Blam?

8 A Cor da Gravata


Ele tinha me chamado para um encontro.

Podia não ter dito com as palavras certas nem do jeito que um garoto que, um dia, pensa em se apaixonar e ter alguém apaixonado por ele também espera, mas o convite fora feito e aquele seria, definitivamente, um encontro. Um encontro comum, como qualquer outro. Num casamento. Quer sugestão de encontro melhor do que um casamento? Eu não consigo pensar em outra. Talvez um cinema. Mas um casamento...

Cheguei à minha pequena casa eufórico. Àquela altura, minha mãe já não estava mais no Maine (talvez já estivesse de volta à Nova Iorque, retomando sua rotina de trabalho chata e monótona), então eu tinha todo aquele lugar para mim. Era estranho e fascinante ao mesmo tempo. Estranho porque eu não sabia muito bem o que era ficar sozinho e nem estava acostumado com isso. Era sempre comum ter alguém em casa, ou meu pai, ou minha mãe, mas ali eu tinha todo aquele espaço só para mim, e isso era novo. Também era fascinante porque, pela primeira vez em tempos, eu sentia o que era ser independente. Aquela era a minha casa, afinal. Era como se eu finalmente ensaiasse para quando fosse, de fato, deixar a casa dos meus pais para encarar o mundo sozinho.

Lembro-me de ter ligado o único rádio da casa e jogado minha mochila em algum lugar no chão. A música aleatória que tocou foi You Make My Dreams Come True, do Daryl Hall e John Oates. Ri quando percebi isso, porque a música não podia ter vindo em melhor hora. Seu ritmo animado foi o que embalou minha dança pela casa, dublando a canção como se ela me pertencesse e houvesse uma plateia me assistindo. Descalcei os tênis ao fazer isso, o que me permitiu deslizar pelo chão. Incrível como eu sabia cada parte da música, mesmo sem me lembrar de tê-la escutado tantas vezes assim. Era o tipo de canção que eu não tinha no celular, mas que tocava na rádio de vez em quando. Ou em filmes de comédia romântica.

Eu tinha acabado de dar um giro no lugar quando senti meu celular vibrar no bolso da frente da calça. Imaginei que fosse uma ligação e abaixei o volume da música. Era uma mensagem de texto. Abri-a:

Sam Evans: Cara, eu esqueci de mencionar pra você, mas o casamento pede roupa formal. Sabe ao certo o que isso quer dizer? Quer dizer, existem TANTOS tipos de roupas formais que nem sei qual escolher. Se não souber responder, acho que vou fazer uma pesquisa na internet e depois te digo. Aliás, você tem internet por aí?

Respondi na mesma hora:

Blaine Anderson: Isso quer dizer que precisamos ir de terno. Terno comum mesmo, preto ou cinza, com gravata e tudo. Nada de lenço no bolso. Sapato social. Você tem tudo isso? Acho que vou ter que alugar.

Não tenho internet aqui, só a do celular mesmo.

A resposta de Sam veio pouco tempo depois:

Sam Evans: Entendi. Tenho um que meu pai deixou antes de partir. Vou ver se serve. Se não servir, vou te avisar pra gente ir junto alugar algum. Valeu, Blaine!

Mandei um emoji de sorriso. Era o fim da nossa conversa.

Sam não voltou a me procurar até o dia anterior ao do casamento, o que me fez entender que o terno que ele tinha servira. Ou então ele não se dera o trabalho de prová-lo ainda, o que eu consideraria imprudente, se fosse verdade. Quando saí da escola naquela sexta-feira, a que precedia o sábado do casamento, tomei um ônibus para o bairro comercial de Portland, que consistia em uma rua formosa com suas lojas de roupas comportadas e discretas. Não havia grandes grifes por lá, mas havia grifes, geralmente aquelas que preenchiam as lojas de departamento comuns de Nova Iorque.

Procurei uma loja especializada em aluguel de roupas. Não foi tão difícil. Passei pela porta da frente e o soar de um sino me acompanhou no interior do local. Uma senhora roliça, coberta em várias camadas de pano que a tinham camuflado com todo o restante de tecido às suas costas, distraiu-se do trabalho que fazia e olhou na minha direção. Sua boca segurava pelo menos quatro alfinetes.

– Boa tarde, meu querido! Em que posso ajudá-lo? – ela perguntou, não antes de retirar cada um dos alfinetes da boca.

