Blam?

5 A Volta Às Aulas


O Maine parecia sempre ensolarado no outono e muitas das paisagens que eu podia ver no meu caminho até a escola eram até admiráveis sob essa perspectiva. Um dos costumes dos seus moradores, por exemplo, era o de preservar as árvores, então muitas faziam sombra sobre as calçadas ou sobre os quintais das casas. Naquela época do ano, jogavam também folhas avermelhadas no chão, mas até o som dos pés as esmagando tinha a sua mágica. Em partes, Portland era um lugar agradável, porque era um contraste exato do que Nova Iorque era – ainda que, dias atrás, fosse justamente esse o motivo de eu odiá-la tanto.

A escola em que eu – e Sam – estudava ainda era a mesma e continuava a mesma. Alunos que tinham carros os estacionavam no estacionamento em frente à construção de tijolos vermelhos. À entrada, ônibus escolares despejavam alunos aos montes para dentro do seu território. Os que vinham a pé se misturavam no meio desses em seu caminho para o interior da escola, e eu era um deles. Não era época de entrada de calouros, então não havia aluno que estivesse em busca de um. Passei despercebido como qualquer aluno já conhecido poderia passar.

Isso até Ralph me encontrar.

– Blaine! – ele havia dito enquanto eu arrumava minhas coisas no armário que me fora destinado. Continuava tão jovial, atlético e bonito quanto eu podia me lembrar. Deixava- me desconsertado. – Há quanto tempo não te vejo! Nem parecia que ainda estudava aqui.

– Eu não estava estudando aqui – eu disse e bati a porta do armário com mais força do que pretendia.

Assumindo que a conversa estava terminada, pus-me em direção à sala em que aconteceria a minha primeira aula do dia. O mapa do prédio ainda estava fresco na minha cabeça.

– Essa não é uma escola tão grande, mas eu podia jurar que só não tinha acontecido de vê-lo por aí – Ralph continuou, no entanto. Ele me seguia.

– Não te contaram que eu tinha voltado para Nova Iorque? – eu perguntei, evitando falar de Sam.

– Não. A única pessoa que poderia ter me dito isso não é alguém com quem tenho falado ultimamente.

Para um bom entendedor, meia palavra basta, e o conjunto de palavras que Ralph escolhera dizer foram mais do que suficientes para me fazer recordar que as coisas entre ele e Sam ainda não estavam bem. Eu não podia julgá-lo; eu mesmo não sabia como as coisas entre mim e ele estavam.

– Que bom que está de volta – disse Ralph e me abraçou de lado, com um braço, em sinal de despedida. – Quer dizer, é uma pena você ter que se reacostumar com a escola e com os professores, mas é bom ter velhos amigos por perto de novo.

Eu assenti com a cabeça, preferindo não dizer o que tinha em mente. Ralph e sua falsidade me espantavam, ou talvez aquela fosse a sua maneira de tentar ser simpático. Chamando-me de velho amigo como se tivéssemos conversado em mais do que duas ocasiões. Não fazia o menor sentido para mim.

Na aula de Inglês, tomei um lugar no meio da sala, embora meu objetivo tivesse sido o último. Os alunos mais rápidos do que eu já tinham tomado esses, então me mantive no centro das atenções, gerando sussurros e burburinhos entre aqueles que tinham me notado. Pouco do que pesquei dessas conversas me permitiu perceber que ainda havia quem se lembrasse de mim entre aqueles adolescentes, mas outros ainda não tinham certeza, e por isso confabulavam. Que observassem por mais um tempo. A confirmação logo chegaria.

– E demos as boas vindas ao Blaine Anderson, classe – disse o professor de Linguagem quando chegou, após breves introduções, tratando a todos nós como crianças em uma creche. Nem esse seu costume havia mudado. – Desejamos a você um bom retorno.

Eu agradeci e escorreguei alguns centímetros na cadeira. Aquele era o meu corpo se manifestando sobre a minha vontade de sumir.

