Blam?

6 A Barra de MilkyWay


Sam caminhava na frente enquanto percorríamos os inúmeros corredores de um supermercado até que grande que ficava mais próximo da casa dele do que da escola. Eu empurrava o carrinho; ele o enchia com as compras. Não sei que tipo de dificuldade financeira ele estava passando, ou talvez eu até tivesse uma ideia, mas estava evidente na falta de cor das embalagens que ele escolhia que as opções de produto de marcas genéricas e com preço bem abaixo dos demais era a preferência naquele dia. Fazia com que eu sentisse compaixão por ele. Afastava dele todo aquele aspecto de monstro devorador de almas que às vezes ele me passava.

Sam agachou em frente a uma gôndola de achocolatados. Os preços mais altos ficavam no topo das prateleiras, e era por isso que o interessavam as embalagens que estavam mais abaixo.

– Costumo fazer pesquisas sobre boa alimentação – ele disse tão repentinamente que levei um tempo para perceber que era comigo que ele falava. Estar na presença de Sam me fazia viajar de diversas maneiras, especialmente quando estávamos em silêncio. Vê-lo ali, agachado, mantendo suas largas costas voltadas para mim, me fazia pensar nas vezes em que cravei meus dedos nela e explorei toda aquela imensidão em uma madrugada qualquer, tão distante que quase não parecia real.

– Eu não sabia disso – foi o que eu disse.

– Eu meio que fui obrigado. Quando a minha mãe passou a se afastar do trabalho para frequentar o hospital, tivemos que cortar algumas despesas, e nutricionistas esportivas são um gasto bem supérfluo, se você parar para pensar.

– Entendi – foi o que eu disse, embora quisesse dizer que sentia muito.

– E, numa dessas pesquisas, eu descobri que bebidas quentes nos ajudam a resistir a certas vontades e vícios, como doces. – Apanhou um pacote branco de achocolatado. – Será que funciona para cigarro e bebida também? Talvez se eu entupir a minha mãe de chocolate quente...

– Estamos na primavera.

– Mas eu preciso tentar.

– Se você diz...

Pelo menos três pacotes de achocolatado se assomaram ao monte de outros produtos no carrinho de compras.

– Veja só isso aqui – ele disse, alguns passos à frente. Segurava uma caixa marrom que logo percebi ser de MilkyWay. – O melhor chocolate que existe. Houve uma época da minha vida em que eu comia pelo menos um desses por dia. Havia um senhor em frente à escola que vendia. Quando me dei conta do que estava fazendo e dos efeitos disso, diminuí a quantidade, mas ainda assim eu comia pelo menos dois por semana, quando eu estava feliz ou triste. – Sacudiu a caixa na minha direção, destinando-me um olhar adorável. – Fui obrigado a parar com isso.

– Por causa da boa forma?

– Não. Mais uma vez, o orçamento apertado. – Colocou a caixa de volta na prateleira. – Em tempos como esses, só podemos comprar o essencial. De qualquer forma, é como dizem: temos que comer para viver, e não viver para comer. MilkyWay é a vida em forma de barra de chocolate, sim, mas acho que eu e a minha mãe não podemos nos dar o luxo de trocar um saco de pão por isso.

Engoli em seco. Não sei o que Sam planejava com aquela conversa, mas se era me convencer de que ele era uma boa pessoa e que eu precisava admirá-lo mesmo que fosse baseado em seu momento de tristeza, ele estava conseguindo.

– Há quanto tempo não come um MIlkyWay? – perguntei.

– Não sei. Meses, talvez.

– Hoje seria um bom dia para quebrar esse jejum todo, não? – eu disse, caminhando até a prateleira.

– Você vai levar uma caixa de MilkyWay inteira?

– É claro que não! – eu disse e ri. – Não tenho vinte e cinco dólares agora. Mas posso levar pelo menos umas duas barras para cada um, o que acha?

Sam comeu uma das suas quando estávamos na fila do caixa para pagar nossas compras. Boa parte do valor foi abatida com a soma de cupons de compra que ele colecionara até ali e o restante teve que ser pago com dinheiro. Levamos o carrinho abarrotado até o estacionamento e enchemos o porta-malas do carro com as compras.

