Blam!
8 A Panqueca
Era Angelina quem batia à porta.
Vesti minha bermuda às pressas e corri escada abaixo, descalço mesmo. Sam acabava de receber a mãe, no hall de entrada, com um sorriso alegre que não lhe era comum. A abraçava como se não conseguisse mais conter a falta que sentia, algo que eu logo estranhei, porque, até então, eu podia jurar que Sam não se importava nem um pouquinho com a ausência de Angelina.
Quando Sam se afastou da mãe e apanhou algumas de suas malas foi que Angelina me notou ao pé da escada.
– Que bom ver meus dois garotos preferidos em casa! – ela disse, o sorriso fazendo suas bochechas saltarem no rosto, escondendo os olhos. Abriu os braços no alto. – Venha me dar um abraço, querido!
– Seja bem vinda de volta – eu disse, abraçando-a com menos vigor do que ela ofereceu ao gesto.
– Obrigada! Mal vejo a hora de tomar um banho e ir me deitar para descansar. Depois, quero saber de tudo o que aprontaram enquanto estive fora, hein? – Já subia as escadas quando se voltou para trás, para mim, a única pessoa em seu alcance de visão, já que Sam já se escondera no segundo andar, e disse: – Não houve nenhuma baderna aqui, não é mesmo? Nada com o qual eu devesse me preocupar?
– Não – eu menti e engoli em seco. – É só observar pelo estado da casa. Está do jeito que você deixou. Mal usamos as louças.
– Eu imaginei. O Sam é preguiçoso com as tarefas de casa. Deve preferir beber água com uma concha feita com as mãos a usar um copo e ter que lavá-lo depois. Puxou ao pai. – Eu a acompanhava, carregando uma mala pequena, de mão. – Vocês já estavam dormindo? Me desculpe se os acordei com a campainha, mas as minhas chaves estão perdidas em algum desses bolsos, e eu não estava com paciência de procurá-las a essa hora da noite. E a noite está tão nebulosa. O Maine, às vezes, é tão assustador quanto o Stephen King diz.
– Eu imagino.
– Pode deixar a mala aqui na porta do meu quarto, eu me viro com o restante. Não quero que vocês se sintam mais cansados do que já estão, afinal, estudar não é fácil. Boa noite, querido! Mande um beijo para o Sam, aonde quer que ele esteja agora.
– Um beijo...?
– Sim. Um beijo. Boa noite.
Voltei ao quarto de Sam, que era exatamente onde ele estava, deitado em sua cama, totalmente coberto, com a postura de alguém que estava pronto para a chegada do sono. Não percebeu minha chegada, ou apenas a ignorou, pois não se moveu nem um pouquinho no lugar. Encostei a porta e me dirigi ao meu colchão no chão. Pigarreei antes de me deitar, porque aquele era eu fazendo de tudo para chamar a atenção do dono do quarto, mesmo que inconscientemente. Mas ele não moveu sequer um dedo.
– Sua mãe te mandou um beijo – sussurrei. Não sei se falei alto o bastante para ele poder ouvir, mas, se ouviu, Sam não deu o menor indício. Continuou quieto. Guardei minha vontade de repetir a frase, para ver se dessa vez ele a ouvia, e me convenci de que o melhor a fazer era dormir.
Mas não consegui.
Confesso que os primeiros instantes daquela noite, em que Sam retirava minha coberta sem eu ter a menor ideia de quem fazia isso, me assustaram, mas não posso negar que, agora, a memória disso era excitante. Deitado de costas para ele, eu torcia para que ele retomasse o que havia começado, que retirasse meu cobertor, que me tocasse onde bem entendesse, que retirasse minha bermuda, se quisesse, e que, dessa vez, terminasse de retirar a sua. Mas nada disso aconteceu. E nem parecia próximo de acontecer.
Eu desejava o corpo de Sam e essa excitação toda afastava o meu sono. Tentei todas as posições possíveis na cama, esperando encontrar aquela que fosse mais confortável, mas não encontrei nenhuma. Eu estava tão desconfortável quando estava acostumado a estar nos dias passados, mas o problema era que, daquela vez, isso acontecia por um motivo diferente. Eu estava tomado por expectativa.
O relógio sobre a mesa de criado-mudo já acusava três horas da manhã e eu estava desperto. Isso me desesperou, pois, em poucas horas, eu teria que acordar para ir para a escola. E nunca pareci tão acordado.