Para o intervalo, minha mãe tinha preparado um tradicional sanduíche de atum acompanhado de uma maçã, muito semelhante aos lanches que Angelina um dia me preparara e bastante diferente do que costumava fazer em Nova Iorque, quando só me entregava uma nota de dez dólares no lugar do formoso pacote de lanche. Apanhei uma caixa de leite na fila da merenda e tomei uma mesa individual em um canto próximo de uma janela. A vista do pátio de trás, com seus jardins, árvores e grupos de amigos banhados por um belo sol de fim de outono era inspiradora.

Eu me perguntava se faria amigos por lá daquela vez, enquanto mastigava o sanduíche de atum. Em minha primeira estadia em Portland, a visão de Sam me cegara para qualquer outro tipo de relação. Eu só conseguia pensar nele e aqueles que se propusessem a me distrair desse pensamento eram encarados por mim como um estorvo. Eu estava viciado em Sam e não queria que as coisas mudassem. Hoje, é claro, elas tinham mudado, e eu torcia para que essas mudanças refletissem no meu novo e possível círculo de amizades que eu poderia fazer por ali.

Terminado o intervalo, entretanto, ninguém tinha se aproximado e eu também não tive coragem de me aproximar. Demorei o máximo que pude para finalizar o meu lanche, na esperança de que ele justificasse a minha estadia no refeitório. Quando o sinal para a próxima aula tocou, joguei todo o meu lixo na lata de lixo mais próxima e voltei a procurar a minha sala, com um estoque zerado de amigos novos. O horário me indicava o Laboratório de Ciências.

Um lugar que me trazia péssimas lembranças.

Sentei-me na frente, o mais próximo do professor que podia, e uma garota cujo nome eu ouvi e rapidamente esqueci se sentou ao meu lado. Não havia espaço para mais ninguém ali, pois as bancadas eram para duplas, então se Sam entrasse por aquela porta e tentasse se juntar a mim ele não conseguiria, e eu não permitiria que as coisas fossem diferentes. Eu precisava de foco nos estudos, e talvez aquela garota estranha me ajudasse com isso. Assim eu esperava.

Mesmo assim, mantive os olhos voltados para a porta do laboratório o tempo todo. Havia algumas bancadas com um único aluno, e uma delas estava no fundo da sala, onde antes eu tinha me sentado com Sam. Mas Sam não a tomou naquele dia, porque sequer tinha entrado na sala de aula. Isso não pareceu um problema para o professor, que logo deu sua aula por iniciada e começou a explicar o experimento do dia, que envolvia estudar planárias, um bicho nojento que mais parecia uma lesma esmagada. Sorte a minha que a garota estivesse tão interessada em explorar as habilidades de regeneração daquela coisa e não tivesse medo de usar um bisturi.

Porque assim tive tempo para pensar em Sam e no beijo que ele tinha me roubado na última vez em que tínhamos nos visto. Senti raiva pela sua ousadia, mas, ao mesmo tempo, achei o gesto prazeroso e, no fundo, eu torcia para que acontecesse de novo. Já antes do beijo, eu inconscientemente torcera para que algo do tipo acontecesse, porque Sam parecia mudado, visual e mentalmente, e por isso eu me perguntava se seu beijo continuava o mesmo, só por curiosidade. O sabor continuava. A ousadia era a mesma, mas a selvageria, não. Eu precisava tirar essa dúvida e a tinha tirado. Agora podia voltar com a minha vida e me esquecer de Sam para sempre.

Mas eu não conseguia.

A aula de Ciências tinha acabado e ele não apareceu. Talvez tivesse faltado, o que justificava eu ainda não tê-lo visto em canto nenhum da escola. Sam não era o mais responsável dos estudantes e, com a mãe no estado em que se encontrava, se ele quisesse faltar alguns dias, não seria diretor de ensino nenhum que colocaria na sua cabeça que ele precisava comparecer às aulas. Nem na cabeça de Angelina, que não estava funcionando muito bem. Sam tinha aval para fazer o que quisesse na hora que quisesse.

E sempre foi assim, não foi?, minha consciência me dizia, quase sem ser percebida, enquanto eu arrumava as minhas coisas para ir embora. Quando ele invadia o seu quarto à noite para fazer o que fazia, mesmo que você não estivesse a fim, o que nunca aconteceu, ele concluía a sua vontade, porque ele sempre teve permissão para tudo. E, se depender de você, sempre terá.

