Blam?

9 O Casamento - Parte 1


Eu estava pronto para o casamento de Michael às oito em ponto, só adicionando uma última camada de gel no cabelo, esperando não deixar os cachos mortos e colados na minha cabeça, mas “jeitosos”. O terno estava ótimo, e eu tinha essa certeza disso porque pude ver meu visual todo no espelho de corpo inteiro que eu recentemente instalara no meu quarto. Agora era só esperar pelo Sam.

Sam surgiu um pouco depois das oito, levemente atrasado. Tocou a buzina do seu carro uma única vez (som esse que me pegou de surpresa e me assustou) e aguardou a minha chegada. Tranquei a porta da frente ao sair e tomei todo o cuidado de não me sujar na grama do jardim da frente em meu caminho até o carro.

– Não achei que fosse ser tão pontual – eu disse ao tomar o banco do carona.

– Nem eu. Acho que eu estava sem o que fazer.

O terno de Sam era do jeito que ele tinha descrito: preto, cobrindo uma camisa branca e uma gravata vermelha, um visual pouquíssimo ousado e, na verdade, bem comum. Ainda assim, ele estava incrível. Talvez tivesse algo a ver com a maneira como ele organizara os cabelos agora curtos com algo que adicionara ainda mais brilho aos fios e os deixara leves o suficiente para um topete natural. Esse visual lhe deixava um pouco mais sério, também, o que era pra lá de instigante. Era como um novo Sam. De novo.

– Gostei da escolha de roupa para hoje – ele disse, ensaiando um sorriso. – Eu jamais usaria algo assim. Não gosto de chamar atenção, mas em você ficou bom.

Ele não precisava gostar de chamar atenção; mesmo um terno comum era capaz de ganhar importância no seu corpo.

O salão de festas em que o casamento foi celebrado ficava numa parte de Portland que eu ainda não conhecia, um bairro com cara de cidade grande que, melhor do que o centro de Portland, disfarçava bem o fato de que estávamos distantes de toda a zona urbana dos Estados Unidos. Era uma construção que, por fora, prometia muito pouco, mas que, por dentro, tinha muito a oferecer. Sentamos lado a lado em uma das muitas fileiras de cadeiras que foram organizadas como as de uma igreja, todas voltadas para um pequeno palco onde a celebração aconteceria. O chão estava repleto de folhas verdes – falsas ou não, eu precisaria tocá-las para saber, mas não quis tomar essa iniciativa. Imagino que Sam tenha escolhido uma das fileiras mais vazias para que os amigos que ainda não tinham chegado pudessem se sentar ao seu lado, mas estranhos acabaram por tomá-los, e logo não restou alternativa de lugar, já que o lugar estava ficando cheio com rapidez.

O casamento todo aconteceu num piscar de olhos. Como eu suspeitava, eu não conhecia o noivo, mas era um rapaz bonito, com traços orientais, que chorou como uma criança quando todo o ritual que envolvia a entrada dos padrinhos e parentes mais próximos teve início. O choro se transformou em soluços quando a noiva, uma garota bonita de pele escura, vestida no mais bonito vestido de casamento que eu já tinha visto, tão cheio quanto costumavam ser os vestidos de antigamente, cruzou o espaço em direção a ele. Foi comovente.

Os juízes eram cativantes e usaram frases de efeito durante toda a cerimônia, geralmente relacionando paixão com fogo em uma conotação nem um pouco sexual. Sam mantinha o olhar sempre voltado para frente, mas nunca para o mesmo lugar; conhecendo-o como eu conhecia, era evidente que ele fingia prestar atenção na cerimônia enquanto gastava tempo pensando em assuntos mais importantes. Sua perna esquerda sacudia, roçando na minha.

Houve palmas escandalosas quando os noivos se beijaram e eu senti falta de conhecê-los melhor, para poder torcer pela sua felicidade como todos os demais. Sam arriscou um assovio entre uma palma e outra e tirou centenas de fotos do rosto do amigo, que, mais uma vez, chorava copiosamente. Ao fim da cerimônia, os convidados tiveram permissão para ir para um ambiente à parte que era surpreendentemente agradável, com mesas grandes, para cerca de oito convidados, enfeitadas com toalhas brancas e vasos de flores altos, que quase tocavam os lustres. A caminho de uma delas foi que Sam encontrou os amigos que procurava.

