Blam!
6 O Sonho
Instantes depois de a porta se fechar, eu estava deitado na minha cama.
Minha cama. Minha casa. Era isso o que eu pensava agora, enquanto fitava o branco do teto, com os braços estirados para os lados, uma perna estendida sobre a cama e a outra, pendurada ao lado, balançando como um pêndulo, tocando a maciez do carpete com o pé. Não era bem cansaço o que eu sentia, mas, mesmo assim, meu peito subia e descia, como se eu estivesse sem fôlego, porque Sam o roubara inteiramente de mim.
Eu me sentia encrencado. Encrencado porque eu acabara de beijar um dos caras mais irresistíveis que tinha visto na vida, sem ter que mover um dedo para isso. Ele literalmente batera à minha porta e roubara o beijo de mim, e o cara em questão não era um estranho qualquer que surgira para a festa na piscina, e sim o próprio dono da festa, o dono da casa, o dono do meu coração.
Eu ri. Eu gargalhei. Ri não porque achava engraçado tudo aquilo, mas porque, agora, eu percebia que, ao mesmo tempo em que estava encrencado, eu me sentia verdadeiramente alegre. O toque dos lábios de Sam nos meus ainda eram estranhamente reais, e eu podia senti-los. Levei um indicador à boca os toquei. O gosto da língua dele ainda estava em minha língua, e o cheiro dele, o cheiro que estava preso em suas vestes naquele dia, o cheiro que era muito parecido com o da toalha que, dias atrás, ele me emprestara, ele também estava preso em mim. Eu conseguia senti-lo quando fechava os olhos e inspirava o ar pelo nariz.
Eu estava feliz. Eu estava ansioso. Eu estava nervoso. Eu sofria um misto de emoções que me deixavam com as pernas trêmulas – ou talvez fosse apenas a surpresa de ter um beijo roubado por alguém tão desejado que tivesse me deixado assim. Eu não queria mais me levantar daquela cama, eu só queria curtir a essência do momento, o ar do quarto, a sua atmosfera, os rastros que Sam deixara por ali antes de partir.
Eu não conseguiria dormir naquela noite, nem se de repente todas caixas de som fossem desligadas, nem se o fornecimento de energia elétrica do bairro fosse interrompido e todos fossem obrigados a ir para casa, nem mesmo sabendo que, a algumas horas, eu teria que acordar para ir para a escola. Quando me dobrei para o lado, procurando uma posição mais confortável na cama, percebi que meu pau estava enrijecido e dolorido, pressionado contra o tecido da minha cueca. Aquela dor, misturada aos sentimentos que aceleravam os meus batimentos cardíacos, jamais me permitiriam relaxar. Só havia um jeito de eu me livrar daquilo tudo de uma vez, e eu precisava fazê-lo.
Precisava disso para poder esquecer.
Desabotoei minha bermuda e a abaixei, junto com a cueca, até a altura do joelho. Segurei o pau com uma mão. Massageei-o com lentidão, a princípio, porque ele realmente estava muito dolorido. Arrumei-me na cama, procurando uma posição mais confortável. Fechei os olhos e os cobri com o braço livre. Dessa forma, a lembrança do rosto de Sam tão próximo do meu se tornou ainda mais real, quase como se eu a vivenciasse mais uma vez, como se ela de fato acontecesse novamente. O jeito como ele me beijara, a fome com que seus lábios tocavam os meus, sua língua explorando minha boca, o seu corpo colado ao meu, aquilo...
Aquilo não podia ser real.
Mas era.
Soltei um gemido involuntário quando a porra disparou para o alto, acertando meu peito em seguida. Minhas pernas relaxaram no mesmo instante e a ansiedade que antes acelerava o meu coração e me fazia ficar tão inquieto deixou meu corpo como uma roupa que eu despia com pressa. Respirei com mais tranquilidade, enquanto o pau amolecia na minha mão. Retirei a camiseta, agora suja, e tornei a vestir a roupa de baixo – e apenas ela. Estava calor, e eu sentia que dormir com pouca roupa talvez fosse o melhor.
Tranquei a porta e me joguei na cama.
Adormeci antes que tivesse a chance de repensar o que havia acontecido.
