Blam!
7 A Barata
Não voltei a falar com Sam naquele dia e nem boa parte dos dias seguintes, pelos menos sobre nada além do essencial. Trocamos informações sobre a separação dos lixos e sobre o que seria servido no almoço. Falamos pouco sobre a festa, e ele contou algumas histórias que achava engraçadas. Falou que alguns dos seus amigos ficaram no zero a zero. Mas em nenhum momento pôs em pauta o beijo que supostamente tinha me dado.
E eu agora encarava esse beijo como suposto porque começava a duvidar de que algo tivesse acontecido mesmo. Não havia como ter sido real, porque Sam era tão convincente com sua atitude de que tudo estava normal, de que não sabia do que eu estava falando quando tentei tocar no assunto, que eu começava a duvidar da minha própria sanidade. Vai ver era a bebida. Aos poucos, eu ia tendo certeza disso.
Almoçamos – Almocei, para falar a verdade, porque Sam apenas brincou com as bolas de carne em seu prato e jogou tudo fora depois – em silêncio. Eu teria ido à loucura se o rádio não estivesse ligado, mas também não era como se eu estivesse completamente são, afinal, não aguentava mais ouvir Blues. Quando terminamos a refeição e lavamos as louças, eu subi para o meu quarto e escutei o que realmente gostava. Nunca eu tinha sentido tanta falta de Rock Indie quanto naqueles dias.
Passei boa parte da tarde cochilando e ouvindo os braços de Sam cortarem a água da piscina. Aquele era um passatempo de que ele gostava muito, ficar nadando, e às vezes podia passar um dia inteiro fazendo aquilo. Em uma das ocasiões, ele até me convidou para fazer parte da atividade, mas eu disse que não podia, mentindo sobre não saber nadar. Ele até se propôs a me ensinar, mas eu recusei, dessa vez alegando dor de cabeça.
Também era esse jeito (às vezes) amigável de Sam que me causava tanta confusão. Eu já havia aprendido que, nas primeiras horas dom dia, ele não era a melhor pessoa do mundo, porém, quando esse tempo terminava, Sam voltava a ser o cara falastrão, piadista e gente fina de sempre. Tinha horas que ele parecia querer me expulsar de sua casa, dizendo que eu era uma visita indesejada, mas em outras ele fazia de tudo para eu me sentir o mais confortável possível.
E aquilo era uma tortura, porque alimentava uma suspeita que eu já andava tendo há algum tempo: o beijo que ele me dera fora apenas um reflexo do meu subconsciente, uma manifestação de um desejo que eu tinha. Era uma coincidência muito grande que, horas depois de eu ter percebido que estava apaixonado por ele, ele tivesse surgido na porta do meu quarto para me beijar, não era? E eu tinha bebido. O sonho, portanto, era apenas um jeito que minha mente arranjara de justificar o jeito legal de Sam comigo, de fazer com que a realidade fosse melhor, quando eu devia saber que, na verdade, Sam era daquele jeito com todo mundo, e não só comigo.
Ou pelo menos assim eu imaginava.
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Ao final da primeira semana do afastamento de Angelina, percebi que as flores do seu jardim começaram a demonstrar os primeiros sinais de abandono. Eu não entendia nada de jardinagem, e duvidava que a internet pudesse me dar uma aula pelo menos boa sobre o assunto, então foi pura e simplesmente por conta disso que procurei Sam naquela noite, porque eu estava preocupado com as flores.
– Quando sua mãe volta? – perguntei, à porta de seu quarto.
Sam me provocava com o jeito como se comportava, e o pior era que eu não tinha como saber se ele sabia disso e se se aproveitava da situação ou não. Quando o abordei, ele estava deitado, como costumava estar, com os braços cruzados embaixo da cabeça, batucando o ar com um dos pés, que estavam cruzados, no ritmo da música que tocava em seus fones de ouvido. Vestia apenas uma bermuda, e era isso o que me deixava tão pouco à vontade na presença dele.
– Amanhã de manhã eu acho que ela está por aí – ele respondeu.
– Ah, claro. Vou tomar um banho.
Fiz como eu estava acostumado a fazer: coloquei as roupas em ganchos presos na parede do banheiro e espalhei outros itens de higiene sobre a pia, como o desodorante e o creme de barbear.
Prestes a entrar no box, já despido, percebi um movimento pelo canto do olho e, sem pestanejar, me virei na direção dele.
– Ah, não... – suspirei, desanimado.
Era uma barata.
Tudo bem, eu havia escondido bem meu medo de baratas quando Sam as mencionara pela primeira vez, mas imaginar um inseto e vê-lo pessoalmente provocam emoções completamente diferentes, e não foi bem alegria o que senti quando avistei aquela barata no banheiro. A minha sorte foi que ela logo sumiu pela fresta debaixo da porta, provavelmente pronta para explorar toda a casa que tinha a seu dispor em busca de comida. Aquele era ainda um dos muitos reflexos da festa que Sam inventara de fazer no começo da semana.
