Blam?
7 A Louça Suja
Ele aguardou pacientemente até que eu decidisse sair de cima do seu colo. Até isso, no entanto, ficou com o olhar baixo o suficiente para que eu não conseguisse mais ver a cor dos seus olhos, o rosto sério e imóvel como o de alguém que morreu ou que se colocou em um profundo estado de torpor. Suas mãos ainda seguravam o meu quadril, embora não com desejo, mas como se apenas estivessem apoiadas nele. Eu segurava um dos lados do seu rosto. Usei o polegar para limpar a única lágrima que ele despejara.
Foi com um pigarro que ele deu a entender que aquele momento de fragilidade tinha chegado a um fim. Soltou-se do meu quadril e levou as mãos ao rosto, jogando a cabeça para trás. Espreguiçou-se e manteve-se jogado, indiferente ao fato de que eu ainda estava sentado em seu colo. Era hora de me retirar.
Joguei-me no banco do carona e aguardei. Sam chorara diante de mim, quanto a isso não restavam dúvidas, então ele não via por que esconder as consequências disso. Não parava de fungar. Limpou o nariz com os versos da mãos e esfregou os olhos com as palmas. Agora eu podia ver como estavam vermelhos. Agarrou o volante e tamborilou nele. Desengatou o freio de mão e pôs o carro para correr.
O destino era, por mim, desconhecido, mas eu o aceitaria, qualquer que fosse. Sam podia não dizer nada sobre o que acabara de fazer, mas eu sabia que ele precisava de ajuda e estava ali, ao seu lado, caso quisesse falar. Duvidava que ele fosse, apesar de tudo. De qualquer forma, eu poderia tomar algumas iniciativas a fim de melhorar os seus ânimos.
Pensei se isso não tinha algo a ver com Angelina, mas, se tivesse, significava que ele não ouvira o que eu tinha acidentalmente falado. Se estava com a mente longe o suficiente para conseguir pensar no estado da mãe enquanto sua boca beijava a minha, era provável que seus ouvidos estivessem fechados a qualquer som. Era tão frio da sua parte que causaria revolta. Se fosse verdade.
Mas eu jamais saberia se ele não contasse e eu suspeitava de que isso jamais fosse acontecer se não fosse da sua vontade. Nas vezes em que eu propusera que falássemos sobre sentimentos, especialmente os dele, sempre acabamos discutindo, e depois fodendo ou beijando com raiva. Era excitante, mas não era saudável. Eu não me considerava forte o bastante para conseguir lidar com isso de novo, e eu esperava não ser obrigado a isso.
O carro estacionou em frente à sua casa e ele não se demorou lá dentro mais do que precisava. Soltou o cinto de segurança, abriu a porta e saiu. Eu também soltei o meu cinto, mas fiquei ali, sem saber direito o que fazer. Ele não tinha me convidado para acompanhá-lo. Não ainda.
Eu o observava fazer seu caminho até a porta da frente, mordendo o lábio. Quando percebeu que eu não estava ao seu lado, olhou para trás e fez um gesto na minha direção, um movimento de dois dedos, um convite. Deixei o carro e bati a porta. Acompanhei-o casa adentro.
Continuava do jeito que eu me lembrava, mas alguns sinais de abandono eram visíveis. Não havia organização na sala de estar e nem na cozinha, que adquirira aquele aspecto de cozinha de república, onde quando é preciso usar uma louça é preciso apanhá-la na pia de louça suja e lavá-la. Havia cheiro de comida ali, o que, naquela situação, não era tão bom assim. Sam se jogou em uma das cadeiras de sua minúscula mesa de jantar. Apoiou a testa em uma das mãos e lá ficou.
Eu não me sentei. Passara tanto tempo longe daquele lugar que não conseguia me sentir à vontade. Tudo era o mesmo, desde a disposição dos móveis até a cor das paredes, mas aquele lugar não me pertencia mais. Era da família de Sam, e não era como se eu quisesse que isso mudasse. O excesso de intimidade que tivéramos no passado fora o que nos levara às ruínas. Talvez um pouco de bom senso da minha parte, que compreendia conhecer a minha função ali dentro – a de um convidado – ajudasse a manter o clima de calmaria.