Como geralmente acontece com pessoas que sofrem de insônia, só fui adormecer de verdade quando o despertador estava perto de tocar. Quando tocou, eu enfiei meu travesseiro nos ouvidos e, de olhos bem apertados, gritei, em pensamento, uma porção de palavrões, tão frustrado que estava. Eu queria matar alguém. Se fosse pra escola daquele jeito, naquele dia, daria tudo errado. Eu não conseguiria aprender nada.
– Bom dia, Blaine – ouvi Sam dizer, logo após ouvir o som de suas janelas sendo abertas. A claridade castigou meus olhos, ainda que eu os mantivesse fechados. – Vamos, levanta. E não me faça insistir, senão vou à escola sem você.
– Não seria assim tão horrível.
– O que foi que disse?
Não repeti. Joguei o travesseiro para o lado e, em seguida, as cobertas. Levantei-me em um único impulso. Não tinha dormido praticamente nada naquela noite, mas, mesmo assim, eu não parecia cansado. Vai ver, eu estava tomado por adrenalina.
– Eu vou para o meu quarto para... – Sam virou as costas para mim e abaixou sua bermuda. Por um momento, achei que estivesse prestes a ver sua bunda nua, de frente para mim, mas, quando pisquei melhor, percebi que era a cueca que ele vestia que tinha a cor muito parecida com a de sua pele. Eu devia ter notado o elástico preto na cintura antes de sustentar falsas esperanças. – Eu vou me trocar – concluí e deixei o quarto de vez.
Só fui sair do meu quarto quando estava devidamente vestido e arrumado. Com a mochila nas costas, desci as escadas até o andar de baixo. Larguei a mochila em um sofá na sala de estar e entrei na cozinha. Tomei uma cadeira, em frente a Sam, ao lado de Angelina, na pequena mesa. Aquela parte da rotina já me era tão habitual que eu não hesitava mais em tomar um lugar à mesa de café da manhã. Eu não via mais por que me preocupar em parecer abusivo ou não.
Até porque Sam entendia de abuso melhor do que ninguém, e ele não parecia nem um terço tão preocupado quanto deveria.
– Coma alguma coisa, querido – disse Angelina, arrastando para mim o saco com os pães. – Tem panquecas também, ali em cima do balcão. O Sam pegou algumas, mas tem ainda umas três se você quiser.
Levantei o olhar para Sam. O garoto ergueu as sobrancelhas para mim e continuou a mastigar. Mantinha a postura que sempre mantinha enquanto comia, com um dos braços apoiados na mesa e o outro, livre para poder levar o garfo aonde bem entendesse. De fato, comia panquecas, e, ainda que seu aspecto estivesse bom, eu não estava a fim de nenhuma delas.
– Obrigado – agradeci a Angelina.
– Não precisa agradecer. O que você precisa é comer. – Tocou meu queixo, erguendo meu rosto. Minhas pálpebras nunca pareceram tão pesadas. Tão derrotado que eu estava, nem reagi ao toque de Angelina. – Está com uma cara horrível. O que você andou aprontando, hein? Está doente?
– Estou ótimo.
– Tenho algumas dessas pastilhas de energia que se dissolvem na água. Se quiser, posso preparar uma para você.
Eu conhecia bem o gosto da tal pastilha, portanto, quando analisei as possibilidades para aquela manhã, dei a resposta que Angelina queria:
– Vou comer as panquecas.
Talvez as panquecas estivessem deliciosamente saborosas, especialmente com a calda de chocolate que eu espalhei aos quilos sobre elas, mas eu nunca estive tão sem apetite. Apoiei a cabeça em uma mão e, com a outra, que segurava um garfo, eu espetava o talher na panqueca e o afastava em seguida. Gostava da imagem que eram os dentes do garfo furando a superfície macia da massa. De vez em quando, eu levava uma garfada à boca e mastigava durante um bom tempo.
– Você não está bem, querido.
– Não precisa se preocupar, Angelina, eu só dormi mal.
– Algo aconteceu? Está preocupado com algo?
Olhei para Sam antes de responder Angelina. Sam ainda mastigava, mas, apoiando o rosto em uma mão, escondendo-o da vista de Angelina, ele sorriu pra mim. Com os lábios, não com os olhos. Era um sorriso quase maldoso.
– Não estou preocupado com nada.
E aquele olhar me provocou.