Tomei meu banho em tempo normal, já despido da paranoia de Sam estar prestando ou não atenção em mim enquanto a água do chuveiro caía. Fiz a barba naquela noite porque ela já estava tornando o meu rosto cinza. Terminei todos os rituais que eu estava acostumado a fazer, me vesti com roupa de dormir e coloquei a roupa do dia no cesto de roupa suja. Verifiquei meus dentes uma última vez antes de deixar o banheiro.
Para chegar ao meu quarto, passei em frente ao de Sam, que, agora, estava com as portas fechadas. Senti-me, de certa forma, aliviado por isso.
– Acordar cedo e me arrumar para ir à escola – eu repetia enquanto ajustava o despertador para o horário de sempre. – Acordar cedo e me arrumar para ir à... Ah, não!
A barata estava no meu quarto.
A princípio, eu não soube como reagir, porque ela estava à minha porta. Claro que era para o meu quarto que ela seguiria, e eu já devia ter imaginado isso, afinal, baratas farejam o medo e geralmente vão atrás daqueles que não são fortes o suficiente para enfrentá-las.
Quando a barata foi mais adentro no meu quarto e levantou voo foi que eu sumi dali. Antes que tivesse tempo de perceber o que estava fazendo, eu batia na porta do quarto de Sam, implorando por ajuda como se fosse um assassino quem me perseguia, e não um inseto.
– Mas o que está acontec...? – ele começou a perguntar, tirando os fones do ouvido, quando abriu a porta.
– Uma barata, uma barata, uma bar...
– Onde?
– No meu quarto! Rápido, Sam, rápido!
Sam enrolou uma revista e a fez de bastão. Eu entrei no quarto dele no instante seguinte ao que ele saiu. Ali, na escuridão, eu fitava o chão, apenas aguardando os barulhos da batalha, o som de móveis sendo arrastados, de objetos sendo derrubados, de qualquer demonstração de que estava havendo uma caçada no meu quarto.
Mas não houve nada disso.
Sam surgiu à porta do próprio quarto momentos depois, brandindo a revista agora desenrolada.
– Não encontrei nada.
Era a frase que eu mais temia.
– Mas a barata era enorme!
– Sinto muito.
Passei por ele, indo em direção ao meu quarto, esperando por tudo voltar a ver a barata e então dizer a Sam onde ela estava, mas não a encontrei. A barata talvez fosse mais um dos muitos sonhos acordados que de repente eu aprendera a ter.
Eu estava, literalmente, ficando maluco.
– Não vou conseguir dormir aqui... – eu sussurrei e apanhei lençol, cobertor e travesseiros, decidido a ir para a sala de estar. – Não vou mesmo conseguir dormir aqui... – Segui corredor adentro, pronto para descer as escadas para o andar de baixo.
– Está indo aonde?
Girei nos calcanhares e encontrei Sam mais uma vez à porta do próprio quarto.
– Sei que isso vai soar idiota, mas eu não vou conseguir dormir nesse quarto sem que a barata volte a aparecer e seja morta. Talvez eu consiga encará-lo na noite de amanhã, mas não hoje. Vou dormir na sala.
– Você pode dormir no meu quarto se quiser. Comigo.
Aquela era a sugestão mais tola que eu podia ter ouvido.
– Por quê?
– Porque, ao que parece, você tem bom olho para baratas, e se ela voltar a aparecer, dessa vez no meu quarto, você pode dizer onde ela está e eu a mato. Também não gosto de baratas. Você estaria me fazendo um favor.
Era demais para a minha cabeça. O que Sam podia estar tramando daquela vez? O convite que ele fazia não fazia o menor sentido, nem a sua justificativa.
Mas eu não podia negar que uma companhia, logo depois de enfrentar o voo assassino de uma barata, me parecia uma excelente ideia.
– Vou trazer o meu colchão – eu disse, regressando, vagarosamente, no corredor.
– Tudo bem. Coloca no chão, ao lado da minha cama.
E assim eu fiz.
Naquela noite, eu me deitei tomado pelo mesmo sentimento que me contaminava nos primeiros dias em que dormi naquela casa: eu não estava à vontade. Enrolei-me no cobertor e até a posição com a qual eu estava acostumado a dormir não me era mais confortável o bastante. Tentei de várias formas encontrar a posição ideal, mas era como se eu não sentisse o menor sinal de sono. Aquela seria uma noite difícil, eu logo percebi.
E Sam não parava de teclar no celular. O quarto estava mergulhado em escuridão, ainda mais agora, que a porta estava fechada, assim como as cortinas, e a luz de seu aparelho, mesmo para os meus olhos fechados, incomodava. Vez ou outra, ele pigarreava e voltava a teclar. Seus polegares batendo na tela eram um barulho com o qual eu não conseguia me acostumar.