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Não acordei a tempo de ir à escola, mas o momento em que fui tomado pelo desespero dessa descoberta durou muito pouco. Minha cabeça doía como se eu estivesse de ressaca, mas, por ter bebido tão pouco, eu não entendia como isso podia acontecer. Talvez aquele fosse o reflexo de uma noite mal dormida. Às vezes, isso acontecia comigo.
Levantei-me com lentidão e apanhei algo para vestir na cômoda de roupas. Eu não pensava em deixar aquela casa naquele dia, então vesti roupas confortáveis de moletom. Espreguicei-me e só então verifiquei as horas. Eram quase dez da manhã, um horário que eu considerava razoável. Destranquei a porta e a primeira coisa que eu estava decidido a fazer era ir ao banheiro.
O banheiro para visitantes, que, nos últimos dias, eu andava considerando o meu banheiro, me forneceu um vislumbre do que eu poderia encontrar no restante de casa. Havia potes de xampu e condicionador espalhados no chão do box e o caos por ali seria maior, se o banheiro não fosse tão despido de objetos. Não havia mais papel higiênico disponível por ali. Urinei, lavei minhas mãos, joguei uma água no rosto e me verifiquei no espelho. Até que eu não estava tão mal.
A casa estava tomada por um silêncio perturbador. Não havia grilos cricrilando naquele horário, mas havia pássaros piando em árvores próximas, além de carros que, vez ou outra, passavam devagar pela rua, na baixa velocidade permitida, roncando motores. Mas esses eram sons externos que não competiam àquela casa. A casa de Sam, afinal, parecia morta – ou apenas dormindo.
Desci as escadas até a sala e, já ali, pude me deparar com embalagens de bolacha espalhadas pelo chão, além de inúmeros copos de plástico vermelhos. Não me senti exatamente surpreso ou decepcionado com aquela premissa de cenário, porque eu nunca imaginara que aquela festa terminaria deixando a casa do jeito que devia estar. Mas uma coisa era certa: eu esperava ver muita gente atravessada no chão, em coma alcoólico ou apenas adormecida, mas a casa não tinha nenhuma. Era quase como se todos os participantes da festa tivessem achado melhor ir embora quando o sol começou a nascer, levando inclusive Sam com eles, que não parecia estar na casa.
A limpeza teria que ser feita por mim, foi o que logo percebi, e acabei rindo. Claro, havia a opção de eu esperar Sam surgir para começar a arrumação, mas isso implicava dizer que eu teria que tomar café da manhã em um ninho de gatos. Eu não estava acostumado com toda aquela bagunça e não estava disposto a mudar isso agora. Como eu já havia faltado à escola, não via diferença em gastar aquele dia para colocar a casa em ordem, ao invés de me dedicar às verdadeiras responsabilidades.
Na cozinha, apanhei um saco de lixo e comecei minha caçada pelos copos de plástico e demais embalagens. Antes de passar o aspirador de pó no carpete da sala ou de limpar o chão da cozinha com um pano úmido, eu precisava retirar o lixo mais grosso, e até que aquele foi um passatempo interessante. Durante algum tempo, enquanto apanhava copos pelo caminho, consegui me esquecer do que acontecera instantes antes de eu ir me deitar, e isso foi bom. Mas quando a memória veio, ela foi tão arrebatadora que me deixou desanimado.
Desanimado porque, àquela hora da manhã, tudo parecia um sonho, e provavelmente fora. Eu tinha bebido um pouco de vodca com soda, e não estou acostumado a beber, por menor que seja a quantidade de álcool. Talvez tudo o que acontecera no quarto fosse parte de um sonho, um daqueles bem reais, que nos confundem quando estamos acordados.
Mas a dor nas minhas costas também parecia tão real...
Agachei-me em frente à lareira, onde alguém construíra uma pequena pirâmide de copos de plástico. Parte dela estava desmoronada, então derrubei o restante com um único toque. O som de copos de plástico se batendo foi o único som na sala de estar por alguns segundos. Apanhei-os e os joguei no saco de lixo.
E, como se algo no reflexo da superfície de vidro que protegia a lareira tivesse chamado minha atenção, eu olhei para ela, a meio caminho de empacotar outro copo de plástico. Quando notei Sam deitado no sofá às minhas costas, meus batimentos cardíacos pareceram ter parado.
Porque Sam estava com os olhos abertos na minha direção.