– Acho que vamos conseguir passar o mês – disse Sam, batendo a porta do porta-malas. Apanhou o carrinho de compras e o levou a uma fileira com vários outros.

– O bom é que só que tem você e a sua mãe em casa, e você não parece ser o tipo de pessoa que come mais do que precisa.

– Você tem razão.

Entramos no carro e passamos o cinto. O dia estava quente e o interior do carro parecia um forno pré-aquecido, pronto para nos assar. Eu segurava as minhas duas barras de MilkyWay com uma mão suada e tive que largá-las sobre as pernas para que não derretessem. Mas talvez nem isso evitasse o pior destino.

– Os chocolates vão derreter desse jeito – eu disse, quando já estávamos na rua. – Esse tempo não é bom para doces assim.

– É verdade. Gosto de MilkyWay, mas confesso que prefiro quando ainda estão no formato de barra. – Sam manejou o volante do carro, guiando-o até a guia de uma calçada sob a sombra de uma árvore, a pouquíssimos metros do supermercado, e estacionou, puxando freio de mão e tudo. – É melhor comermos agora, então.

Sam abriu sua segunda barra e a devorou em questão de segundos. Eu ainda tentava descobrir em que ponto da embalagem ela deveria ser aberta, mas, observando a sujeira de Sam, percebi que não era precisa tanta dedicação para revelar o chocolate. Segurei a embalagem com as duas mãos e a puxei para os lados. O chocolate voou no alto um instante e pousou no meu colo.

– Não precisa – eu disse a Sam quando vi sua mão se aproximar. Já era suficientemente difícil ficar do lado dele e esconder que só a sua presença me deixava louco, com vontade de agarrá-lo, independente de qual fosse o lugar, então se ele descobrisse a minha ereção tudo ficaria ainda mais difícil. – Viu só? – eu disse quando apanhei o chocolate. – Em mãos.

– Eu amo MilkyWay.

– É, eu percebi. – Tanto que estava prestes a me tocar de forma inapropriada só para poder tocar no chocolate.

– Eu gosto muito mesmo de MilkyWay.

Apesar de não ser tão obcecado pelo chocolate quanto Sam, eu estava com vontade de comer aquele e o coloquei na boca, segurando a barra entre os dentes. Depois daquele, eu não precisaria de outro chocolate, então Sam poderia ficar com o meu segundo, se quisesse. Apanhei a barra restante e a ofereci.

Sam agarrou a minha mão com a barra e tudo e a abaixou. Dobrou-se para frente e encaixou sua boca no chocolate que eu segurava com a minha.

Senti o contato da sua boca e até o dos seus dentes. Senti sua respiração na minha, e ela tinha um cheiro peculiar, do qual eu ainda me lembrava, um aroma quase nostálgico. Seus dentes morderam o chocolate e arrancaram metade dele, deixando-me apenas aquele que ainda estava em meus dentes. Sam mastigou a barra e, tão próximo, eu podia ouvir seus dentes destruindo cada centímetro do chocolate. Comecei a fazer o mesmo com o meu, embora, diferentemente dele, eu estivesse com os olhos arregalados.

– Estava uma delícia – ele sussurrou para dentro da minha boca. Sua testa descansava apoiada na minha.

– É?

– Sim.

– A gente ainda tem mais uma.

Sam abriu os olhos e os sustentou nos meus. Senti-o apanhando a barra que eu segurava de MilkyWay e, com a habilidade que só alguém que passara uma temporada da vida toda comendo uma barra daquela por dia poderia ter, ele rasgou a embalagem. Afastou-se o suficiente para poder colocar o chocolate na boca, segurando-o entre os dentes como eu fizera. Assentiu rapidamente com a cabeça, como se fizesse um pedido.

O que acontecia era intenso demais para que eu mantivesse o meu pudor e eu sabia quais eram as intenções de Sam com toda aquela provocação, então entrei no jogo. Aproximei minha boca do chocolate, mas o suguei usando a minha língua, sentindo a pele dos lábios de Sam em sua ponta. A camada de chocolate derreteu e invadiu a minha boca em ondas açucaradas e saborosas. Cortei o que restante com os dentes e mastiguei um pouco antes de engolir. Sam fez o mesmo. Com a boca livre de qualquer doce, pudemos nos beijar.