Senti-me um grande tolo por ter aceitado o convite de Sam. Claro que era bom demais para ser verdade que ele tivesse me chamado para dormir ali.
Só consegui ficar perto de adormecer quando ele finalmente abandonou o celular. A música de despedida do aparelho, que tocou quando o celular foi desligado, foi como uma música de ninar para mim. Fechei os olhos e suspirei, aliviado, quase perto de sorrir. O corpo já parecia pesado e meus olhos estavam finalmente selados, do jeito que deveria ser. E eu estava bem perto da imersão completa no sono quando senti meu cobertor ser inteiramente jogado para o lado, a ponto de não restar um centímetro dele mais sobre mim.
O sono se varreu do meu corpo e meus olhos não ficaram só abertos; ficaram arregalados. Sem me mexer, com medo de que o menor dos meus movimentos acarretasse o ataque de algum estranho – eu estava sonolento demais para pensar com razão –, me mantive imóvel, sentindo o frescor daquela noite na pele, percebendo arrepios subirem pelas minhas pernas, passando por todo o corpo até chegarem aos braços.
E muito embora eu não tivesse sentido nenhum soco naquele momento, senti uma mão me tocar. Na bunda.
Não tive mais como me manter quieto e acabei me sacudindo no lugar. Olhei ao redor na escuridão, pronto para ver algum tipo de estuprador dentro da casa, mas a única a única pessoa que vi foi Sam, debruçado sobre mim, ainda em sua cama, tirando a mão da minha bunda e a colocando em meu peito, pedindo que eu me mantivesse deitado. Levou o indicador aos lábios e pediu silêncio, e essa imagem me deixou enojado. Afastou a mão do meu peito e eu tornei a me virar para o lado. Fosse o que estivesse acontecendo, parecia ter acabado.
Não, não tinha acabado.
A mão de Sam dessa vez agarrou minha bunda com mais força, apertando-a, e eu não consegui conter um gemido. Sua mão deslizou por ali, subiu pelas minhas costas e explorou minha coluna. Os arrepios, agora, me deixavam próximo do que seria um porco-espinho.
Ele se deitou no colchão, às minhas costas, e o fez em silêncio, como se tivesse medo de acordar alguém. Ainda acariciava me acariciava. Beijou minha nuca e depois minha orelha. Senti seu hálito em meu nariz apenas nesse instante.
A mão tornou a abaixar e dessa vez agarrou o elástico do meu short. Puxou-o para baixo, deixando parte da minha bunda à mostra. Agarrei a mão de Sam, exigindo que ele parasse com o que quer que pensava em fazer, mas, como se ainda obedecesse ao seu pedido, eu o fiz sem dizer uma palavra. Sam tornou a beijar minha orelha. A mão com a qual eu segurava a dele afrouxou. Sam terminou de abaixar meu short e, antes que eu pudesse me dar conta, estava movendo minhas próprias pernas a fim de ajudá-lo a retirá-lo por completo.
O que é que estou fazendo?
Sam pressionou sua pélvis contra a minha bunda e sua ereção, ainda coberta pela bermuda, se encaixou perfeitamente no espaço entre minhas bandas. Ele ia para cima e para baixo, beijando minha orelha, segurando minha barriga, como que para impedir que eu fugisse. Em determinado momento, mordeu o lóbulo da minha orelha. Deslizou a mão que antes segurava minha barriga até encontrar minha bunda novamente e, apesar de achar improvável, ele fez o que eu imaginei que fosse fazer: tocou o meu ânus com o indicador.
– Sam...?
– Shhh.
Ele o abriu e eu gemi. Quando o indicador entrou, a dor me deixou desnorteado. Caí nos braços de Sam e tentei por tudo conter os novos gemidos, mas era difícil.
Seguido ao momento em que ele retirou o indicador de mim, ouvi o velcro de sua bermuda ser aberto, com lentidão, ainda como se Sam agisse com cautela, com medo de ser descoberto. Quando eu estava certo de que ele estava prestes a retirar por completo a própria bermuda, a campainha da porta tocou.
A campainha?!
– A campainha – ele disse.
Ouvi o velcro de sua bermuda se fechar.
Ouvi Sam se levantar e calçar seus chinelos.
Ouvi quando ele disse “Deve ser algo sério. Quem poderia me procurar a uma hora dessas?”.
E o ouvi descer as escadas até a porta.
E fiquei ali, deitado, sem a bermuda, descoberto, sem fôlego e frustrado. Mas dentre a percepção de tantas coisas ruins, havia uma que era boa e certa: agora eu tinha certeza de que o beijo de Sam não fora um sonho.
A menos que, agora, eu estivesse sonhando também.
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