Terminei de apanhar os copos, amarrei o saco de lixo e me levantei. Quando me voltei na direção da porta, agi como se só então tivesse visto Sam por ali, deitado no sofá, em posição fetal, com os olhos voltados na minha direção como um boneco inanimado com sensores de movimento.
– Bom dia – eu falei.
– Bom dia – ele respondeu e só então desviou o olhar. Sentou-se no sofá e se espreguiçou, fazendo bastante barulho.
Passei por ele e caminhei porta afora, jogando o último saco de lixo na lata de lixo. Quando tornei a entrar na casa, Sam estava apoiado no cabo de uma vassoura, como se essa lhe servisse de bengala, olhando pela janela, sério, como se refletisse.
– Então você vai mesmo cuidar da arrumação da casa? – perguntei.
– Foi o que eu disse que faria.
– Foi sim. – Abaixei o olhar pelo corpo de Sam, atentando-me ao fato de que ele vestia a mesma roupa que utilizara na festa. Estava descalço, e um de seus pés parecia servir de apoio para a vassoura. – Vai começar pela sala?
– Sim. Vou continuar o que você já começou.
– Não deveria usar a vassoura, então. Deixe que eu a use na cozinha. Experimenta o aspirador de pó.
– Sempre usei a vassoura na sala...
– Tudo bem, mas vai ver que o aspirador de pó faz o serviço com mais rapidez. Prometo que você não vai se arrepender.
Caminhei na direção de Sam e só a perspectiva de voltar a me aproximar dele me deixou com as pernas trêmulas. Podia até ser que o beijo que Sam me dera fosse parte de um sonho, mas eu ainda o sentia – inclusive sua ereção – como se ele fosse, sim, real. As emoções tidas durante o beijo ainda continuavam com a mesma intensidade na minha mente, e era por isso que encarar Sam também me causava tantos arrepios. Eu não conseguia enxergar aquela memória como um sonho. E talvez ela não fosse mesmo.
Segurei o cabo da vassoura e Sam teve que olhar de mim para ela para entender o que eu estava fazendo, e só então a soltou.
– Vou buscar o aspirador de pó – anunciou e começou sua rota até o armário embaixo da escada.
– Tudo bem – eu respondi.
E de repente percebi que não conseguiria mais lidar com aquilo. Havia um elefante enorme, gordo e cinza naquela sala, e ele incomodava o suficiente para levar qualquer um à loucura. Eu não tinha certeza se era uma boa ideia tocar naquele assunto sendo ele tão recente e com Sam parecendo ignorá-lo a todo instante, mas eu precisava colocar aquelas cartas sobre a mesa, senão não iria mais conseguir ficar naquela casa.
– Sam.
– Sim? – ele disse, caminhando alguns passos de volta à sala.
– Aquilo ontem...
Sam apertou os olhos na minha direção, como se não entendesse do que eu estava falando.
– No meu quarto.
– Hum.
Eu queria perguntar o que o beijo significara para ele, mas o seu olhar, naquela manhã, me pareceu demasiadamente intimidador, então optei por uma questão menos específica.
– Como vai ser daqui pra frente?
Sam piscou algumas vezes na minha direção e mordeu o lábio inferior, fazendo um bico. Tornou a apertar os olhos na minha direção, deixando claro que havia, sim, algo se passando em sua mente. Quando abriu a boca para voltar a falar, o que disse foi:
– Não faço a menor ideia do que você está falando.
E finalizou a conversa assim, retomando sua busca pelo aspirador de pó.
No mesmo instante, a imagem que eu tinha dele batendo o indicador nos lábios, pedindo silêncio, me veio à mente com uma força que fez minha dor de cabeça se acentuar. O gesto, na ocasião, dera a entender que ele queria que eu fizesse silêncio para não ser descoberto pelos seus amigos, mas agora essa interpretação soava tão ingênua quanto eu costumava ser. Não era esse o tipo de silêncio que Sam procurava.
O que ele queria era que eu não voltasse mais a falar no assunto.
Então foi um sonho, eu concluí, apoiando o queixo na vassoura.
– Só não se esqueça de varrer embaixo dos balcões – Sam disse, apontando a cozinha, quando retornou. – Pode ser que alguma coisa tenha rolado pra baixo deles, entende?
Eu assenti com a cabeça, tanto dando a entender que entendia o que Sam acabara de dizer quanto aceitando que, afinal, o beijo que ele me dera não fora mais do que um sonho e que nunca seria mais do que isso.
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