E foi como ter uma nova dose de MilkyWay na boca, pois o hálito de Sam estava recheado com o sabor e a essência do chocolate. Quando sua língua roçava na minha era como a língua mais deliciosa que eu já tinha provado. Eu não podia dizer, mas supor que a minha boca tivesse o mesmo gosto, pois, segurando minha nuca de um jeito tão característico, Sam não só sugava a minha língua, mas a mordia, um gesto lento que fazia ondas de arrepios percorrerem o meu corpo. Experimentei fazer o mesmo com ele, e Sam brincou comigo, puxando a língua de volta, fazendo com que eu a buscasse, e então voltava a invadir a minha boca, tão subitamente que a minha própria língua levava um tempo para liberar espaço para ela.

O beijo foi delicioso. Meu pau, comprimido em um conjunto de calça e cueca tão apertado, doía com uma ereção, mas não era nela que eu estava interessado; sem pedir licença, foi por entre as pernas de Sam que minha mão se enfiou. Sam as abriu e permitiu que eu o explorasse. Mesmo o tecido da sua calça não conseguia esconder seu pau, e eu senti cada centímetro dele com os dedos, encontrando sua cabeça e alisando-a com o indicador.

Sam agarrou meu quadril e me guiou até o seu colo, permitindo que eu distribuísse minhas pernas aos seus lados, ajoelhado, já que era impossível que duas pessoas ficassem confortavelmente sentadas em um mesmo banco de motorista. Enquanto me ajeitava, acertei a buzina com o cotovelo e o silêncio da rua foi rapidamente perturbado pelo seu som. Apoiei minha testa na de Sam e ri, e ele riu junto. Quando a coisa já perdera a graça, voltamos a nos beijar e eu fiz o que pude para sentir sua ereção com a minha bunda, contorcendo-se no pequeno espaço em que estávamos, acertando o teto do carro com a cabeça a todo instante. Sam espalmou suas mãos na minha bunda e me forçava para junto dele.

Tudo era tão novo, inesperado e intenso para mim que me fez perceber que nem Sebastian, com todo seu corpo esguio e seu olhar sedutor, conseguiria repetir. Fez com que eu sentisse pena de mim por ter gastado meu tempo ao lado de um cara que pouco sabia, quando comparado a Sam, sobre as artes da excitação. Não havia como superá-lo, e era por isso que...

–... Eu te amo, Sam.

Eu não tinha certeza de ter expressado aquele fato em voz alta, mas acabei tendo quando o beijo passou a ter um ritmo mais lento, menos interessado. Sam agora segurava a minha nuca com uma mão e o meu quadril com a outra. Quando descolou seus lábios dos meus, suspirou com pesar e manteve os olhos fechados. Respirava fundo e de forma desregular, como alguém que tem problemas de respiração. Suspirou mais uma vez. Assisti-lo assim, tão vulnerável e quieto, foi fascinante quando começou, mas, quando senti que o silêncio estava perdurando mais do que deveria, aquilo me deixou inquieto.

– Sam? – eu perguntei, do alto do seu colo. Sua ereção era agora apenas uma lembrança para mim. – O que aconteceu?

Eu esperava uma infinidade de acontecimentos ou coisas que ele podia dizer, desde “Deixe de ser idiota, já tivemos essa conversa, então por que insiste nisso?” até “A gente pode simplesmente foder, sem que você pareça uma garotinha apaixonada?”. Esperava até que ele abrisse a porta do carro e me expulsasse, berrando sobre como, mais uma vez, eu estava confundindo as coisas. Mas nada disso aconteceu.

Ele me segurou mais um pouco em seu colo e senti sua mão se apertar em meu quadril uma única vez. Sam puxou ar pelo nariz com uma única fungada e pigarreou. Mesmo com os olhos fechados, uma lágrima conseguiu romper a barreira entre suas pálpebras e desceu com leveza por uma de suas faces.

Sam estava chorando.