– Preciso de um terno. É para um casamento.

– Se vai se casar, sinto em dizer que essa loja não é a mais adequada. Os que tenho aqui são muito simples, pouco chamativos. Se quiser algum terno com mais detalhes na gola ou um corte mais moderno, eu aconselho que dirija alguns quilômetros para o norte, onde você vai encontrar...

– Não vou me casar – foi o que eu disse quando finalmente tomei coragem de interromper o falatório da senhora. Via-se que ela adorava o que fazia, pois falava do assunto com empolgação. Era como se achasse mais importante passar informações sobre roupas do que respirar.

– Não?

– Não, claro que não! – Eu ri. Eu nem era um adulto direito, então aquela sugestão era, sim, engraçada. – Sou muito jovem.

– Mas tem a cara de um homem.

– É muita bondade da sua parte – eu disse, sem muito pensar. Ela tinha dito que eu parecia mais velho do que era e ainda assim eu fora gentil. – Sou apenas um dos convidados.

– Padrinho?

– Não.

– Porque, se você fosse padrinho, tenho certeza de que o noivo definiria uma cor específica para a sua gravata. Sabe que tipo de cor ele prefere? Se você não for padrinho e aparecer por lá com uma gravata da mesma cor que a dos padrinhos, vão te confundir como um.

A senhora falava comigo, mas não me olhava. Desde que entendera a minha necessidade, começara a andar de um lado para o outro na loja, observando suas araras de ternos e cabides de gravatas. As gravatas tinham uma infinidade de cores, mas os ternos eram uma surpresa; estavam todos guardados em capas que os escondiam. Ela me observava de vez em quando apenas para se lembrar de como era o meu corpo e muito provavelmente porque já fazia os cálculos necessários para encontrar a roupa perfeita para mim. Olhava-me como um objeto, não como um ser humano.

– Para falar a verdade, eu nem sequer conheço o noivo – eu disse. – Então acho difícil saber que tipo de cor ele gosta. – Mas talvez fosse do time de futebol da escola, como Sam, um cara normal como qualquer outro. Sendo assim... – Ele deve gostar de azul. É a cor de que os garotos geralmente gostam, não é?

– Já vi noivos exigirem gravatas amarelas para os padrinhos. – A senhora retirou um dos ternos cobertos por capas de plástico de uma arara e o colocou à minha frente, como se o visualizasse em mim. – Não é um jeito bom de pensar, garoto.

– Então não faço ideia. Não sei nem que cara tem o sujeito.

– Tem certeza de que é amigo seu o rapaz que vai casar?

– Eu não disse que era. Sou convidado de um convidado.

– Esse é um bom critério para escolher a cor da sua gravata, então. E o do terno.

– Como assim?

– Diga-me uma coisa: sabe com que cor de vestido vai a sua companheira?

Eu quis gargalhar, e isso ficou evidente no primeiro instante de riso que não consegui refrear. Engoli todo o restante, mas ainda fiquei com uma expressão divertida no rosto. Respirei fundo, procurando calma e foco.

A senhora estava errada desde o princípio, mas eu não podia julgá-la, podia? Ela estava pensando em um casamento convencional com convidados convencionais. Quando, na história do Maine, um garoto convidara outro para um casamento? Não se tinha registro. Talvez em Nova Iorque tivesse, porque lá as pessoas já tinham perdido o seu preconceito quanto à companhia de um par de dois homens – ou talvez simplesmente o guardassem para si. Mas não no Maine, aquele lugar que quase parecia feito de fazendas, isolado do restante dos Estados Unidos, pacato. O conceito da dona da loja precisava ser desconstruído.

Mas aquela não era a hora para isso.

– Eu não sei te dizer – foi o que eu disse.

– Então ligue para ela! Sei que vocês, jovens, andam com bolsos cheios de celulares, é só pegar um e ligar para a mocinha! Ou vai me dizer que seu celular só serve pra ficar ouvindo essas músicas de negro que só falam palavrão, sobre sexo?

A mulher tinha preconceitos demais para serem desconstruídos, e foi isso que me fez decidir, de uma vez por todas, que era hora de continuar com a sua fantasia.