Não! – eu sussurrei no meu caminho até a saída da escola. – Não, não e não!

O sol daquela tarde já me banhava por inteiro no pátio frontal da escola quando ouvi alguém gritar:

Blaine!

A minha primeira reação foi fazer de conta que não era comigo, porque não podia ser. Eu não tinha amigos ali e nem arranjara problemas para que alguém me procurasse na saída da escola. Além do mais, mesmo que Blaine não fosse um nome comum, eu não podia ser egoísta e imaginar que era o único adolescente em Portland com aquele nome.

Mas, na falta de uma reação minha, o grito se repetiu, dessa vez mais perto, às minhas costas. Uma cutucada no meu ombro o seguiu.

Voltei-me para trás em silêncio, sem saber quem esperar.

– Sam – eu constatei com o tom mais indiferente que consegui arranjar, o que não foi exatamente difícil, já que a surpresa em contemplar sua beleza que não parecia ter fim se compensou com a minha falta de surpresa em descobrir que era ele a pessoa que me procurava.

– Procurei você pela escola inteira – ele disse. Eu não sabia se prestava atenção no que ele dizia ou naquela boca grande demais, que beijara a minha havia poucos dias, embora seu dono agisse como se não.

– Talvez por isso a gente não tenha se encontrado.

– Estava fugindo?

– Não foi que eu quis dizer. E mesmo se eu estivesse, para onde iria? A escola não é muito grande.

– Você tem razão.

Ele me olhava em silêncio e eu devolvia o olhar com expectativa.

– Então é isso? – perguntei. – Era só isso o que você queria me falar?

– Na verdade, eu queria pedir a sua ajuda.

– Para o quê? Se está falando de dúvidas em dever de casa, eu acabei de voltar a essa escola, Sam, então devo saber tanto quanto você.

– È sobre a minha mãe.

Respirei fundo. Aquilo era apelação.

– Tudo bem, você tem a minha atenção.

– Pode me seguir até o meu carro?

Eu podia e o fiz. Estava longe de casa, em um estado que não me pertencia e que eu pouco conhecia, então qualquer caminho era um caminho. A única pessoa que me esperava em casa era a minha mãe, mas essa mesma pessoa estava disposta a me abandonar em alguns dias, deixando-me a responsabilidade de fazer exatamente o que Sam acabara de me propor, que era ajudar a sua mãe. Eu não tinha muitas escolhas.

– Como ela está? – perguntei, encostando-me na porta traseira do carro, cruzando os braços.

– Em casa – ele respondeu. Abriu a porta da frente, acionou algum botão no painel do motorista e o porta-malas se abriu. Caminhou até ele e jogou em seu interior a própria mochila, uma grande como uma bagagem de viagem. Eu só podia supor o que ele guardava ali. – Quer que eu guarde a sua mochila?

– Vai me dar uma carona?

– Vou precisar fazer um desvio pra passar por lá, mas posso te dar uma carona, sim.

– Eu estou a dez minutos de casa em caminhada lenta e Portland está magnífica nesse fim de outono.

– Me dá logo a sua mochila, Blaine.

Eu a entreguei. Não era como se eu não quisesse a carona oferecida por Sam, mas eu apreciava conversar com ele, mesmo quando o tópico era levado em uma discussão tão sem fundamento como aquela. Tudo para ouvir a sua voz. Tudo para ter a sua atenção, mesmo que só por alguns instantes.

E ainda que houvesse certa energia em seu modo de falar quando exigiu que eu lhe entregasse a mochila, ele estava sendo gentil, do mesmo jeito que alguém que oferece um dos pulmões a quem precisa poderia falar ao insistir para que a pessoa doente o aceitasse. E eu aceitei aquele gesto de gentileza.

– Pode entrar – ele disse, indicando com um gesto rápido a porta do banco do carona. – Podemos passar em um lugar antes? Coisas para a minha mãe.

– Não tenho nenhum compromisso hoje à tarde.

– Podemos arranjar um, então – ele disse quando se jogou no banco do motorista e bateu a porta ao seu lado.

Quando eu passei o cinto e o prendi ao meu lado, ele deu partida no carro e partimos.

Notas finais
Tão bom quando estamos de excelente humor, não é mesmo? ^.^