Era um bando formado por mais caras do que eu conhecia. Sam parecia espancar a mão deles a cada aperto de mãos e os puxava para um abraço. A maioria estava acompanhada de garotas, mas não estavam em número tão baixo aqueles que estavam sozinhos. Sam era o único que trouxera um garoto, no entanto.

– Você sabe como é, não sabe, Sam? – disse um dos amigos, após cumprimentá-lo, e olhou de relance para mim, cumprimentando-me com menos energia. – Casamentos são os melhores lugares para se dar bem. – Apontou para o fundo do salão, onde uma pista de dança já permitia que alguns convidados sacudissem o esqueleto. – Aqui está cheio de madrinhas loucas por um pau desse tamanho! – disse ele e separou as mãos no tamanho que, imagino, ele considerasse que fosse o seu pênis. Ria como se já estivesse bêbado, mas nenhuma bebida tinha sido servida ainda. – Só preciso da oportunidade certa, só da oportunidade certa! – Batia no peito de Sam enquanto falava. Pelo que eu pude observar, esse era um costume bem comum entre eles, e a ideia que aquele defendia, de que casamento era um bom lugar para conseguir sexo, seria repetida por vários outros amigos no decorrer da noite.

– Ele – o garoto continuou, dessa vez olhando para mim, mas puxando Sam para um abraço, apontando-o – é o melhor amigo que você poderia ter, moleque. Ele poderia ter trazido qualquer garota que quisesse, mas preferiu fazer bem para um amigo trazendo-o para o lugar com maior número de solteiras gostosas que existe em todo o Maine! – Arregalou os olhos antes de dizer: – Ele é um santo, não é?

– Se você diz – arrisquei dizer e ri.

A turma teve que ser dividida quando escolhemos as mesas, mas nem por isso as conversas foram menos barulhentas. Os caras, que eram os que se conheciam, riam e batiam no tampo da mesa cada vez que uma piada era dita – e, em sua maioria, elas eram sobre como casar era um ponto final na vida de alguém e como o tal do Michael transaria muito menos, agora que moraria com a garota que amava. As garotas que os acompanhavam limitavam-se a rir sem mostrar os dentes e ocupar a boca com os quitutes entregues de tempos em tempos pelos garçons.

– E você, amigo do Sam? – gritou um deles para mim.

– Meu nome é Blaine.

– Isso, isso, Blaine! Você pensa em se casar também?

Lágrimas de riso saíam de seus olhos, escorrendo por um rosto já vermelho de riso ou da bebida que ele já bebera demais.

Eu poderia ter respondido a pergunta com um simples e puro não, porque eu sabia que, para alguém como eu, se casar não seria tão fácil. Já era um desafio natural encontrar um garoto que gostasse de mim, então encontrar aquele para toda a vida seria praticamente impossível. Se casar não podia ser um dos meus planos por conta disso, porque seria desgastante gastar meu tempo e minha sanidade procurando o cara certo. Além do mais, estando eu certo de que o cara certo era Sam e sabendo que ele jamais estaria disposto a gastar toda a sua vida ao meu lado, essa jornada jamais teria fim e, no meu leito de morte, eu lamentaria não ter feito outras coisas que eu queria fazer, só porque estava à mercê da atenção de Sam. Esperando por ele.

Por todo o tempo.

Se não fosse com Sam, eu não queria me casar. Mas também não sei se seria uma boa ideia me casar com ele. Quer dizer, convenhamos, eu e ele não tínhamos muito assunto, e dividir casa com alguém que você pouco conhece não faz sentido. Tudo bem que eu conhecia o Sam, mas isso porque eu gastava muito do meu tempo só olhando para ele, hábito esse que eu tinha certeza de que ele não tinha. Para ele, eu era só uma distração temporária. Para mim, ele seria uma distração pelo resto da vida, mesmo se estivesse longe.

Eu não poderia me casar. Jamais. Ter uma casa com ele e acordar ao seu lado em um dia ensolarado. Ficar observando seus olhos fechados enquanto sua respiração baixinha invadia os meus ouvidos, isso não aconteceria nunca entre nós dois. Vê-lo observar o armário de calçados e analisá-lo em silêncio enquanto escolhia qual deles calçar para o dia de trabalho. Observá-lo mastigar uma torrada com manteiga enquanto lia os textos da sua caneca favorita. Encontrá-lo no final do dia e decidir que uma pizza seria muito melhor do que comer os restos do jantar da noite passada. Nada disso seria do meu direito. Nunca.

