Blam!

17 O Semáforo


A primeira coisa em que pensei naquela manhã, após desativar o despertador com alguns tapas e afastar os cobertores de cima do meu corpo, foi: e se eu tomasse a iniciativa com Sam?

Não me lembro de a ideia ter me ocorrido antes, mas, assim que me surgiu naquela manhã, percebi a quantidade enorme de sentido que ela fazia. Por que não podia ser eu a pessoa a abordá-lo e forçar algo? Quer dizer, acesso ao seu corpo ele já tinha me concedido – não uma vez, mas uma porção. Acho que quando você tem o pau inteiro de alguém dentro da boca é sinal de que há intimidade suficiente entre você dois, não? Esse pensamento também fazia sentido para mim.

Enquanto me trocava para ir à escola, eu confabulava sobre o assunto. Claro, Sam parecia uma máquina voraz quando estava excitado, mas sexo não era algo que se fazia sozinho, portanto, ele precisava de alguém para sanar sua vontade. E esse alguém precisava ter tanta vontade quanto ele de se sujeitar às suas aventuras sexuais, pois, do contrário, seria um estupro – e eu não me considerava abusado por Sam ainda, afinal, querendo ou não, eu queria que ele fizesse o que fizera em todas as oportunidades que tivera de fazer o que fizera. Eu sempre o queria.

Eu sempre o queria.

Então por que eu não tomava a iniciativa?

Sentado à minúscula mesa de café da manhã com Angelina e Sam, eu o observava em silêncio. Naquela manhã, não havia muito assunto entre nós, e até Angelina, que geralmente era uma máquina de despejar palavras, parecia bastante confortável com o silêncio. Raspava o conteúdo de sua tigela, uma mistura de leite e grãos de linhaça cujo cheiro me causava náuseas, e suspirava vez ou outra.

Sam, por outro lado, parecia bastante focado em um folheto sobre o retorno de Jesus que, misteriosamente, viera parar naquela mesa. Era comum que houvesse evangelizadores pelas ruas de Portland, principalmente nos em tornos da escola, pois muitos desses evangelizadores acreditavam que alunos de escolas públicas poderiam debandar para o mau caminho em algum momento, aceitando o convite das drogas ou fazendo sexo antes do casamento. Sam devia ter apanhado aquele panfleto por lá, e o trouxera consigo de forma inconsciente, sem saber muito bem o que fazia. Agora o lia não porque queria aprender um pouco mais sobre o retorno de Jesus ao planeta Terra, mas porque queria se distrair com algo. Afinal, nem o rádio estava ligado na cozinha.

– Está tudo bem? – eu perguntei, dirigindo-me à Angelina.

Sam, por uma fração de instante, levantou o olhar do folheto e olhou para mim. Aquele olhar distraído, de sobrancelhas erguidas, de alguém que quer apenas verificar a origem da voz, me causou arrepios em um dos braços, porque era assim que eu sempre me sentia sobre Sam. Talvez fosse assim que os evangelizadores se sentissem com a proximidade de seus pastores, alguém que tanto idolatravam e cuja presença era capaz de não só abalar os seus ânimos, mas também de lhes fazer dizer besteiras, palavras mal colocadas, e rir a todo instante como alguém durante uma crise nervosa. Às vezes (e eu estou sendo bem bondoso ao dizer que isso acontecia às vezes), eu me sentia assim a respeito de Sam.

– Está, querido – Angelina respondeu, apoiando a cabeça na mão. – Só não estou conseguindo lidar muito bem com...

Sam foi mais esperto do que eu quando notou a aproximação da mão de Angelina do ventre, provavelmente indicando que a dor estava ali – uma cólica –, então se manifestou antes que a mãe pudesse se pronunciar.

– Conversa de mulher, mãe!

– Oh, é verdade... – ela disse e suspirou pesarosamente. – Às vezes, sinto falta de uma mulher aqui em casa.

Angelina levou sua tigela mal acabada para a pia de louça suja e, pouco tempo depois de levarmos nossa própria louça para a pia, eu Sam estávamos em seu carro, prontos para mais um dia de aula.

– Sua mãe deve estar passando por uns maus bocados – eu falei quando já estávamos na estrada principal para o bairro em que ficava a escola.

– Eu sei. Não é sempre que isso acontece, mas ela vai superar. Mulheres geralmente têm esses frutos de bruxaria, encapsulados em pequenos comprimidos, que fazem essa dor sumir, e os da minha mãe devem ter acabado. No trabalho ela vai encontrar alguma amiga que tenha esse remédio e vai ficar tudo bem.

Eu assenti com a cabeça. Sam tinha razão, nós não tínhamos por que nos preocupar com a menstruação de Angelina. Ela não tinha nascido naquele dia, já estava acostumada com isso desde muito tempo e saberia se virar.

E por que você não toma a iniciativa?