Mas não liguei para o Sam. Enviei-lhe uma mensagem, perguntando com que cor de terno e gravata ele pensava em ir ao casamento. Gastei algum tempo com as gravatas, decidindo quais cores mais me agradavam, enquanto aguardava sua resposta, que logo veio:

Sam Evans: É um terno preto, com gravata vermelha. Nada de mais. Vou de camisa branca, e você?

– Ela vai de vermelho – eu disse à senhora. – Um vestido vermelho, simples. Vai usar um enfeite de cabelo branco.

– Que tipo de enfeite?

– Não sei, flores falsas, talvez.

– Vai ficar bonito, mas vai parecer que está vestida para o Natal. Se eu indicar uma gravata azul para você, então, vai parecer que estão indo a uma festa da Independência dos Estados Unidos. – Ela riu da própria piada, e foi uma risada carregada que só alguém que fuma há muito tempo pode emitir. – O que acha de uma gravata amarela?

Ela me mostrou a gravata. Era amarela, sim, mas estava mais próximo da mostarda. Era uma cor que me fazia pensar em batata frita com cheddar e que me dava fome. Com a vermelha de Sam, pareceríamos ter saído de algum comercial de fast food. Apesar de querer um visual diferente do convencional (eu nunca tinha ido a um casamento, mas podia imaginar que as cores comuns entre os homens fossem o azul, o branco, o preto e o cinza), não acho que amarelo fosse uma boa escolha.

– Posso sugerir a verde – disse a senhora, erguendo uma gravata verde-musgo, tomando iniciativa depois do que talvez tenha sido minha clara expressão de nojo diante da gravata amarela. – Essa, sim, é pouco comum. Ninguém gosta de verde. Acho que é porque a gente já vê muito dele por aqui.

Estaria ela falando das árvores? Da grama? De cigarros de maconha?

– Acho que não.

– Ou então... – ela começou a dizer e finalmente retirou um terno de dentro de uma das capas. – É uma combinação bem incomum, mas chamativa! – O terno que acabara de retirar era cinza. – O que acha de um terno cinza com uma camisa preta e uma gravata branca?

A imagem que construí na minha mente era bonita, mas eu só poderia dizer se gostaria ou não se a vestisse.

– Posso provar essas roupas de que falou?

A senhora costurou pela loja inteira, apanhando cada uma das peças que mencionara em araras aleatórias, mas já conhecidas. Entregou tudo a mim. Fechei a cortina de um provador e me vesti com cuidado, estando eu pouco acostumado com tantos botões e zíperes. A gravata estava com o nó pronto, então só precisei apertá-la em volta do pescoço. Abri a cortina e dei alguns passos para trás para me olhar no espelho.

Eu estava sem ar.

– Às vezes, uso desse papo de vendedora para falar bem das vestes de um cliente, mas confesso que, se você fosse um pouco mais velho e eu não tivesse preocupações mais importantes, talvez pudéssemos tentar algo – a senhora disse e riu da própria piada novamente.

Não me lembro de já ter me sentido tão bonito antes, e precisava registrar isso. Peguei meu celular no bolso da calça, que agora estava pendurada em um cabide, e tirei uma selfie no espelho. Contemplei a selfie. Era quase impossível acreditar que aquela fosse, de fato, a minha pessoa.

Quando enviei a foto a Sam, o fiz de maneira automática, sem muito pensar, sem me arrepender. Eu estava eufórico e não pensava em consequências. A resposta dele veio logo em seguida, quase como se ele estivesse olhando para o celular no exato instante em que enviei a foto.

Sam Evans: Uau. Nem eu conseguiria tanto.

Sorri para o celular. Era um elogio sem elogiar. Mas era um elogio.

Eu já estava guardando o celular no bolso quando ele voltou a vibrar.

Sam Evans: Estou ansioso por amanhã. Vai ser legal.

Meus olhos brilharam de emoção, quase como se eu fosse chorar. Era uma realidade muito nova para ser real, e tudo parecia estar acontecendo de uma vez, como se...

– São cinquenta dólares, garoto. O conjunto inteiro. Mas precisa de alguns ajustes na manga e na barra da calça ainda – disse a senhora.

Ao sair, deixei uma nota de cinquenta dólares na sua mão como se não houvesse mais valor nela do que em um pedaço de cascalho. Sam me achara bonito e estava ansioso para me ver. Dinheiro era um problema muito pequeno em vista disso.

Notas finais
Galera, se vocês soubesse o quanto tenho estado atolado de provas e trabalhos para fazer...............