Mas Sam estava mal. De olhos fechados, parecia dormir com a cabeça apoiada na mão, como um bêbado que decide ficar um pouco em silêncio enquanto a ressaca castiga a cabeça. Precisava de cuidados. Fosse o que quer que tivesse acontecido no carro que o deixara daquela maneira o abalara demais. Ele precisava de ajuda para se reerguer.
Eu sabia do que ele gostava: cereal de flocos de chocolate com leite gelado. Já era hora do almoço e ele já comera chocolate demais nos últimos instantes, mas aqueles eram os únicos recursos que eu tinha a mão. Fui até o armário e abri a porta em que eu sabia que ficavam as caixas de cereal. Havia uma. Deixei-a sobre o balcão. Verifiquei a geladeira e havia leite, um restinho. Vasculhei a louça suja com certo asco até encontrar um prato e uma colher, e os lavei ali. Despejei leite e cereal no prato e o coloquei na frente de Sam, que ainda estava do mesmo jeito desde que chegara ali.
Tomei a cadeira ao seu lado. Se Sam percebera o prato de cereal eu não conseguiria dizer, porque ainda parecia que ele dormia com a cabeça apoiada na mão. Inclinei-me discretamente, melhorando meu ponto de vista; ele olhava para o prato, sim, mas como alguém que tenta decifrar o que está à sua frente antes de arriscar a primeira colherada.
Passar um tempo com Sebastian, alguém que me via como um namorado, e não como um caso, fizera com que eu adquirisse alguns hábitos que antes eu não tinha. Como alguém que tinha poucos amigos e pouca proximidade com a maioria das pessoas, eu não era do tipo que gostava de tocar aqueles que conhecia, fosse com um tapa amigável nas costas ou um aperto de mãos, mas Sebastian modificara isso em mim. Quando eu o via triste, eu o abraçava e alisava suas costas. Quando o via feliz, eu o abraçava também, e às vezes até o beijava. Quando seu carro parava no farol, eu tocava a sua mão que segurava a alavanca da marcha e lhe sorria.
Mas com Sam eu não teria a mesma coragem de ir tão longe, porque ele me intimidava, porque nele havia mistério e porque Sam era o dono da coisa que tínhamos. Mesmo assim, senti vontade de tocá-lo, imaginando até que isso pudesse animá-lo um pouco, e assim o fiz. Peguei sua mão, segurando quatro dos seus dedos, deixando o polegar livre. Foi como tocar a mão de um enfermo, alguém que não reage a carícias. Foram poucos os segundos de mãos unidas assim, momentos que pareceram uma eternidade, antes de ele dar um sinal de vida e puxar meus dedos para dentro dos seus.
Foi um grande passo. Um passo imenso. Sam era muito bom em beijar na boca e usar seu pau, porque essas eram carícias bastante eróticas, mas não sabia ser carinhoso. Era como um animal reprodutor. Mas o jeito com que segurou minha mão mostrava uma mudança de atitude. Eu nem conseguia me lembrar de como era o toque dos seus dedos até senti-los novamente, ásperos como os da mão de um trabalhador. Isso era porque ele era parte do time de futebol americano da escola, ou talvez por causa da musculação. Havia calos naquela mão.
Sam usou a outra para apanhar a colher mergulhada na mistura de cereal com leite. Levou uma quantidade à boca e o silêncio no lugar era tanto que eu pude ouvir cada uma das suas mastigações, até o som que fez a mistura ao descer pela garganta. Sam sugava o leite antes de levar as bolinhas de chocolate umedecidas à boca. Não erguia muito a cabeça, talvez porque tivesse vergonha de me mostrar seus olhos avermelhados, mas eu ainda assim podia vê-los.
Se ele bem soubesse que era justamente aquela vulnerabilidade que o deixava tão mais atraente do que já era...
– Preciso lavar essa louça – ele disse após a terceira colherada. – Consigo sentir o cheiro de comida estragada daqui. Ás vezes, até do meu quarto.
Ele evitava o assunto principal, aquele que nos levara até ali, e isso era previsível. Eu não pensava em forçar nada, levando em conta o nosso histórico. Falaria sobre o que ele estivesse a fim de falar.
– Precisa mesmo. Isso atrai ratos e baratas.
– E você tem medo de baratas, não é? – ele perguntou e riu. Riu porque ainda podia se lembrar do que me levara ao seu quarto pela primeira vez, provavelmente.
– É.