Apertei os olhos quando novamente o pensamento me ocorreu. Era comum eu me surpreender com os rumos que minha mente tomava em alguns momentos, como se ela tivesse uma consciência própria e me desse conselhos do que fazer. Mais do que eu mesmo, minha mente queria que eu tomasse a iniciativa em relação ao Sam, mas eu havia desistido desse pensamento no momento em que levara a primeira colherada de cereal à boca. Eu não era corajoso o bastante para isso, então era melhor deixar a função para quem realmente era.

Mas a mão de Sam estava ali, tão próxima da minha... Mantendo o carro parado no semáforo, um de cuja existência Sam e mais um monte de motoristas de Portland viviam reclamando, pois demorava tempo demais no sinal vermelho quando mal havia pedestres na região, ele tamborilava com a mão direita na alavanca da marcha, sem cantarolar, apenas dançando ao som de alguma música que tocava em sua mente. Olhou para a janela ao seu lado, verificando só ele e Deus sabiam o que na calçada oposta, onde funcionava uma espécie de canil que, àquela hora da manhã, não tinha atividade nenhuma. Voltou a olhar para frente e desviou o foco da atenção para o alto, para o semáforo, que ainda exibia o seu vermelho de maneira ofensiva, como se dissesse “Se continuarem com essa cara de cu, de que estão odiando ficar parados aí, podem ter certeza de que não vou ficar verde tão cedo!”.

Era uma excelente oportunidade de forçar uma aproximação com Sam, pois o local estava completamente vazio, sem ninguém para nos observar, do jeito que Sam gostava e de um jeito que eu estava passando a gostar. O silêncio também tornava tudo mais confortável, então bastava eu aproximar a minha mão da dele e então o que quer que tivesse que acontecer aconteceria, fosse um beijo, fosse uma mão boba, fosse...

Minha mão já estava no ar enquanto esses pensamentos me ocorriam e a de Sam já tinha parado sua coreografia idiota sobre a alavanca da marcha. Seria ainda mais fácil entrelaçar os meus dedos nos dele assim. Bastava pousar a palma da minha mão sobre o verso da dele e...

...então ele ajustou a marcha e, com a mesma velocidade, levou a mão ao volante, fazendo o carro andar, livrando-se da prisão em que o semáforo nos havia posto.

“Ah, você achou que ia conseguir se dar bem, não é?” eu conseguia ouvir o semáforo dizer. “Mas, como você deve saber, não sou famoso por ser um semáforo muito gentil!”.

E a minha necessidade de me aproximar de Sam me tirou o foco de tudo o que era importante naquele dia.

De repente, não houve professor que falasse alto o bastante para conseguir captar e manter a minha atenção. Não havia atividade, por maior que fosse seu peso na nota bimestral, que me obrigasse a executá-la com perfeição. Não havia fofoca, independente de quem fosse o envolvido, que me interessasse. Eu podia até dar a entender que, ao olhar nos olhos de alguém, eu estava lhe destinando minha integral atenção, mas a verdade era que eu estava olhando além de todas aquelas pessoas. Onde terminava esse além? Não era tão difícil de supor: ele terminava em Sam, onde quer que ele e aquele corpo delicioso estivessem.

– Está apaixonado? – perguntou-me a voz da merendeira no refeitório, segurando uma colher recheada de purê de batata na altura do peito.

– Por que a pergunta?

– Porque quase não há comida nesse seu prato enorme, o que significa que está com pouco apetite. – Ofereceu-me a colher de purê e eu concordei com a cabeça. A mistura caiu no meu prato com um baque. – E também teve esse suspiro.

– Suspiro...? – eu indaguei, os olhos arregalados.

– É. Essa coisa de paixão juvenil me causa náuseas – a merendeira disse e limpou a testa brilhosa de suor com o verso da mão que não segurava a colher. – Nem sei por que ainda insisto nessa vida de trabalhar em escola pública. Vai ver é porque o Maine não tem muitas opções. Agora ande, porque você está parando a minha fila!

Um suspiro involuntário. Existia forma melhor de expressar o que eu sentia sobre Sam, mesmo quando ele não estava por perto? Eu acho que não.

Quando voltei a encontrar Sam, no meio da tarde, quando já íamos para a casa, eu havia pensado tanto nele que estava irritado. Era como se eu achasse desrespeitoso ele querer fazer aquilo comigo, alterar o meu estado de humor daquela forma. Mal conversamos durante o trajeto até a casa e passei boa parte do restante do dia enfurnado no meu quarto, fingindo que estava estudando quando, na verdade, estava rabiscando folhas de papel e, mais uma vez, pensando em Sam. Eu estava doente.

A noite havia chegado e eu mal a havia notado. Só fui me dar conta da passagem do tempo quando Angelina entrou pela porta do quarto e anunciou:

– Acho que tomei remédios demais para o meu probleminha – disse, tentando sorrir. – Quase não consigo me manter em pé de tão cansada. Vou me deitar e acho que só volto a acordar amanhã, querido. Boa noite.