– A gente pode falar sobre os dias que vocês passaram longe de mim, que tal? – Angelina sugeriu, animada. – Deram uma festa? Eu sei que jovens como vocês fazem esse tipo de coisa e que sabem varrer a sujeira decorrente de uma maneira que nem a faxineira mais cara do mundo conseguiria. Podem falar para mim se fizeram algo. Fizeram?
Ela olhou primeiro para Sam.
Sam mal a olhou nos olhos. Partia as panquecas em silêncio, como se fizesse um trabalho que exigia dedicação.
– Blaine?
Eu não sabia mentir. Não o fazia com frequência e, quando fazia, me sentia mal. Engoli em seco. De qualquer forma, ela já tinha dito que tínhamos feito a festa, que suspeitava disso, então, que mal haveria em contar daquela vez?
– Bem, na verdade...
Fui obrigado a interromper minha fala quando o pé de Sam apertou o meu.
– Não tivemos tempo. – Eu havia respondido para Angelina, mas era nos olhos de Sam que eu olhava, desconfiado, exigindo, com a expressão do meu olhar, que ele desse uma explicação. Não houve. Sam me ignorou do mesmo jeito como ignorava a mãe dele. – Tivemos muito dever de casa, e eu ajudei o Sam, e ele me ajudou, e...
– Você está sendo uma benção na vida do Sam, sabia, Blaine? Se não estivesse aqui, tenho certeza de que ele teria dado uma festa!
Sam me ignorava, e isso estava me irritando. Parei o garfo espetado nas panquecas e passei a fitá-lo durante todo o instante, exigindo a explicação. Sam não voltou a me olhar. Parecia achar que suas panquecas eram mais importantes, no momento.
Então tive que apelar.
Descalcei o tênis do meu pé direito e apalpei o chão até encontrar o pé de Sam. E então o encontrei. Ergui o pé, tocando-o perna acima, sentindo os dedos do meu pé resvalarem nos finos e parcos pelos que a perna de Sam tinha. Eu ainda o fitava, mas Sam era tão discreto que fazia parecer que não havia ninguém o tocando.
Cheguei à altura do seu joelho. Calculei a direção exata em que ficava o espaço entre suas pernas, pronto para acertá-lo em um ponto crítico, punindo-o por não me dar a atenção necessária. Sam sentiu minha aproximação e abriu mais as pernas. Achei essa atitude uma afronta, mas estava decidido a provocá-lo mesmo assim. Aproximei ainda mais meu pé da região em que eu sabia que estava o seu pau. Se ele pensava que eu não era capaz de fazer aquilo, que se surpreendesse!
– E ele não demonstrou nem um pouquinho de vontade de dar uma festa, Blaine?
– O quê? – eu perguntei, ainda que tivesse entendido cada uma das palavras ditas. A voz de Angelina começava a me irritar. Será que ela não percebia que falava demais?
– O Sam deve estar se sentindo péssimo por não ter dado uma festa, porque ele é bem festeiro, desde pequeno, quando ia a...
Sam agarrou meu pé com uma mão por debaixo da mesa e o guiou para onde eu queria acertar. Mesmo com a sola do pé, pude reconhecer sua ereção, e isso me deixou ainda mais irritado. Para Sam, aquilo era um joguinho sexual. Para mim, era uma questão de fazer minha vontade ser atendida.
Mas meu pé não demorou ali mais do que dois segundos, porque logo Sam tornou a agarrá-lo e, dessa vez, o jogou para o lado. Só percebi que tinha acertado em cheio o joelho de Angelina quando ela deu um salto para trás, derrubando uma caneca de café sobre a mesa.
– Mas o que foi isso?! – ela esbravejou, levantando-se num pulo.
Eu estava sem ar. Olhei para a cara de Sam e, sem emitir som nenhum, mexi os lábios como se dissesse “Mas que porra você pensa que está fazendo?”, mas Angelina estava tomada por histeria e logo achei melhor destinar minha atenção a ela.
– Eu sinto muito! Eu sinto muito!
– Blaine, mas...?
– Eu estava me espreguiçando, foi sem querer o que fiz...
E Sam ria, escondendo a boca com a mão que segurava o garfo.
– Tome mais cuidado da próxima vez em que for se espreguiçar, querido – disse Angelina, forçando sua simpatia de sempre. – Não é sempre que vou estar esperando por um golpe desses no joelho em plena mesa de café da manhã, e não acho que isso deveria mudar.
– Eu acho que ela tem razão – Sam disse, apontando o garfo na direção da mãe.
E eu queimei em brasas de vergonha.
Como eu queria matar aquele garoto!
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