Meus pés, pouco acostumados com os sapatos sociais, logo começaram a doer, então não era incomum me ver tropeçando entre um passo de dança desastroso e outro. Em muitos desses tropeços eu consegui me reerguer sem chamar atenção, mas, em outro deles, o chão se tornou o meu destino.

– Não tão cedo, Blaine! – disse Sam, segurando-me contra o seu peito, evitando a minha queda, sim, mas me fazendo cair de amores por ele mais uma vez. Isso nunca acabava.

Apoiei a mão em seu peito e, ali, pude escutar seu coração. Estava acelerado, e imagino que isso acontecesse por causa do esforço da dança. O meu também estava acelerado, mas porque eu estava apaixonado. Sorte a minha que Sam não pudesse senti-lo, talvez isso estragasse as coisas.

Com a mão apoiada em seu peito, fiz força para me reerguer.

– Obrigado – eu disse, sem coragem de mirá-lo.

– De nada. Vigie esses passos, Blaine. Quem sabe o que poderia acontecer se eu não estivesse por perto?

Talvez eu estivesse com o Sebastian, foi o que pensei. E talvez eu até me acostumasse com ele. O que eu sentia quando estava com ele podia não ser o mais profundo amor, mas paixão talvez fosse. Eu gostava de estar com ele, mas é claro que prefiro estar com você. Duvido, no entanto, que, com o tempo, eu não me acostumasse com a sua ausência. Com alguns meses de afastamento, eu quase consegui, então quem sabe no final de um ano você já não tivesse sido apagado por completo?

– Eu me pergunto a mesma coisa – foi o que eu disse a ele.

Continuamos com os passos desajeitados e agora Sam não parava de tirar sarro de mim, relembrando a minha queda. Falava sempre sobre como seria engraçado reassistir a filmagem do casamento e me ver estatelado no chão, se isso acontecesse. Esse clima perdurou pelo menos enquanto as músicas eram aceleradas e dançantes, pois, quando as baladas mais românticas e lentas tomaram conta dos alto-falantes, nossos pés grudaram no chão e seu olhar, sério, com um quê de constrangimento, se voltou para mim.

Não esperei que ele falasse primeiro:

– Acho melhor a gente voltar para a mesa.

Eu já tinha dado um passo para fora da pista de dança quando ele me agarrou pelo pulso e me puxou de volta.

– Por quê? – perguntou.

Eu não sabia como responder a essa pergunta, de verdade. Pelo menos não com respostas que não magoassem. Algumas das verdades podem doer muito quando assumidas, principalmente para aqueles que decidem assumi-las.

Eu voltei à pista de dança e, envoltos por luzes de tons avermelhados e pares de dança que dançavam com seus passos lentos e apaixonados, por lá ficamos, um de frente para o outro, ouvindo a música de amor. A minha intenção não era estar ali, mas, se a de Sam era, era bom que ele tivesse um plano.

Suas mãos tocaram o meu quadril e me puxaram para perto. Por instinto, porque era isso o que pares de dança faziam, eu joguei meus braços por sobre os seus ombros enquanto nossos rostos não ficaram com distância maior do que a de um prato de sobremesa. Foi ele quem começou a dançar como os demais, jogando o peso do corpo em um pé e depois no outro, girando discretamente no lugar. Eu o acompanhei, fitando-o nos olhos, tentando entender o que estava acontecendo. Pareceríamos um par apaixonado se Sam tivesse fechado os olhos, mas ele não fechou em nenhum instante, pelo contrário; manteve-os vidrados nos meus e mal piscou. Sua boca entreaberta era o que deixava o cheiro do seu hálito invadir as minhas narinas. Eu sentia calor em cada parte do meu corpo e ele acompanhava arrepios. A música lenta pode não ter durado mais do que três minutos, mas foram os maiores três minutos da minha vida, em que cada segundo foi sentido e vivido com intensidade. Eu podia não ter bebido muito, mas o pouco que eu bebera tinha grandes chances de me deixar com ressaca no dia seguinte, e agora eu imaginava se, enquanto tomasse remédio para dor de cabeça, eu não duvidaria do que agora estava acontecendo, se não teria sido apenas um sonho.

Quando a música terminou, os casais se separaram e aplaudiram (ao que parecia o casal de noivos estivera dançando no meio de todos também). Eu me afastei de Sam, mas, antes que pudesse ganhar distância, ele voltou a agarrar a minha mão.

– Venha comigo – disse.

E eu o acompanhei para onde só ele sabia.

Costuramos no meio da multidão enquanto ele pedia licença a cada um que estava em seu caminho. Contornamos também as mesas do salão, desviando daqueles que subitamente decidiam se levantar e das bandejas altas dos garçons, que quase acertavam a nossa cabeça. Fizemos a curva no fim do espaço e subimos um pequeno lance de escadas, que terminava em acessos ao banheiro masculino e feminino. Entramos no masculino.

– Sam, o que está acontec...?

Quando soltou a minha mão, foi para levar essa e a outra ao meu rosto, segurando-o enquanto me beijava. Não parei para pensar muito no que acontecia, apenas me deixei levar e me agarrei aos seus braços. Ele me empurrou contra o balcão do banheiro e, quando nele sentei, colidi contra o espelho que, por um milagre, não se quebrou. Sam agora me puxava pela coxa para frente, unindo sua pélvis à minha enquanto se mantinha curvado na minha direção para me beijar. Beijava com tanta ferocidade que perdi o fôlego.

Segurei seu rosto e afastei nossos lábios quando ouvi passos apressados escada acima.

– Tem gente vindo – sussurrei.

– Não tem problema.

Ele empurrou a porta de um dos boxes com as costas e me jogou para dentro. Fechou a porta atrás de si quando entrou. O espaço mal nos cabia, mas, para o que tínhamos em mente, era mais do que suficiente. Sam segurou minhas mãos contra a parede e tive que abrir as pernas para evitar o vaso sanitário. Recebi cada um dos seus beijos e desfrutei de cada uma das suas investidas, apenas ansiando pela próxima. Quando afastou seus lábios, Sam os colocou no meu pescoço e, não satisfeito, o mordeu.

Não faça isso! – eu exigi num sussurro.

Ele levou uma mão à minha boca e, com a outra desabotoou o suficiente da minha camisa para conseguir distribuir beijos pelo meu peito.

Eu quase não consegui... – ele começou a dizer e fez uma pausa para mais um beijo –... me conter... – mais um beijo –... de tanto tesão... – outro –... enquanto te via dançar...

– Toda vez que estou com você – consegui dizer, livrando minha boca da sua mão –, eu tenho que me controlar, e muito, para não pular no seu pescoço.

– E por que tem que ser assim? – ele perguntou.

Eu até abri a boca para arriscar uma resposta, algo envolvendo ele ter uma reputação a zelar, que era o meu primeiro palpite, mas então ouvi diversos murros na porta do box e me calei.

– Vão para um quarto de motel, seus pervertidos! – esbravejou alguém do outro lado, que logo começou a gargalhar.

Sam, eles vão...? – comecei, num sussurro.

Não vão fazer nada – ele disse, sussurrando no meu ouvido. – Esse é um casamento. Não vamos ser nem os primeiros, nem os últimos a fazer isso em algum desses banheiros. – Mordeu a ponta da minha orelha e concluiu: – Fodam-se eles!

Voltou a beijar o meu peito e, quando sua língua tocou o meu umbigo, eu perdi todo tipo de preocupação que poderia ter sobre o que fazíamos.