Mas dizer não à pergunta do amigo de Sam poderia gerar um debate cansativo e, como ele estava visivelmente bêbado, pouca coisa coerente seria dita entre nós. Fitei-o com um sorriso tímido, como se o assunto me deixasse desconfortável, e disse apenas:

– Penso, sim. Algum dia.

– Isso, sim, é algo interessante de ouvir numa noite que nem essa! – o amigo disse e explodiu em sua gargalhada escandalosa.

Sam curvou-se sobre a mesa e, com o canto do olho, me mirou. O assunto já tinha mudado entre os amigos, mas Sam não estivera opinando em muita coisa, então não prestar atenção não era exatamente uma atitude nova ou mal educada da sua parte. Talvez eles já até estivessem acostumados com esse seu jeito.

Ainda me observava de soslaio quando levou o copo da sua bebida aos lábios e sorveu lentamente uma pequena quantidade. Era algum tipo de champanhe, a única outra opção de bebida alcoólica além da cerveja e de uma bebida doce feita de leite condensado e suco, que fora a única bebida quente que eu me permitira naquela noite. Mesmo que apenas um dos seus olhos estivesse em meu campo de visão, notei certa provocação vinda dele. Não era como se ele casualmente olhasse para mim enquanto bebia, mas como se “dissesse” algo sem usar palavras. Será que tinha algo a ver com o que eu acabara de dizer? Ou será que...?

A toalha sobre a mesa era uma obra de arte digníssima de atenção, com todos os seus momentos, feitos de flores diversificadas bordadas com linhas muito finas e de várias cores, e ela, por si só, seria capaz de manter alguém entretido por muito tempo, se não houvesse conversa sobre a mesa. Mas havia, e os amigos de Sam estavam tão compenetrados no novo assunto – lembranças nostálgicas da infância de Michael – que não perceberiam qualquer movimentação diferente, nem se ela acontecesse diante do seu nariz.

Ninguém percebeu, por exemplo, quando minha mão deslizou até a coxa de Sam por debaixo da mesa e da toalha, além do dono da perna. Sam ainda estava curvado sobre a mesa e não se movimentou nem um pouco quando sentiu meu toque. Pelo menos não da cintura para cima; quando sentiu minha mão, abriu as pernas, gesto esse que, naturalmente, permitiu que minha mão escorregasse para o que havia entre elas e lá ficasse. Calças sociais podem ser bem grossas dependendo do tecido escolhido, então pouco pude sentir do seu pau, além do volume que lá havia. Sam disfarçava bem. Agora, mantinha o olhar vidrado na discussão e o rosto semiescondido pelo copo do qual, de vez em quando, bebia.

Mas era uma droga que o tecido da calça fosse tão grosso.

– Ei, pessoal, estão chamando a gente para assistir a retrospectiva do casal – disse uma das garotas, olhando interessada para a região da pista de dança. Devia estar animada porque finalmente teria um motivo para deixar a mesa.

– Não quero perder isso por nada! Será que vai ter foto nossa por lá? – disse um dos rapazes, levantando-se com tanta rapidez que empurrou a mesa com as pernas.

Recolhi a minha mão nesse instante.

– Se aquele maldito não colocar pelo menos a foto daquela viagem de acampamento que fizemos em 2006, eu vou arrancar as bolas dele com um estilete! – disse outro dos garotos.

– Vamos? – disse Sam com uma voz suave, serena, tão diferente da que os demais garotos ao seu redor usavam. Arrastou sua cadeira, levantou-se e ofereceu uma mão para mim, como se esperasse um aperto.

– Eu sei me levantar sozinho, não preciso de ajuda – eu disse, tomando o cuidado de usar um tom bem humorado, o que o fez rir.

– Acho que não vou conseguir fazer você desistir de ver os momentos mais vergonhosos da minha infância em um telão de cento e cinquenta polegadas, não é?

– Eu pagaria para vê-los, Sam, sinto muito.

Juntamo-nos à multidão ao redor do casal de noivos que, sentados em cadeiras brancas, isolados no centro do semicírculo formado pelos convidados, assistiam à retrospectiva transmitida em uma das paredes do salão de festas. Sam ficou ao meu lado, próximo de mim, durante toda a transmissão, e nunca eu o senti tão próximo de verdade quanto naquele instante.

As coisas estavam mudando, afinal.