– Boa noite e melhoras – eu respondi.

A porta se fechou e o quarto mergulhou em escuridão. Deitado, eu voltei a suspirar, dessa vez não de paixão, mas de fadiga. Era quase como se eu estivesse cansado de ficar acordado... Mas, ao mesmo tempo, o sono não parecia querer vir. Eu estava literalmente cansado e até manter os olhos abertos era um ato exaustivo. Mas eu não conseguia fechá-los.

E por que você não toma a iniciativa?

Por que eu não tomava a iniciativa?

No final das contas, não havia uma explicação tão complexa para essa pergunta. A resposta era muito simples: eu tinha medo. Tinha medo da rejeição de Sam ou das coisas que ele poderia falar, afinal, ele não tinha medo.

Mas eu precisava tomar iniciativa. Aquela noite já havia deixado claro que não me daria permissão para dormir enquanto eu não resolvesse aquela pendência. Sendo assim, levantar da minha cama e, descalço, tomando cuidado para não fazer o menor barulho, mesmo que Angelina tivesse dito que entraria em processo de hibernação nas próximas horas, abrir e passar pela porta do quarto de Sam, fechando-a em seguida, foi o melhor favor que eu poderia ter feito a mim.

Meus passos dentro do quarto de Sam foram ainda mais cautelosos. Aquela talvez fosse a noite com a temperatura mais quente desde muitos dias, então Sam não tinha cobertores sobre o seu corpo, mas estava vestido com uma camiseta e um short fino de um pijama velho. Dormia de barriga para cima, espalhado pela cama, e eu sabia que ele dormia porque, bem, ele não havia notado a minha entrada no quarto. Pelo menos não deu essa impressão.

Sam não se importava com o fato de eu estar dormindo ou não quando invadia o meu quarto e tocava o meu corpo, então por que eu deveria me importar? Foi esse pensamento que me deu segurança de ir adiante e me aproximar de sua cama. Olhei-o dos pés à cabeça, os arrepios tornando a percorrer meu corpo, o meu pau, apertado dentro de uma cueca, dando os primeiros sinais de vida. Levei minha mão esquerda à coxa de Sam e nem com esse gesto ele demonstrou algum sinal de vida. Alisei-o na região, deixando meus dedos se deliciarem com o resvalar de seus pelos finos. Subi um pouco a mão e deixei que ela invadisse o interior do short.

Foi então que Sam acordou.

– Mas o quê...?! – ele começou, falando alto. – Blaine? – agora num sussurro. – Mas o que é que você está fazendo aqui?

– Tomando iniciativa – eu respondi, despejando as palavras que estavam na ponta da minha língua o tempo todo.

Sam não pareceu compreender de imediato, mas, quando seus olhos demonstraram algum reconhecimento, sua mão agarrou meu pescoço e logo nossos lábios estavam unidos, com sua língua invadindo a minha boca, com seus dentes mordendo meu lábio inferior, com meu corpo sobre o dele, imediatamente sentindo sua ereção contra a minha. Sam ainda beijava daquele jeito desesperado, que tirava o fôlego da pessoa que ele beijava muito rapidamente, porque quase não havia pausas. Eu não podia julgá-lo; a única pessoa fora de forma naquele beijo era eu.

– Que bom que você veio aqui – ele sussurrou no meu ouvido e o invadiu com a língua, de um jeito que me fazia sentir certa fraqueza.

– É mesmo...? – eu consegui sussurrar de volta.

– É.

– Por quê?

– Porque hoje eu quero tentar algo diferente com você.

– O quê?

– Aquilo.

– Aquilo...?

A mão de Sam invadiu o interior do meu short e seu dedo – eu não sei qual –, encontrou a entrada do meu ânus.

– É, aquilo... – Sam voltou a sussurrar e, entre uma fala e outra, ele enchia o meu redor de beijos e lambidas. – Está a fim?

Eu nunca tinha feito aquilo, se é que ele estava se referindo à penetração, então eu não sabia o que esperar. Diante daquela proposta, eu senti um pouco de apreensão. Eu não sabia se estava pronto.

Mas eu quero tanto...

– E então? A fim? – Sam tornou a perguntar.

O toque do seu dedo no meu ânus e os beijos que ele distribuía pelo meu pescoço eram irresistíveis. Ele estava me seduzindo, me hipnotizando, e eu tinha plena certeza disso. Mesmo assim, deixei a excitação falar por mim:

– Sim, eu quero.

Sam sorriu para mim e segurou meu rosto com ambas as mãos, olhando-me bem nos olhos.

– Deita de barriga para baixo – ele pediu e saiu de debaixo do meu corpo.

E assim eu fiz.

Notas finais
Creio eu que estamos nos preparando para os capítulos da reta final, hein, galera...?