– Mas vou fazer isso, sim, pode deixar.
– Bem, levando em conta que estou aqui no Maine para poder ajudar você e a sua família com os seus, ahn, problemas, acho que posso te ajudar com isso também.
– De verdade?
– Sim.
– Posso só secar as louças enquanto você faz a parte que envolve água e sabão?
Foi a minha vez de dar risada. Sam sabia que um pedido como aquele poderia soar abusivo para qualquer outra pessoa que, assim como eu, não morasse naquela casa, então tomara o cuidado e fazê-lo soar como uma piada, usando um tom de voz manhoso como o de uma criança. Se a sua intenção com isso era soar menos sério a fim de conseguir uma vontade atendida na base da simpatia, fora muito bem sucedido.
– Dessa vez, a gente faz assim – eu disse e alisei a sua mão com o polegar. Ainda estávamos unidos. – Mas se a pia voltar a encher com toda a louça da sua casa, vou ter que te mostrar como pode ser um trabalho duro lavar louça acumulada e como lavar a louça que usou na hora é muito mais proveitoso. Mas, antes, termine o seu cereal.
Sam assentiu vigorosamente com a cabeça, como uma criança que acata uma ordem que pede para que ela faça justamente o que tem vontade de fazer.
Eu olhava para a janela no silêncio que se seguiu. Acariciava o polegar de Sam com o meu próprio enquanto vislumbrava a bela paisagem de casas suburbanas que se tinha dali. Sam estava ocupado demais com a sua colher para se preocupar com a outra mão, mas, de vez em quando, apertava os meus dedos. Quando concluiu o seu almoço, feito de café da manhã, largou a colher sobre o prato e o empurrou para frente.
– Sabe como você percebe que está ficando velho? – ele perguntou. Acordei dos meus devaneios e voltei meu olhar para ele.
– Como?
– Quando seus amigos começam a fazer coisas de adultos. Arranjar trabalho. Comprar o próprio carro. Alugar uma casa ou um quarto. Namorar.
– Essas são coisas absolutamente normais, e isso de “se sentir velho” pode ser uma questão de ponto de vista. Uma pessoa mais velha pode achar que você é um jovem promissor, se começa a fazer essas coisas mais cedo.
– Talvez, mas sabe como você tem certeza de que também faz parte do grupo dessa “pessoa velha”? – Sam não esperou que eu respondesse, e eu não tinha o que responder mesmo. – Quando seus amigos começam a casar.
Assenti devagar com a cabeça.
– É. Quanto a isso, tenho que concordar.
– Tem esse amigo, o Michael, ele vai se casar na semana que vem. Fez a burrada de não usar camisinha e acabou fazendo um filho na menina. Os pais pediram emancipação e casamento para o mais cedo possível, e estavam dispostos até a comprar uma casa para o casal, se fosse para eles deixarem de vez a casa deles e adquirirem um pouco de responsabilidade morando sozinhos.
– É uma boa.
– Sim. – Sam pigarreou. Agora era o seu polegar que acariciava o meu. – O convite para o casamento está lá em cima, no meu quarto. Posso levar um acompanhante, mas duvido que minha mãe queira ir. Na verdade, até prefiro que ela não vá, por causa da...
– Bebida – completei. – Entendo.
– Será que você não queria ir no lugar?
Era um convite que eu não esperava, então, sim, reagi como se Sam tivesse tentando me surpreender com um soco no nariz, saltando na cadeira.
– Por que eu? Seus amigos devem esperar que você leve uma garota.
– Sim, eles vão levar garotas, todos eles, mas eu não quero. Não quero babação de ovo. Quero um bom amigo por perto, para quando eles começarem a se contagiar pelo clima de romance da festa e ficarem olhando uns para os outros com aquelas caras de cachorros tristes e apaixonados.
– U-Um amigo...?
– Você, Blaine. O que acha?
Eu achava maravilhoso. Sensacional. Belisquei a minha própria perna, esperando jogar um pouco da minha animação fora com a dor, antes de dizer:
– Pode ser.
Sam sorriu, esticando bem aqueles lábios carnudos. Não consegui sorrir de volta, porque ainda estava chocado, mas mesmo assim ergui as sobrancelhas, como quem demonstra uma animação contida. Foi suficiente.
Sam soltou a minha mão e falou algo sobre lavar a louça. Eu o acompanhei.
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